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o onipresente

,

que nessa vida

tudo passa

menos isso

,

essa batida

desde o início

esse gongo

:

o passado

é só um vulto

não tem volta

,

o futuro

é só promessa

não se alcança

;

somente o mar

do longo agora

nunca cessa

sua dança

,

o éter

penso que o invisível

é denso e flexível 

como uma rolha

.

que o vazio é imenso

como é vasto o verso

de uma folha

.

que o universo é vivo

como é viva a bolha

quando explode

.

li que a terra é oca

como o céu da boca

é lindo quando morde

.

penso numa audácia

que no fim do túnel

eu nasço galáxia

.

sei que o sonho é um treino

onde afogo o medo

num mar de mentira

.

sei que o ser é vário

como é vago um reino

imaginário

.

que o arbítrio é livre

como o fim de um livro

nunca escrito

.

o infinito expira

à tarde ou mais cedo

não importa o rito

.

penso numa aposta

que ao fim deste enredo

terminarei morta

.


o credo

,

desconfio de quem sabe

traz certezas

diz verdades

,

desconfio dos covardes

dos convictos

dos sofistas

,

desconfio de quem cita

nomes números

estatísticas

,

diz que leu mas não escuta

não se enxerga

não medita

,

desconfio dos honestos

dos carolas

beneméritos

,

desconfio do presente

do futuro

do pretérito

,

desconfio da memória

da história

mal contada

,

desconfio da facada

apolo 11

paul mccartney

,

só confio em minha mãe

em meu filho

e bob marley

.

o súcubo

,

sucumbo aos demônios

ao fosso sem fundo

dos neurônios

,

sucumbo ao jornal

o mundo tão mal

tão bonito

,

sucumbo ao bendito

cansaço

da idade

,

sucumbo à inutil-

idade

do poema

,

sucumbo ao sistema

nervoso

simpático

,

sucumbo ao estado

civil

antidemocrático

,

sucumbo ao buraco

negro

da galáxia

,

sucumbo à vitória

do malogro

da falácia

,

sucumbo à despesa

ao assombro

dos boletos

,

sucumbo ao peso

dos ombros

sobre o esqueleto

,

sucumbo à onda

que cobre minha casa

meu nome

,

sucumbo à sombra

à cinza que sobra

de uma hecatombe

.

o horóscopo

saturno anda brabo
com sangue nos olhos
com fogo no rabo
rubro do dragão 

com a faca no dente
plutônio na mente
espada na cinta
gilete na mão 

(bãobalalão
senhor capitão)

com marte na ideia 
com a morte na sombra
com um corte na fronte
com a sorte na mão 

nem júpiter salva
nossa-dama dalva
da hermética chama
dessa escuridão 

(bãobalalão
senhor capitão) 

o país na lama

o diabo gosta

o mercado ama

a bolsa aposta

;

bolsa de bosta

.

a.cabra

a
grade
cimento
ao sol
stício
por.to
do início
.

a matriz

,

me mima

me vê menina

me espêlha me encara

me escaravélha

;

minha mãe me ensina

a ficar velha

 

.

o lembrete

“memento mori”

lembre que morre

(todo momento)

.

diga: eu vou. mo.rrer.

.

hoje é mais um pobre

ontem foi seu pai

amanhã você

.

antes de julgar

quem quer dar o cu

ou fazer aborto

,

se pergunte o que

você vai fazer

sem seu corpo morto

?

sem seu falo um trapo

sua língua de sapo

sua arcada dentária

.

sem seus empregados

seus bancos de dados

sem conta bancária

.

só depois me diga

:

que sabe da vida

quem nunca morreu

?

 

(ao fim tudo passa

e antes que o sol nasça

também morro eu)

a iguana

vai, malandra

;

na cama, leoa

na sala, mandra

.

o meteorito

 

depois do desleixo

somente a pedra

flutua

sobre os escombros

,

como se um seixo

da lua

escorasse a terra

nos ombros

.

 

 

 

 

a miríade

 

dormir é um ato político

um auto-exílio hipnótico 

manifesto antropo-lírico

contra a prisão dos relógios

 

ilusão, surto narcótico

delírio hipnagógico

meu anti-artefato bélico

rito mágico secreto

 

retro-projetor onírico 

inutensílio profético

retratando a inexistência

dos tais sujeitos e objetos

 

filmando a desimportância

do meu teatro de afetos

meus amores, medos, ódios

 

tudo o que parece vívido

talvez não seja mais sólido

que o metafísico espectro

de dez mil caleidoscópios 

 

.

o acordo

 

tudo greve
nada grave

não tem barca
vou a remo

não tem diesel
temos bike

não tem deus
rezo pro demo

perco um amor
ganho um like

.

o ana DRAMA

a rua DORME

cozinha em ORDEM

sozinha eu MEDRO

a lua MORDE

,

ecce homo

lamento que gozes
do afã doentio
dos algozes

do gozo violento
do gentio
num linchamento

da fé malfazeja
da mão
que apedreja

da injustiça cega
da multidão
que ainda prega

um homem na cruz
que só atiça
a fome

de carniça
dos urubus
e dos patos

não use o nome
de jesus
pra ser pilatos

 

.

o íon

+ –

â nodo

cá todo

eu tudo

ele trodo

cor rente

conti nua

alter nada

ta tua

na gente

ser pente

céu rasga

or gasma

fico vesga

fico plasma

tempo curto

sinto muito

eu surto

te curto

circuito

– +

a colheita

meu limão

meu limoeiro

galego ou siciliano

limão-cravo ou

tahiti

se a vida me dá limão

de março até fevereiro

vou

fazendo por aqui

caipirinha o ano

inteiro

 

.

o presente

 

minha história

se demora

no relógio do longo

agora

;

mecanismo sem refúgio

onde cismo

como um gongo

o tempo inteiro

;

sem ponteiro

sem hora

sem saída

;

não há vida

lá fora

 

.

 

 

o ires

 

a ilha me molha

alhures alguém me olha

além do arco-íris

 

 

o astro

 

solstício de inverno

:

ser sol no frio é difícil

,

nascer é eterno

.

a pedra

 

tenho estado

tão só

lida

.

o deserto

 

decerto

sede

excede

nome

fome

papo

reto

objeto

homem

some

longe

esperto

come

quieto

 

.

 

.

o cão

 

lição do demo:

demo

lição

 

a gravidade

 

meu pecado

é a preguiça

de ir à missa

nesse templo

 

de acordar

dia atroz dia

nesse tempo

sem poesia

 

a história

nesse passado

obscuro

 

nesse agora

sem futuro

a que voltar

 

,

 

até quando

essa miséria

até quando

 

?

 

nós boiando

num ponto ao sul

desse bólido

 

nesse estado azul

e sólido

da matéria

 

a náusea

,

sinto em mim as dores

das poetas mortas

seus amores tristes

seus caminhos vãos

,

vejo em outras mãos

agora tão minhas

suas vidas linhas

mal-traçadas tortas

,

e as formas tão certas

da sua poesia

companhia assídua

das noites desertas

,

página vazia

artérias abertas

em árdua sangria

,

a guerra perdida

e o gozo perverso

de um verso suicida

 

 

 

o subjuntivo

 

se disséssemos quanto

pelo não dito

se fizéssemos muito

pelo não feito

se soubéssemos tudo

,

qual seria o futuro

do nosso pretérito

imperfeito

?

 

 

a foto

 

numa velha foto minha

me vi de dentro

pra fora

com os olhos que eu tinha

,

vocês de agora

me contem

:

quanto tempo

ainda demora

pra ontem

?

 

 

 

a língua

 

não sou eu que falo

a língua

é a língua

que me lambe

 

lambe as letras

do meu nome

lambe o leite

em minhas tetas

lambe o sangue

da ferida

 

lambe a vida

que é tão pouca

que não cabe em minha boca

 

lambe a carne

lambe a fome

lambe o falo

que me come

lambe o mundo

antes que acabe

 

só a língua

aqui me sabe

quando eu calo

 

.

 

o omisso

,

o omisso

nunca confessa

se prefere isso

ou essa

,

não diz não nem sim

faz graça

disfarça que tá

com pressa

,

te serve um chá

de sumiço

casa e muda

de endereço

só pra não pagar

o preço

,

o omisso sempre sai

cedo

,

o omisso já vai

tarde

,

no fundo o omisso

é covarde

se enverga

morre de medo

por isso não corre

o risco

,

se enxerga

alguma injustiça

o omisso

nem se coça

pra não se indispor

com os ricos

,

se ganha o amor

de uma moça

não assume

compromisso

não morde

nem solta o osso

,

que preguiça

desse moço

,

o omisso

é meio insosso

.

 

 

 

 

 

 

 

 

a gênese

,

no precipício era o verso

 

o universo estava vazio

de deus

ninguém se ouvia

 

morreu.

e o verbo que não poesia

 

fazia frio

mas era eu

 

.

o golpe

 

é golpe sim porque é baixo

golpe macho golpe sujo

indireto de direita

 

é golpe que desrespeita

os votos da maior parte

em favor do dito cujo

 

é golpe porque é covarde

é gás no olho que arde

é cassetete na nuca

 

é golpe porque machuca

 

 

 

o disfarce

 

falar diz farsa …

como(ver dá de) graça,

o ho(mem tira

 

.

 

 

a arma

 

pra matar um grande amor

é preciso ser pequeno

e estreito

como um punhal

,

feito de aço e veneno

feito de pele e de ossos

de gozo e vício

,

pra golpear sem remorso

o mesmo peito

onde existe

,

como um deus cruel que assiste

ao seu próprio ritual

de sacrifício

 

 

 

 

 

 

 

morrer é um estado

mudo

um descansaço

de tudo

,

 

o peso suspenso

num mundo imenso

e vazio

,

 

o tempo ancorado

no fundo macio

do espaço

 

.

o furo

 

o relógio

enrosca o tempo

com desvelo

 

como fosse um novelo

de algodão doce

 

estica um fio

de cada pêlo

difuso

como o fuso

de uma roca

 

,

 

não nasci pra ser fiapo

nesse pano

 

um dia escapo

deste plano

num buraco

de minhoca

 

 

o véu

 

o sonho é um filme disperso

sem continuísta

 

ao sair desta sala

não diga jamais

hasta la vista

 

quem vos fala

nunca mais será vista

no universo

 

talvez este verso

também não exista

 

 

 

 

 

 

o delta

 

 

vazio

é meu nome

 

minha fome é um rio

que nasce em você

e corre pra trás

 

;

 

lembrar é morrer

nesse leito frio

 

por uma vez mais

 

 

o amigo

 

no seu plano um certo atraso

no meu trajeto um engano

descaminhos

 

(e a sombra do sol se dobra

sobre o oceano

que arde)

 

antes tarde que sozinhos.

 

o poente estende o prazo

poesia é o tempo que sobra

,

a gente se encontra por obra

do ocaso

 

 

 

 

 

 

a meditação

 

a garça aprecia

a luz desse dia que passa

sem pressa ou lamento

 

seu pensamento atravessa

de vento a espessa fumaça

da refinaria

 

 

 

o sangue

no mundo

e nas minhas pregas

,

acima e embaixo

:

regras

 

 

 

o espectro

 

meço com o canto do olho

a cor do vazio

no espelho

,

recolho um reflexo frio

:

desvio

para o vermelho

 

 

 

a missiva

convite aberto

e intransferível

ao homem certo

solto no mundo

longe tão perto

que me confundo

tão invisível

que quase toco

ouço tão nítido

que até vejo

fora de foco

golpe de vento

cheiro tão vívido

de novos tempos

que ainda me lembro

daquele beijo

que nunca demos

 

 

 

 

 

o corpo

 

entre a festa

e a miséria

de um dia

medonho

a carne partida

é a fresta

,

a vida

é um rio

que vaza

e infesta

a casa

de um sonho

vazio

 

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o epitáfio

 

a mariposa

morta pousa petalosa

como uma rosa

 

a lava

 

se choro tanto

é porque fervo

até doer

 

o nervo

que sente prazer

sente mágoa

 

o pranto e o gozo

são água

do mesmo poço

 

 

 

o albedo

 

abracadabra

abro a cabeça

com pé de cabra

 

;

 

a cabra tropeça

 

a fé se dobra

ao sórdido agouro

do diabo

 

;

 

ouro de tolo

cangalha em couro

de touro brabo

 

;

 

oroboro

a cobra

me abraça o rabo

e se enraba

 

;

 

a obra

que em outro

começa

 

em branco

acaba

 

 

.

.

o inferno

 

o mar é um espelho

duro

que nos corta

como um muro

 

o futuro é uma criança

morta

que a esperança aborta

à nossa porta

 

 

a gota

 

lágrima santa

lava como água-benta

o pé da planta

,

a chuva lenta se adia

até chorar de alegria

 

 

o íncubo

 

deuses sem dedos

jogam dados

viciados

;

o medo é um buraco

cercado de vácuo

pelos seis lados

 

 

 

a sombra

 

você pode fumar

o seu ópio

você pode beber

o seu gim

você pode enganar

a si próprio

mas não a mim

 

 

 

 

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