Feed on
Posts
Comments

o disfarce

 

falar diz farsa …

como(ver dá de) graça,

o ho(mem tira

 

.

 

 

a arma

 

pra matar um grande amor

é preciso ser pequeno

e estreito

como um punhal

,

feito de aço e veneno

feito de pele e de ossos

de gozo e vício

,

pra golpear sem remorso

o mesmo peito

onde existe

,

como um deus cruel que assiste

ao seu próprio ritual

de sacrifício

 

 

 

 

 

 

 

morrer é um estado

mudo

um descansaço

de tudo

,

 

o peso suspenso

num mundo imenso

e vazio

,

 

o tempo ancorado

no fundo macio

do espaço

 

.

o furo

 

o relógio

enrosca o tempo

com desvelo

 

como fosse um novelo

de algodão doce

 

estica um fio

de cada pêlo

difuso

como o fuso

de uma roca

 

,

 

não nasci pra ser fiapo

nesse pano

 

um dia escapo

deste plano

num buraco

de minhoca

 

 

o véu

 

o sonho é um filme disperso

sem continuísta

 

ao sair desta sala

não diga jamais

hasta la vista

 

quem vos fala

nunca mais será vista

no universo

 

talvez este verso

também não exista

 

 

 

 

 

 

o delta

 

 

vazio

é meu nome

 

minha fome é um rio

que nasce em você

e corre pra trás

 

;

 

lembrar é morrer

nesse leito frio

 

por uma vez mais

 

 

o amigo

 

no seu plano um certo atraso

no meu trajeto um engano

descaminhos

 

(e a sombra do sol se dobra

sobre o oceano

que arde)

 

antes tarde que sozinhos.

 

o poente estende o prazo

poesia é o tempo que sobra

,

a gente se encontra por obra

do ocaso

 

 

 

 

 

 

a meditação

 

a garça aprecia

a luz desse dia que passa

sem pressa ou lamento

 

seu pensamento atravessa

de vento a espessa fumaça

da refinaria

 

 

 

o sangue

no mundo

e nas minhas pregas

,

acima e embaixo

:

regras

 

 

 

o espectro

 

meço com o canto do olho

a cor do vazio

no espelho

,

recolho um reflexo frio

:

desvio

para o vermelho

 

 

 

a missiva

convite aberto

e intransferível

ao homem certo

solto no mundo

longe tão perto

que me confundo

tão invisível

que quase toco

ouço tão nítido

que até te vejo

fora de foco

golpe de vento

cheiro tão vívido

de novos tempos

que ainda me lembro

daquele beijo

que nunca demos

 

 

 

 

 

o corpo

 

entre a festa

e a miséria

de um dia

medonho

a carne partida

é a fresta

,

a vida

é um rio

que vaza

e infesta

a casa

de um sonho

vazio

 

Continue Reading »

o epitáfio

 

a mariposa

morta pousa petalosa

como uma rosa

 

a lava

 

se choro tanto

é porque fervo

até doer

 

o nervo

que sente prazer

sente mágoa

 

o pranto e o gozo

são água

do mesmo poço

 

 

 

o albedo

 

abracadabra

abro a cabeça

com pé de cabra

 

;

 

a cabra

tropeça

 

a fé se dobra

ao dom duradouro

do diabo

 

ouro de tolo

cangalha em couro

de touro brabo

 

,

 

oroboro

a cobra

se abraça ao rabo

me enraba

 

;

 

a obra

que em outro

começa

 

em branco

acaba

 

 

.

.

o inferno

 

o mar é um espelho

duro

que nos corta

como um muro

 

o futuro é uma criança

morta

que a esperança aborta

à nossa porta

 

 

a gota

 

lágrima santa

lava como água-benta

o pé da planta

,

a chuva lenta se adia

até chorar de alegria

 

 

o íncubo

 

deuses sem dedos

jogam dados

viciados

;

o medo é um buraco

cercado de vácuo

pelos seis lados

 

 

 

a sombra

 

você pode fumar

o seu ópio

você pode beber

o seu gim

você pode enganar

a si próprio

mas não a mim

 

 

 

 

a hera

 

você mora

no muro

entre

 

o fora

e o furo

do ventre

 

entre o escuro

e a escora

 

entre o agouro

e o agora

 

e sempre

 

 

claro como o mar
 
onde meu olho nada
 
:
 
nada a declarar
 
 
.

o estilingue

 

há um tempo de espera

entre o impacto

e a queda

 

sopra um vento áspero

entre o pássaro

e a pedra

 

 

 

o garimpo

 

ferve brava

sob a verve

como neve

sobre a lava

,

dorme louca

pouco escreve

muito escava

,

escrava

da forma breve

da palavra

 

 

a interface

meh.ro374

 

isto não é um cachimbo

também não é um poema

são só códigos no limbo

entre o meu e o seu sistema

 

 

Imagem: A Traição das Imagens, René Magritte (1929)

o morto

 

um silêncio absurdo

me despertou hoje

:

deus está surdo

e não me houve

 

 

 

 

 

 

o solstício

 

flores mortas são

primaveras que se vão

frutas que verão

 

 

 

 

circe

 

pescador chega à minha praia

numa noite de lua cheia

chega manso vem de tocaia

deita do meu lado na areia

 

ele diz que adora o meu canto

ele diz que eu sou sua sereia

ele diz que me ama enquanto

me esfaqueia

 

 

a moringa

 

a luz amanhece pouca

branca

e longínqua

 

um fio de sol lambe o mofo

estanca em cheio

no meio da nódoa do estofo

feito estaca

 

a dor finca a faca

a dormência míngua a mágoa

 

a ausência é uma casca oca

que um dia trinca

 

a chuva apazígua a língua

da falta dágua

 

 

a muda

 

fiquei sem voz

procuro sábios

que saibam ler

meus grandes lábios

 

 

 

o juízo

 

eu morderia

qual fruta a luz

na tua treva

e neste dia

preciso

adão e eva

fariam jus

ao paraíso

 

 

o castelo

 

venta aqui fora

faz frio

,

o sol em brasa

se esconde

e de longe

me fita

triste e vazio

,

como uma casa

bonita

onde o amor mora

e ninguém visita

 

 

 

o descartável

 

até mesmo

o universo

imenso

perde a graça

o céu

perde a cor

e chora

se você amassa

o meu verso

de amor

e joga fora

como um lenço

de papel

a esmo

 

 

 

 

a fé é o farol

de um foguete de sorvete

a caminho do sol

 

 

 

 

 

 

 

a sentença

em vão me espanto

o tempo corre

mais que o medo

todo mundo morre

uns cedo

uns nem tanto

é a lei

e eu aqui

no meu canto

só sei

que não morri

por enquanto

 

 

 

a inútil

então observe:

se for poesia

não serve

,

a verve não

tem serventia

à mulher honesta

nem ao patrão

,

se for poeta não presta

servidão

.

 

 

 

 

 

a pleura

 

invento é um ar

que sopra

pra dentro

,

pensar

é um ato

,

inspiro o pó

que sobra

da grande obra

,

espirro engasgo

me mato

expiro

,

adentro e rasgo

o peito

como um tiro

.

 

 

 

 

a casca

 

o corpo me atraca

como craca

ao porto

,

recorta o espaço

a faca

e escapa ileso

,

suporta esse braço

fraco

como um galho seco

em brasa

como um cão sem casa

,

vão

como o sol num beco

como um peso

morto

como um amor pouco

,

oco

como o osso da asa

de um pássaro preso

 

 

o ouro

 

nada que eu queira

mais que a sombra dourada

da amendoeira

 

 

 

xeque-mate

 

a noite é uma dama

não joga

mas não foge à luta

 

quando o sol se inflama

essa puta ajeita

no mar a cama

perfeita

onde o rei se deita

e se afoga

 

 

o grito

 

paira esse silêncio frio

um vazio repleto

de hiatos

 

prefiro o cio indiscreto

dos gatos

no meu teto

 

 

 

o canteiro

 

no jardim das ideias vagas

onde vagalumes

beijam petúnias

descarto as pragas

sempre as mesmas

queixumes

lamúrias

e outras lesmas

 

 

 

 

só não escolhas

para o amor

o gesto insípido

nem deixes

meus olhos sem cor

como bolhas

no céu líquido

dos peixes

 

 

 

a baía

 

a água cinzenta

oleosa

espelha

o céu em brasa

em cinquenta

tons de rosa

vermelha

,

na maré rasa

um murmúrio

vago

como um lago

de mercúrio

 

 

 

a árvore

 

ave sã não tomba

,

balança a sombra anciã

do flamboyant

 

 

corpus christi

 

o sopro eterno

desconhece

o corpo morto

,

perdoo o outro

pelo inferno

que me aquece

 

 

 

o sílex

 

descascou

minha fruta

pescou

minha truta

riscou

minha gruta

lascaux

minha pedra

bruta

de quebra

lustrou

deu brilho

,

ladrilho

filho

da luta

 

 

 

o enigma

 

ousar querer

como um deus

saber calar

como um buda

 

o tolo finge

que estuda

 

a esfinge muda

 

o morcego

 

como um anjo cego

pela claridade

de outras alturas

mais amenas

eu me apego

à gravidade

a duras penas

 

 

 

a catedral

 

aqui por exemplo

o vento chora

a noite finda

o dia ainda

demora

a hora é linda

o tempo pára

e ora

agora

é o único templo

onde deus mora

 

 

 

a estátua

 

esculpo meu verso

num tronco de mármore

como quem ausculta

a ordem oculta

do universo quando árvore

 

 

 

Older Posts »