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o instantâneo

 

, o todo por exemplo

do lodo ao lótus

contemplo

 

meu templo é amplo

refúgio de samurai

relógio de sóis

remotos

 

(e os outros e você

vendo mortos

na tv)

 

meu tempo a sós

não se vê não sai

em fotos

 

 

 

o tao

 

à tardinha o mar é zen

um refresco de groselha

um barquinho e mais ninguém

 

segue em paz meu coração

meu caminho é bossa-velha

 

um violão bem baixinho

um chão de areia um banquinho

um ancinho um ancião

 

 

olho dágua

 

água me turva

a vidraça

e já nada vejo

 

e não me protejo

dessa chuva

que nunca passa

 

quando choro

não gotejo

escorro esguicho

 

quando amo incho

e me esparramo

sem socorro

 

não sou dura na queda

qualquer pedra

me perfura

 

o chão me quebra

mas de secura

é que eu não morro

 

 

 

o manacá

 

de uma queda fui ao chão

 

coração aberto um rombo

e essa dor que não estanca

e ainda me toma

 

;

 

o mesmo tombo que fere

me oferece uma flor

roxa

 

:

 

um hematoma à flor da pele

branca da coxa

 

 

 

 

 

 

 

o tritão

 

viria a nado

nadando costas

vestindo nada

 

dar com os costados

à orla da ilha

à enseada

 

onde eu prostrada

em pedras

de joelhos

 

as mãos em concha

postas em ostras

como pétalas

 

pesco as escamas

seu corpo em postas

em chamas

 

pisco nas pregas

das pálpebras

 

no risco da virilha

entre as coxas

 

seus olhos vermelhos

pretos como pérolas

roxas

 

 

 

o dragão

 

uma indiferença tão sincera

fere dilacera o coração

dessa quimera

 

uma fera imensa cai ao chão

a cada vez que você não

me pensa

 

 

 

 

o renitente

 

termino e recomeço

o penúltimo ensaio

da inúmera carta

;

assino e endereço

ao raio que o parta

 

 

 

a maresia

 

a baía é um ventre

pra um barco que entre

onde o vento alisa

 

o poente é uma

brasa que se esfuma

na bruma imprecisa

 

ilha dos amores

traga o sol de alhures

na salgada brisa

 

que um doce perfume

de flor e estrume

molha e fertiliza

 

 

 

o poleiro

 

na praça crianças

escalam os galhos

de árvores idosas

 

lenhosas mansões

de copas frondosas

troncos centenários

 

lar de gerações

de abelhas canários

 

e velhas lembranças

de outrora pirralhos

 

 

 

a roda

 

não há via certa

toda reta torce o rabo

 

nada permanece

tudo desce e sobe

e eu não paro

 

cá onde me acabo

outra orbe me completa

 

como o par de aros

dessa bicicleta

 

 

 

 

vista de perto

não estou bem certa

se existo

 

vista desperta

não sei ao certo

quem sonha

 

visto uma fronha

no meu recheio

disperso

 

a luz me avista

um olho no meio

do verso

 

 

 

o relicário

 

faço listas de afazeres

deixo pistas enganosas

o ensejo de uma prosa

maus escritos de meu punho

desdizeres desconexos

interditos

 

mais protejo meus rascunhos

que meu sexo

 

 

 

 

 

 

o plâncton

 

nada procuro

nágua flutuo

ilha

 

alga que brilha

na superfície do escuro

fluo

 

supérflua maravilha

flor de flúor

 

 

 

 

 

 

 

a dama

 

duas damas na janela

uma é enorme outra é meia

ostra e metade sereia

(ouça a voz dela)

 

uma é mar outra é areia

uma só dorme outra vela

uma se inflama outra gela

o sangue na veia

 

pois eu sou essa e aquela

a moça bela e a feia

as faces breu e amarela

da lua cheia

 

 

 

 

 

o telhado

 

o céu é bonito

mas não acaba

nas linhas da aba

do meu chapéu

 

o infinito desaba

nas telhas sobre as minhas

sobrancelhas

 

 

 

o náufrago

 

mensagem numa garrafa:

quem me dera um saca-rolha

que liberte a minha folha

deste vidro que me abafa

 

quem me dera a maresia

já houvera corroído

a carta do mar perdido

onde inda exista a poesia

 

cada vista é uma janela

e o filme do mar revela

que o sol ilha mais que o ouro

 

a trilha é o próprio tesouro

a lua é um barco de prata

à procura de um pirata

 

 

o santo

 

pelos dedos teus

deus se fez carícia

 

e se o amor não existe

que seja um delírio

triste

 

o teu medo em riste

em plena delícia

e martírio

 

 

 

a fome

 

sofro de ausência

essa ardência no âmago

esse estômago oco

 

no meio de um soco

 

 

 

a traineira

 

velha barcaça

 

deixe estar todo peixe

um dia passa

 

 

 

 

a flecha

 

meu poema não tem santo

nem pajé que quebre o encanto

do meu canto de iracema

 

não tem cacique que pare

minha pena > uma seta

de curare em sua reta

 

 

 

 

saudade é uma ponte

entre a ilha

e o horizonte

 

longe de mim

 

na praia a canoa

sem quilha

com o nome na proa

 

marfim

 

 

 

 

 

o epitáfio

 

pensando morreu um burro

cantando morreu um bardo

¨já vou tarde desse mundo”

 

seguro morreu de velho

zurrando morreu um soldado

e no silêncio, um surdo

 

janis morreu de overdose

da língua morreu o freud

e o leminski de cirrose

 

até buda teve um bode

morrer não é nenhum absurdo

cristo morreu no evangelho

 

livre

só quem não nasceu

morre você morro eu

 

morramos de joie de vivre

 

 

 

 

o portulano

 

em bom espanhol “la mar”

é uma mulher e eu acho

que eles têm lá sua razão

 

nenhum macho vai tão alto

e baixo

numa só onda

 

não há um homem que esconda

tanto pesar em seu fundo

 

ou que abrigue um mundo tão

rico e diverso e abissal

por entre as dobras dos lábios

 

que nem dez mil astrolábios

recobertos de sal

não mapearão

 

 

 

 

a ametista

 

entre o verso e a frente

de uma ideia assaz

violenta

 

há de haver um recheio

uma massa cinzenta

 

um caminho do meio

entre o norte e o sul

da coreia

 

entre o azul e o vermelho

um roxo batata

quase lilás

violeta

 

um golpe de paz

que arrebata

o diferente

 

lá no avesso do espelho

tão fino

 

o perfil cristalino

do planeta

 

 

 

 

 

 

 

o lar

 

diz a lenda que ao sul

da ilha tem uma casa

da cor do céu azul

zinho

 

com nuvens esparsas

 

é lá que as garças

cinzentas

fazem ninho

quando venta

 

e inventam asas

 

 

 

a oliveira

 

do meio do monte vejo o vasto

horizonte

de que me afasto

 

subo à fonte o cálice

cheio de mágoa

e deleite

 

não há água que azeite

tanta lástima

 

então eu rio

 

;

 

à noite o ar frio

decanta a mistura

depura

 

uma lágrima furtiva

se esquiva

dos seus olhos de oliva

 

 

 

 

a miragem

 

a lua cheia

tinge a baía

de guanabara

 

um mar de areia

um saara

 

neblina esfinge

o morro da urca

como uma burca

 

 

 

o esplendor

 

depois do raio o estouro

depois da chuva a bonança

depois do choro a alegria

;

quando estia o sol transforma em ouro

as águas de chumbo da baía

 

 

o celacanto

 

zarpo do cais

na última

nau

 

nada de mau

me abala mais

o íntimo

 

me embala um ritmo

que a noite entorna

marítima

 

no céu incendeia

um balão em forma

de baleia

 

 

 

o figo

 

se é para o bem de todos

e felicidade geral dos micos

diga ao povo que ficus

 

 

 

 

 

a lanterna

 

sonho letras acesas

e enfeito a casa

 

enfronho em sedas

palavras em brasa

 

o enfadonho abecedário

feito labaredas

presas

num aquário

 

 

o ato

 

atitude é um passo

em falso pra fora

do cadafalso

 

é uma dança um salto

alto de um pé

descalço

 

é um risco um traço

que toma de assalto

o agora

 

é uma lança um laço

que ata que solta

um lenço

 

é um lance de dardo

é um barco de volta

ao vento

 

é o abraço em volta

do corpo amado

e dentro

 

 

 

a torneira

 

chuva na ilha

minh’alma lavada

escorre poesia

 

como vasilha emborcada

sob a água da pia

 

 

 

o círculo

 

navios ao mar

sigamos em frente

a terra é redonda

 

de tanto afastar

quem sabe se a gente

ainda se encontra

 

o tempo é o lugar

onde o corpo sente

e o resto é onda

 

 

 

a guanabara

 

que pasárgada que nada

vou-me embora para lá

vou ser amiga do rei

na ilha de paquetá

 

serei a mulher que eu quero

- luz del fuego, a moreninha -

vou-me embora ser rainha

eu sigo o farol que brilha

 

teu caminho escolherá

a minha cama onde fores

o mar é a única trilha

para a ilha dos amores

 

 

 

 

a tempestade

 

vendo-a tristonha à varanda

disse próspero à sua filha:

 

a vida é um sopro que sonha

não perdes por esperar

 

mira miranda

tu és o mar

cercado de ilha

 

 

 

a anunciação

 

anjo de luz que passa

 

ave marinha

cheia de garça

 

 

 

 

 

a diáspora

 

já míngua a lua

em mim agúa

uma vez mais

 

me rasgo abro

caminho corro

escorro nua

 

o jorro o sangue

das ancestrais

pelos joelhos

 

como uma língua

a atravessar

eus e o diabo

 

do caos ao mangue

pelos vermelhos

em que esse mar

 

morto me instrua

 

 

 

 

a cicatriz

 

faço prece ao meu umbigo

- já pensou se eu não estivesse

falando comigo agora?

 

o fato é que ninguém chora

ou tem saudade de si

 

se a falta arde lá fora

o buraco mora aqui

 

 

 

a barca

 

na nau dos loucos

dizem que uns poucos

cantam à proa

versos à toa

os outros comem

(menos um homem

que diz “não sigam”)

uns tantos brigam

um grupo parte

hoje pra marte

outro mergulha

tem uma agulha

de ouro no fundo

(mas todo mundo

viu que não tinha)

tem uma rainha

que nasceu muda

e pariu um buda

de barba ruiva

tem um que uiva

o resto geme

e ninguém ao leme

 

 

 

 

 

a torre

 

 

alimento com óleos

bentos meu farol no invisível

arrecife

 

esquife esculpido em murmúrio

e letra

 

pra que o casco dos olhos desatentos

não espatife à luz do sol

a mucosa sensível

do planeta

mercúrio

 

 

 

o bispo

 

um verso iníquo me escarpa

o mar como farpa

me cega

 

navega imerso em líquor

meu olhar oblíquo

 

 

 

 

o rei

 

fim do verão, o sol

que cai dá um sono, vai

pro outono ou não vai ?

 

 

 

 

a rainha

 

um poeta que se preza

não tem prega

;

entrega

 

 

 

(em resposta a poema de Carlos Moreira)

o elevador

 

ora vê se não me amola

com esse papo profundo

de que no fundo do poço

tem mola

 

pra subir há que ter força

maior do que um edifício

qualquer sapo sabe disso

 

o fundo do fosso é imundo

e tem poça

 

 

 

 

o arco-íris

 

a arte é vária e profusa

nas 7 faces da musa

 

não há na verdade um cisma

entre os verdes e os azuis

dos 7 mil tons que um prisma

reluz

 

 

 

ex libris

 

; no princípio era o bang

pondo o caos sobre tudo

 

(abrir um livro pode ter criado

o mundo)

 

e mais não disse

. a pouca elipse

 

(um livro fechado é um criado

-mudo)

 

 

 

sibila

 

sou profeta nessas sílabas

que saem das minhas ridículas

folhas, cadernos, epístolas

como sentenças, oráculos

 

místicos símbolos rúnicos

sibilando como víboras

entre a língua e as mandíbulas

 

palavras são formas físicas

palpitando sob as túnicas

piscando por trás dos óculos

 

fórmulas mágicas únicas

poemas têm forças trágicas

ecoando como címbalos

pela memória dos séculos

 

 

 

 

 

 

o dominó

 

de um lado

você tropeça

 

comigo sai

tudo errado

 

passo a passo

a gente cai

peça a peça

 

,

 

paciência

é o tao

 

pau a pau

pedra a pedra

do caminho

 

,

 

perda a perda

essa merda

é a sequência

perfeita

 

se na queda

a gente deita

juntinho

 

 

 

 

 

a pupila

 

maria eimmart viu a lua

nos tempos de galileu

e desenhou num papel

 

a maria já morreu

mas o luar continua

a mostrar a mesma face

 

,

 

se hoje à noite a lua nasce

inda mais nova e mais cheia

de céu na albina íris

 

também maria passeia

o seu olhar que prateia

a via láctea como um pires

 

 

 

 

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