May 15th, 2013 by Christiana Nóvoa
água me turva
a vidraça
e já nada vejo
e não me protejo
dessa chuva
que nunca passa
quando choro
não gotejo
escorro esguicho
quando amo incho
e me esparramo
sem socorro
não sou dura na queda
qualquer pedra
me perfura
o chão me quebra
mas de secura
é que eu não morro
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May 13th, 2013 by Christiana Nóvoa
de uma queda fui ao chão
coração aberto um rombo
e essa dor que não estanca
e ainda me toma
;
o mesmo tombo que fere
me oferece uma flor
roxa
:
um hematoma à flor da pele
branca da coxa
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May 8th, 2013 by Christiana Nóvoa
viria a nado
nadando costas
vestindo nada
dar com os costados
à orla da ilha
à enseada
onde eu prostrada
em pedras
de joelhos
as mãos em concha
postas em ostras
como pétalas
pesco as escamas
seu corpo em postas
em chamas
pisco nas pregas
das pálpebras
no risco da virilha
entre as coxas
seus olhos vermelhos
pretos como pérolas
roxas
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May 6th, 2013 by Christiana Nóvoa
uma indiferença tão sincera
fere dilacera o coração
dessa quimera
uma fera imensa cai ao chão
a cada vez que você não
me pensa
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May 5th, 2013 by Christiana Nóvoa
termino e recomeço
o penúltimo ensaio
da inúmera carta
;
assino e endereço
ao raio que o parta
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May 5th, 2013 by Christiana Nóvoa
a baía é um ventre
pra um barco que entre
onde o vento alisa
o poente é uma
brasa que se esfuma
na bruma imprecisa
ilha dos amores
traga o sol de alhures
na salgada brisa
que um doce perfume
de flor e estrume
molha e fertiliza
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May 4th, 2013 by Christiana Nóvoa
na praça crianças
escalam os galhos
de árvores idosas
lenhosas mansões
de copas frondosas
troncos centenários
lar de gerações
de abelhas canários
e velhas lembranças
de outrora pirralhos
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Apr 30th, 2013 by Christiana Nóvoa
não há via certa
toda reta torce o rabo
nada permanece
tudo desce e sobe
e eu não paro
cá onde me acabo
outra orbe me completa
como o par de aros
dessa bicicleta
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Apr 29th, 2013 by Christiana Nóvoa
vista de perto
não estou bem certa
se existo
vista desperta
não sei ao certo
quem sonha
visto uma fronha
no meu recheio
disperso
a luz me avista
um olho no meio
do verso
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Apr 28th, 2013 by Christiana Nóvoa
faço listas de afazeres
deixo pistas enganosas
o ensejo de uma prosa
maus escritos de meu punho
desdizeres desconexos
interditos
mais protejo meus rascunhos
que meu sexo
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Apr 26th, 2013 by Christiana Nóvoa
nada procuro
nágua flutuo
ilha
alga que brilha
na superfície do escuro
fluo
supérflua maravilha
flor de flúor
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Apr 24th, 2013 by Christiana Nóvoa
duas damas na janela
uma é enorme outra é meia
ostra e metade sereia
(ouça a voz dela)
uma é mar outra é areia
uma só dorme outra vela
uma se inflama outra gela
o sangue na veia
pois eu sou essa e aquela
a moça bela e a feia
as faces breu e amarela
da lua cheia
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Apr 23rd, 2013 by Christiana Nóvoa
o céu é bonito
mas não acaba
nas linhas da aba
do meu chapéu
o infinito desaba
nas telhas sobre as minhas
sobrancelhas
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Apr 21st, 2013 by Christiana Nóvoa
mensagem numa garrafa:
quem me dera um saca-rolha
que liberte a minha folha
deste vidro que me abafa
quem me dera a maresia
já houvera corroído
a carta do mar perdido
onde inda exista a poesia
cada vista é uma janela
e o filme do mar revela
que o sol ilha mais que o ouro
a trilha é o próprio tesouro
a lua é um barco de prata
à procura de um pirata
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Apr 19th, 2013 by Christiana Nóvoa
pelos dedos teus
deus se fez carícia
e se o amor não existe
que seja um delírio
triste
o teu medo em riste
em plena delícia
e martírio
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Apr 17th, 2013 by Christiana Nóvoa
sofro de ausência
essa ardência no âmago
esse estômago oco
no meio de um soco
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Apr 15th, 2013 by Christiana Nóvoa
velha barcaça
deixe estar todo peixe
um dia passa
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Apr 14th, 2013 by Christiana Nóvoa
meu poema não tem santo
nem pajé que quebre o encanto
do meu canto de iracema
não tem cacique que pare
minha pena > uma seta
de curare em sua reta
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Apr 13th, 2013 by Christiana Nóvoa
saudade é uma ponte
entre a ilha
e o horizonte
longe de mim
na praia a canoa
sem quilha
com o nome na proa
marfim
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Apr 11th, 2013 by Christiana Nóvoa
pensando morreu um burro
cantando morreu um bardo
¨já vou tarde desse mundo”
seguro morreu de velho
zurrando morreu um soldado
e no silêncio, um surdo
janis morreu de overdose
da língua morreu o freud
e o leminski de cirrose
até buda teve um bode
morrer não é nenhum absurdo
cristo morreu no evangelho
livre
só quem não nasceu
morre você morro eu
morramos de joie de vivre
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Apr 10th, 2013 by Christiana Nóvoa
em bom espanhol “la mar”
é uma mulher e eu acho
que eles têm lá sua razão
nenhum macho vai tão alto
e baixo
numa só onda
não há um homem que esconda
tanto pesar em seu fundo
ou que abrigue um mundo tão
rico e diverso e abissal
por entre as dobras dos lábios
que nem dez mil astrolábios
recobertos de sal
não mapearão
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Apr 9th, 2013 by Christiana Nóvoa
entre o verso e a frente
de uma ideia assaz
violenta
há de haver um recheio
uma massa cinzenta
um caminho do meio
entre o norte e o sul
da coreia
entre o azul e o vermelho
um roxo batata
quase lilás
violeta
um golpe de paz
que arrebata
o diferente
lá no avesso do espelho
tão fino
o perfil cristalino
do planeta
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Apr 6th, 2013 by Christiana Nóvoa
diz a lenda que ao sul
da ilha tem uma casa
da cor do céu azul
zinho
com nuvens esparsas
é lá que as garças
cinzentas
fazem ninho
quando venta
e inventam asas
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Apr 5th, 2013 by Christiana Nóvoa
do meio do monte vejo o vasto
horizonte
de que me afasto
subo à fonte o cálice
cheio de mágoa
e deleite
não há água que azeite
tanta lástima
então eu rio
;
à noite o ar frio
decanta a mistura
depura
uma lágrima furtiva
se esquiva
dos seus olhos de oliva
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Apr 3rd, 2013 by Christiana Nóvoa
a lua cheia
tinge a baía
de guanabara
um mar de areia
um saara
neblina esfinge
o morro da urca
como uma burca
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Apr 2nd, 2013 by Christiana Nóvoa
depois do raio o estouro
depois da chuva a bonança
depois do choro a alegria
;
quando estia o sol transforma em ouro
as águas de chumbo da baía
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Apr 1st, 2013 by Christiana Nóvoa
zarpo do cais
na última
nau
nada de mau
me abala mais
o íntimo
me embala um ritmo
que a noite entorna
marítima
no céu incendeia
um balão em forma
de baleia
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Mar 30th, 2013 by Christiana Nóvoa
se é para o bem de todos
e felicidade geral dos micos
diga ao povo que ficus
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Mar 29th, 2013 by Christiana Nóvoa
sonho letras acesas
e enfeito a casa
enfronho em sedas
palavras em brasa
o enfadonho abecedário
feito labaredas
presas
num aquário
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Mar 29th, 2013 by Christiana Nóvoa
atitude é um passo
em falso pra fora
do cadafalso
é uma dança um salto
alto de um pé
descalço
é um risco um traço
que toma de assalto
o agora
é uma lança um laço
que ata que solta
um lenço
é um lance de dardo
é um barco de volta
ao vento
é o abraço em volta
do corpo amado
e dentro
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Mar 27th, 2013 by Christiana Nóvoa
chuva na ilha
minh’alma lavada
escorre poesia
como vasilha emborcada
sob a água da pia
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Mar 27th, 2013 by Christiana Nóvoa
navios ao mar
sigamos em frente
a terra é redonda
de tanto afastar
quem sabe se a gente
ainda se encontra
o tempo é o lugar
onde o corpo sente
e o resto é onda
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Mar 25th, 2013 by Christiana Nóvoa
que pasárgada que nada
vou-me embora para lá
vou ser amiga do rei
na ilha de paquetá
serei a mulher que eu quero
- luz del fuego, a moreninha -
vou-me embora ser rainha
eu sigo o farol que brilha
teu caminho escolherá
a minha cama onde fores
o mar é a única trilha
para a ilha dos amores
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Mar 21st, 2013 by Christiana Nóvoa
vendo-a tristonha à varanda
disse próspero à sua filha:
a vida é um sopro que sonha
não perdes por esperar
mira miranda
tu és o mar
cercado de ilha
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Mar 19th, 2013 by Christiana Nóvoa
anjo de luz que passa
ave marinha
cheia de garça
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Mar 18th, 2013 by Christiana Nóvoa
já míngua a lua
em mim agúa
uma vez mais
me rasgo abro
caminho corro
escorro nua
o jorro o sangue
das ancestrais
pelos joelhos
como uma língua
a atravessar
eus e o diabo
do caos ao mangue
pelos vermelhos
em que esse mar
morto me instrua
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Mar 16th, 2013 by Christiana Nóvoa
faço prece ao meu umbigo
- já pensou se eu não estivesse
falando comigo agora?
o fato é que ninguém chora
ou tem saudade de si
se a falta arde lá fora
o buraco mora aqui
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Mar 16th, 2013 by Christiana Nóvoa
na nau dos loucos
dizem que uns poucos
cantam à proa
versos à toa
os outros comem
(menos um homem
que diz “não sigam”)
uns tantos brigam
um grupo parte
hoje pra marte
outro mergulha
tem uma agulha
de ouro no fundo
(mas todo mundo
viu que não tinha)
tem uma rainha
que nasceu muda
e pariu um buda
de barba ruiva
tem um que uiva
o resto geme
e ninguém ao leme
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Mar 15th, 2013 by Christiana Nóvoa
alimento com óleos
bentos meu farol no invisível
arrecife
esquife esculpido em murmúrio
e letra
pra que o casco dos olhos desatentos
não espatife à luz do sol
a mucosa sensível
do planeta
mercúrio
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Mar 14th, 2013 by Christiana Nóvoa
um verso iníquo me escarpa
o mar como farpa
me cega
navega imerso em líquor
meu olhar oblíquo
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Mar 10th, 2013 by Christiana Nóvoa
fim do verão, o sol
que cai dá um sono, vai
pro outono ou não vai ?
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Mar 9th, 2013 by Christiana Nóvoa
um poeta que se preza
não tem prega
;
entrega
(em resposta a poema de Carlos Moreira)
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Mar 9th, 2013 by Christiana Nóvoa
ora vê se não me amola
com esse papo profundo
de que no fundo do poço
tem mola
pra subir há que ter força
maior do que um edifício
qualquer sapo sabe disso
o fundo do fosso é imundo
e tem poça
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Mar 5th, 2013 by Christiana Nóvoa
a arte é vária e profusa
nas 7 faces da musa
não há na verdade um cisma
entre os verdes e os azuis
dos 7 mil tons que um prisma
reluz
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Mar 4th, 2013 by Christiana Nóvoa
; no princípio era o bang
pondo o caos sobre tudo
(abrir um livro pode ter criado
o mundo)
e mais não disse
. a pouca elipse
(um livro fechado é um criado
-mudo)
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Mar 3rd, 2013 by Christiana Nóvoa
sou profeta nessas sílabas
que saem das minhas ridículas
folhas, cadernos, epístolas
como sentenças, oráculos
místicos símbolos rúnicos
sibilando como víboras
entre a língua e as mandíbulas
palavras são formas físicas
palpitando sob as túnicas
piscando por trás dos óculos
fórmulas mágicas únicas
poemas têm forças trágicas
ecoando como címbalos
pela memória dos séculos
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Mar 1st, 2013 by Christiana Nóvoa
de um lado
você tropeça
comigo sai
tudo errado
passo a passo
a gente cai
peça a peça
,
paciência
é o tao
pau a pau
pedra a pedra
do caminho
,
perda a perda
essa merda
é a sequência
perfeita
se na queda
a gente deita
juntinho
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Feb 27th, 2013 by Christiana Nóvoa
maria eimmart viu a lua
nos tempos de galileu
e desenhou num papel
a maria já morreu
mas o luar continua
a mostrar a mesma face
,
se hoje à noite a lua nasce
inda mais nova e mais cheia
de céu na albina íris
também maria passeia
o seu olhar que prateia
a via láctea como um pires
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Feb 23rd, 2013 by Christiana Nóvoa
como árvore que dança
ao vento que lhe arranca
as flores e deita fora
na rua
colho com afinco
cada miséria
com a precisão de uma criança
séria
deito nua
nessa folha branca
do agora
a hora em que brinco
de achar que é cedo
de estar no começo
da música errada
de ter novo enredo
essa vida passada
que desconheço
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Feb 21st, 2013 by Christiana Nóvoa
sinto e calo
.
cada um sabe onde lhe aperta
o falo
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