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na porta do inferno

estava escrito:

 

é proibido

fumar macondo

 

 

.

cor viva

 

sou imagenta

e não tem luz fria

nem tinta preta

que me amarele

na paleta

da minha poesia

o ciano esquenta

a flor da pele

.

arrit-métrica

 

60…

70…

e 90?

(e nem chove?)

 

20 dizer:

não 10-espere,

não p-re,

inspire…

 

e  i-9

.

 

conjuntiva

foto: christiana nóvoa

 

o exato

momento

do encontro

:

seu auto retrato

em preto dentro

do branco do olho

do outro

.

 

o fusco

 

pisco pisco

e não capisco

 

não entendo

quem não assume

o lusco-risco

 

eu sou meio vagalume

mas ascendo

.

.

.

 

foto: josé eduardo agualusa

 

entre as pedras
e a água:

meio-fio

entre a metade
e um inteiro:

vazio

entre as perdas
de janeiro:

rio

.

eco a narciso

 

da teimosia de que eu peco … eco

do pensamento que me aturde … urde

como que por encanto surge … urge

a sua imagem que disseco … seco

 

se essa voz débil que re-clama … lama

fosse punhal que a vida amola … mola

veria no amor que descola … escola

portal da luz que a minha chama … ama

 

e se ouso erguer um edifício … difícil

sem ter pilar que me confirme … firme

que diga então meu frontispício … hospício

 

deixo ao espelho a contraparte … aparte

que agora preciso partir-me … ir-me

e espalharei por toda parte … arte

 

John William Waterhouse - Eco e Narciso (1903)

 

 

 

na veia

 

viver é um vício,

socorro

!

um dia ainda morro

disso

.

 

 

zoo-lógica

 

urubus

nascem de novo

em um estalar de ovo

 

nascer macaco

inda que fêmea

há que ser macho

 

pra ver a luz

o buraco

é mais embaixo

 

 

 

um passo avança

dois pra trás

Pablo Picasso Photo by David Douglas Duncan

perco a graça

nessa dança

 

 

descompassa

o pas-de-deux

entre o seu deus

e a minha ânsia

 

 

 

 

rubedo

 

sem os beijos

de costume

,

minha pele

em vão se dobra

pergaminho

no descarte

do curtume

 ,

obra de arte

no despejo

do porão

 ,

sem ciúme

sem desejo

morta à míngua

 

 .

.

.

 

até

que vibre

o céu da boca

e, rediviva

,

minha

língua

partida

de cobra

,

fina

mole

pérfida

e lasciva

,

tão viva

que finda

,

tão louca

que verve

,

tão livre

que arde

 ,

esfole

,

despele

e descubra

a verdade

é rubra

.

 

 

 

a fonte

 

jorram parábolas,

lágrimas pródigas

;

meu olho é pálpebra

pra toda ópera

 

 

 

o antúrio

foto: josé eduardo agualusa

 

natureza

viva ou morta

não importa

 

o que é do amor

aqui se corta

aqui se planta

 

a beleza

põe mesa pra janta

do jeito que flor

 

 

a concha

 

saudades de amar

na areia

de mares que ainda nem sei

~

de ondas lambendo

a orelha

da sereia que serei

 

 

 

a morte não trema

não deságüe

a alma lusa

 

quando a luz é forte

não há dia triste

que apague

 

não existe problema

que a musa não corte

um poema

 

 

  

olha, a linguagem

ensina a mentira

:

o que se mira

chama de imagem

e o que se imagina

miragem

.

samurai

 

haiquase que cai?

bota fé no samurai

e sai de bashô

 

 

[mais um "poema incidental", resgatado dos comentários ao poema 'quiromance' /2009 >>

http://www.novoaemfolha.com/2009/10/quiromance.html ]

 

 

venta um ar vário

varrendo as fendas

e há folhas tantas

atrás do armário

 …

nas fundas sendas

do itinerário

vai pras calendas

meu calendário

 

.

 

 

 

finda a tarde cinza

e só eu ouvi

que é linda

o sol não faz alarde

ao cair em si

bemol

.

qui mera!

 

ah se eu soubera

que era só foda

não fôra toda

… 

amor espera

que a vida roda

e que se fôda

!

 

 

bem-te-ouvi

 

despertador

toca lá fora

,

um sopro aflora

de cada ninho

:

cantiga de acordar

passarinho

 

 

pela boca

 

o peixe pisca

;

pra isca

que o pesca

.

 

 

[repescado da caixa de comentários do poema 'água na boca' (2009) >> http://www.novoaemfolha.com/2009/10/agua_na_boca.html ] 

 

mata-borrão

 

por mais que eu minta

minha folha

fina e branca

não estanca

tanta tinta

,

por mais que eu tente

[e tento opaca!]

minha casca

quando molha

é transparente

 

 

 

maresia

 

eu sou a ferrugem

lenta e salgada

que lambe e te come

pela beirada

;

a dulcíssima fome

que rói teus espelhos

na vertigem dos meus

lábios vermelhos

 

 

 

sem filtro

 

é claro que é válida

essa chuva cálida

mas a luz é pálida

;

e eu que, branquela

sei que o sol ardido

mata esfola e péla

,

não sei viver crua

e espero o bandido

que me restitua

o dia colorido

.

 

 

 

me enerva

esse inveredicto

,

ipso facto

eu desempato

no grito

:

minerva

 

 

 

 

o que quero? eu me pergunto

:

quero arte em cada assunto

quero rir e gozar junto

quero todo amor do mundo

e se não for pedir muito

quero melão com presunto

 

.

 

 

 

moira

 

escrevo

como quem fia

,

do emaranhado

puxo um punhado

até dar linha

,

e afino à unha

a ver se me atrevo

a chamar poesia

;

escrevo

como quem tece

sem gabarito

um pano curto

de trama torta

,

a ver se amortece

o impacto surdo

do meu enlevo

no céu finito

;

escrevo

como quem corta

.

 

 

locomotiva

 

estar morto ou vivo

tem motor

não tem motivo

 

.

 

o pescador

 

mormaço

,

mar baço

,

nuvens esparsas

esgarçam uma sereia

das ameias a garça

} ave cheia de graça {

espreita carcaças

pra ceia

.

 

 

preamar

 

 

a maré molha

:

vai-se o mar ido

,

olha o mar vindo

 

~

 

amar é lindo

 

 

 

solideus

 

deus fica brabo

como o diabo

com o fato triste

de que só ele de fato

existe

.

anelos

 

a lua, um compasso

traça halos tênues

no céu noturno

 

como anéis de saturno

enlaçando os braços

de vênus

 

 

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