October 1905 Archives

teste.jpg[Texto realizado com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional - Bolsa para Autores com Obras em Fase de Conclusão / 2007]

Ilustração: Kita Telles


O circo chegou, o circo
Lá vêm as mil maravilhas
O carrossel da alegria
Não pára a sua viagem

A Família Rastaqüera
É uma gente de passagem
Companhia de mambembes
Muita arte na bagagem

Carroça é casa na estrada
Itinerante estalagem
Onde chegam, fazem festa
Para os olhos e os ouvidos

Fincam ferros, sobem lona
Picadeiro, arquibancada
Instrumentos, figurinos
Maquiagem, adereços

E o Cirquinho Rastaqüera
Transforma toda a paisagem
Desfila a sua magia
Desfia a sua seresta

Arrebanha a criançada
Enche a platéia de gente
E começa a brincadeira
Os tambores a rufar

"Com vocês o magnífico
Cirquinho Rastaqüera
O maior e mais incrível
Espetáculo da Terra"

A Família Rastaqüera
É uma gente de passagem
Companhia dos contentes
Muito amor nessa carroça

Certo dia, em seu caminho
Parou uma carruagem
Dela desceu rica moça
Trazendo todo embrulhado
Um bebê recém-nascido

Entregou-o à boa Mirna
Que à caçula amamentava
E pediu: - Toma, por Deus!
Não posso estar entre os meus
Se carrego esta desonra
Um filho na minha idade

E em lágrimas a jovem
Beijou ainda o pequeno
Sabendo que não o amava
O quanto ele merecia
Mas o tanto que podia
E isso não era muito

(mas não sejamos cruéis
ela era tão novinha
quase ainda uma criança
não sabia o que fazia)

Mirna acolheu este filho
No seio que lhe restava
E avisou aos outros seis
Que a família aumentara

Na alegria, na tristeza
Na poeira ou ao relento
Agora éramos nove
Mambembes na mesma estrada
Paco, Mirna e 7 filhos
Sem contar a bicharada

Um dia esse menininho
(já um palhaço-aprendiz)
Brincando com seus irmãos
Soltou uma gargalhada
Tão elétrica descarga
Que acendeu uma lâmpada
Na ponta do seu nariz

!

Fez brilhar mais outras tantas
Em seus olhos, suas mãos
E quantas ele inventasse
Motivo pra dar risada

E acendeu as fachadas
Que andavam na escuridão
Pois mesmo fora de si
O efeito funcionava

O caso era um milagre
O menino, um prodígio
O garoto-lamparina
Acendia o que queria
Com a fagulha do seu riso

E com suas palhaçadas
Fazia eletricidade
Pra iluminar toda a vila
E cada nova cidade
Por onde seu dom passava
Virava cidade-luz

Foi assim que Pirilampo
Ganhou o seu apelido
E descobriu desde cedo
Pra que veio a esse mundo

Iluminar de alegria
Todo lugar onde passa
Distribuir todo dia
A luz que lhe vem de graça

O Palhaço Pirilampo
É sol em forma de gente
Gargalhada contagia
Ilumina a toda volta
Irradia em toda a praça

O velho vira criança
A cidade vira um campo
A noite parece dia
E até o cego espia
As fofocas silenciam
O tempo pára no espaço

O julgamento se adia
E mesmo o bobo adivinha
Que esse mundo é mais bonito
Quando o palhaço faz graça

Até que num belo dia
Chegou a estas paragens
Uma grande companhia
De altíssima envergadura
Renome internacional
E a maior infra-estrutura
Para o respeitável público
Da humilde localidade

Então mesmo Pirilampo
(que, afinal, era criança)
Foi ver o Gran Alta Circus
Na noite de sua estréia

Nunca tinha visto tigres
Que achou um pouco presos
Por isso estavam tão bravos
E o elefante, coitado?
Um colosso maltratado
Mas se divertiu com os micos
E os macacos amestrados
A quem planejou soltar
No escuro da madrugada

Mas esqueceu de seus planos
E de tudo o mais no mundo
Quando viu em frente aos olhos
Um trapezista voando
E, suspensa nos seus braços
Uma menina (ou um anjo?)

E não tinha medo, tanto
Que, para espanto geral
Saltou e pousou sozinha
Na plataforma mais alta
De onde se pendurou
E de lá saltou de volta
Cruzando até o outro lado
Linda, livre, leve e solta

A garota era fera
Pirilampo achou belíssima
A passarinha lá em cima
Seu nome: Paloma Líbera

Num impulso iluminou-se
E refletiu do outro lado
Um clarão esfuziante
Atrapalhando o show

Foi obrigado a sair
Mesmo quando se apagou
E encolheu-se envergonhado

Um brilho remanescente
Denunciou o tratante
Excluído do ambiente

Passaram-se muitos anos
Cada circo vai prum lado
Os ricos, ladeira acima
Mambembes, ladeira abaixo

Mas se esse mundo é redondo
Um dia os seus caminhos
Vão se cruzar do outro lado

Enquanto isso nas feiras
Por esse país afora
Pirilampo Rastaqüera
Já era um grande palhaço

Fez uma bela carreira
E cuidou de dona Mirna
Que andava no bagaço
Desde que Paco, cansado
Pendurou sua viola
Numa curva dessa estrada

Seus irmãos, de alma cigana
Cada qual partiu prum canto
E o Cirquinho Rastaqüera
Teve que ser desmembrado

Um deles ficou com a lona
Um outro, com as ferragens
O maior, com a viga-mestra

Pra irmã mais velha, os bichos
(o cão, a cabra, as galinhas)
Pra outra, os tachos de cobre
Funilados por seu pai
Pra caçula, a mulher-banda, os
Instrumentos musicais

Afinal, a Pirilampo
Coube a modesta carroça
E a sua boa mãe
Que não durou muito tempo
Saudosa de seu marido

Mas antes de ir contou
A Pirilampo do berço
De ouro em que era nascido

"Se algum dia tu quiseres
Reclamar a tua herança
Conta que és a criança
Que a jovem abandonou"

Mas avisou que o amor
Não está no sangue ou nome
Não está no bolso ou vestes
Nem mesmo no rosto está
Nem em nada que se veja
E que se possa pegar
Com as mãos de carne e osso

Então foi-se embora a Mirna
Para algum outro lugar...
Mas Pirilampo guardou
O seu amor num altar
No meio do coração
Todo iluminado igual
Arraial de São João

E agora Pirilampo
Era um saltimbanco só
Nos barrancos dessa estrada

Rastaqüera sem ninguém
Sem família e sem vintém
Um mambembe de passagem

Quem tem luz agüenta o tranco
Não precisa de mais nada
Toca o bonde, segue em frente
Não pára a sua viagem

Mas a curiosidade
Levou a sua charrete
Lá pros lados onde a Mirna
Disse viver sua mãe

Descobriu a casa rica
Na verdade uma mansão
Altos portões gradeados
Um chafariz no quintal
Seguranças, empregados
Cães de caça e o escambau

Pirilampo achou bonito
Mas não gostou muito não
Aquele aparato todo
Parecia uma prisão
- Prefiro a minha carroça!

Virou nos seus calcanhares
E já ia indo embora
Quando um carrão importado
Parou em frente à calçada
Enquanto o portão se abria

Lá dentro ele pôde ver
Uma senhora elegante
E muito bem maquiada
Os seus olhares cruzaram
Apenas por um instante
Mas foi o suficiente

A dona saltou do carro
E sapecou-lhe um abraço:
"Augusto Alfonso, és tu mesmo!
Finalmente eu te encontrei
És idêntico ao teu pai
A quem um dia eu amei
E não quis ser meu marido

Vem viver aqui comigo
Minha vida é tão vazia
Te prometo regalias
Tenho muito a oferecer..."

E embora Pirilampo
Sentisse pena da pobre
Não aceitou os seus cobres
E decidiu que partia

Mas deixou-lhe um candeeiro
Pois de luz tinha de sobra
Pra iluminar seu dinheiro
E seu coração partido

Soube-se que esta senhora
Decidiu distribuir
Um pouquinho do que tinha
Levando grande alegria
Às 1.110 famílias
Que passou a ajudar

Ainda descobriu, de quebra
Que era gente e não sabia
Pois a riqueza engrandece
a quem lhe dá serventia

Só que a dona, inconformada
De perder seu filho lindo
Fez-lhe um retrato falado
Que andou distribuindo
Nos 4 cantos do mundo

"Procurado Augusto Alfonso"

E desde então Pirilampo
Prosseguiu sua jornada
Mas não permite que o vejam
Sem peruca e maquiagem
Chapéu côco e narigão

Em nome da liberdade
Esconde seu belo rosto
Sob a caricata face
De um pobre vagabundo

Um sem-nome
Um sem-teto
Um pateta
Um chorão

Pirilampo Rastaqüera
É sol em forma de gente
Quando tem nuvem na frente
Ainda assim ele brilha
(A gente é que não percebe
Se não prestar atenção)

E foi rodando o palhaço
E foi rolando essa vida...

Enquanto isso, o tempo
Foi fazendo o seu trabalho
E por essa mesma estrada
Onde muitos anos antes
Ele conheceu o amor
Vem um comboio pesado
Ônibus, elefantes
Maquinária, caminhões

Pirilampo ainda não sabe
Que vem chegando à cidade
Nem um dia de viagem
O Novo Gran Alta Circus
Totalmente renovado
Prometendo um espetáculo
Como ninguém nunca viu

À frente o Sr. Gran Alta
E sua intrépida filha
A jovem Paloma Líbera

Que já era uma mocinha
Porém nunca tinha tido
Um noivo, nem namorado
Quase nem pensava nisso
Pendurada lá no alto
Do trapézio que amava

Quando entrou pra companhia
Uma grande atração
Para a nova temporada

O Mágico Mr. $ifra
Era um galã de cinema
Os cabelos como o ouro
O azul do olhar, um poema

E Paloma suspirava
Cada vez que ele sorria
(ela, e mais a torcida
feminina do Flamengo)

Seu número de magia
Era um tremendo sucesso
Porque se o que ele fazia
Muito pouco ou nada tinha
De belo ou original
Fazia brilhar os olhos
De toda a comunidade

Pois tirava da cartola
O que o povo mais queria
E no final premiava
Um felizardo por dia
Com dinheiro de verdade
Em quantidade bastante
Pra comprar uma casinha
E uma televisão

"Nós amamos Mr. $ifra!"
Gritavam as suas fãs
E o Gran Alta todo dia
Esgotava a lotação
Vinha excursão de longe
Gente pelo ladrão

Paloma nos bastidores
Caiu por ele de amores
E foi às nuvens no dia
Em que ele, lá do palco
Tirou do pé do sapato
Um crisântemo de plástico
E lhe atirou na coxia

Ela nem acreditou
Que depois ele a beijou
E a convidou pra jantar
E ainda disse "Meu bem
Quero levá-la ao altar"

Então pediu sua mão
Pro senhor Ivo Gran Alta
Que ficou bem satisfeito

E o acordo foi feito
Então ficou combinado
Que, com pompa e circunstância
Paloma se casaria
Tornando-se doravante
Senhora Gran Alta $ifra

Porém, em vez de alegria
Paloma foi invadida
Por uma angústia de morte
Uma sensação aflita

Mas depois pensou melhor
E achou uma besteira
Ele era o par perfeito
O que mais ela queria?

Afinal era uma sorte
Que alguém tão importante
Tão galante e cobiçado
Se interessasse por ela
Que nem era tão bonita
(Era assim que ela pensava)

Mas o seu primeiro encontro
Foi um tremendo fiasco
Paloma, que no começo
Estava tão encantada
Não queria mais ouvir
Ele falar só de si

E eram muito sem graça
As vantagens que contava
Seu dinheiro, sua casa
Suas roupas, seus três carros
E o que no início era tédio
No final já era asco

Ela planejou fugir
E, mentindo ir ao banheiro
Escapuliu pela porta
Dos fundos do restaurante

Mr. $ifra, um pavão
Demorou pra perceber
Mas quando entendeu berrou
Com a força do pulmão
Para a rua toda ouvir

De tão possesso, espumava
E até Paloma escutou
Lá adiante onde estava

"Quem você pensa que é
Pra me tratar desse jeito
Sua guria atrevida?
O que eu queria era ser
O dono da companhia!
Eu detesto o seu cabelo
E você nem é bonita!"

A moça ficou sentida
Andou a esmo nas ruas
Sem querer voltar pro circo

E foi dar com os costados
Numa praça iluminada
Onde estava aglomerada
Uma multidão em roda

Paloma escalou um poste
Tentando enxergar melhor
E o que ela viu primeiro
Lá do alto, lá de longe
Foi a luz que há muitos anos
Surpreendeu o seu show
E quase que a derrubou
Lá de cima do trapézio

A mais brilhante, a maior
Que já vira em sua vida

E só depois reparou
No palhaço ali no meio
Pobre, engraçado, feio
Ridiculamente humano

Como ela mesma também
Humilhada, iludida...
E pensando em sua vida
Chorou até soluçar

Uma lágrima brilhou
Ao pingar do alto poste
Pirilampo então a viu
E fez um facho tão forte
Quanto explosão nuclear
Pra iluminar sua musa

Pegou de um guardanapo
Com ele fez uma rosa
Em menos de um segundo
E foi abrindo caminho
No meio de todo mundo
Para poder lhe entregar

Ao chegar ao pé da viga
Estendeu a sua flor
E o céu se iluminou
Com milhões de arco-íris

Mas Paloma se assustou
Saltou no escuro e sumiu
Deixando o Pirilampo
Sozinho, a flor estendida
No meio da multidão

Num instante a flor murchou
A luz se apagou, um breu
E, em meio à gargalhada
A platéia pediu bis

Pirilampo apareceu
Curvou-se, agradeceu
Sorriu, passou o chapéu
E o público se foi

Depois, a sós na carroça
Sem a roupa do palhaço
Coração despedaçado
Um homem fosco chorou

Ele decidiu partir
De madrugada bem cedo

Ela resolveu voltar
Pra falar com ele direito
Explicar que ontem fugira
Porque estava envergonhada

Chorando daquele jeito
Com a cara toda inchada
E o nariz de palhaça

Ela não o encontrou
Em nenhum lugar da praça
E, numa venda ali perto
Soube que ele partira
Na direção da floresta
Onde a estrada era escura
E não havia cidade
Num raio de sete léguas

Porém Paloma era ousada
Disso ela bem se orgulhava
Não tinha medo de nada
E resolveu ir atrás
Precisava ganhar tempo
Então, pra não ir andando
Ela foi se pendurando
De uma árvore pra outra
Pelas margens do caminho

Quando avistou Pirilampo
Em sua carroça, sozinho
Notou que ele viajava
De peruca e maquiado
Como se o tal personagem
Fosse o seu eu verdadeiro
E imaginou, intrigada
Que ele devia ser feio

Mas mesmo assim deu um salto
E aterrissou bem no meio
Da boléia da carroça

Acontece que com o susto
Não houve jeito nem freio
O jegue desembestou

Foi Paloma quem salvou
Num salto a situação
Se pendurou e puxou
O moço junto com ela
Lá pra cima da palmeira

A tempo de ver o carro
Se despencar do barranco
Desvencilhado do burro
Que continuou carreira
E não foi mais avistado

Quando se deu conta disso
E viu onde estava agora
Deu a maior tremedeira
No Palhaço Pirilampo

É que ele tinha vertigem
Só de pensar em altura
Mas Paloma, bem segura
Lhe deu toda a garantia

E ele, como criança
Foi, com os olhos fechados
E dependurado nela
(que era uma mulher bem forte)
Até chegarem voando
Mas com toda a segurança
Ao vilarejo mais próximo

Combinaram no trajeto
Que chegando lá fariam
Juntos, um espetáculo
Para angariar os fundos
Para poderem voltar

Ela, para o seu lar
Ele, pro seu caminho
(e nem carroça mais tinha
nem seu burro, nem mais nada)

Não houve tempo de ensaio
Só fizeram, cada um
O melhor do que sabia
E, juntos, o que faltava

Ele se achava um covarde
Com esse medo de altura
Ela disse : "É só porque
Você nunca pôde ver
Como é lindo lá do alto"

Ela se achava sem graça:
"Não sou alta, não sou linda
Eu odeio os meus cabelos
Mr. $ifra tem razão"

"Pois pra mim você é tudo
de belo que há nesse mundo
Queria olhar todo dia
pros seus cabelos de anjo"

Ele então voou e viu
Como é bonito de fato
Ela então sorriu e viu
Que tinha graça um bocado

Ele, lá no céu bem alto
Ela, toda iluminada
E a vida era aquilo
E não faltava mais nada

Ao final do espetáculo
Ela afinal o flagrou
Só, de rosto lavado
Sem peruca, sem careca
(e nem maquiagem tinha
porque perdeu a maleta)
Pronto pra seguir viagem

Quando viu
Levou um susto

Como era belo o seu rosto!
Se havia por que escondê-lo
A modéstia é que o cobria

Paloma até já sabia
Que era raro o seu talento
Mas não tinha reparado
Que debaixo do palhaço
Havia um homem tão lindo
De belezas de verdade

Ela afinal deu-se conta
De que a máscara que via
Embora feia, engraçada
Ocultava outra beleza
Que se revelava inteira
Na atitude e no olhar

Soube que a face mais bela
É sempre a que está por baixo
E que só podemos ver
Quando deixamos cair
Disfarces, falsos recheios
Pra ver então o que resta

Se sobra alguém, é uma festa!
Você descobriu o amor
Muito prazer, meu amor!
Este é o grande dom da sorte

Foi assim que sucedeu
Paloma se iluminou
E enxergou no Pirilampo
O amor de sua vida

Príncipe em seu ofício
Nobre nos seus princípios
Simples dentre mais simples
Justo com os arrogantes

De fato era o mais bonito
Dos belos que conhecia

Disse pra si mesma: "É ele"
Porque sentiu com certeza
Que agora estava feliz

E deu-se então a melódia:
O palhaço e a trapezista
Juntaram os seus trapinhos
E fizeram um balão

E assim inauguraram
O Alta-Rastaqüera Circus
Que até hoje faz história
Girando ao redor do mundo

"Olha só quem vem chegando
É o balão do amor
Ele chega iluminando
Olha o circo voador !"

Desde então Paloma Líbera
É o anjo mais brilhante
Que já voou sobre a terra
Tão livre, tão radiante
Linda mesmo de se olhar

Pirilampo é uma usina
Pura energia solar
Viu que essa vida é um salto
Faz beleza o tempo todo
Voa alto todo dia

E afinal, em seus amores
Seus olhos tinham as cores
Do muito que viam juntos
Seus brilhos, todos os risos
Que deram de rir ao mundo
Pois isso sim é poesia
Essa é a grande riqueza

Sempre sobrava dinheiro
Quando ao fim de cada dia
Os anjos do picadeiro
Passavam os seus chapéus

O povo retribuía
Aos saltimbancos dos céus
E os seus bolsos furados
Chacoalhavam como guizos
Plenos, abarrotados

O número era completo
E o circo estava repleto
Do amor que cabia neles

O senhor Ivo Gran Alta
E a tal Madame Alfonso
Até ficaram amigos
Pois sentiam muita falta
De seu filho e sua filha
E se juntaram à trupe
Cuidando da produção
E mimando seus netinhos

Relâmpago Rastaqüera
Trovejante palhacinho
E Borboletinha Líbera
Mascote dos trapezistas
Elétricos como o pai
Intrépidos como a mãe
Alegria dos avós
Xodós de toda a família

O Alta-Rastaqüera Circus
É um balão de passagem
Companhia dos artistas
Muita história na bagagem

E se você reparar
No horizonte à tardinha
Ou por volta da alvorada
Há de ver a estrela dalva
Brilhando maravilhosa
A mais preciosa pedra
Dos tesouros deste céu

Vou lhe contar um segredo
Este astro que cintila
São Paloma e Pirilampo
Em seu vôo de alegria
Gargalhando lá no alto
Piscando pra arquibancada

E o espetáculo acaba
Assim como principia
Amanhã como era ontem
Sempre tudo diferente
Espetáculo todo dia

O circo chegou, o circo
Lá vêm as mil maravilhas
O carrossel da alegria
Não pára a sua viagem

Powered by Movable Type 4.34-en

Minhas melhores fotos são dos olhos do meu filho.

Meus melhores poemas, confesso, não sou eu que faço.

Laço o que posso, o pouco que não esqueço

do sopro (ab)surdo que ouço em quanto passo.

Christiana Nóvoa

meuemail: christiana ponto novoa arroba gmail ponto com

About this Archive

This page is an archive of entries from October 1905 listed from newest to oldest.

May 2003 is the next archive.

Find recent content on the main index or look in the archives to find all content.