October 2003 Archives

Crônica de uma morte anunciada

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Um amigo está no corredor da morte, esperando a vez.
Mas não está conformado, não. Interpõe todos os recursos cabíveis para adiar a execução. É jovem, ainda não tem 40 anos, filhos pequenos, mulher dedicada, esses detalhes que engendram a pergunta de revolta: - Por quê eu?
Tudo começou no ano passado, com um stress.
O stress é um curioso estratagema do organismo para lidar com uma situação-limite. É um sofisticado mecanismo de sobrevivência. Imaginem o homem primitivo diante de um urso ou um leão. Assim que o perigo é localizado, o sábio corpo começa a fabricar uma química de emergência, preparando-se para lutar ou fugir. Em segundos, o nosso primitivo tem hormônios despejados em abundância para correr do leão, subir em árvores, não sentir sono, fome ou cansaço e seus sentidos ficam muito mais alertas do que em estado normal. Isto é o stress - a resposta criativa do corpo à situação de exceção.
Mas vamos imaginar que o homem continue a correr do leão por 2, 3, 4 dias. Seu corpo passa a fabricar anestesia. Sem sentir o alerta da dor, o homem pode dar a arrancada final ou sofrer menos, se o leão o alcançar. Novamente, a sabedoria do corpo trabalhando a seu favor.
Meu amigo não correu de um leão, correu atrás de uma cenoura. Mas correu muito. Quando esta situação que deveria ser de emergência se torna crônica, o sábio químico que habita em nós começa a produzir substâncias para se matar. A longo prazo, aquilo que pode nos salvar nos mata. A batalha está perdida mesmo e ele não deve sofrer nas garras do leão. O homem cai morto.
Meu amigo também despencou do alto do seu stress. Era forte, saudável e não sentia nada - claro, estava anestesiado. Não caiu morto, foi socorrido a tempo e levado para um CTI de onde saiu com os olhos esbugalhados: - Por quê eu?
Temos conversado bastante, ultimamente. Os amigos o evitam - ninguém gosta de interlocuções com a morte - ou fazem visitas rápidas, salpicadas de frases hipócritas: - Cara, você vai sair dessa! - Não vai, ele está no corredor.
No corredor, aliás, estamos todos, a diferença é que ele sabe que está lá e nós fingimos que não sabemos.
Eu e o meu amigo falamos sobre morte. Quando lhe perguntei se tinha medo de morrer, ele me agradeceu. E começou a tentar entender seu medo. Conseguiu separar a pena de morrer, a preocupação com a família e o medo propriamente dito. O medo da morte não é o sentimento principal - ele tem mais medo de como vai morrer.
Andou tendo sonhos recorrentes com armaduras e escafandros e teme ficar preso dentro do corpo. Sente-se, hoje, um provável prisioneiro despojado de direitos básicos.
Pensou em deixar um documento para a mulher reiterando, enquanto está perfeitamente lúcido - e está -, que não permite que "façam todo o possível". Esta possibilidade o apavora.
Gostaria de morrer em casa - "como um patriarca bíblico" - cercado pelos filhos, com algum ritual religioso e podendo dizer as últimas palavras, aquelas que justificam uma vida e, quem sabe, fossem mais importantes para ele do que para quem as ouvisse. Gostaria de uma morte decente, só isso, mas desconfia de que morrerá entubado e mudo, no meio de estranhos. Sem uma reza ou alguém que ame segurando a sua mão. E, pior, talvez condenado a ser um morto-vivo por algum tempo.
Sabe também que ninguém terá poder sobre ele - desde que entrar num hospital ficará à mercê da instituição - e ninguém dará mesmo o piedoso chá-da-meia-noite. Ele tem senso de humor.
- Tenho mais direitos sobre meus bens do que sobre a minha vida - lamenta. - Ela não me pertence e não posso dispôr de mim mesmo como entender.
É uma verdade perversa. Se a morte vier não para matar mas para, primeiro, encarcerar - e ela às vezes age assim - paralisando o corpo e deixando a consciência viva e presa dentro dele, ele precisaria de um amigo.
- Não me olhe com esse olho - eu digo. - É crime!
Ele desmonta o olhar pidão e damos boas risadas.
Mas, que droga, ele é meu amigo. Como está no corredor, pensa muito sobre isso e entende que a morte rápida e indolor é direito de todo condenado.
Eu penso como ele mas não posso fazer nada e amanhã os filhos e amigos não poderão fazer nada por mim, afinal, estamos todos no corredor e todos carregamos uma bomba-relógio-sem-ponteiros, não sabemos quando, só sabemos que detonará, embora as pessoas costumem usar o condicional quando falam da explosão: - "Se um dia explodir..." - explodirá, estejam certos.
O destino do meu amigo é um destino banal, banalíssimo. Está sendo obrigado a olhar para ela, a "indesejada das gentes", o único enigma que é certo desvendarmos enquanto vivos.
O que está suportando também não é especialmente cruel, quase todos os viventes passaram ou passarão pela experiência. Cruel, talvez, é o que fazem com ele as eficientes equipes de branco, as equipes togadas e tantas outras equipes, meu Deus, que supõem possuir sabedoria maior do que a do seu corpo ou seu desejo.
São alguns artigos num código - votados displicentemente, sem nenhuma reflexão sobre a fraternidade - que transformam o amigo em homicida.
Quem quer que já tenha sacrificado um animal, sabe como são as últimas horas. É uma injeção e fica-se junto. Há um tempo para as lágrimas da despedida e a lembrança dos dias da chegada. Há um tempo para o agradecimento mútuo, o colo e o afago.
Cruel é não podermos fazer pelo amigo o que fazemos, amorosamente, por um cachorro.

Apis Regina

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Os problemas sempre começam com o meu tédio. Não é um tédio existencial, longe disso, a existência não me angustia, nem a minha nem a alheia, não acordo perguntando para o espelho por que existe o ser e não o nada e não sofro de náusea. É mais o cansaço da reprise, a eterna sensação de dejá vu - consigo tê-la vendo filmes e peças que nunca vi e nos papos sociais com a maioria das pessoas, prefiro um bom livro a quase todos os convites. Agendo meus dias, principalmente os dias livres, com um critério quase automático: - tá bom, garantem que vai ser divertidíssimo, mas o que pode acontecer de surpreendente? - Quase sempre a resposta é: nada. E, quase sempre, dou um jeito de pular fora.
Com as pessoas amoráveis, não - qualquer restaurante é bom, qualquer caminhada na praia é um programa, não fazer nada juntos também é ótimo -, não reivindico surpresas destas pessoas, até prefiro que continuem como sempre foram.
A opção preferencial pelo imprevisto torna qualquer locomoção um arrependimento e poucas tentativas fora de casa conseguiram me encantar e vencer o meu tédio.
Beber ayahuasca na selva de Tupinambarana, procurar uma frase escondida há 400 anos nas muralhas de Ávila, esperar um dia inteiro em Congonhas do Campo para ver Zé Arigó enfiar uma faca no olho de alguém, passar meses vasculhando de cabo a rabo uma rua imunda da Lapa, atrás de um número inexistente que apareceu num sonho, e descobrir o prédio num alfarrábio da Biblioteca Nacional, foram experiências inesquecíveis. Mas quase todas as outras foram esquecíveis e execráveis.
Então, não é de admirar que não vá a médicos. Estão sempre no mesmo endereço, com a mesma salinha de espera, a mesma música, as mesmas revistas e a mesma enfermeira com sua lixa de unhas. Também porque médicos são detetives natos que nunca acreditam no seu depoimento honesto:
- Não sinto nada.
- Nunca se sabe, vamos investigar.
- Mas eu sei quando sinto ou não sinto.
- Melhor checar.
Como sou otimista e acredito que quem procura, acha, prefiro não freqüentá-los. Mas, há um ano e pouco, fui a um e ouvi estranho diagnóstico:
- LER. Dá em quem escreve (encantado com a própria piadinha). Digita só com estes dois dedos?
- Só.
- É como joelho de jogador de futebol, não tem jeito, usa demais, estraga mais cedo que o resto.
- E o que se pode fazer?
- Pendurar as chuteiras (outra gracinha). Dói?
- Não.
- Mas vai doer, a degeneração é rápida. Precisa de calor, fisioterapia com forno.
Saí do consultório do abutre temendo que os dedos já não segurassem mais as folhas de exames que não fiz e o endereço do fisioterapeuta a que não fui: seriam 3 vezes por semana e o meu tédio não consegue imaginar o mesmo programa - 3 vezes por semana - por mais de uma semana.
Foi quando uma amiga fez uma matéria para O Globo sobre um apicultor que curava tudo ou quase tudo com picadas de abelhas. Quis detalhes e ela é pródiga em detalhes. Ao final, eu já estava convencidíssima: - Será que cura Lesão de Esforço Repetitivo?
- Já curou esclerose múltipla, artrite e AVC. LER é brincadeira.
Qualquer trabalho que mexa com o simbólico ganha meu crédito de saída e a abelha é dos símbolos mais impressionantes. Em hebraico, abelha é Débora e a raiz Dbr se refere ao verbo, à palavra. Abelhas teriam pousado sobre os lábios de Platão, recém-nascido, e lhe conferiram eloqüência e inteligência. Para os egípcios seriam as lágrimas de Rá, o deus-Sol, derramadas sobre a terra. Em Elêusis, as sacerdotisas eram chamadas de abelhas, na Idade Média simbolizavam o Espírito Santo. Napoleão inverteu a flor-de-lis dos Bourbon e fez da abelha o seu emblema, ela também é poder.
A terapia se completa com o uso de pólen e geléia-real. A geléia real é o que torna a Apis Regina diferente da Apis Mellifica. A rainha é uma abelha igual às outras mas que só se alimenta de geléia real, por isso vive 40 vezes mais do que as operárias - que se alimentam de mel - e desenvolve fertilidade assustadora, daí ser a mãe da colméia inteira.
E assim na semana passada, sem nenhum tédio, lá fui eu ao encontro do apiterapeuta que não tem salinha de espera, esperamos num jardim com água e cafezinho, fuma-se à vontade e os outros abelhados garantiram que com 7 ou 8 sessões eu estaria definitivamente boa.
Estendi as mãos, um pouco tensa, ele pegou com uma pinça a abelha numa caixa de vidro, deu uma apertadinha na cintura dela e ela picou. Doeu pra burro. Queimou. Olha o calor que o fisioterapeuta queria, quando pensava em colocar meus dedos no forno. Um dedo, outro. Como estávamos os dois com a mão na massa, ele não parou. Cinco em cada mão. Dez ao todo.
- Melhor não digitar, hoje nem amanhã.
Nem podia, naquela noite as mãos dobraram de tamanho e quem digita com luvas de box? Deu febre e tremedeira. Liguei para uma amiga médica, nada simbólica, e me preparei para o sermão:
- Espasmo de glote, tonteira, vista turva?
- Não.
- Perdeu os movimentos finos?
- Os grossos também.
- Se notar dificuldade para engolir, chama uma ambulância. Anafilaxia mata.
- Não seja dramática.
- Toma um anti-histamínico.
- Já estou.
- Toma juízo, também.
E desligou na minha cara.
Bem... passei o fim-de-semana observando, orgulhosa, a reação napoleônica do meu corpo frente ao veneno invasor. Fiquei uns cinco dias sem escrever nada, o que não me fez falta, o tempo sobrou. Li dois livros que havia comprado e um romance emprestado do Furio Monicelli.
Mas continuo uma férrea defensora de terapias simbólicas - tudo é imprevisível e nada é tedioso. Junto com geléia real, pólen e própolis, não serei mais uma operária, serei uma Regina.
Se também não responder aos comentários à esta coluna, compreendam e não se ofendam, consigo lê-los porque os olhos estão preservados, o apiterapeuta não tem planos para eles: é que quinta-feira é dia de abelhas e lá estarei, novamente, contra todos os conselhos. Elêusis, Espírito Santo, Platão, o Verbo, não dá pra resistir.
E, como vocês sabem, pico vicia.

Obesidade Mórbida

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A obesidade aumentou, nas últimas décadas, e nos países mais ricos já é caso de saúde pública. O pior é que o obeso, apesar de comer muito, é mal alimentado. Atribui-se este problema à fast-food.
As redes de fast-food obedecem a alguns princípios: pequena variedade, paladar padronizado e facilmente reconhecível, programação visual para cada produto.
Em qualquer lugar se come o mesmo Big Mac e as pessoas os comem todos os dias. Monótono, não? Mas a monotonia contribui para a rapidez - engole-se mais rápido o que já se conhece e não oferece surpresas. Quem não gosta de um Big Mac?
A diferença entre a fast-food e a comida elaborada é que esta é uma aventura, tanto para quem a faz como para quem a come. Todo bom cozinheiro sabe que não se repete a mesma receita, há um fazer pessoal de cada vez e experimentação constante: gastronomia é arte. E, porque é arte, não existe gastronomia em rede.
Depois da Segunda Guerra, criaram-se as primeiras escolas de jornalismo no mundo, que passaram a atrair pessoas que gostavam de escrever. Nestas escolas eram ensinadas técnicas de redação para jornal. Tal qual nas redes de fast-food, há um paladar médio que deve ser atendido, pouca escolha e um molho previsível.
Os editores recomendavam um livro a cada adjetivo censurado - "o que o senhor acha da vedete assassinada, coloque no seu livro, seu Ananias" - e Graciliano Ramos, quando era revisor do Correio da Manhã, depois de passar o lápis vermelho num texto, escreveu na margem para o repórter iniciante: - Outrossim é a puta que pariu.
O texto jornalístico passou a ser seco, curto, substantivo. Qualquer palavra que não fosse de uso corrente ou qualquer estilo que pudesse identificar o autor eram podados em nome da objetividade e da redação uniformizada. Definiram-se dois textos distintos, o jornalístico e o literário.
Mas nem sempre foi assim. Dostoievski, Victor Hugo e Machado de Assis escreveram romances em folhetins diários ou semanais - acompanhados por milhares de leitores - e só depois os editaram como livros. Parece que era possível à massa consumir a boa letra.
Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão mandaram cartas anônimas durante meses ao Diário de Notícias de Lisboa dando conta de crimes misteriosos ocorridos na Estrada de Sintra. Escreviam alternadamente e cada um deles procurava deixar o parceiro encalacrado para continuar a trama. Quando ao final os dois escritores se revelaram como os autores das cartas, O Mistério da Estrada de Sintra já tinha o sucesso editorial garantido.
A preocupação, para com tudo que é dirigido às massas, é facilitar para aumentar o consumo. Mesmo os textos assinados dos jornais guardam um tom sempre leve, temas atuais e digeríveis, vocabulário pobre para ser entendido. Mas nem sempre o entendimento conduz à compreensão porque sabemos que são coisas diferentes.
A literatura do pós-guerra veio a tornar-se uma literatura jornalística e a beleza do texto deu lugar à clareza e à concisão. O texto elegante - assim como a mulher - passou a ser o texto magro, enxuto, sem qualquer adiposidade.
No livro, o autor falava e cabia ao leitor o esforço de entende-lo.
Na literatura atual, o autor fala "para" o leitor: o trabalho para ser entendido passa a ser dele. Ele fala então para um leitor que não existe, é uma média, uma ficção estatística. Mas este leitor inexistente passa a ser co-autor porque impede a liberdade de dizer em nome do direito de entender. Ele não cresce com o autor que lê, o autor é que fica do seu tamanho. Não pode dar muito certo, olhem as novelas.
E agora, chegamos à Grande Rede e à curiosa escritura on-line que todos praticamos. Em que não se fala mais como nos jornais ou na literatura dos últimos 50 anos: fala-se "com" o leitor.
A literatura da Rede é onomatopéica, sim. Cheia de putz, humpf, irgh, e todo texto é um monólogo coloquial. A onomatopéia é um recurso usado para a comunicação com crianças pequenas. O estilo que se está a criar na Rede é o discurso dirigido a alguém sempre infantil. Repetem-se palavras exaustivamente (vamos, vamos tomar banho!), criam-se possíveis objeções do leitor para reforçar o que se quer dizer e se pontua a hora do riso, rsssss, ou da gargalhada, kkkkkkk. Como nas comédias tolas para TV em que - para a platéia rir - o filme ri.
Já imaginaram Cervantes indicando o momento em que devemos rir de Sancho?
O autor sempre riu sozinho. Alguns leitores o acompanhavam, outros não. Também chorava só. Agora - snifff - compartilhamos todas as suas emoções. É curioso? É. É empobrecedor? Também.
Aonde vai dar? Ninguém sabe. Nunca se sabe, no início. O fenômeno do texto jornalístico invadiu e ocupou a literatura, ela não foi mais a mesma e nunca mais ousou pronunciar "outrossim" e "alcatifas". Pode ser que o estilo da Rede determine a literatura do século XXI. Será uma pena.
São poucos milhares de palavras, as que temos à disposição para descrever o que toda literatura tenta capturar - o homem e seus mundos. Temos menos palavras, em qualquer língua, do que livros editados anualmente. É pouco material, para a ambição de um escritor. Seria insano reduzi-lo ainda mais e descartar a busca do ingrediente raro e do tempero criativo.
Lê-se pouco, na Rede? Não. Lê-se mal.
Consumimos em grande quantidade e estamos todos obesos. Mas matamos nossa fome com 2 hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num pão com gergelim.

Todo mundo usa

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O GNT Fashion mostrava umas sandálias havaianas de Chanel e elas custavam mil não lembro que moeda, dólares, euros ou foram convertidos em reais, não importa. Custavam mil-qualquer-coisa. Aquelas, todas de borracha, brancas ou coloridinhas, que as tiras não soltam, não têm cheiro, etc.
Como o Havaí é aqui, havaianas são brasileiras, é claro, e são um modelo acabado e imexível de conforto e bom gosto. Agora, com a griffe Chanel, talvez sejam em breve conhecidas como as "francesas" e o mundo estará autorizado a admitir o que elas sempre foram: belas.
A nossa estética é uma imposição das griffes e ninguém sabe mais o que é bonito ou feio. Os estilos de época sempre foram identificáveis na arquitetura, na literatura, na indumentária e o estilo é a evocação da História - evoluções ou revoluções revolucionavam ou faziam evoluir a gastronomia, o vestuário, a moradia -, enfim, o homem cria de acordo com os meios que o momento histórico coloca à sua disposição. E a criação humana, ainda que não intencionalmente, tende para a beleza. Ou tendia, antes das griffes.
As havaianas são belas porque mantiveram a simplicidade da sandália original: uma sola e algumas correias, nada mais. O mínimo. Desde que o homem deixou de usar peles amarradas aos pés, a sandália apareceu como o calçado de quase todas as civilizações - protegia o pé e o deixava nu. Funcionalidade e liberdade.
As sandálias gregas são belas - e as havaianas são sandálias gregas - como o peplo é belo: um pedaço de pano que se enrola no corpo e o protege; mas debaixo daqueles panos há um corpo livre que se revela. Sua beleza está no panejamento e no corpo que o porta.
Todos os Caravaggios, Rembrandts e Velásquez foram atraídos pelo panejamento e assim vestiram seu Deus, suas musas e seus santos - panos soltos, cores, luz, sombra e corpos insinuados: a beleza do vestuário não precisa de mais nada. Não sei quem foi o asno que inventou o espartilho e a anágua.
A partir da Idade Média, por decência, os pés foram cobertos e o sapato substituiu a sandália. Começava o terror.
Os gregos foram mestres na suntuosidade do simples e a beleza é simples, o excesso é sempre mau gosto. O Partenon é belo porque não tem um detalhe que se sobreponha ao todo, Fídias capturou a forma perfeita.
A forma é Afrodite e ela não se revela a qualquer um, exige sacrifícios para ser contemplada. Contemplar um deus é "penetrar com ele no seu templo": no território sagrado não se entra sozinho, só acompanhado, e quem não contempla o deus não fará nada que mereça ser contemplado pelos homens. Fazer arte era dar-se em holocausto à Afrodite, consumar o sacro ofício e trazer a beleza do Olimpo para a Terra. As havaianas são a Bic dos calçados - atingiram a perfeição olímpica.
Sou do tempo em que as canetas esferográficas tinham cargas substituíveis, sujavam as mãos e as mochilas e vazavam uma tinta que não saía das roupas nem com água sanitária. Por conta disso, ainda se davam canetas-tinteiro aos filhos e ganhei a minha Parker 51 quando aprendi a ler. Um saco.
A caneta virava objeto pessoal, a pena ia gastando do jeito de quem a usava e a escrita era dura por muito tempo. Depois amaciava. Mas se alguém pegasse a sua caneta e escrevesse com ela, ela voltava a arranhar o papel. E tinha a escravidão do tinteiro.
Aí vieram as Bic sem recarga, blindadas, limpinhas. Usou, gastou, dispensou. Baratas. Tão práticas quanto fraldas descartáveis. Ficamos felizes para sempre? Não. Exumamos a caneta-tinteiro.
Por quê? Nunca entendi. Aí entra a griffe - elas são griffadas.
Uma vez, um cidadão íntimo assinou uma lista de adesões ou coisa assim num clube de grã-finos. Gesto automático, enfiou a caneta no bolso do paletó. De madrugada, o telefone toca: o aflito proprietário da Montblanc queria saber se "por acaso" não tinha sido levada "por engano". Bolso conferido, tinha sim. De manhã bem cedo, veio buscar. Aquela porcaria não era mais uma caneta, era uma jóia com um tanto de ouro, platina, uma tampa especial, ele explicou se desculpando, e mais a griffe, havia um bom dinheiro embutido no raio da caneta. E afinal, uma caneta é apenas uma caneta, uma caneta, uma caneta... Ou não?
Perguntei: - Por que não usa Bic? - Ele disse: - Oh!
Cervantes escrevia com pena de ganso. De vários gansos, suponho, e não de um canard especial. O dono da Montblanc não escrevia, apenas assinava cheques.
E os relógios?
Relógios sempre foram peças caras e de esmerada ourivesaria. Eram engrenagens milimetricamente torneadas, de material nobre, ouro quase sempre, para aprisionar a passagem do tempo numa caixinha, a ampulheta perfeita que prescindia do escravo para cuidar dela. Os relógios passavam de avô a neto.
Mas hoje, depois da milagrosa bateria, qualquer relógio de camelô nos dá uma precisão que o Big Ben nunca sonhou atingir. O homem se considerou livre para não pensar mais em relógios? Não. Eles continuam a ser, como na origem, sinais visíveis da diferença entre os homens: o relógio não deve ter somente precisão, seu requisito essencial - deve ter griffe. E griffe não é nem beleza, é assinatura.
Depois do endeusamento da griffe, o que custa caro é a inutilidade agregada ao objeto, não a funcionalidade. Em quase todos os produtos de vestuário e acessórios, já se conseguiu a perfeição barata - assim, ela passou a desqualificar aqueles que os usam.
Bics, relógios de camelô e havaianas são produtos perfeitos, sem possibilidade de aperfeiçoamento a curto prazo. Um amigo inteligente e sagaz até me fez notar, um dia, que Bics são sextavadas para não rolar na mesa. Eu nem tinha percebido. E as "tinteiro" são cilíndricas, caem no chão, sacrificam a coluna, mancham o tapete. O homem deveria se orgulhar de cada Bic que portasse. Mas não, qualquer um trocaria sua Bic pela Montblanc do alheio. Tendemos, coletivamente, para a cegueira e a loucura. É a ditadura das griffes.
Lembro de quando elas, sorrateiramente, começaram a sair da banda avessa e se popularizaram na direita. Resisti o quanto pude, me recusava a usar roupas com a etiqueta aparente, outdoor vivo das marcas ditadoras. Vivi e vivo "modas" inacreditáveis: das ombreiras de jogador de baseball aos bicos finos dos sapatos atuais que conseguem torturar dez dedos ao mesmo tempo. Gosto de peplos e pés descalços. Por prazer e por estética.
Fico ainda espantada como a moda ditada para cada estação é consumida indiscriminadamente por quem a merece e por quem deveria enxotá-la. Percebo, assustada, uma cultura de griffes fazendo nas sombras a ditadura do bom (mau)-gosto. Uma uniformização, que se renova a cada estação. As mesmas camisetas, a mesma filosofia estampada no peito ou nas costas como brazão de classe (quase sempre em inglês e mau inglês). Anual. Sazonal. Alguém notou que a camiseta branca, lisa, é bela?
O que a classe média mais ou menos abastada usa hoje, as empregadas domésticas usarão amanhã. Mas todos serão igualmente contaminados e ninguém usará peplo, camiseta branca ou havaianas, quando quiser se mostrar "bem-vestido". Que pena.
Um amigo lembrava que assistimos à uma revolução cultural. Como nem Mao sonhou nem conseguiu. A uniformização da estética, da filosofia, da palavra-de-ordem, do humor em dísticos estampados no peito.
Podófila convicta (pó, não pê), dedicando-me diariamente a pensar na liberdade dos pés como direito inalienável, quero declarar de público meu amor às havaianas antes que as Chanel dominem o mercado. E elas passem a custar mil-alguma-coisa.

Para não dizerem que não falei de flores

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Queria falar de flores, esta semana. Porque, entre outras razões, é Primavera. Mas em pouco tempo estaria descrevendo as flores da memória - goivos e junquilhos dos romances que li e nunca tive o prazer de ver de perto - enquanto as marias-sem-vergonha do mundo real invadem meu jardim, autorizadas pelo equinócio. Não fica bem, sem-vergonhice num jardim, mas flores me cansam, exigem atenção constante, o tempo que lhes damos nunca é suficiente, assim, resolvi voltar às raízes esquizotéricas e falar de Tarô. Dá menos trabalho, está na ponta da língua:
"O voi che avete gl'intelletti sani,
Mirate la dottrina che s'asconde
Sotto il velame delli versi strani!"
(Vocês que têm a mente sadia,
Vejam a doutrina que se oculta
Sob o véu de estranhos versos!)
Desculpe a tradução, Dante.
René Guénon - filósofo e hermetista - diz que para Dante todas as escrituras, e não somente as sagradas, podem e devem explicar-se segundo quatro sentidos. E que estas significações diversas não podem opor-se ou destruir-se mutuamente, devem complementar-se como elementos de uma síntese única.
O Tarô é uma escritura sagrada - traduzida em imagens - e há um sentido em que pode ser comentado para profanos: seu sentido lógico, facilmente apreensível, e obviamente relacionado ao elemento Terra. Os outros três sentidos, são desvendados em iniciações.
Vamos contar a história do Tarô:
"Era uma vez, há muito tempo, quando os livros eram pouco difundidos, alguns espíritos voltados para o conhecimento oculto que procuravam um recurso para transmitir seus ensinamentos, que os dogmatismos estabelecidos, tanto civis como religiosos, não poderiam admitir. Pensaram no simbolismo da imagem e da escultura.
A imagem ensina de maneira clara através dos tempos. Ela se impõe à lembrança mais facilmente do que a palavra e não corre o risco de ser deformada pela tradição oral, é um símbolo cheio de vantagens.
Pensaram também, para se preservarem da fúria de todas as inquisições, em apresentar estes símbolos como um jogo. Assim, sem chamar a atenção de censores vigilantes, o Tarô permitiu a transmissão, de geração em geração, da ciência dos destinos do homem.
É quase impossível penetrar o sentido da Criação se não se tem o sentido do simbólico. O Tarô é um conjunto de 22 arcanos (mistérios) maiores aos quais se juntaram 56 arcanos menores. Estes, constituem um jogo do qual se podem tirar ilações válidas para os números, as formas, as cores, mas permanecem um jogo.
Os arcanos maiores são puro simbolismo e o iniciado os utiliza para estudo e meditação, jamais para jogar.
O número 22 corresponde às letras hebraicas e nos orienta para uma origem judia e cabalística do Tarô. Os judeus, assim como os romanos, não utilizavam números e sim letras com valor numérico. Cada palavra ou frase possuía sua gematria: um número analogicamente correspondente ao seu significado.
Mas o Tarô, com seus ensinamentos pela imagem, afasta-se do pensamento abstrato das culturas semitas e é certo que seus idealizadores foram não só cabalistas como hermetistas e alquimistas. É no final do século XIV, na França, que os arcanos maiores são reproduzidos para diversão do rei Charles VI. A reprodução supõe uma pré-existência.
A França é o país de Descartes e cada francês, convencido de levar consigo o espírito cartesiano, costuma exigir da razão - da razão pura, da razão luminosa - que dissipe as trevas da superstição e todos os fantasmas da imaginação. A razão cartesiana é o triunfo da lógica, ou melhor, da metodologia: de um encadeamento rigoroso de deduções cujo ponto de partida é a constatação de um fato tomado do mundo bem real do tangível e do sensível. A razão cartesiana não se alimenta de sonhos e desconfia dos contadores de histórias.
No entanto, o Tarô, que foi espalhado para o mundo a partir da França, encerra o seu simbolismo de uma caminhada iniciática com a carta do Louco - o arcano sem número, para o qual não há explicação nem analogia.
Costuma-se começar a estudar o Tarô pela disposição em roda (chamada Rota). Quando as 22 cartas são arrumadas numa roda, o Louco se coloca entre o arcano 1 e o 21. Ou é o fim ou o que está antes do começo, o que, afinal, vem a dar no mesmo - ele traz em si o mistério do Zero.
Do 1 ao 21, podemos entender de maneira clara o simbolismo da trajetória do homem. Quando chegamos ao Louco, que liga o ponto de partida ao ponto de chegada, encontramos a noite. Saímos de uma noite para entrar em uma noite. Nossa mente só consegue retirar seu alimento do mundo sensível e está limitada pelas leis físicas que o regulam. Por isso, o racional não consegue explicar nem a nossa chegada nem a nossa partida - aquele instante, ainda não aprisionado pelo mundo físico, que significa tanto a causa como a conseqüência.
Uma peça-bufa, a vida, cuja última cena - ou a primeira - nos é escamoteada. O Louco é um impasse que arremata o estudo e só começa a ser decifrado no segundo nível, este já vedado aos profanos.
O segundo nível não é mais racional - também não é irracional, poderíamos chamá-lo de supra-racional - está situado além do físico, no metafísico, e aí Descartes não se daria melhor do que os outros. A nossa razão é treinada durante todo o primeiro estágio, sem dúvida, mas deverá ser abandonada no limiar do segundo. A partir do segundo nível, talvez se comece a penetrar no território da poesia - os "estranhos versos" de que falava Dante. Só a mente sã pode entende-los: ou a que nunca adoeceu, impregnada de si mesma, ou aquela que conseguiu curar-se.
O ensinamento das ciências mundanas é o mesmo, para todos. O homem se beneficia dos resultados da ciência mas não participa da sua busca: sua evidência é exterior a si mesmo. A progressão iniciática, ao contrário, é interior ao homem. A evidência das coisas de ordem espiritual - de ordem iniciática - não se impõe a ninguém de maneira inexorável, como a constatação de um fato sensível: ninguém pode avançar por nós. O iniciador pode nos mostrar o caminho, apenas. Caminhar é conosco. Aí, as leis caem por terra.
Toda elevação espiritual libera o homem das crenças a que foi um dia submetido. Toda liberdade provoca perseguições das Igrejas estabelecidas e dos Césares reinantes. Qualquer um que abandone a massa amorfa é inimigo e o caminho iniciático é sempre solitário.
Quando se fala de iniciação não se está falando de religião. Quem quer que tenha percorrido as 21 possibilidades simbólicas da existência e tenha chegado ao nada, ao muro, ao Louco, este é um iniciado, ainda que não saiba. Deverá refazer o caminho mais e mais vezes, voltar ao início e percorrer o percorrido - são 4 estágios de compreensão, pelo menos. E nenhum deles nega os anteriores, apenas os unifica.
Não haverá nada de apoteótico no final, talvez. Cada vez que avançamos um passo, o muro recua um passo. E, em qualquer dos estágios, nossa caminhada nos levará ao Louco. No início, um louco é apenas um louco. No final, não sabemos o que será. Porque a roda do Tarô é infinita e sua história não termina num final."

Foi o que me ocorreu falar sobre a Primavera. Uma estação, como todas, previsível. Que aparece no tempo certo e afeta plantas e animais, determinando um comportamento sazonal e imutável.
E sobre o homem, este Hamlet intrigante: " - Quem são estas estranhas criaturas, que não parecem habitar este planeta e nele estão?" - Este ser que se dá o privilégio de ser único e terminar sua evolução na loucura.
(Para quem se interessar pelo tema, sugiro "Le Tarot Initiatique", de Edmond Delcamp)

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