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Uma Transa Amazônica

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A classe média brasileira conhece a Europa, a América, às vezes alguma coisa do Oriente, mas não lembra de incluir a floresta amazônica nos seus roteiros turísticos. No entanto, é lá que estão guardados os últimos segredos. Lá, ainda podemos encontrar o mundo como o mundo era na época da Criação.
Os cenários mudam rapidamente, vistos da janela de um avião: grandes cidades são ultrapassadas em minutos. Mas, ao sobrevoar a floresta, os minutos viram muito tempo e o tapete verde não acaba - continua infinito.
Quando fui pela primeira vez, olhava da janela aquela verdura sem fim e lembrei da história - que li não sei onde - de um árabe das tribos do deserto que numa viagem encontra uma cachoeira, pára e não consegue prosseguir: primeiro fica mudo, depois senta numa pedra e só abre a boca para dar graças a Alá. Ao fim de algumas horas, e já cansados de emoção tão duradoura, seus companheiros perguntam quanto tempo pretende permanecer ali:
- Até Deus cansar.
Eu também não acreditava em tanto verde. Algumas palavras se tornam insuficientes na floresta, passam a descrever menos do que sempre descreveram e o verde é a primeira delas. Lá, o verde comporta tantas nuances quanto a neve dos esquimós - existem centenas de verdes.
Outro conceito que muda bastante, para quem sempre morou em cidades grandes, é o de solidão.
Aqui no Rio, ia a Búzios quando Búzios era "agreste", subia um morrinho, descia um morrinho, e caía na Ferradurinha às 5 da manhã para ver o nascer do sol. Era uma aventura e me sentia Robinson Crusoe na ilha deserta, com o marzão à minha frente. Esquecida de que a poucas centenas de metros, atrás do morrinho, existiam turistas menos madrugadores que em breve invadiriam a minha praia. A solidão no Sudeste não passa de uma centena de metros.
Lá, não. Se alguém pegar uma canoa e descer qualquer rio, em pouco tempo estará sozinho mesmo. Absolutamente só. E a sensação que a solidão absoluta provoca não é euforia aventuresca. É perplexidade.
Na região amazônica, além de termos a maior floresta do mundo, temos a maior massa de água doce do planeta e o maior rio do mundo. É engraçada, a reverência que fazemos ao que é "maior": fica patente a nossa mediocridade e dobramos os joelhos diante do maior templo, da maior orquestra ou da maior floresta. Sozinhos, no meio do verde e das águas, creio que todos se ajoelham para contemplar.
As Águas são o elemento primordial, anteriores à própria Luz. O Gênese afirma que "No princípio, a Terra estava informe e vazia e o Espírito de Deus pairava sobre as águas". No princípio, antes mesmo que Deus começasse a Sua criação, as águas já estavam presentes.
O elemento Água simboliza a emoção e emoção não é bem o sentimento piegas que o Roberto Carlos canta - emoção é o ato de mover.
As nossas emoções originam e movem todas as nossas funções. A avaliação intelectual que fazemos da realidade - que nos parece tão isenta e fruto de penosa e honesta meditação -, na verdade é mera adesão emocional a um ponto de vista.
Primeiro, experimentamos um sentimento, somos assaltados por ele e isto não tem nada de racional. Depois, e só depois, construímos um arcabouço intelectual que o justifique. Criamos nosso mundo racional apenas para fundamentar nosso mundo emocional.
E só conseguimos modificar um conceito arraigado se antes modificarmos a emoção que o arquitetou. Por isso - que pena! - nem livros nem mestres constroem o que pensamos: só nos dão melhores argumentos para continuar a pensar assim. Mas um amor pode nos modificar. Ou um mergulho em águas profundas.
Tirando as minhas férias, estou partindo para a Amazônia, aonde vou sempre que posso. O maior rio e a maior floresta do mundo costumam restaurar minhas finanças e isso é bom. Mas também transformam as minhas emoções, o que é melhor ainda.
Se é verdade que o pensamento está estreitamente vinculado ao ser - penso, logo existo; se não pensasse ficaria em dúvida -, provavelmente nos damos uma nova forma quando damos forma nova aos pensamentos.
Nunca sei ao certo do jeito que vou voltar da floresta mas acabo voltando, embora até o último minuto pense em ficar. E, como volto diferente do que fui, tenho depois um trabalho dos infernos para arranjar novas e consistentes teorias que justifiquem os macaquinhos no sótão que sempre trago de lá. Culpa das Águas.
Boas férias para todos e até Março!
Posted by Paula at 11:23 AM | Comments (3)

A mão autônoma

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Costumo vagabundear pelos canais da Net e acabo parando no Discovery Health. Não lembro de ter aprendido nada que possa contribuir para a minha longevidade saudável mas descubro algumas doenças incríveis. Foi no Discovery que fiquei sabendo do Síndrome da Mão Autônoma.
É isso: uma das mãos se rebela e passa a agir independentemente da vontade do seu dono. Ele - o dono - apaga a luz quando sai do banheiro e a mão autônoma acende. Ele se cobre na hora de dormir e a mão autônoma o descobre. Ele pega uma maçã e, assim que abre a boca, a mão autônoma a atira pela janela. A outra mão - a tutelada - costuma bater na mão autônoma, instigada pelo dono.
Me convenci de que o melhor regime para o corpo é a monarquia absolutista. Uma autoridade suprema deve comandar e todo o resto viver em vassalagem, sem direito a assembléias, constituições e demais invenções burguesas que só geram bagunça: tem que ser decreto-lei e vocês também concordariam se tivessem visto A Mão Autônoma. A liberdade enlouquece o sistema.
Se o seu corpo funciona direitinho, se você pega um cigarro com a mão direita e a esquerda - fraternalmente - já vai tratando de acender o isqueiro, se a mão direita pega a faca e a esquerda espeta o bife, se a esquerda coça o nariz e a direita continua no volante, você está de parabéns e pode dizer com orgulho que vive numa perfeita monarquia. Ou numa ditadura, como preferir - você instaurou a ordem e não será vítima da mão autônoma.
Estou desconfiada de que ando dando liberdades demais, lá em casa, e já tem alguém pensando em direitos humanos, quem sabe em revolução:
Passei o feriado carioca de São Sebastião no Copa D'Or.
Copacabana é um bairro que tem mania de dourado. Era o bairro da moda nos Anos Dourados. O restaurante do Copacabana Palace, o hotel mais conhecido da cidade, é o Bife de Ouro e seu salão de festas o Golden Room. E agora, mais caro do que o Copacabana Palace - lugar no qual jamais me passaria pela cabeça comemorar o piedoso feriado -, temos o Copa D'Or, onde acabei dando com os costados, premida apenas pelo amor materno.
Explico: todo mundo sabe que é naqueles dias - entre o fim do seguro e o telefonema do corretor, lembrando que ele expirou - que o nosso carro bate ou é roubado. Seguradoras só são empresas lucrativas porque os sinistros, metodicamente, acontecem neste pequeno intervalo, quando estamos descobertos.
Pois é. Foi o que aconteceu, num pequeno e dolorido incidente, que gerou uma pequena cirurgia, com pequeno período de internação, nada grave, tudo pequeno. Mas o seguro estava vencido e a conta - oh, Midas, que não és minha entidade protetora e não transformas em ouro aquilo em que toco -, a conta daria para bancar orgias que nunca fiz no Copacabana Palace, aquelas da Ava Gardner, com direito a jogar cadeiras pela janela. Era uma fatura indecorosa, faria corar um monge de pedra. Mas não são nada monásticos os donos do Copa D'Or, este hospital que pensa que é um hotel 5 estrelas.
E foi lá, na Tesouraria, na hora da saída, que se manifestaram sintomas assustadores.
Entreguei o cheque à elegante tesoureira, que parecia fugida de uma página de Caras, ela observou que eu havia subtraído muitos reais da conta e pediu-me que fizesse outro.
Desculpei-me, envergonhada, e preenchi mais um cheque, agora com o total correto, tive o cuidado de verificar duas vezes. Ela então me pede uma identidade e, já impaciente, torna a devolvê-lo - "as assinaturas não conferem" -, assinei com nome que não uso mais há quase dez anos e não é, evidentemente, o que consta da carteira. Percebi ali o ardil da minha mão autônoma, numa evidente manobra não só para embananar a compensação bancária mas também para imputar-me prática de falsidade ideológica ou qualquer delito grave. É uma meliante, esta mão revoltada com o sistema.
O terceiro cheque foi feito com o vagar de prova do Mobral. A manequim/tesoureira ditou-me tudo, inclusive meu nome, e eu e ela verificávamos cada campo preenchido, antes de passar adiante.
- Agora, tudo certinho - sorríamos uma para a outra.
Estendi-lhe, desprendidamente, aquele cheque pesado como barra de ouro e na mesma hora a minha mão o puxou de volta, num movimento insano e sem comando - juro que meu cérebro não deu esta ordem - deixando perplexa a manequim, que não sabia o que fazer com a metade rasgada que ficou em seu poder.
Aí, já com vontade de chorar por me descobrir portadora de doença grave, talvez incurável, fiz como o sintomático do Discovery - dei uns bons tabefes na mão autônoma e fui para um canto escondido preencher, pela primeira vez na vida, o quarto cheque para pagar uma só conta.
Já havia suspeitado da sua existência (a dela) ao reler textos recentes e constatar palavras intrometidas ou sem sentido, grafadas errado, nas quais nunca pensei mas "alguém" escreveu por mim - ela é não só desonesta como meio ignorantona. Eu mesma, sempre escrevo qüinqüênio com dois tremas; exceção com cedilha; sou cidadã exemplar, fanática pagadora de todas as contas e jamais assino cheques com outro nome.
No documentário do Discovery a mão terrorista quebrava tudo, maltratava seu dono, atacava pessoas, podemos até pensar em reação preventiva americana mas, evidentemente, era um perigo público aquela esquerda.
A minha não - é dissimulada, age nas sombras, numa conhecida tática de guerrilha ideológica, com a clara estratégia de revelar minha ignorância e malícia e me desmoralizar diante dos outros e de mim mesma, coisas da direita.
O feriado passado no Copa D'Or, com água gelada mas sem cafezinho, horas e horas sentada numa cadeira, serviu afinal para alguma coisa: desnudou o inimigo. Assim, estou precisando voltar à linha dura lá em casa, reafirmar os poderes absolutos e baixar um ou outro ato institucional para que nem pensem em botar as manguinhas de fora. Mando eu e estamos conversados.
Enquanto isso, as besteiras que aparecerem por aqui vocês já sabem quem foi.

A frivolidade como estilo de época

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Alguns livros e filmes mudam a nossa vida. São queridos como pessoas queridas e, como elas, inesquecíveis. Nos últimos tempos, só tenho lido e visto o que está fadado ao esquecimento. Dramas e tramas vazios de filmes, novelas e livros - a exibição da futilidade que norteia a vida e as escolhas - tornam-nos tão esquecíveis como alguns falsos encontros: passamos algumas horas agradáveis mas não somos transformados nem marcados para sempre, foi apenas uma experiência interessante. Talvez não haja nada pior do que ser uma experiência interessante para alguém, quer se trate de um livro, um filme ou uma pessoa.
Há três filmes na praça que devem ser vistos: o díptico "A Decadência do Império Americano" e "As Invasões Bárbaras"; e "Adeus, Lênin".
São bastante engraçados, embora não provoquem gargalhadas. Platéia e personagens se divertem com um humor para "iniciados" e os dois primeiros mostram o mundo acadêmico canadense - que parece ser igual a qualquer outro ambiente universitário do Ocidente. Pode ser que na China ou na Arábia Saudita seja diferente, não sei.
Os três filmes lembram A Vida é Bela, do Begnini, de alguns anos atrás, em que um pai transforma um campo de concentração num parque de diversões para que o filho pequeno não perceba que a vida quase sempre é feia. Só que, em 2004, são os filhos que fazem isso para os pais.
Nos filmes canadenses, os personagens são professores universitários em dois momentos - no final da década de 70 e vinte anos depois. Os mesmos atores, vinte anos mais velhos, dão credibilidade à trama. O que vai eclodir no segundo filme, já é antecipado no primeiro: todo mundo é inteligente, com boas referências culturais, porém as vidas pessoais são lamentáveis. Há dificuldade em lidar com o real e todos constroem um mundo de mentiras agradáveis para os parceiros amorosos e a família. Mas o fazem com muita graça, muito humor, e os filmes são recheados de "boutades" interessantes. Apenas interessantes. E eles seriam a elite intelectual do império americano em seu declínio. Seriam os "homens de conhecimento".

O conhecimento que não gera sabedoria, gera um mal maior - talvez - do que a ignorância. Produz a "vanidade", ou a vaidade: o atributo do que é vão. Do que é oco. Do que não tem densidade. O conhecimento ou constrói o sábio ou se esgota em exibições tolas e vaidosas de si mesmo.
Não é raro perceber, em intelectuais, a vaidade do que seu cérebro pode engendrar, sem se darem conta de que estão cultuando cada vez mais o vácuo em vez de cultuar o cosmo. Sacrificam para o nada - já que no nosso mundo o ofício do intelectual é sempre um "sacro ofício" - e se orgulham e se comprazem dos seus espirituosos ditos frívolos. Reduzem o real a um jogo de palavras, pretensamente inteligente, quando, quase sempre, o encontro com o real é mudo. Ao menos, lacônico. O real é a etapa final da Criação, em que deuses e homens têm papéis iguais.
Transitamos, cada vez mais, num universo vazio, recheado de imagens e palavras. Temos uma abundância jamais sonhada de possibilidades de habitar o vazio, quando a luta do homem, desde seus primórdios, foi organizar o caos e jamais mergulhar nele.
Num dos filmes, um filho - por amor ou caridade - compra meia dúzia de significados para o pai, antes que ele morra. Constrói ou aluga um cosmo, um universo organizado, para que ele não termine no nada. Em outro, um filho cria um ambiente também teatral para a mãe doente para que ela não encare a derrocada do seu mundo. Mais ou menos o que o italiano trêfego fez para o filho, num campo nazista - a generosa pantomima que encobre a realidade, o refúgio num mundo de mentira para camuflar a dificuldade do mundo de verdade onde a morte encerra o espetáculo. A vida só se mantém eternamente bela para quem tem 7 anos de idade.
A capacidade de suportar a dor parece que diminui, de geração a geração. Hoje, batalhões de médicos e terapeutas se revezam para nos fazer acreditar que é possível suprimir a dor de viver, como se alma fosse dente e pudesse ser anestesiada quando nos é arrancada. E quem viveu sem ter a alma esfacelada? Poucos nos dão a mão (e o sentido de "terapeuta" é apenas acompanhante) e nos acompanham na viagem pelo real. E real não é o apenas material; mas aquilo que comporta uma verdade. Então, real não é só o corpo físico. O amor é real. A fraternidade. A dignidade. Quem quer que os tenha conhecido pode atestar a sua realidade. Chegam a ter peso. E doem.
Nos filmes, o amor filial cria mentiras para os pais, na esperança, talvez, de merecer as mentiras dos seus filhos na hora de morrer e acreditar que sua vida valeu a pena. Na ilusão de vê-la mais bonita em retrospectiva, como um filme que pode ser editado. Vaidade das vaidades.
O oposto da realidade, da densidade, é a vacuidade - a vaidade.
Qualquer aposta - ou projeto, como se diz hoje - no vazio faz sucesso e encontra adeptos. Algum deus perverso, ou anti-deus, deve estar a rir bastante: o mundo se move na indústria laboriosa de organizar o inexistente. Multidões passam suas vidas trabalhando para construir a própria vaidade ou a alheia. Estamos em plena era da frivolidade, da leveza, e o que é denso saiu de moda. O que é pena, porque afinal só lembramos daquilo e daqueles que pesaram o suficiente para nos marcar.
Talvez só nos demos conta da pouca densidade do que fizemos na hora de morrer. E aí, um filho piedoso armará um circo para que nem na hora da morte a consciência possa chegar perto. Para que não haja a dor do confronto com a verdade nem nos momento finais.
E talvez uma cadeia infinita de vaidosos e filhos piedosos esteja se desenvolvendo debaixo dos nossos narizes: três filmes, ao mesmo tempo, dão o que pensar. Talvez sejamos em algum momento, elos desta cadeia. Mas, vaidosos - vocês sabem - têm nariz empinado. E não conseguem ver o que acontece debaixo mesmo do que lhes está na cara.

Saturno e o xis das questões

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A crônica é um texto datado, cronológico, sujeito ao tempo e ao seu deus. Mil assuntos pululando dentro da cabeça mas não dá para esquecer que é a primeira crônica do ano e Cronus - o velho deus do tempo - pede passagem. O tempo envelhece tudo que um dia ousou ser novo e torna crônicos o desejável e o indesejável. O primeiro mês do ano é presidido por Saturno ou Cronus.
O calendário oficial para o nosso planeta é o calendário Gregoriano, que conta o tempo em "anos do Senhor" a partir do nascimento de Cristo. Este calendário foi uma reforma do calendário Juliano - feita por Júlio César - que por sua vez reformou o calendário romano de Numa Pompílio, elaborado por volta de 700 A. C.
César oficializou um calendário já bem próximo da verdade astronômica do ano solar com 365 dias e 6 horas. Acrescentou-lhe dois meses que não existiam, Janeiro e Fevereiro, decretou que o ano começaria em primeiro de Janeiro e não mais em 23 de Março, no equinócio da Primavera, e, aproveitando a reforma e com vaidade leonina, mudou o nome do quinto mês do calendário antigo para Julho, homenageando a si próprio, que nascera naquele período. Anos mais tarde, Augusto faria o mesmo com o mês de Agosto. Algumas coisas são crônicas.
Dado a César o que é de César, também foi dado a Cronus o que lhe era de direito - abrir o ano.
Cronus/Saturno foi assimilado em Roma ao deus Jano - patrono de Janeiro -, o deus das portas e das passagens, o temível "guardião do umbral".
Thomas Bulfinch, que escreveu sobre as divindades do Olimpo, comenta que elas já não pertencem mais à Teologia mas à literatura e ao bom gosto. E, às vezes, ao território das curiosas coincidências. Jano (de janua, porta) em português seria Jânio e creio que não aconselharia este nome a ninguém já que é o "deus do olhar divergente", o que pode ser até simbólico mas pouco estético. É também o deus dos dois rostos - um olha para o passado, o outro para o futuro - e a primeira moeda cunhada em Roma trazia a sua efígie. Jano era adorado e temido.
Nas passagens do ano, somos todos tentados à retrospectiva e à perspectiva. Olhamos para trás, na tentativa de entender o que passou, e para a frente, na veleidade de adivinhar o que virá. O deus tutelar de todos os começos continua vivo dentro de nós.
Não sou muito otimista quanto ao que fizemos no passado. O crescimento da população e o aumento vertiginoso da miséria; a falta de água, já estrategicamente disputada pelas potências; o desemprego mundial; o lixo radioativo que se acumula e ninguém sabe o que fazer com ele; o aumento da temperatura média e suas já previsíveis conseqüências não me deixam muito tranqüila quando olho para a frente. Mas, democraticamente, entendo que a verdade deve estar mais próxima do olhar coletivo do que da perspectiva individual e tenho procurado nos jornais e na Internet o que mais preocupa os cidadãos nesta passagem de ano. Surpreendem-me, os cidadãos.
O fichamento e as digitais dos americanos que nos visitam, ocupam o centro das inquietações nacionais. Todos se pronunciam, apaixonadamente, e a grave questão é discutida até em editoriais.
O segundo lugar, aqui no Rio de Janeiro, tida como a cidade mais politizada do país, é ocupado por notícia local - comentando-a, cartas chegam em avalanche às redações. Nosso equilibrado prefeito decidiu acabar de vez com o costume incivilizado de urinar nas ruas e declarou a "guerra ao xixi". Alavancando a campanha, a frase: "Não foi essa a educação que sua mãe deu para você". Contra ou a favor, mobilizou a cidade inteira. De uns dias para cá, só conseguimos pensar em xixi.
E assim passamos a primeira semana do ano, período dedicado a Cronus, por tradição milenar. Em que seria, talvez, desejável que definíssemos o que corre o risco de se tornar crônico - dentro e fora de nós - e o que ainda tem saúde e flexibilidade suficientes para se modificar.
Como não é impossível chegar a um consenso sobre o melhor detergente para remover cheiro de xixi e graxa dos dedos, creio que nossos problemas têm solução e dá para augurar um felicíssimo 2004 para todos nós!

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