A mão autônoma

| | Commentários (0)

Costumo vagabundear pelos canais da Net e acabo parando no Discovery Health. Não lembro de ter aprendido nada que possa contribuir para a minha longevidade saudável mas descubro algumas doenças incríveis. Foi no Discovery que fiquei sabendo do Síndrome da Mão Autônoma.
É isso: uma das mãos se rebela e passa a agir independentemente da vontade do seu dono. Ele - o dono - apaga a luz quando sai do banheiro e a mão autônoma acende. Ele se cobre na hora de dormir e a mão autônoma o descobre. Ele pega uma maçã e, assim que abre a boca, a mão autônoma a atira pela janela. A outra mão - a tutelada - costuma bater na mão autônoma, instigada pelo dono.
Me convenci de que o melhor regime para o corpo é a monarquia absolutista. Uma autoridade suprema deve comandar e todo o resto viver em vassalagem, sem direito a assembléias, constituições e demais invenções burguesas que só geram bagunça: tem que ser decreto-lei e vocês também concordariam se tivessem visto A Mão Autônoma. A liberdade enlouquece o sistema.
Se o seu corpo funciona direitinho, se você pega um cigarro com a mão direita e a esquerda - fraternalmente - já vai tratando de acender o isqueiro, se a mão direita pega a faca e a esquerda espeta o bife, se a esquerda coça o nariz e a direita continua no volante, você está de parabéns e pode dizer com orgulho que vive numa perfeita monarquia. Ou numa ditadura, como preferir - você instaurou a ordem e não será vítima da mão autônoma.
Estou desconfiada de que ando dando liberdades demais, lá em casa, e já tem alguém pensando em direitos humanos, quem sabe em revolução:
Passei o feriado carioca de São Sebastião no Copa D'Or.
Copacabana é um bairro que tem mania de dourado. Era o bairro da moda nos Anos Dourados. O restaurante do Copacabana Palace, o hotel mais conhecido da cidade, é o Bife de Ouro e seu salão de festas o Golden Room. E agora, mais caro do que o Copacabana Palace - lugar no qual jamais me passaria pela cabeça comemorar o piedoso feriado -, temos o Copa D'Or, onde acabei dando com os costados, premida apenas pelo amor materno.
Explico: todo mundo sabe que é naqueles dias - entre o fim do seguro e o telefonema do corretor, lembrando que ele expirou - que o nosso carro bate ou é roubado. Seguradoras só são empresas lucrativas porque os sinistros, metodicamente, acontecem neste pequeno intervalo, quando estamos descobertos.
Pois é. Foi o que aconteceu, num pequeno e dolorido incidente, que gerou uma pequena cirurgia, com pequeno período de internação, nada grave, tudo pequeno. Mas o seguro estava vencido e a conta - oh, Midas, que não és minha entidade protetora e não transformas em ouro aquilo em que toco -, a conta daria para bancar orgias que nunca fiz no Copacabana Palace, aquelas da Ava Gardner, com direito a jogar cadeiras pela janela. Era uma fatura indecorosa, faria corar um monge de pedra. Mas não são nada monásticos os donos do Copa D'Or, este hospital que pensa que é um hotel 5 estrelas.
E foi lá, na Tesouraria, na hora da saída, que se manifestaram sintomas assustadores.
Entreguei o cheque à elegante tesoureira, que parecia fugida de uma página de Caras, ela observou que eu havia subtraído muitos reais da conta e pediu-me que fizesse outro.
Desculpei-me, envergonhada, e preenchi mais um cheque, agora com o total correto, tive o cuidado de verificar duas vezes. Ela então me pede uma identidade e, já impaciente, torna a devolvê-lo - "as assinaturas não conferem" -, assinei com nome que não uso mais há quase dez anos e não é, evidentemente, o que consta da carteira. Percebi ali o ardil da minha mão autônoma, numa evidente manobra não só para embananar a compensação bancária mas também para imputar-me prática de falsidade ideológica ou qualquer delito grave. É uma meliante, esta mão revoltada com o sistema.
O terceiro cheque foi feito com o vagar de prova do Mobral. A manequim/tesoureira ditou-me tudo, inclusive meu nome, e eu e ela verificávamos cada campo preenchido, antes de passar adiante.
- Agora, tudo certinho - sorríamos uma para a outra.
Estendi-lhe, desprendidamente, aquele cheque pesado como barra de ouro e na mesma hora a minha mão o puxou de volta, num movimento insano e sem comando - juro que meu cérebro não deu esta ordem - deixando perplexa a manequim, que não sabia o que fazer com a metade rasgada que ficou em seu poder.
Aí, já com vontade de chorar por me descobrir portadora de doença grave, talvez incurável, fiz como o sintomático do Discovery - dei uns bons tabefes na mão autônoma e fui para um canto escondido preencher, pela primeira vez na vida, o quarto cheque para pagar uma só conta.
Já havia suspeitado da sua existência (a dela) ao reler textos recentes e constatar palavras intrometidas ou sem sentido, grafadas errado, nas quais nunca pensei mas "alguém" escreveu por mim - ela é não só desonesta como meio ignorantona. Eu mesma, sempre escrevo qüinqüênio com dois tremas; exceção com cedilha; sou cidadã exemplar, fanática pagadora de todas as contas e jamais assino cheques com outro nome.
No documentário do Discovery a mão terrorista quebrava tudo, maltratava seu dono, atacava pessoas, podemos até pensar em reação preventiva americana mas, evidentemente, era um perigo público aquela esquerda.
A minha não - é dissimulada, age nas sombras, numa conhecida tática de guerrilha ideológica, com a clara estratégia de revelar minha ignorância e malícia e me desmoralizar diante dos outros e de mim mesma, coisas da direita.
O feriado passado no Copa D'Or, com água gelada mas sem cafezinho, horas e horas sentada numa cadeira, serviu afinal para alguma coisa: desnudou o inimigo. Assim, estou precisando voltar à linha dura lá em casa, reafirmar os poderes absolutos e baixar um ou outro ato institucional para que nem pensem em botar as manguinhas de fora. Mando eu e estamos conversados.
Enquanto isso, as besteiras que aparecerem por aqui vocês já sabem quem foi.

Envie um comentário

Sobre este post

Esta página contém um único post de Maria Helena Nóvoa publicado em January 23, 2004 10:38 AM.

A frivolidade como estilo de época foi o post anterior neste blog.

Uma Transa Amazônica é o próximo post neste blog.

Encontre conteúdo recente na página incial or look in the archives to find all content.