Achei que a última coluna do nosso Chefe merecia um repeteco e me dispus a escrever um pouco mais sobre pittboys e pittgirls. Mas leiam esta matéria que saiu há dias na AOL.
Assim, sugiro que a coluna de hoje seja aberta e coletiva, escrita nos comentários não só por mim mas por todos nós. Não é preguiça não, gente. É que - algumas coisas - preciso de ajuda para conseguir entender.
As loucas baladas dos paulistinhas endinheirados
Ecstasy, cocaína, maconha, champanhe, sexo grupal e muita arrogância. A reportagem da AOL acompanhou uma balada da Geração $, formada por filhos da alta sociedade paulistana.
Por Rodrigo Brancatelli
A estudante Nicole, de 21 anos, estará daqui a algumas horas desmaiada no quarto 231 do Hospital Alvorada, na zona sul de São Paulo, com a sua calça Gucci suja de vômito e com um cateter na veia por meio do qual ela receberá altas quantidades de glicose para rebater o efeito do excesso de álcool. Nicole mal irá se lembrar de, no espaço de horas, ter fumado dois cigarros de maconha, tomado um ecstasy na forma de coração e outro na forma das orelhas do Mickey Mouse, bebido uma garrafa inteira de champanhe Möet et Chandon e ter feito sexo com dois garotos que nunca viu na vida.
"Comigo tem que ser assim mesmo. Tudo aos extremos", diz a garota, filha de um conhecido empresário do ramo têxtil. "Gosto de dar para um monte de caras, de misturar Prozac com champanhe, de cheirar cocaína até meu nariz sangrar. E não me importo com a sua opinião moralista típica da classe média. Tenho dinheiro suficiente para não me preocupar com você ou com mais ninguém. A minha felicidade está na minha conta bancária", diz ela ao repórter enquanto se prepara para a balada.
Nicole faz parte de uma geração escancaradamente frívola e preconceituosa, formada por filhos de gente muito rica. É a "Geração $", como eles gostam de se definir. Têm a vida inteira pela frente e nenhuma preocupação com assuntos que assombram outras pessoas, como falta de dinheiro ou necessidade de escolha de uma profissão para ganhar a vida. O que mais querem é curtir a juventude com o que acham que têm direito, incluindo drogas, sexo e uma boa dose de sentimento superioridade. Não há limites para eles. Escravos da estética, preocupam-se apenas com a próxima balada ou com a próxima compra. E a decisão mais importante que precisam tomar é qual dos cartões de crédito usar na hora de pagar a conta.
"Eu sou o tipo de pessoa que os pobres e a classe média odeiam porque posso torrar R$ 5 mil em um vestido para usar apenas uma vez e depois encostá-lo no armário", diz Nicole ao repórter. "Não consigo ficar assistindo tevê em casa ou trabalhando em algum escritório estúpido na frente de um computador. Estou acima disso tudo. O dinheiro dos meus pais me possibilita curtir a vida sem preocupações e sem falsos moralismos".
Enquanto fala da vida, Nicole manda o motorista do seu Mercedes preto se apressar. O relógio Armani no pulso, avaliado em R$ 2 mil, avisa que já passa das 23h e todos seus amigos devem estar esperando furiosos na frente da Disco - conhecida como a balada mais cara e restrita de São Paulo, no bairro de Vila Olímpia, zona Sul da cidade. É sábado à noite, e a noite de São Paulo nem imagina o que Nicole e seus endinheirados colegas vão aprontar.
"Demorei porque a besta da empregada esqueceu de passar a minha calça Gucci", brinca a garota com os amigos ao descer do carro. "Definitivamente não dá para confiar em pessoas de cabelo pixaim." Fernanda, filha de um banqueiro que mora no Rio de Janeiro e que mantém casa em São Paulo para temporadas, ri escandalosamente da observação da amiga Nicole. Além de compartilhar da visão do mundo, as duas são fisicamente parecidas. Morenas, baixinhas e superproduzidas. "Empregada é uma droga mesmo", diz a carioca de 20 anos, vestindo um modelito exclusivo assinado pelo estilista Alexandre Herchcovitch. "Todas são ignorantes. É por isso que elas têm de ganhar salário mínimo. É o valor da suas mediocridades."
Fernanda está acompanhada de mais três meninas que aparentam ter a mesma idade e dois garotos já mais velhos, de mais ou menos 25 anos. Todos têm pais ilustres - duas são filhas de empresários bem sucedidos, a outra é herdeira de um fazendeiro do interior paulista, o garoto loiro é filho de político. Apenas um deles é uma incógnita. Seu nome é Carlos, e sua origem nunca foi colocada em discussão pelos colegas. "Um dia apareceu do nada em uma balada, dirigindo um Porshe Boxter e com muitos ecstasys no bolso. Não precisou explicar de onde vem para ser incluído na turma" explica Nicole.
A fila na frente da Disco quase dobra o quarteirão, mas uma nota R$ 50 na mão do segurança é o suficiente para que Nicole e seus amigos a furem. A entrada custa R$ 70 para homens e R$ 35 para mulheres, mas eles desembolsam mais R$ 100 cada um para ter direito a entrar no camarote. "Somos VIP's, merecemos tratamento diferenciado", diz Fernanda, enquanto abre uma garrafa de champanhe Möet et Chandon - a primeira de sete que serão consumidas na noitada, ao custo de R$ 120 cada.
No camarote, fica mais fácil para Carlos disfarçar uma carreira de cocaína que prepara em cima de uma mesinha de madeira. Os amigos brincam que ele tem o nariz nervoso, não consegue ficar um dia sequer longe do pó. Fernanda percebe o gesto e corre para filar um pouco da droga enquanto Nicole, do outro lado do camarote, amassa a roupa cuidadosamente escolhida com um rapaz mais velho que acabara de encontrar. Dias depois, procurada pela reportagem da AOL, a direção da Disco diria que os clientes pegos com drogas ilíticas no interior da casa são colocados para fora.
Depois de duas horas e R$ 890 gastos em bebidas, o grupo decide deixar a balada e procurar algum outro lugar para terminar a noite. Ou melhor, para começá-la de fato. "Vamos para a minha casa, hoje não tem ninguém lá", sugere Fernanda. "Podemos comprar umas bebidas, ligar para uns amigos e fazer a festa lá mesmo. Com quantas pessoas será que eu vou transar hoje?"
A idéia de Fernanda até que foi comportada para os seus padrões. Da última vez que convidou os amigos para ir até a sua casa no Jardim Lusitânia - uma mansão na zona Sul de São Paulo com três salas, sete quartos e duas cozinhas -, ela pagou três prostitutas e dois garotos de programa para animar a reunião. De outra vez, fez uma vaquinha e comprou 100 gramas de cocaína. Tudo foi consumido na mesma noite. Os amigos da garota contam que ela, numa das baladas que deu, fez sexo com três amigos de infância na piscina, ao mesmo tempo, enquanto os vizinhos viam e ouviam tudo.
São quase três horas da madrugada e as Pajeros, Mercedes e BMW's começam a se enfileirar na porta do número 482. Todos da turma são muito parecidos - os garotos vestem camisa de algum estilista famoso e caro, Herchcovitch, Sommer ou Haten, e calça jeans igualmente exclusiva, mas que pareça estar bem suja. Já as meninas só usam preto e não desgrudam de suas bolsas Louis Vuitton abarrotadas de ecstasys, maconha e, eventualmente, camisinhas.
A festinha particular começa a esquentar com uísque 12 anos misturado com energéticos. Fumaça de charuto e música eletrônica tomam conta do ambiente. Para deixar as meninas mais "soltinhas", os garotos preparam um drink especial com vodca, suco em pó light e comprimidos de ecstasy picados em pedacinhos microscópicos. Quando elas se derem conta, já estarão dançando coladinhas sem as blusas e dando beijos calientes umas nas outras para delírio dos caras.
Para a maioria delas, não faz a menor diferença saber se tomaram drogas misturadas à bebida porque a intenção é ficar doidas mesmo. "Essas garotas aí estão loucas para dar", aponta Thomás, herdeiro de um médico famoso e amigo de longa data de Fernanda. "A única coisa que elas têm para fazer na vida é gastar o dinheiro da família. As mais novas, aliás, são as mais danadas. Eu, por exemplo, transei com muita menininha filha de 'sei-lá-quem' dentro do meu Civic ou em banheiros de baladas. Já 'tracei' muitas Lolitas Pilles por aí".
Thomás se refere à escritora francesa de 19 anos, que chocou o mundo ao descrever tudo o que se passa no mundinho milionário de Paris no seu livro de estréia, Hell. A tradução em português chegou às livrarias do Brasil no final de 2003 e vem ocupando lugar de destaque nas prateleiras das livrarias. Nascida em berço de ouro e patricinha assumida, Lolita Pille passou boa parte de sua vida torrando o dinheiro dos pais nas lojas mais caras da capital francesa, desrespeitando regras de trânsito, enchendo a cara em hotéis de luxo e dançando até de manhã nas boates da moda.
Quando se cansou da farra, a garota escreveu 224 páginas denunciando a sua geração da forma mais crua possível. A galera endinheirada de Paris não perdoou. Lolita Pille passou a ser barrada nas baladas VIP's. "A 200 km/h pelas ruas de Paris, onde não é bom caminhar quando estamos no volante, misturamos álcool com cocaína e cocaína com ecstasy", escreve. "Eu sou um produto da Think Pink Generation. Minha crença: seja bela e consuma. Sou a musa do deus 'Aparência', sobre o altar do qual eu queimo alegremente todo mês o equivalente ao seu salário".
Os relatos de Lolita poderiam muito bem ter sido escritos pela paulistana Nicole, pela amiga Fernanda, ou por qualquer uma das meninas que dançam e se beijam sem blusa na sala de estar da casa do bairro paulista de Jardim Lusitânia. "Entrei numa boate aos 14 anos e nunca mais sai", confessa a escritora francesa em Hell, numa de suas muitas tiradas infanto-niilistas. "De qualquer maneira, o que fazemos é vergonhoso. (...) E daí? É você quem paga a conta? Enfim, por hora está bom para mim. Minha única preocupação é o vestido que vou usar hoje..."
O uso de drogas na mansão de Fernanda é tão disseminado que até cinzas de cigarro chegam a ser confundidas com cocaína - e cheiradas sem que ninguém note a diferença. Num canto da sala, três caras fumam maconha e dividem uma pedra de ice (droga sintética, derivada da anfetamina, que parece um cubo de gelo) sem se importar com a presença de um estranho, o repórter da AOL. Noutro, duas adolescentes que não aparentam ter mais de 15 anos cheiram um vidro inteiro de B-25, ou cloreto de metileno, mais conhecido como cola de acrílico. E isso sem falar nas cápsulas de efedrina, de efeito estimulante, oferecidas como se fossem balas de goma.
Nicole, então, já usou e abusou de tudo nesta festa. E mesmo assim ela ainda quer mais. Em uma só tacada, engole dois comprimidos de ecstasy que estavam jogados em cima da bancada da cozinha - um rosa na forma de coração e outro azul na forma das orelhas do personagem Mickey Mouse. "Tô bem, tô bem, ainda tô sóbria", balbucia, pouco antes de tropeçar em uma cadeira e cair estatelada no chão.
Dois caras levantam Nicole e carregam o seu corpo praticamente inanimado para um dos quartos da casa. É o quarto dos pais de Fernanda que a essa altura está chorando copiosamente no banheiro, em uma crise nervosa causada pela cocaína. Nicole acorda e puxa os dois garotos desconhecidos para a cama, tira as calças e começa a fazer sexo sem se preocupar com os olhares curiosos dos que estão olhando pela porta aberta. O show não dura muito tempo - minutos depois, Nicole levanta correndo e tenta chegar até o banheiro. Em vão. Ela acaba vomitando em cima de um dos garotos, no piso de mármore. Vomita tanto que sai até bile.
"Sério que eu fiz tudo isso mesmo?", perguntaria Nicole mais tarde, enquanto deixava o quarto 231 do Hospital Alvorada. O braço direito até doía de tanta glicose que foi injetada na sua veia. Com olheiras enormes, sua amiga Fernanda só tinha forças para responder afirmativamente com a cabeça. "Que saco! Eu sempre apago nos melhores momentos. Mas tudo bem, semana que vem tem mais. Fê, você tem certeza que não foi um plantonistazinho de merda que me atendeu? Porque esses residentes não sabem de nada, ganham uma merreca... Não posso ser atendida por um imbecil qualquer."
March 2004 Archives
Da série cenas que gostaríamos de esquecer:
Hoje eu paguei o maior mico da minha vida. Acabo de adquirir, no mercado de usados da internet, um laptop. Era um sonho de consumo uma máquina de escrever portátil. Estou em plena fase meu bebê, achando ele lindinho, passando paninho no monitor, gravando musiquinha. A bateria dele tá meio fraca então de repente apagou. Normal, fui ligar na fonte só que horror dos horrores ele não ligou! Verifiquei a tomada, os plugs, abri e fechei várias vezes e nada. Liguei desesperada para o sujeito que me vendeu. Quando ele perguntou tudo bem? eu respondi, com a voz embargada e trêmula Na verdade tudo mal. Ele simplesmente morreu. Já tentei de tudo e nenhum sinal de vida. Depois que relatei as tentativas frustradas de ressuscitação, ele suspirou e fez a fatídica pergunta: Você tentou o botão de ligar?
* * *
Eu sobrevivi à minha ignorância informática num mundo globalizado pela única razão de que fui casada por muitos anos com um cara que entende tudo de computador pelo menos se comparado a mim. Daí que eu me permiti cultivar um comportamento blasé com relação a assuntos tecnológicos em geral, já que podia pedir auxílio até para acertar o relógio.
Hoje em dia, separada, precisei aprender muita coisa na marra. Mas quem disse que a vida era fácil?
Eu passo vergonha e no entanto estou aqui, aprendendo a ser uma pessoa inteira e não mais a metade de uma laranja. Às vezes é difícil mas a solidão acabou se mostrando mais rica e menos assustadora do que parecia a princípio. Tenho gostado cada vez mais dela, acho até que ando exagerando. Na verdade não acho não, os outros é que acham, porque o isolamento parece um comportamento depressivo e nós vivemos numa sociedade maníaca, voltada pra fora, para o exagero: saia muito, compre muito, faça muito sexo. Isso é que é produtivo do ponto de vista econômico.
Mas a solidão pode ser muito feliz. Aliás, no que diz respeito ao auto-desenvolvimento, ela é dos estados mais férteis, só perdendo para os encontros grandes e verdadeiros estou falando dos grandes e verdadeiros; um mau encontro perturba a solidão e não faz companhia.
É na solidão que a gente constrói nosso mundo interior e é ele que nos acompanha o tempo todo como interface (olha a metáfora computacional vivendo e aprendendo) entre a realidade e a experiência subjetiva. Ora, se o meu mundo é rico, eu não vou querer consumir tanto, nem assistir qualquer porcaria, nem sair com qualquer um.
Pra ser bem sincera, preciso confessar uma coisa: estou apaixonada pela minha solidão, está páreo duro até pro príncipe encantado.
Não vou fazer aqui um libelo contra o relacionamento humano, muito menos contra o amor, mas olha o nível em que vivemos a maioria de nossas relações. Já experimentei o modelo do casamento por tempo suficiente para ter uma opinião segura, ao menos para a minha vida atual: a coabitação me parece uma promiscuidade desnecessária, somente justificável para fins reprodutivos. Como eu já tenho um filho maravilhoso, isto está definitivamente fora dos meus planos futuros.
Até mesmo um inocente namoro pode transformar-se num tédio se vocês se permitirem ver faustão juntos na casa da sua sogra num domingão de sol. Você vai sentir aquela angústia difusa, resultado da sensação de estar desperdiçando momentos preciosos que poderiam converter-se em um poema ainda que sofrível na leitura de um bom livro ou numa deliciosa, pessoal e intransferível soneca.
O casamento tende a transformar o amor numa espécie (das piores) de emprego público. Você começa empolgado, querendo mostrar que é diferente de todo mundo e não vai se corromper. Mas aí começa a ver que seu lugar é seguro e em seguida vêm os primeiros abusos. Uma falta aqui, uma displicência acolá, as pequenas mágoas e frustrações se acumulando como pilha de processos na mesa da repartição. Se deixar rolar, daqui a pouco tá largando o paletó na cadeira e dando umas voltas por aí. Claro que tem o afeto, o companheirismo e tal mas a rotina pode ser perniciosa, fatal mesmo para o amor.
Não pode querer ter estabilidade no emprego. Tem que viver a escolha do amor o tempo todo, ter a coragem de se recolher de volta a si no momento de viver as próprias dores. Compartilhar o que é bom. O que é ruim, chatinho, cri-cri, cada um vive o seu; o amor não é lixeira. Há que se preservar a beleza do encontro, manter o respeito pela própria solidão e pela do outro. Viver o amor e poder estar só, ter esse trânsito, sem apegos ou cobranças.
Este é o meu ideal romântico, no momento. Ainda não encontrei a fórmula para viver, na prática, uma relação plenamente livre e saudável mas pretendo testar algumas hipóteses experimentais que tenho em mente, assim que encontrar a cobaia ideal. Não estou aceitando ratos nem cachorros; gatos, pode ser (fotos para a redação). Outros bichos serão considerados desde que não grudem nem sejam venenosos. Dá-se preferência aos que possam voar ou, no mínimo, enxerguem longe. E que sejam limpinhos.
Estou muito exigente? Pode ser, mas não faço por menos. A todas essas vou muito bem, só como nasci.
Ainda mais agora que já sei ligar o computador sozinha.
Descobriram um novo planeta nos últimos dias e o sistema solar não termina mais em Plutão - estende-se até Sedna.
Preciso saber mais sobre Sedna porque a simbologia de cada novo planeta descoberto "descreve" o que está germinando no momento da descoberta. O que sei até agora é que Sedna é uma deusa dos innuits, um povo esquimó. Foi dada em casamento a uma ave gigante e levada em seu bico para um penhasco. Tentando fugir do monstro caiu ao mar e poderia ter sido salva pelo pai que vinha visitá-la. Mas, com medo da ave predadora, seu pai lhe batia com os remos nas mãos quando tentava subir na canoa. Com as mãos esfaceladas, Sedna morre afogada e passa a proteger as focas e as baleias. É uma deusa que tem raiva dos homens, principalmente do pai.
A mitologia sempre utilizou os "sete astros sagrados" para descrever funções humanas. O céu visível terminava com Saturno, os planetas além da sua órbita foram descobertos com telescópios e, durante milênios, Saturno simbolizou o limite, o fechamento do sistema. A vida simbólica terminava em limitação.
Urano foi descoberto no século XVIII, em 1781.
O Séc. XVIII foi chamado O Século das Luzes e os "iluministas", como Voltaire, Rousseau, Montesquieu, definindo com novos conceitos os homens e as leis, foram os "anunciadores" de Urano e os precursores ideológicos da Revolução Francesa de 1789, reunidos numa obra comum, a Enciclopédia. Filósofos, escritores, médicos, engenheiros, colaboraram nesta obra gigantesca que reuniu o pensamento do século. Orquestrados por Diderot, os enciclopedistas professavam diversas opiniões políticas mas eram contra os privilégios de casta, o regime absolutista e defendiam o Terceiro Estado, a representação popular. Todos se uniam contra a Escolástica e o domínio da Igreja sobre o espírito humano. Criticaram todas as instituições e tradições do seu tempo, foram perseguidos como inimigos do regime e da Igreja, muitos foram presos e tiveram suas obras queimadas mas construíram uma obra que influiu poderosamente sobre a Revolução de 89 e erigiram o "reinado da razão" em todas as áreas do conhecimento. A publicação da Enciclopédia antecedeu, de alguns meses, a descoberta de Urano e presidiu a Revolução Francesa e a Revolução Americana, a Declaração dos Diretos do Homem e o ideário de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Trouxe uma nova concepção para o indivíduo: o fim da ascensão estabelecida por direito divino. Foram guilhotinadas as cabeças coroadas e a burguesia assumiu o seu papel de classe dominante. Independente das suas origens, o indivíduo uraniano surgido no séc. XVIII podia aspirar ao poder - antes reservado à nobreza - desde que amealhasse capital.
Urano é o Céu sem forma, a fertilidade ilimitada, o caos criador. Depois de castrado mitologicamente por seu filho Saturno, "reaparece" nos céus em pleno séc. XVIII, quando o poder estruturado saturninamente ao longo de milênios culminava no absolutismo. Com Urano, surge um novo estágio simbólico "no mundo de cima" para interpretar o "mundo de baixo" e retorna o impulso prometeico de distribuir aos homens o que era privilégio divino: o poder passa dos reis para as assembléias, dos nobres para os "sans-culottes", da metrópole para as colônias.
Este é mais um mistério fascinante - como o céu desenha com antecedência o que depois vai se manifestar na terra.
O que chegou, com Urano, foi um novo conceito para o indivíduo: uma nova definição para a humanidade de cada um de nós e para as leis que regulam as relações entre os homens. "Todos os homens nascem livres e são iguais perante a lei" é tão óbvio hoje para nós. Mas, para que esta Declaração de Direitos fosse imposta e assimilada, muito sangue foi derramado.
O céu se manifesta através da palavra e da veiculação de idéias. Os dois maiores líderes da Revolução francesa, Robespierre e Danton, morreram impedidos de falar. Uma rouquidão silenciou a voz de Danton na Assembléia e dias depois ele foi guilhotinado. Nas vésperas de ir para a guilhotina, Robespierre levou um tiro no maxilar e não falou mais. A veiculação de idéias, a abolição da censura e o falar livremente são requisitos indispensáveis à cidadania desde a descoberta de Urano e Urano é o primeiro símbolo a dar significado explícito ao coletivo.
Descoberto em 1846, Netuno, o deus dos mares, governa tudo que se afasta do real, do material: o irracional, os sonhos, as drogas, a imaginação, o escapismo, a anestesia, a dissolução no todo.
O conceito netuniano de "todo" vai se modificar a partir do século XIX e passar a descrever também as "massas".
No ano da descoberta de Netuno, aparece na Europa a obra do filósofo e economista Pierre Proudhon - O Sistema das Contradições Econômicas (itálico, por favor) ou A Filosofia da Miséria(it), onde são preconizados o aperfeiçoamento e a reforma do capitalismo emergente para pôr fim à miséria por via pacífica e assegurar a prosperidade de todos sem luta de classes ou revolução social. No ano seguinte, Karl Marx publica A Miséria da Filosofia e sustenta que a verdadeira causa da miséria das massas é a opressão do trabalho pelo capital; mas que, no seio da sociedade capitalista, cresce e se organiza uma classe nova, o proletariado, que sepultará o capitalismo e construirá uma nova sociedade. A condição para a emancipação da classe trabalhadora - dizia ele - é a abolição de toda e qualquer classe: numa ordem social em que não haja mais classes nem antagonismos de classes, as "evoluções sociais" deixarão de ser "revoluções".
Às vésperas da Revolução de 1848, Marx e Engels publicam o Manifesto do Partido Comunista e seu programa implica na abolição da propriedade privada dos meios de produção e na instauração da propriedade coletiva, o que tornaria possível o "livre desenvolvimento do indivíduo e o florescimento das ciências e da cultura". O apelo que encerra o Manifesto, "Proletários de todos os países, uní-vos", traduz o caráter internacional do movimento. O internacionalismo proletário, divulgado por toda a segunda metade do século XIX, prega a solidariedade internacional dos trabalhadores do mundo todo - por oposição ao nacionalismo burguês - na luta pela paz e pela democracia.
Bem, a União Soviética já se dissolveu e não vou fazer aqui uma discussão capitalismo versus socialismo, só quero lembrar o momento histórico em que Netuno foi descoberto.
No séc. XIX começamos a ver a organização de algo novo - as "massas". Elias Canetti, no seu livro Massa e Poder, diz que a massa tem regras diferentes das regras dos indivíduos que a compõem. É uma entidade própria e não a soma dos seus componentes. O advento de Netuno introduz as grandes massas e regras que ainda nos surpreendem.
A organização comunitária, surgida com a Comuna de Paris, contemporânea da descoberta de Netuno, revive a comuna primitiva que existiu entre todos os povos, na sua fase arcaica de organização social. Na comuna primitiva, os instrumentos, a terra, a habitação, eram propriedade comum da coletividade, da horda ou do clã. A produção era comum, o produto da produção era dividido em comum e não havia classes nem Estado. Com o desenvolvimento das forças produtivas surge, na sociedade primitiva, a primeira grande divisão social do trabalho e a propriedade privada engendrada por ela. Com a separação das profissões e a propriedade privada, a comuna primitiva é destruída e desaparece definitivamente, dando lugar à sociedade de classes, à escravidão e ao feudalismo.
Milhares de anos depois, balizado pelo aparecimento de Netuno no céu, reaparece o conceito de organização comunitária e propriedade comunal: todos os países socialistas reviveram esta forma de organização social enterrada há milênios. O indivíduo não conta, conta o conjunto dos indivíduos, o coletivo: este é o grande processo netuniano que todos vivemos.
Desde que deflagrado, como o processo uraniano, passamos a incorporá-lo e a vivê-lo em vários níveis; não há uma só forma de manifestação netuniana, há várias: dos grandes movimentos político-revolucionários (em que as massas tomam o poder e se tenta a abolição das classes) até à psicanálise (em que se tenta o acesso ao inconsciente, um todo indiferenciado que convive com as pontas de iceberg conscientes que manifestamos), às drogas (que rompem as barreiras organizadas do eu individual), aos grandes movimentos de massa (enchendo shows e estádios para se divertir, dançar, orar, ou se juntando para saquear e agredir). Netuno simboliza tudo isso.
Vivemos um século e meio de poder das massas como nunca houve igual na história da humanidade: a comunicação de massa; os ídolos da massa; a cultura da massa. A massa cria e derruba com a maior facilidade. É a globalização.
Quando Plutão é descoberto, temos o terceiro filho de Cronos aparecendo para reclamar seu reino: os deuses dos céus, dos mares e dos infernos deveriam reinar sobre a Terra, assim foi feita a partilha do mundo entre os filhos de Cronos.
Nesta partilha coube a Plutão o reino infernal - o Hades. O deus do Hades era tão temido que não pronunciavam o seu nome, chamavam-no de Hades (que era o seu reino) ou então por alguma alcunha: Plutão era um pseudônimo cerimonioso para aplacar este deus indesejado - quer dizer o Rico (desta raiz vem a palavra plutocracia e suas correlatas: dominação dos que têm dinheiro).
Plutão foi descoberto em 1930. E, assim como não podemos dissociar Urano das revoluções burguesas do século XVIII e Netuno das organizações socialistas do século XIX, também não podemos deixar de associar Plutão ao surgimento do nazismo. Logo depois do incêndio do Reichstag e sua conseqüente prisão, Hitler assume o poder em 1933 e, desde então, não é mais através de uma "guerra" que as transformações se processam. É através da descida aos infernos.
A partir da descoberta de Plutão, não temos mais a morte como contraponto necessário ao processo de transmutação que é o viver. Temos a fissão do átomo. O átomo - o não divisível - se rompe e a energia liberada é maior do que qualquer outra sonhada até aquele momento. Plutão tinha, realmente, saído dos infernos e passeava pela terra: a destruição ganhava um novo símbolo e surgia o que já foi chamado de "banalização do mal". Depois de Dezembro de 1942, com a fissão do átomo, a vida passou a necessitar urgentemente de uma outra definição.
Em 1945, para acabar com o nazismo e com a mortandade de seis anos de guerra, para se opor à destruição, os Estados Unidos lançam a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki. O mito de Plutão se cumpria e o deus dos infernos fundava o seu reino na terra.
E agora, no século XXI, descobrem Sedna. Não é uma deusa do panteão grego e talvez seu nome seja mudado para manter a tradição. Mero palpite. Mas a estranha coincidência que preside os planetas - que significam peregrinos -, os deuses que lhes atribuem e acontecimentos históricos que materializam o significado simbólico destes deuses, talvez permaneça.
Sedna parece ser uma deusa zangada com o poder do masculino. As deusas femininas podem ficar quietas por muitos e muitos séculos, a energia feminina é preguiçosa. Mas quando começam a matar seus filhos elas acordam e a "ira lunar" é maior do que qualquer outra (vide Medéia): elas se destroem e destroem tudo que têm para se vingar. O símbolo do Islã é a lua crescente.
Mas pode ser também que a vingança de Sedna seja apenas contra o pai. Não passa despercebido o número de jovens que estão assassinando os pais, rompendo o tabu do quarto mandamento.
Pode não ser nada tão grave, pode ser apenas o feminino reivindicando o poder e Sedna condenando as mulheres - já que protege as baleias - a regimes de fome até o século XXII. Faltam-me dados para raciocinar.
Aceito subsídios e sugestões.
Sou das pessoas mais crédulas que eu conheço. Acredito em e.t., deus, gnomo, primata-aquático, atlântida. São coisas que, se não existem, deviam, então acredito e ponto. Só não creio na Santa Igreja Católica e, assim como Pilatos no Credo, não sei o que estou fazendo aqui neste planeta inacreditavelmente violento. Como diria Dundas, devo ter mau carma.
Agora, custa-me crer que um ser humano possa, voluntariamente, mandar pelos ares um trem lotado de proletários e outros esforçados que cedo madrugam e se espremem entre uma e outra estação do inferno urbano para bater ponto nas fábricas, escolas, repartições; pondo a lenha viva de seus corpos na caldeira que move, dia-após-dia, esta nossa diabólica engrenagem. Pessoas reais, de carne e osso, com uma história, muitos sonhos e poucas posses, por isso sacolejavam num trem de subúrbio àquela hora da manhã, na esperança de tempos melhores, mais confortáveis e bem-dormidos. Estão carbonizadas, em pedaços ou sobraram atônitas, chorando de impotência sobre os trilhos retorcidos.
No creo en brutos, pero que los hay, los hay.
Pra mim, isso não tem nada a ver com os separatistas bascos. Al-qaeda? Que nada. Isso é coisa do capETA. Ele pode estar olhando pra você agora e pode nem ter cara de muçulmano, quem sabe até tem olhos azuis. Deve ser rico e parecer um príncipe, certamente tem um séquito a fazer-lhe a côrte porque o poder gosta do mal tanto quanto o mal gosta do poder não por acaso costumam andar juntos. Por serem assim importantes, os príncipes das trevas sempre foram indivíduos acima de qualquer suspeita e sempre cometeram suas atrocidades em nome da Verdade, do Bem, da Liberdade e da Família (a deles, á claro).
Vá-de retro. Que Alah, Oxalá, Jeová nos protejam. Nosso amado e estropiado Jesus Cristo, mais disputado em campanhas de marketing do que Zeca Pagodinho.
Osama nas alturas? (Ele está no meio de nós)
Cruz credo.
Parem o mundo, que eu quero descer antes de chegar no fim da linha.
* * *
Só por curiosidade reproduzo aqui letra do profeta Raul Seixas. Lembrei da estrofe, fui olhar na íntegra e fiquei passada. Impressionante, inclusive o horário do trem! Especial atenção à bomba na última estrofe. São Raul também corrobora minha tese do mal com cara de bom moço.
TREM DAS SETE
R. Seixas
Copyright Warner/Chappell Music Br
Ói, ói o trem
Vem surgindo detrás das montanhas azuis
Olha o trem
Ói, ói o trem
Vem trazendo de longe as cinzas do Velho Aeon
Ói, já é vem
Fumegando, apitando e chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem
Não precisa passagem, nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando
Tá chegando na estação
É o trem das sete horas
É o último do sertão
Ói, ói o céu
Já não é o mesmo céu que você conheceu
Não é mais
Vê, ói que céu
É um céu carregado, rajado, suspenso no ar
Vê é o sinal
é o sinal das trombetas dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus
Deslizando no céu entre brumas de mil megatões
Ói, ói o mal
Vem de braços e abraços com o bem
Num romance astral
Amém..............
* * *
Nada de novo sobre a terra
Desde que o mundo é mundo
Nova farsa pra mesma história
Novas figuras no mesmo fundo
Lutando a próxima batalha
Da mesma infindável guerra
Da morte contra a memória
Do verbo contra o abismo
Da arte contra a miséria
De mim contra mim mesmo
* * *
Errata:
Não adianta rever o verso.
O universo é que está do avêsso.
Ontem fui a um sarau literário em que só havia escritores - não vi leitores - e a inteligência estava no ar, como Chanel número 5 em festa de grã-fino. Cada escritor era uma ilha, cercado de escritores por todos os lados.
Como sabem, escritores são seres inteligentíssimos dotados de faces expressivas, já que todos vivem torturados pelo grave problema de como expressar seu mundo interior. Neles, nenhum gesto é gratuito, como nenhum adjetivo o é. Seus sorrisos refletem tolerância filosófica ou desdém e menoscabo, suas palavras significam no que dizem como no que calam. Sóbrios no trajar, raramente se exibem - qual bigode gentil, retorcem seu talento.
Mas não quero cá fazer uma coluna social porque um escritor só concorda em tomar conhecimento de fofocas quando quem as relata é Proust. Fui contratada para linhas mais modestas e o preâmbulo é apenas uma desculpa porque as escrevo com sono, quando hoje já é amanhã.
A dona deste sítio me recomendou que falasse de Tarô, já que vamos estudá-lo juntas a partir da semana que vem e eu sou a cronista esotérica, o Chefe responde pelo esporte, Dr. P fica com as amenidades, as duas novas colegas ainda estão definindo seu perfil e se não houver ordem na botica a editora fica doida.
O problema é que o Tarô é uma iniciação gnóstica, a gnose andou muito mal falada na última semana, conhecido filósofo desceu-lhe o malho - literalmente, o maleus maleficarum - e eu deveria começar por uma introdução à gnose, à alquimia, à cabala, mas bocejos repetidos me impedem e não consigo pensar de boca aberta, me imponho certa compostura quando penso.
Vou lembrar apenas que o Tarô é uma caminhada simbólica e estudá-lo é estudar os passos de qualquer caminho. Não precisamos aproximá-lo somente das jornadas solenes, como a vida, podemos aplicá-lo a projetos mais simples, como iniciar um romance ou um regime. O que quer que se faça, começa com o primeiro passo, o primeiro passo é o Arcano 1 e arcano quer dizer mistério. Mao (o Tsé Tung) já lembrava que uma caminhada de mil passos começa com o primeiro e ele era um especialista em grandes marchas. Este primeiro mistério é conhecido como O Mago - aquele que caminha.
O Mago começa sua caminhada com o pé esquerdo, se começasse com o direito seria um falso iniciado. A direita corresponde à razão e ao pragmatismo, a esquerda é a paixão. Vida é paixão e somente a paixão provoca a ação. Assim, tudo que começarmos - racionalmente - com o pé direito, está fadado ao fracasso.
A devoção, o sacrifício, como também o crime, são paixões. Sem paixão o mundo pára e o sentido original da palavra paixão não é exatamente arrebatamento amoroso - é sofrimento. E aqui temos o fundamento do primeiro arcano: não há movimento sem um sofrimento que o preceda, a felicidade é paralisante. Qualquer processo se completa em 22 passos, cada um deles um mistério, decifrá-los é uma iniciação gnóstica.
Embora esta reles introdução não esclareça quase nada, prometo ser mais didática nas próximas semanas e meus passos iniciáticos tomam agora o caminho do leito. O contato direto com a inteligência cansa muito.
Nos tempos do Imperador Amarelo, numa aldeia às margens do Rio Lo, nasceu a pequena Chien-Li, prematura e muito amarela, mesmo se comparada à sua gente e ao próprio Imperador.
Temendo pela vida de seu bebê, a boa Sun- Kan implorou ao marido que fosse consultar o santo-sábio Ken-Tsé, que vivia isolado na Montanha do Oeste e dominava o Oráculo das Mutações.
O Sr. Chen teve que empreender, em pleno inverno, a árdua peregrinação até a morada do eremita. Lá chegando, foi recebido sem surpresa por um ancião que sorria muito com poucos dentes e nada dizia.
Após ouvir o relato do homem, o sábio levantou-se e buscou lá dentro da cabana um grande casco de tartaruga, que lançou ao fogo. Acompanhou com estreitos olhos e grandes orelhas atentas cada menor estalo, cada rachadura que se abria, cada transformação provocada pelo calor. Assim ficou toda a noite, em desperta contemplação, até a fogueira se apagar, quando os primeiros raios púrpura já despontavam no oriente.
Ken-Tsé então examinou a carapaça carbonizada para decifrar sua escrita.
Aos primeiros sinais, levantou a sobrancelha esquerda, deixando o Sr. Chen em grande agonia. Parecendo não crer no que lia, foi buscar suas varetas de caule de milefólio. Após longuíssimo ritual suplício eterno para um pai ansioso o sábio ergueu por fim a sobrancelha direita.
E foi assim, com todas as muitas pregas de sua venerável fisionomia puxadas para cima pela admiração, que ele vaticinou:
- Não morre tão cedo mas seu destino é muito incomum. Trará desgosto e humilhação para a família. Depois, virá um grande sábio do Leste para remediar o mal que ela há de provocar.
E mais não disse. O Sr. Chen ficou desolado. Desgosto e humilhação para a família? Ele não merecia isso, cumpria todos os ritos e oferecia, apesar de suas poucas posses, generosos sacrifícios aos deuses e aos antepassados. Mesmo sabendo que viria o tal sábio ao final, isso não parecia muito animador, uma vez que o estrago já estaria feito.
O pobre homem virou-se, cabisbaixo, e tomou o caminho para descer a montanha. O Mestre chamou-o ainda e entregou-lhe um pequeno disco de jade polido, vazado ao centro, preso num fio de lã vermelha. Disse que amarrasse ao pescoço da menina, para firmar seu destino.
A descida, pela aflição que o acometia, pareceu ao Sr. Chen ainda mais penosa que a subida. Ele estava intrigado: afinal de contas, o que é que aquela garotinha poderia fazer de tão grave?
Ah, pensou ele, corando, deve ser daquelas que têm a ...porta-de-jade...em chamas! Então era esse o significado do amuleto, uma proteção contra a luxúria. Ele tivera uma prima-bisavó assim; e as mulheres de sua família levaram 3 gerações pra se livrar da má-fama e voltar a conseguir bons casamentos. Algumas pessoas antigas ainda lembravam das histórias de Kun-Tui, a bela, a louca, a destruidora de lares, que surpreendia os homens nas plantações e os deitava ali mesmo, para que satisfizessem seus exuberantes e insaciáveis desejos. Os homens já não conseguiam mais trabalhar, à espera de suas visitas intermitentes. Houve fome e escassez naqueles anos e um alto consumo de vinho de arroz. As leis diluíram-se, os clãs foram ameaçados pelo desregramento da volúpia. Até que as senhoras perderam a linha e a tocaiaram numa noite de lua cheia. É o que dizem. Seu corpo de deusa nunca foi encontrado.
Tais eram os terrores que assombravam o Sr. Chen quando chegou em casa e deu com a pequena lombriga amarela, enrolada em pobres panos. Mesmo custando a crer que tão triste figura pudesse um dia vir a provocar tal celeuma, não ousou duvidar das palavras do Mestre Ken e pôs-lhe o talismã no pescoço.
Depois de relatar à esposa o que ouvira na montanha, o Sr. Chen retirou-se a um canto, pensativo, deixando-a a chorar copiosamente, debruçada sobre a garotinha que, em seu colo, dormia.
Pela manhã o Sr. Chen comunicou sua decisão:
- Não amarraremos seus pés!
Sun-Kan esboçou uma reação mas, pensando bem, assentiu. Acreditava-se que o estiramento muscular provocado pela deformação dos pés tornasse a mulher mais satisfatória do ponto de vista sexual. Pés bem pequenos e torcidos indicavam feminilidade e eram atraentes aos olhos masculinos. Não amarrar os pés de uma moça era quase uma condenação ao insucesso na corrida matrimonial mas, diante da perspectiva da desonra, esta parecia uma boa alternativa, uma indução ao recato.
Assim cresceu Chien-Li, com seus enormes e estranhíssimos pés normais.
Talvez por força do amuleto, ou pela excessiva soltura dos pés, ou talvez pelas dificuldades do parto prematuro foi o que pensou sua mãe, ao tentar encontrar uma explicação Chien-Li aderiu sem dificuldades a uma vida casta mas revelou-se um tanto incapaz. Simplesmente não aprendia as coisas como as outras crianças. Até os cinco anos foi de uma mudez constrangedora, não ensaiava nem o tatibitate.
Quando rompeu o silêncio, saiu-se logo com esta:
- Por quê o céu?
Passado o espanto, todos caíram na gargalhada. Nunca tinham ouvido nada tão estúpido e sem sentido. Esta foi apenas a primeira de longa série de tolices; ela não parou mais de fazer perguntas idiotas, uma atrás da outra. Queria saber do cego é bonito aí dentro? e do velho quanto tempo falta pra você ficar novo outra vez?. Sua mãe não sabia onde enfiar a cara.
As risadas foram dando lugar à censura, quando ela já não tinha idade de ser tão parva. Na adolescência, tornou-se retraída. Quando começou a fazer perguntas embaraçosas sobre o próprio corpo, sua mãe mandou pensar mais e falar menos. Ela procurou seguir o conselho materno mas, às vezes, deixava escapar alguma. Uma vez, durante os importantes preparativos para a festa de ano novo, ao adornar o altar dos Sábios Veneráveis, perguntou em alto e bom som:
- Por que as mulheres sábias não estão no altar?
Sua mãe apressou-se em repreendê-la pela blasfêmia, onde já se viu colocar mulheres junto aos Veneráveis? Mas o mal estava feito. À hora da festa, toda a aldeia já sabia da ignorância de Chien-Li, que desconhecia as diferenças entre homem e mulher. Tal confusão revelou-se novamente em sua infeliz resposta a um improvável pedido de casamento.
Lá pelos 14 anos, contrariando as expectativas, Chien-Li atraiu a atenção de um bom rapaz, que quis casar-se com ela a despeito de seus modos estranhos e seus pés compridos. Seguindo os costumes, dirigiu-se primeiro aos pais dela que estavam a um passo de esquecer a agourenta profecia. Tendo obtido permissão, foi perguntar à jovem se aceitava desposá-lo.
Ao que ela, na falta de uma certeza, respondeu com a pergunta:
- Se você fosse eu, e um rapaz assim como você lhe pedisse em casamento, o que diria?
O rapaz não entendeu muito bem mas, na dúvida, ficou ofendido. Como é que ele, sendo homem, poderia ser cortejado por outro homem, ainda que fosse ele mesmo? Calou um silêncio magoado e foi-se embora sem oficializar o contrato. Chien-Li suspirou, talvez aliviada.
E assim perdeu sua única oportunidade de viver uma vida normal.
Tendo ficado solteira e sendo, portanto, um fardo, procurava ajudar em casa e dar pouca despesa mas percebia a decepção que causava a seus pais o fato dela ser assim como era.
Um dia perguntou ao pai:
- Por que não me amarraram os pés?
O pai, que já andava exasperado e voltara a pensar no oráculo, desabafou:
- Para que você não arruinasse a família. Mas em vez de luxúria, acometeu-lhe a estupidez crônica, o que vai nos levar para o mesmo buraco. Não adianta lutar contra o destino!
Chien-Li viu o pai chorar pela primeira vez.
Depois desse dia, não foi mais vista; simplesmente desapareceu. Sua mãe adoeceu, seu pai arrependeu-se amargamente de suas palavras mas, com o tempo, conformaram-se e a verdade é que a vida correu mais tranqüila desde então. Somente muitos anos mais tarde, já perto de morrer, Sun- Kan voltou a mencionar o nome da filha:
- Jamais poderei perdoar o que você disse a Chien-Li.
O Sr. Chen defendeu-se como soube:
- Você é que não conseguiu fazer dela uma menina como as outras. As mulheres de sua família, aliás, sempre foram meio esquisitas, minha mãe bem que avisou.
- Olha quem fala, bisneto da tarada-do-arrozal...
- Bisneto, não; ela era prima da minha bisavó!
...e assim acabou a paz de superfície que reinara ali toda uma vida.
Mais ou menos por essa época, espalhou-se a notícia de que um grande sábio um Venerável Mestre da Luminosa Senda do Vazio Perfeito se aproximava da aldeia pela estrada do Leste. Sun-Kan foi com grande alegria contar a boa nova ao marido e até esqueceu que andavam de mal. O Sr. Chen imediatamente recordou-se das palavras do eremita e compreendeu que a ajuda prometida estava a caminho, para consertar os estragos causados por sua filha.
O ilustre peregrino afinal chegou e o Sr. e a Sra. Chen foram ter com ele, que já estava cercado por uma penca de aldeões. Mas o tal velho, ao que parece, era mudo ou não gostava de falar. Após escutar uma pessoa, rabiscava alguns ideogramas num papel e os entregava em silêncio. Mal se lhe via o rosto, sombreado por grande capuz de onde projetavam-se a barbicha e os bigodes em três tufos brancos, longos e bem aparados nas pontas. Sua figura pequena era quase cômica, andava descalço e em andrajos. Contudo suas enigmáticas mensagens, geralmente interrogativas, embora estranhas à primeira vista, levavam as pessoas a reflexões transformadoras.
Os dois velhos mal agüentaram esperar muitas horas por sua vez. Quase pela manhã, já exaustos, puderam enfim contar ao sábio, entre lágrimas, seu drama com a filha desaparecida. Receberam estas palavras numa folha de grosseiro papel de arroz:
- Como podem lamentar a sorte de quem vive na abundância de sua esplêndida morada?
Os velhos abraçaram-se, exultantes. Aquilo parecia querer dizer que sua filha encontrara um bom lar, um marido, uma família enfim! Teria filhos crescidos, quiçá netos, na aldeia vizinha. E pelo visto, se o velho não exagerava, era muito rica.
No dia seguinte o Sr. Chen quis ver o sábio novamente, para saber se interpretara corretamente suas nobres palavras, mas este havia partido antes mesmo do amanhecer. Na pressa tinha esquecido sua bagagem, uma modesta trouxa com poucos pertences. Os aldeões resolveram após rápida e unânime votação abrir a sacola, onde encontraram apenas uma caixinha contendo cola de arroz e longos chumaços brancos e muito bem aparados de pelo de cabra, embrulhados em papel grosseiro onde se lia, numa fileira de intrincados rabiscos:
- Qual a diferença entre um idiota e um sábio?
Foi uma criança que encontrou, no fundinho da bolsa, o amuleto de jade, amarrado no que restava de um fiapo de lã vermelha.
Chien-Li não voltou a ver seus pais mas, ainda assim, eles puderam morrer felizes. Sua imagem sem rosto sob um capuz, adornada pelo disco vazado símbolo do oco fecundo, da plenitude do vazio, da mulher, da concubina, dos loucos e dos santos foi entronizada com grande pompa no altar dos Sábios Veneráveis. Sua família passou a gozar de excelente estima social na aldeia por muitas e muitas gerações.

Na verdade, não gosto de viajar. Me cansa. Prefiro dormir na minha cama, sonhando que estou no Taj Mahal, a encarar o desconforto das camas indianas e, depois de muito chão, chegar aos jardins do Taj Mahal, tirar umas fotos e mandar para os amigos, com aquela seta indicando um ponto vago, sabem como é? "Eu estive AQUI. Indescritível".
Prefiro sensações que possa descrever - até para mim mesma - e assim me convencer de que, realmente, me diverti. Não tenho alma de turista, aliás, não tenho nem máquina fotográfica e nunca me inscrevi num programa de milhagem. Já vi do mundo o que queria ver e gosto de férias no Rio, com dias vagabundos, acordando tarde, praia ao pôr-do-sol, cinema, restaurante, papo e amigos. São as férias ideais.
Mas passei um mês no Amazonas porque tenho saudade se fico muito tempo longe da floresta. É talvez o único lugar em que viveria, se tivesse que viver fora do Rio. Embora seja uma ficção para muitos brasileiros, posso garantir que a Amazônia existe mesmo e é mais do que enredo da Beija-Flor: é tucunaré com pimenta mucuri, que queima o lábio e arde a alma; incenso de kanau-aru, que fecha o corpo para sempre; teia de aranha-tecelã, que faz sonhar; um certo lago perdido e estranhas experiências. Que começam já no avião, quando os ventos mudam de direção, faz-se o vácuo e tudo que é leve corre o risco de se desmanchar no ar. Os passageiros ficam assustados.
Não tenho medo de avião, gosto muito de voar. O problema é que aviões me levam para longe do Rio e o ideal seria pegar um avião, me empapuçar com todas as comidas de bordo e, horas depois, voltar para dormir em casa.
Andei de avião pela primeira vez já aos 18 anos, que na minha época ninguém ia para Disney no Jardim de Infância - eu ia para a casa da avó, no interior, o que era muito bom, e ia de trem, o que era melhor ainda. Adoro trem e, como vocês podem ver, até gosto de viajar, só não gosto de chegar.
Meu primeiro vôo foi para a Bahia. Na época eu era da UNE - aquela antiga União Nacional dos Estudantes, já ouviram falar? - e a UNE organizou um congresso internacional na Bahia. As delegações estrangeiras iam chegando e, depois de dois ou três dias de turismo no Rio, nós as despachávamos para Salvador. Como estudantes sempre foram muito organizados, às vésperas do congresso descobrimos que não havia mais passagens para o "pessoal da casa". Quem quisesse ir, teria que ir por conta própria. Eu não tinha conta própria - e, se tivesse, não teria fundos - mas tinha uma tese para apresentar no congresso e não podia ficar fora desta festa que, afinal, ajudei a organizar. Foi quando alguém me disse que a Varig podia ceder algumas passagens de cortesia.
- E quem manda na Varig?
- Rubem Berta.
Assim, lá fui eu para o prédio da Varig, creio que no centro, na Rua México, com a petulância dos 18 anos, procurar o presidente da empresa.
Não lembro de deixar identidade na portaria nem de me pespegarem crachás pela roupa, os tempos eram outros. Havia uma sala de espera e uma secretária, já entrada em anos, que me perguntou o nome e o assunto da entrevista.
- Diga ao Dr. Berta que Maria Helena Nóvoa quer falar sobre assunto pessoal e de seu interesse.
Li algumas revistas e fui levada à presença do poderoso chefão, sentado atrás de uma escrivaninha.
- E aí, Dona Maria Helena, qual é o importante assunto do meu interesse sobre o qual vamos conversar?
- Bem, eu disse que Maria Helena etc., queria falar sobre assunto do seu interesse. Seu, dela. Logo, meu. Na verdade, o interesse é meu.
- Ahn - ele meio que riu. - E do que se trata?
Expliquei a minha triste situação de desvalida "sem passagem", a perda para a cultura nacional se eu não apresentasse a minha tese e respirei fundo:
- Quero uma passagem para a Bahia. Ida e volta.
- Muito bem. - Escreveu qualquer coisa num papel. - Mas me diga uma coisa, Dona Maria Helena (e me chamou de Dona o tempo todo, apesar de ter idade para ser meu pai; talvez meu avô), esse congresso aí da UNE... é tudo comunista, não é não?
- Tudo.
- E por que a senhora vem pedir passagens para um burguês capitalista como eu e não para um mecenas comunista?
- Não existe, Dr. Berta. Todo comunista é duro.
- É verdade - concordou.
Não me disse que sim nem que não mas pediu informações sobre a minha tese e deu alguns palpites.
- Quando gostaria de ir?
- O mais rápido possível. As comissões vão se reunir amanhã.
- Minha secretária vai lhe dar uma resposta ainda hoje - e deixou o suspense no ar.
Logo depois que cheguei em casa, ligaram para avisar que as passagens estavam à minha disposição no aeroporto e no dia seguinte eu embarcava, me sentindo "apenas o máximo" porque não haviam ainda inventado a "rainha da cocada preta", o que descreveria melhor minha euforia baiana.
Não tive medo nem fiquei tensa, quando o avião decolou. Senti, desde aquele primeiro dia, que voar é das melhores sensações que existem. Não tirava o olho da janela e fumava um Minister atrás do outro, que naqueles bons tempos todos os prazeres eram permitidos a bordo.
Foi quando uma das aeromoças veio confirmar quem eu era:
- Maria Helena?
- Sou eu.
E, logo depois, começaram a servir o almoço numas bandejas todas bonitinhas, não era a esculhambação que é hoje. Serviram o avião inteiro e eu não fui servida. Aí a ficha caiu: minha passagem era cortesia, o que me tornava diferente dos pagantes. O lugar a bordo fora cortesmente cedido mas era a seco. Não haveria almoço para os "bicões".
Virei de costas para a festa de Babette e achatei o nariz no vidro da janela. Não estava dando a mínima. Conseguira o que queria e aquele almoço devia estar uma droga, mesmo. Mas estava com a sensação de que o avião inteiro me olhava, não tinha coragem de virar a cabeça e lágrimas inconvenientes começaram a pingar do canto dos olhos. Aos 18 anos, a gente chora de vergonha; acreditem.
- Maria Helena, por favor.
Foi com dificuldade que tirei o olho da janela. Uma aeromoça trazia um bandejão de prata. Uma outra colocava à minha frente um tripé com enorme balde de gelo e aquele também foi o primeiro dia em que tomei champagne. Francês, é claro. Na bandeja, entrada e prato principal do que seria o "menu" da primeira classe de vôos internacionais, já havia visto em filme: linho bordado e cristais, um cheiro delicioso e agora, realmente, todo mundo lá atrás olhava para mim. Uma inacreditável jarrinha de prata, uma rosa solitária e um envelope debaixo da flor. O cartão foi guardado alguns anos e não sei em que mudança se perdeu: "Se o seu lado vencer, poupe o meu pescoço. Bom congresso. Rubem Berta".
Nunca mais cruzei com este senhor, nas andanças da vida. Não agradeci mas também não esqueci.
E talvez por isso, adore comida de avião. Como e repito aqueles grelhados secos com arroz à grega, que detesto; não precisam me dizer que o vinho é de última, o refrigerante é aguado e a manteiga é margarina. Eu sei. Mas, lá em cima, eu gosto. Nunca ouviram falar que alguns lugares, coisas ou pessoas nos transformam?
Porque passei o mês de Fevereiro ao lado da floresta e passeei muitas horas de avião, porque tive por lá gula de gorda, o que é raro acontecer no nível do mar, porque alguns sonhos voltaram a ser recorrentes e quem sabe um dia eu os decifro, as férias foram ótimas: apesar de não terem sido exatamente férias e ter trabalhado quase sempre 14 horas por dia.
- O que é de gosto, regala a vida - minha mãe sempre dizia, para justificar esquisitices.
E meu pai, invariavelmente, completava:
- Ou, cada louco com sua mania.
Claro que, sendo eu uma escritora totalmente inédita, de extensa produção incubada, foi uma grande honra ser convidada pela Paula pra preencher este espaço. Uma honra e um baita problema. Mas olha, eu não vou pagar o clichê de dizer que tenho angústia da folha em branco. Não tenho esse negócio não, o problema é que eu não caibo na porra da folha!
Não é tanto que eu seja prolixa (espero que não), mas devo confessar que tenho uma mente patologicamente fértil. Preencho compulsivamente centenas de cadernos com escritos os mais variados. O que não significa nada em termos de qualidade, mas o fato é que com o passar dos anos (e eu já passei dos 30) isso se acumula e faz pressão pra sair.
Daí que, ao saber que poderia dispor deste espaço, começou a travar-se uma luta entre as diversas facções do meu ser.
Um lado Kamikaze ousou propor que eu publicasse em forma de folhetim meu novo romance, que ainda nem escrevi. A sábia Prudência fez-me arquivar esta idéia. O japonês contra-atacou com um dos 127 projetos de contos não-escritos (a latência marca boa parte da minha obra). Desta vez foi vencido pela Preguiça, guerreira poderosa! A Megalomania sugeriu que eu executasse finalmente a grandiosa tragédia-latino-musical em 5 atos sobre a ascensão e queda de Atahualpa. O Bom-senso foi capaz de dar conta dessa. Alguém ainda gritou lá do fundo se eu não podia desengavetar aquela brilhante sinopse de uma novela das 6. Ninguém respondeu. Sorte da Globo, que ainda pode fazer um ótimo negócio por módica quantia a combinar. E, como quem não quer nada, a Musa soprou em voz sussurrada que eu poderia editar minha Poesia Completa, em fascículos. Confesso que corei. Sou muito tímida pra mostrar assim minhas partes íntimas. Sorte de vocês, que podem ainda não estar preparados para minhas revoluções estéticas de gosto duvidoso.
Afinal restaram elas, minhas filhinhas desajustadas, o aspecto mais bizarro de minha pujança criativa: as invenções. Desajustadas porque me falta a linguagem adequada para expressá-las. Bem pior que meu português estropiado é minha matemática pré-primária, que vacila no 7x8 e não sabe fazer divisão por mais de um algarismo, e nem me venha com vírgulas! Muito menos sei fazer desenhos técnicos em perspectiva; Visão Espacial foi a nota mais baixa em meu teste de QI. Também não sou boa em formatar projetos e conseguir verbas para sua execução. Então, por que diabos eu fico inventando coisas que não posso produzir? Pergunte aos meus neurônios!...
E por que diabos vou expô-las aqui?
Bom, sabe aquela mãe amorosa que vê que um de seus filhos não vai além das pernas mas acha que ele tem tanto potencial, quem sabe se alguém lhe desse uma chance...? Aí, na hora de pedir um favor para o concunhado vice-presidente da estatal, pede um emprego justo pra esse filho - o que tem menos condição de ocupar bem qualquer cargo que seja - porque ela acha que os outros mais cedo ou mais tarde vão deslanchar por conta própria. Resultado: o filho competente não deslancha porque não arranja trabalho, o filho-problema dá com os burros nágua e a mãe zelosa passa o resto da vida se penitenciando.
Pois é, burrice maternal não tem cura. O fato é que eu me apiedei das minhas invenções, acho que elas poderiam trazer enormes benefícios à humanidade e, mesmo correndo o risco de vê-las usurpadas, resolvi trazer a público o prof. Pardal que vive em mim (srs. Usurpadores: aceito depósitos dos royalties na minha conta bancária mas, se não for possível, meu nome nos créditos e amostras grátis vitalícias já seriam algum alento). Outro modo de dizer é que tenho idéias pra dar e vender e, já que ninguém compra, resolvi liquidar pra livrar espaço no estoque.
Não preciso nem dizer que houve briga na fila pra ver quem ia entrar na coluna, mas priorizei os inventos de maior impacto sócio-cultural. E não falo de produtos Tabajara, a coisa é seriíssima e profunda, como provarei em seguida.
A primeira invenção é também a mais urgente. Tão necessária e ao mesmo tempo tão simples que causa-me assombro que ainda não a tenham inventado: trata-se de uma mãozinha para passar filtro solar nas costas. Não ria ainda; pare e pense: há quanto tempo você precisa de uma e não sabia? Como aquela, que o vovô já usava pra coçar as costas, mas dotada de uma esponjinha para espalhar o filtro nas áreas inalcançáveis. Eu estou cheia de umas pintas suspeitas nas costas pela falta de tal produto no mercado. Não adianta fazer campanha preventiva de câncer de pele se a gente não consegue passar o fotoprotetor onde mais precisa.
O amigo desenhista industrial a quem pedi ajuda para desenvolver o projeto, relutante em admitir que alguém tão desqualificado quanto eu pudesse ter uma boa idéia em sua área de atuação, desdenhou do potencial comercial do produto:
Coisa para solitários! - riu-se ele, que é daquelas raríssimas pessoas casadas há anos com sua alma gêmea e feliz para sempre, portanto nunca lhe faltou quem passasse filtro solar em suas costas com calorosas mãos humanas.
Cometeu o erro n° 1 em processos criativos, segundo qualquer almanaque gerencial para o desenvolvimento de criatividade (tipo da obra que é um paradoxo em si mesma): descartar uma idéia por um preconceito.
Mas o descrédito do amigo não arrefeceu meu entusiasmo. Tinhosa que sou, uso a crise como dificuldade-que-leva-à-oportunidade, mais uma vez seguindo a cartilha do criativo de sucesso. Comecei a pensar nessa coisa dos solitários (mais especificamente nas solitárias e nos gays, mas em breve dedicarei algum tempo a pensar soluções para homens em apuros) e cheguei então a desenvolver as versões mais avançadas do produto: mãozinha dum lado, consolo do outro. Em variados tamanhos e formatos, tudo vibratório. Substitui noivo, namorado, amigo e amante, com vantagens. Cabe na bolsa, vai à praia na hora que você quer e não fica olhando pra bunda de ninguém. Além de tudo, é mudo, como os sábios. Sucesso na certa!
Fui pedir ajuda a uma amiga, também versada nos desenhos técnicos, e ela me brindou com essa pérola da mediocridade, tipo da ponderação que, desde que o mundo é mundo, atravanca o progresso:
Se a idéia fosse boa, alguém já teria tido...
A todas essas, ficamos aqui, à beira do melanoma, à espera de que alguém de visão resolva encher os bolsos no próximo verão.
Segunda idéia, também de grande apelo comercial, embora exija um pouco mais de investimento. O nome é genial, e eu patentearia, se não fosse tão caro fazê-lo: Cyber-Coiffeur. Moderno, pomposo. Faria sucesso em São Paulo. O conceito é arrojado. Tecnologia de ponta, chapinhas de última geração, cauterizações a laser de esmeraldas, densitometrias capilares digitalizadas, mega-hair transgênico a partir de células-tronco. Ambiente futurista, meio Barbarella (acho que preciso rever meu conceito de futurista). Mas a grande revolução conceitual é questionar o inquestionável, mexer no imexível, portanto: no Cyber-Coiffeur não haverá sequer um exemplar de Caras! Não, ao invés disso as mulheres antenadas de hoje serão brindadas com um laptop conectado à internet, totalmente customizado para se compatibilizar com as atividades de um salão (e resistir às suas agruras). O potinho para molhar as mãos é um mouse adaptado e o teclado é impermeável para que a ocupada perua possa administrar seus fundos de ações, checar seus e-mails e, hum, dar uma passadinha no site de Caras, que ninguém é de ferro!
Antes que me acusem de elitista, devo esclarecer que meu talento não distingue classe, cor ou credo, e eu também tenho minha contribuição para o Fome Zero. Trata-se de um projeto social-ecológico, uma excelente fonte de desenvolvimento sustentável: O Projeto Jaca-já. Esse eu gostaria sinceramente que alguém desenvolvesse, uma ong ou o que seja, podem usurpar.
Consiste em aproveitar a enorme abundância de jacas da Floresta da Tijuca como fonte de alimentação e renda para comunidades carentes. Explico: a jaqueira, originária da Índia, por sua adaptação ao nosso ambiente e rápida proliferação, tornou-se uma praga nas matas do Rio de Janeiro. Andaram até fazendo matança delas recentemente. Um desperdício. Cada jaqueira dá, facilmente, até 30 jacas de uma só vez. Cada jaca pesa, no barato, 3 quilos. São quase 100 quilos de alimento em uma só árvore, uma montanha de nutrientes que poderiam estar enriquecendo a dieta de nossa população. O problema é que a maioria das pessoas tem aversão à jaca in natura, por causa do cheiro forte exalado por seu visgo. Mas a carne mesmo da jaca é tenra e cheirosa, dando ótimos doces, compotas e outros derivados (juro que é bom, eu adoro!), e seus caroços também podem ser deliciosos se cozidos (parece pinhão) ou torrados (parece castanha de caju). Acho até que o visgo deve servir para alguma coisa, uma espécie de cola, porque o troço gruda que é o cão! Então, se fosse organizada a coleta e o beneficiamento comunitários da jaca, poderíamos utilizar seus subprodutos como reforço de merenda escolar (espero que toda uma geração de escolares não me odeie por isso) e vender o excedente, com renda revertida em benefício da própria comunidade. Seria uma boa forma de controlar a praga e a fome ao mesmo tempo.
A versão nordestina do projeto, em moldes similares, atenderia pelo nome de Já-Cajú.
Enfim, está lançada a idéia, e isso é o melhor que posso fazer.
E, por fim, uma reflexão que me parece gritante, mas eu pareço ser a única pessoa no mundo a formular esta pergunta tão básica: porque fazemos carros que matam? Coloque uma lata em movimento a mais de 100 km por hora e é certo que, em algum momento, ela irá se chocar contra algum obstáculo. Porque não é uma questão de se. Todo carro vai bater algum dia, é só uma questão de quando e com que violência. Mas a colisão é certa. Mesmo que você seja cuidadoso e dirija bem, sempre haverá o momento em que a pilastra sairá andando bem no dia em que você mandou ver na caipirinha. E, por menor que seja a batida, amassa o raio da lata, descasca a pintura. Isso na melhor das hipóteses, porque todo mundo já perdeu alguém querido, ou no mínimo soube de alguma perda humana irreparável em um acidente. O número de acidentes de trânsito com mortes é brutal, mas ninguém parece chocado, enquanto a violência e as epidemias causam grande alarido, exigências de soluções.
Portanto soa meio despropositado, mas não me parece bizarrice pura questionar a premissa de que carros devam ser feitos de lata. Porque não de borracha, ou um plástico resistente porém flexível (talvez feito de visgo de jaca), capaz de absorver o impacto e voltar à forma original, preservando sua integridade e, o que é mais importante, a das pessoas em seu interior?
Bom, e já que estamos questionando premissas, vamos combinar que essa coisa de roda é um conceito meio, digamos assim, pré-histórico. Se já temos a tecnologia da propulsão a ar, poderíamos voar baixo, rente ao chão, sem atritos e sem cair em buracos. Sem falar que trocar pneu, nunca mais. Não seria uma glória? As fábricas de pneus poderiam se dedicar a fabricar as carrocerias, que poderiam ser coloridas como super-melissinhas turbinadas, e eu quero o meu modelo com pochetezinha!
Enfim. Cumprida minha obrigação para com o futuro da humanidade, deixo a vocês a responsabilidade de julgar e fazer cumprir, ou não, minhas pobres idéias.
Poderia falar também de uma tal máquina de filmar sonhos, que o Gil sugeriu numa música, eu comecei a pensar como seria e acabei escrevendo um livro inteiro sobre o assunto. Mas isso já é outra história...
É o que tenho por hoje.
Foi um prazer estar aqui com vocês.
* * *
pensata:
Sou um ser pensátil
portanto inútil.
