Ainda sob o impacto do trem de Madri

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Sou das pessoas mais crédulas que eu conheço. Acredito em e.t., deus, gnomo, primata-aquático, atlântida. São coisas que, se não existem, deviam, então acredito e ponto. Só não creio na Santa Igreja Católica e, assim como Pilatos no Credo, não sei o que estou fazendo aqui – neste planeta inacreditavelmente violento. Como diria Dundas, devo ter mau carma.
Agora, custa-me crer que um ser humano possa, voluntariamente, mandar pelos ares um trem lotado de proletários e outros esforçados que cedo madrugam e se espremem entre uma e outra estação do inferno urbano para bater ponto nas fábricas, escolas, repartições; pondo a lenha viva de seus corpos na caldeira que move, dia-após-dia, esta nossa diabólica engrenagem. Pessoas reais, de carne e osso, com uma história, muitos sonhos e poucas posses, por isso sacolejavam num trem de subúrbio àquela hora da manhã, na esperança de tempos melhores, mais confortáveis e bem-dormidos. Estão carbonizadas, em pedaços ou sobraram atônitas, chorando de impotência sobre os trilhos retorcidos.
No creo en brutos, pero que los hay, los hay.
Pra mim, isso não tem nada a ver com os separatistas bascos. Al-qaeda? Que nada. Isso é coisa do capETA. Ele pode estar olhando pra você agora e pode nem ter cara de muçulmano, quem sabe até tem olhos azuis. Deve ser rico e parecer um príncipe, certamente tem um séquito a fazer-lhe a côrte porque o poder gosta do mal tanto quanto o mal gosta do poder – não por acaso costumam andar juntos. Por serem assim importantes, os príncipes das trevas sempre foram indivíduos acima de qualquer suspeita e sempre cometeram suas atrocidades em nome da Verdade, do Bem, da Liberdade e da Família (a deles, á claro).
Vá-de retro. Que Alah, Oxalá, Jeová nos protejam. Nosso amado e estropiado Jesus Cristo, mais disputado em campanhas de marketing do que Zeca Pagodinho.
Osama nas alturas? (Ele está no meio de nós)
Cruz credo.
Parem o mundo, que eu quero descer antes de chegar no fim da linha.
* * *
Só por curiosidade reproduzo aqui letra do profeta Raul Seixas. Lembrei da estrofe, fui olhar na íntegra e fiquei passada. Impressionante, inclusive o horário do trem! Especial atenção à bomba na última estrofe. São Raul também corrobora minha tese do mal com cara de bom moço.
TREM DAS SETE
R. Seixas
Copyright Warner/Chappell Music Br

Ói, ói o trem
Vem surgindo detrás das montanhas azuis
Olha o trem
Ói, ói o trem
Vem trazendo de longe as cinzas do Velho Aeon
Ói, já é vem
Fumegando, apitando e chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem
Não precisa passagem, nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando
Tá chegando na estação
É o trem das sete horas
É o último do sertão
Ói, ói o céu
Já não é o mesmo céu que você conheceu
Não é mais
Vê, ói que céu
É um céu carregado, rajado, suspenso no ar
Vê é o sinal
é o sinal das trombetas dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus
Deslizando no céu entre brumas de mil megatões
Ói, ói o mal
Vem de braços e abraços com o bem
Num romance astral
Amém..............
* * *
Nada de novo sobre a terra
Desde que o mundo é mundo
Nova farsa pra mesma história
Novas figuras no mesmo fundo
Lutando a próxima batalha
Da mesma infindável guerra
Da morte contra a memória
Do verbo contra o abismo
Da arte contra a miséria
De mim contra mim mesmo
* * *
Errata:
Não adianta rever o verso.
O universo é que está do avêsso.

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This page contains a single entry by Christiana Nóvoa published on March 18, 2004 10:42 AM.

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