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O vício é uma droga

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Se o Marcelo Anthony (é assim que se escreve, como Garotinho?) quer fumar maconha, isto é problema dele. Se fuma maconha aditivada, toma Magnésia Bisurada ou Atalaia Jurubeba, vai à missa aos domingos ou à casa da Mãe Joana - eu não tenho nada com isso. Com aquela calva incipiente, posso apostar que ele é maior de idade. Logo, a vida dele é assunto dele; não meu.
Mas, se o Dudu do Vidigal invadir a Rocinha e mocinho e bandido trocarem tiros no meio de gente que não escolheu participar deste filme, aí, já é um problema meu e da população do Rio de Janeiro.
Na verdade, não sei qual é o interesse das autoridades em ampliar o leque de proibições para em seguida negociar as exceções. Ou melhor, sei. E todos sabemos.
Um dos contundentes argumentos "atuais" contra a legalização das drogas é que os traficantes desempregados - até conseguirem outra atividade tão lucrativa - desceriam o morro e não haveria polícia para dar conta de tanto assalto.
Não creio que o desemprego dos "marginais da droga" preocupe tanto às autoridades. Parece que os que estão no "centro da droga" inspiram mais delicadeza do que a periferia.
Se a droga movimenta um dinheiro fabuloso no mundo inteiro, podemos admitir que parte significativa da população mundial se droga e não apenas o Marcelo Anthony - que deu mole e dançou; o Prof. Fernando Henrique Cardoso - que apenas experimentou; e o presidente Clinton - que provou mas não tragou.
Talvez outros atores, professores, presidentes; espectadores, alunos e eleitores consumam drogas ilegais. Se alguém quer comprar, alguém vai dar um jeito de vender; se alguém vende, algum incauto vai comprar. Não tem jeito. O único jeito é liberar e transformar este problema coletivo num problema individual. Quem sabe, começando por permitir a plantação doméstica da maconha (sugestão aos legisladores)?
Droga é uma droga? Claro que é. Mas ninguém conhece ao certo os mecanismos da drogadição. Nem os meandros da autodestruição. Difícil, falar de drogas e drogados.
Conheço um cocainômano radical que está um farrapo, apesar de ser jovem. Também conheci um alcoólatra de verdade. Este, morreu de beber; foi expulso da Aeronáutica quando ainda era tenente; infernizou a vida da família e com quarenta e poucos anos parecia um velho esclerosado, não conseguia dar dois passos.
Conheço também porristas notórios, que ficam uns chatos na segunda dose, dão trabalho aos amigos que os levam para casa, envergonham os filhos e vomitam em público. Disgusting. Mas, vão levando.
O resto dos consumidores de álcool - e o resto é muita gente, conto nos dedos os abstêmios convictos que conheço - acaba "administrando sua relação" com a bebida. E, apesar de um aumento preocupante do consumo entre os jovens, ninguém pensa hoje numa "lei seca", que jogue na marginalidade um país inteiro. Elevando à categoria de pecado social o chopinho de fim-de-semana, o champagne dos brindes e o vinho da missa.
No entanto, o álcool é droga pesada.
Leis existem, em princípio, para defender a integridade e os direitos do cidadão. Mas, se formos pensar em proibir tudo que possa causar vício, sofrimento ou morte, pouco restaria de permitido.
Conheci três suicidas, todas mulheres, que se mataram por amor. Deveriam proibir o amor às mulheres? Conheço obesos infartados que comem chocolate contrabandeado mesmo dentro do hospital. Deveriam fechar a Nestlé? Conheço zumbis irrecuperáveis que passam suas vidas diante da televisão. Deveriam cassar a concessão da Globo? Alguém conhece alguém que não se destrua em alguma medida?
Cocaína, maconha e ecstasy - as principais drogas comercializadas pelos traficantes - alteram, sim, o estado normal de consciência. Se esta alteração levar o usuário a matar e família e ir ao cinema, puna-se o crime cometido e não o uso da droga que o provocou.
O crime é um problema social. O uso da droga, um problema individual.
Moro no Rio e vivo hoje numa cidade absurdamente perigosa. Se uma bala perdida me acertar, será uma injustiça porque não tenho arma. Escolhi viver na legalidade e não me envolver nem com polícia nem com bandido. Não quero atuar neste filme, os roteiros que me atraíram foram outros.
Não fumo maconha, não cheiro pó e não tomo ecstasy. Das drogas permitidas, sou franciscana com álcool e televisão, uso muito pouco e não gosto de açúcar. Lexotan, tomei uma vez na vida e dormi 48 horas. Achei bom mas não dá para viciar - é um nojo ficar dois dias sem tomar banho.
Porém...
Consumo enlouquecidamente um determinado produto cancerígeno da Souza Cruz. E, se um dia o considerarem ilegal, eu, certamente, vou marcar encontro na esquina com o traficante ou mesmo subir o morro atrás dele, apesar de ser cidadã respeitável. Usá-lo é um direito meu e ninguém me convence do contrário.
Sendo assim, qual é a sutil diferença entre mim e o Marcelo Anthony?

O sonho de Lenora

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tritao.jpgA primeira vez que vi Lenora, ela era um homem. Um senhor que poderia ser seu pai ou até seu avô. Mas parecia ter havido um terrível engano ali, era o que ele me contava como um segredo que precisa desesperadamente ser revelado, ser gritado em praça pública e no entanto, por uma dessas escolhas da vida, havia sido sepultado sob a aparência sólida e absolutamente normal de um chefe de família aposentado.
Antenor procurou-me no consultório e, já na primeira sessão ao divã, contou sua triste história, que não vou reproduzir na íntegra. O que importa é que sua mãe não se conformava em ter um filho homem, dizia que o teria abortado se soubesse e, aproveitando-se das longas ausências do marido militar, criou-o como uma menininha, chamando-o carinhosamente de Lenora. Acrescente-se a isso uma infância vivida entre mulheres, em meio a imagens e notícias da Segunda Guerra – o espetáculo de horror e violência que parecia ser o destino dos homens em contraste com o fútil e harmonioso universo feminino, tão mais acolhedor.
Há mais coisa, sempre há muito mais coisa a dizer sobre alguém mas, com o que temos, posso continuar.
Ela só teve consciência de que era homem quando uma amiga mais velha referiu-se a ele como “bicha”. Foi pesquisar o que era mas não se viu nessa espécie de caricatura do feminino, cheia de maneirismos e exageros que não correspondiam à sua natureza doce e contida. Ela era uma moça suave como poucas mas, no fundo, sabia que era diferente. A natureza não lhe dera um corpo correspondente à idéia que fazia de si mesma.
Então compreendeu que, sendo quem era, só podia ser duas coisas: homem ou bicha. Escolheu ser homem até porque seu pai estava se reformando e vinha finalmente morar com a família. Junto com o pai vieram os hormônios da puberdade e a barba, os músculos, a voz grossa, as garotas. Sim, porque ele ficou um rapaz muito bonito e as mulheres adoram homens femininos.
Agora ele era Antenor e estava prestes a entrar para o exército. Hesitou. Chegou a formular pensamentos de fuga – tentar vida nova como mulher, bem longe dali, onde a vergonha do pai e o desprezo da mãe não pudessem atingi-lo.
Um dia bem cedo foi nadar no mar. Suas costas largas o levaram para além da arrebentação. Lá parou e ficou chorando, olhando o horizonte. As traineiras indo e vindo, um navio lá no fundo, tudo lembrava distância, afastamento; ele só queria ir embora.
Não foi. Voltou, tomou um banho frio e alistou-se nesta mesma manhã.
O exército foi uma pá de cal em sua sensibilidade feminina. Ele aprendeu a ser durão. Criou calo na alma, uma crosta dura e impenetrável que escondeu para sempre suas lágrimas.
Daí em diante foi homem: casou, trabalhou, teve filhos, ganhou um dinheiro razoável e foi muito, muito infeliz. Seu pai e sua mãe não o amaram mais nem menos por isso – pai e mãe não amam o quanto a gente merece mas sim o quanto podem.
Ele se perguntava se tinha valido a pena o sacrifício, achava que não. Estava deprimido, sentia-se velho e cansado. Tinha palpitações intermitentes, uma falta de ar crônica e sua claustrofobia estava piorando com a idade. Tinha pavor de morrer porque ainda não tinha sido verdadeiramente feliz. Pedia-me ajuda e eu não tinha uma cura para seu sofrimento. Não podia dar-lhe um corpo mais adequado, nem o amor de sua mãe, nem sua vida de volta.
Nesta noite eu tive um estranho sonho, do qual não participava senão como espectadora.
Vi Antenor no mar além da arrebentação, de manhã bem cedo, chorando e olhando o horizonte; vi os barcos de pesca que iam e vinham. Vi o que ele via.
Eis que surge um tritão. Belíssimo, pele e cauda dourados, os olhos também. Reluzia todas as cores do sol que se acabava de nascer. Nadava em torno dele como alegre delfim e o convidava a ir mais longe, bem longe mesmo dali. Ele foi.
Ao chegar a uma praia remota, Antenor era mulher. Lenora levantou das águas, exuberante, torceu a longa cabeleira ruiva e foi secar ao sol a escultura que tinha agora por carne. Assim ficou estirada, nua sobre a areia branca, até que adormeceu. Alguns pescadores que estavam por perto vieram olhá-la, em pouco tempo havia uma multidão de homens à sua volta, desejando-a, sem ousar tocá-la, temendo que despertasse.
Ao acordar, Lenora correu para o mar e procurou pelo tritão mas só pôde ver seu corpo dourado sumir lá longe, entre as ondas. Chamou por ele, implorou que voltasse mas só recebeu de volta um murmúrio longínquo, embora claro como água límpida:
- Não me espere, Lenora, viva sua vida. Um dia eu volto.
Vendo-se sozinha, ela percebeu que tinha um mundo a desbravar. Deu-se conta de que estava nua, vulnerável, exposta. Os pescadores, que antes a olhavam à distância, agora vinham ter com ela, faziam gracejos e queriam tocá-la. Estava assustada, eles eram muitos, a cercavam por todos os lados, os corpos suados e curtidos de maresia, peles salgadas, chegavam a machucá-la em sua sofreguidão, deixaram-na tonta com seus bafos a álcool e apertavam o cêrco, sufocando-a até ela desmaiar. Esse foi o início da movimentada e intensa vida sexual de Lenora, que foi a partir de então seu ganha-pão e muitas vezes seu prazer. Teve centenas, talvez milhares de homens. Gordos, magros, carecas, militares, traficantes, teve até embaixadores. Alguns eram mesmo lindos, uns poucos foram gentis, três ou quatro quiseram casar, mas Lenora sabia que estavam só de passagem. Todo dia, ao amanhecer, ia para a praia e ficava olhando o mar, à espera de seu tritão de ouro.
Assim passou-se uma vida e Lenora, como toda mulher, começou a murchar. Foi perdendo lentamente o viço da pele, a firmeza das carnes, o brilho dos cabelos. A clientela foi minguando e ela ajeitou-se, com suas economias, numa casinha de frente para o mar.
De manhã ia para a praia e ficava tricotando sapatinhos para seus muitos afilhados, enquanto lembrava, entre sorrisos, os amigos e amigas que fizera, as farras, as noites de diversão, música e sexo. Gargalhadas e champanhe em festas faraônicas. Ressacas em quartinho imundo de motel barato. Não se arrependia de nada. Mas lá no fundinho de sua alma ainda esperava o tritão e, com o rabo do olho, espiava o mar.
Eis que uma bela manhã sai do mar um homem. Um senhor de sua idade, com olhos dourados e doces como mel. Caminha em sua direção. Ela vê em seu olhar que é ele, não há a menor dúvida. Abraçam-se, beijam-se, trocam palavras carinhosas, juras de amor eterno. Choram juntos um mar de tristezas que já não sentem mais. Só a alegria do encontro, ainda que tardio.
Ela diz que ele lhe dá segurança e a faz amada como ninguém. Ele diz que ela é luz em sua vida, oxigênio para o seu espírito e o faz sentir-se um novo homem.
No meu sonho, Lenora e Antenor foram felizes para sempre. O par alquímico perfeito, Hermes e Afrodite enfim reunidos. E que nem a morte, essa tirana, os separe nunca mais.

Jogo de Damas

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Inventamos desculpas rápidas que nos absolvem quando erramos na profissão, no casamento, no voto, e não encontramos perdão para os desacertos com os filhos. É que criá-los leva muito tempo. E não os criamos com o que fazemos - nossos gestos ensaiados para representar uma boa mãe (ou um bom pai) se perdem no longo cotidiano. Marcamos os filhos apenas com o que somos. O que é lamentável, já que podemos pensar em substituir atitudes erradas por outras, mais eficientes, mas continuamos a ser quem somos; para o bem ou mal dos nossos filhos.
Na semana passada, uma das minhas filhas - a do meio - escreveu neste sítio sobre a sua mãe. Passei a semana remoendo os laços tão estranhos que nos ligam às nossas crias.
Pensei em escrever uma Carta à Filha, não kafkiana, em resposta à coluna do Dia das Mães. Mas preferi transcrever o capítulo de um livro.
Anos atrás, escrevi um livro com uma filha, essa, a do meio.
Sinopse: "separadas por alguns meses, porque a mãe dava um curso em outra cidade, mãe e filha adolescente trocam e-mails enquanto jogam, por correspondência, uma partida de xadrez".
Cada uma de nós escrevia um capítulo (uma carta), dava um lance da partida, e a outra deveria responder, compondo o livro.
Aqueles meses foram um pega pra capar, era ficção e não era, botamos nossa história em dia.
Como só a Christiana tinha Internet - sou relutante às modernidades - nossos textos eram levados de uma casa à outra pela faxineira comum, ou seja, mensageiro, a mais antiga modalidade da comunicação. Anterior ao correio. Estávamos, mesmo, mexendo em coisas muito velhas.
Em resposta à coluna da Christiana, um pedaço do Jogo de Damas. Que ela conhece bem porque o escrevemos juntas. Revide de mãe, é claro. E pedido de desculpas, pois sou apenas quem sou.
"... No Jardim de Infância você era a "repetidora", o que causou alguns problemas. Uma vez a psicóloga mandou me chamar, a escola estava preocupada com a nossa estrutura familiar.
Nessa época você não dormia sem que alguém contasse uma historinha e seu pai não tinha memória para lembrar nem imaginação para inventar, me ligava aflito, quando você passava o fim-de-semana com ele, perguntando o que é que tinha acontecido mesmo com a madrasta e as irmãs da Cinderela, e você de olho aceso na cama, esperando pelo final.
Depois de esgotar João e Maria, Chapeuzinho Vermelho e o Gato de Botas, seu pai passou a desfiar histórias bíblicas (era mais fácil para ele mas você só tinha 4 anos!). Um dia tropeçou numa ponta solta de carpete, quase se esborrachou no chão, você caiu na gargalhada e a instrutiva história daquela noite foi a das filhas de Noé, que "mesmo vendo o pai nu e bêbado não riram dele, como os outros filhos, e ainda lhe deram uma manta para se cobrir".
Não deu outra. No dia seguinte, na "rodinha das novidades", você contou para a professora que nunca ria do seu pai quando ele chegava em casa nu e bêbado.
A psicóloga queria que você fizesse terapia para filhos de alcoólatras. Por mais que eu afirmasse que seu pai era abstêmio, não acreditaram. Eu dava detalhes: quando saíamos ele pedia milk-shake, eu é que pedia chope, e os garçons sempre colocavam o leite na minha frente e o álcool na frente dele. Podia ter muitos defeitos, até tinha, mas não esse - só bebia leite, o que para mim era um defeito, como continuar casada com alguém que come feijoada com milk-shake?
Aos 6 anos você era "líder", gostava de espinafre e esmurrava os garotos da turma.
Aos 9 era "Maria-vai-com-as-outras" e telefonava mil vezes para Silvana, Fabiana e Luciana para saber com que roupa iam para o colégio, qual a cor do elástico do cabelo, se devia usar brinco ou não, tudo tinha que ser igual, os cadernos, a agenda, o tênis, a calcinha. Eu não acertava nunca e você chorava a cada presente que eu lhe dava, "não posso usar, ninguém tem uma mochila igual a essa".
Aos 10 era "protetora de animais", usava a camiseta da associação e trazia para casa gatos e cachorros abandonados, hamsters e tartarugas maltratados no play-ground, fora filhotes de aranha e "abelhinhas perdidas da colméia". A casa fedia, por mais que eu mandasse a Nilza passar desinfetante de eucalipto no chão todos os dias.
Aos 11 você salvava os mendigos da porta do colégio e limpava a geladeira. Junto com a carne assada, o arroz e o feijão, ia o meu frango do regime e o iogurte dietético. Da casa do seu pai levava meias, cuecas, suéteres e, uma vez, duas gravatas italianas. Neste dia ele ligou muito bravo, nem te chamei, e, se pudesse, se divorciava de mim pela segunda vez.
Foi uma longa noite de debates, quando você quis trazer o mendigo que cheirava éter para morar conosco: "tão bem-educado, mãe, tem até o segundo grau, ficou assim depois que a mulher morreu". Eu votava contra, você a favor; e o nosso democrático plebiscito sempre terminava empatado. Até que eu tive que instaurar a ditadura.
Quando fez 13 anos você entrou para uma academia de ginástica, queria malhar para ser surfista. Aos 13 anos e 2 meses abandonou a academia, deu as malhas para a filha do porteiro e foi fazer meditação zen. Aos 14 começou a fazer teatro, aos 15 continuou... o teatro está durando.
Não pára não ... continua sendo Desdêmona, Miranda, Julieta... eu reclamo porque sou sua mãe e mãe sempre reclama, bolas, mas eu gosto. Gosto dessa bagunça em casa, do entra e sai, das minhas roupas divididas com o elenco e do meu batom que acaba numa tarde. Vou continuar reclamando e aplaudindo, sentada na primeira fila e dizendo para quem está do lado: - Está vendo aquela bonitinha, com laço verde nas tranças, vestida de Julieta? É a minha filha.
Gosto do seu jeito e do seu grupo, dos que fazem manifesto, teatro, às vezes são reprovados, tomam porres, enfrentam os padres. Podem não ser os filhos mais fáceis mas são os que fazem mal principalmente a si mesmos e não aos outros.
Vocês, como o resto do mundo, tentam equilibrar todos os dias o que têm para dar e o que esperam receber. Alguns, a maioria, correm atrás do que é bom para si, ainda que seja péssimo para os outros: são os competitivos, os que arrasam o adversário, os que se dão bem a qualquer preço. Estes talvez causem menos inquietação aos próprios pais - são os vencedores.
Seu grupo não se preocupa em se dar bem mas se ocupa em dar alguma coisa de bom, não lucra nada com isso mas tem um enorme prazer em fazer as suas peças, compor as suas músicas, escrever sua poesia - são os indispensáveis.
Tento botar seu pé no chão, às vezes tenho medo que você saia voando, caia lá de cima e se esborrache. Mas detestaria ter uma filha que vivesse só na terra, atolada no bom-senso.
Não fique triste, o sonho não acabou, é só o ano que está acabando. E no ano que vem você encontra amigos novos, a gente sempre atrai o semelhante. E vão invadir a casa de novo, e depenar o meu armário,
eu vou reclamar e vai ser de mentirinha, e você vai crescer parecida com a filha que eu sempre quis ter.
Hoje de manhã, enquanto guardava roupas e jogava papéis fora, pensei no que iria pedir quando o avião levantasse vôo, porque procuro sempre um lugar mais alto para rezar, no final do ano, nem que seja subindo numa cadeira, já que tenho a certeza de que Deus nos vê e nos ouve mas não habita entre nós, nesse mundinho podre, paira lá por cima. Como nem tenho uma religião mas me entendo com Ele e procuro seguir Seus mandamentos, queria aproveitar as alturas e fazer alguns pedidos, como todo filho faz.
Batalhar, sofrer, chorar, ter medos grandes, pequenas alegrias e nunca possuir a certeza de como será o dia de amanhã, é parte da realidade de quem está vivo, já me acostumei e nem peço para nós destino diferente - tenho pedido luz para te criar direito. Mas pensava num pedido único, definitivo, que resumisse o que realmente é importante, valesse para os próximos anos, até o fim da minha vida, e garantisse a minha felicidade.
Não consegui pensar nada de novo, só me ocorreu a reza de sempre, filha, o que peço a Deus todas as noites, desde o dia em que você nasceu: Ele pode me tirar tudo, eu vou esbravejar mas agüento, só não me leve você. E que a gente siga... com carinho, com raiva, com crises, com acertos e arrependimentos... MAS JUNTAS! Porque eu gostaria de ficar perto de você numa vida nova e em todas as outras vidas, se fosse possível.
Acho que amor é isso.
Mãe"

Estuprada por um Orangotango

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Além de verbete de enciclopédia, IAL é homem voltado para as coisas do espírito e observa filosoficamente o mundo enquanto acende o seu cachimbo Dunhill, operação demoradíssima e sempre executada com longos fósforos, jamais com isqueiros.
Amante da literatura, divide as épocas pelos gênios que engendraram; nunca menciona o século XIV, diz: na época de Bocaccio. O XIII é de Dante. O século XX pertence a Borges. E preocupa-se bastante com os caminhos literários que estão ameaçando o século XXI, estes tempos de Eros e Tânatos, como designa o presente, já que ainda não leu e talvez não leia nunca - o que lamenta bastante - o escritor que nomeará o século. Mas procura adivinhar para onde irão as letras quando já não estiver mais aqui. Falava-me sobre este rumo incerto, enquanto escolhia a entrada.
IAL é naturalmente refinado e pede um sauternes com pâté du Périgord. Não me reprova quando digo que vou continuar no uísque mas atentamente pergunta se eu gostaria, então, de alguns amendoins. Divagávamos sobre Eros já que a presença de Tânatos é uma obviedade, não gera boa discussão, e com este senhor deve-se sempre discutir porque é polemista nato e dá o melhor de si quando discorda. Afirmei que fazia fé no "eros" da literatura contemporânea.
Olhou-me desgostoso e, já que é adepto dos prazeres da carne, sugeriu um Steak Tartare acentuando o "e" final. Um Tartar poderia vir à moda inglesa - desprovido de determinada especiaria que mencionou mas me escapou - , o que comprometeria a receita clássica. Delicadamente quis saber o que li de erótico, publicado nos últimos quatro anos.
- Nada, na verdade. Mas procure na Internet que deve ter gente boa escrevendo sobre este tema grato.
- É o que tenho feito.
E fez a felicidade do somellier quando se decidiu por um Hermitage La Chapelle 1997. Que dividi prazerosamente com ele, já que só me recuso aos adocicados.
- Peço licença para mencionar apenas alguns títulos de contos eróticos da safra atual, já que o texto não permite que se avance mais do que três linhas e é deplorável indução à castidade.
Dos quinze ou vinte que desfiou, poucos podem ser reproduzidos. Não por moralismo mas por elementar bom-gosto, já que palavras voam e escritos ficam. Algo como:
" Swing em família"
"Minha filha também quis"
"Eu e meu pastor no escurinho do canil"
"A família buscapau"
"O que mamãe me deu de aniversário"
"A mangueira que apagou o fogo da minha filhinha"
- O que está acontecendo? - ele indagava. - Falta-nos imaginação?
- Temos a quota de sempre, eu acho.
- A geração do meu pai ficava doida com o strip-tease da Rita Hayworth; e Gilda só tirava as luvas. A minha ia ver Les Amants, do Malle, e tinha fantasias para um mês.
- As mulheres não podem tirar todos os véus; sábias são as orientais e não as mocinhas das capas de revista. Primeiro, tiraram quase tudo. Depois, tudo mesmo. Depois ainda, com gestos forçados que imaginavam sensuais, expuseram as partes mais recônditas. Não sobrou nada. Mas a imaginação precisa de alimento. E de proibições. Ninguém sonha com o permitido.
- Aí, só restou o tabu.
- É. Incesto. Zoofilia. E o que mais inventarem.
- E pensar que a visão de um tornozelo já provocou ereções.
- Pois é. O que é barato não provoca o desejo. Vai beber o que, depois do café?
- Pensava num armagnac. Topas?
Um sábio, meu amigo Senhor IAL.

O cara suspira fundo com ar de enfado e solta uma exclamação em alemão. Depois olha pra sua cara e diz “não é?”; você, que não entende vírgula de alemão, concorda no ato: “sem dúvida”. Vai discutir com um cara que sabe mais que você? Qualquer barbaridade que ele diga, se for em alemão, será pouquíssimo questionada. Tá bom, poliglota, você fala alemão. Mas deve ter alguma coisa que você não saiba, aramaico talvez. E sempre terá um chato para fazer uma citação em aramaico e te humilhar.
A incompreensibilidade é um véu que oculta facilmente um conteúdo pobre ou mesmo falso. Ela criptografa o malogro, tornando a contestação quase impossível. Porque assumir a incompreensão revela lacunas do nosso conhecimento que procuramos a todo custo ocultar. Concordar é tão mais simples, fingir que entendeu e dizer “sem dúvida”. Especialmente se houver uma massa de pessoas fazendo o mesmo.
É o que chamo de efeito “roupa nova do rei”. Você deve lembrar da fábula onde uma dupla de espertalhões vende ao vaidosíssimo rei um traje carérrimo e high-tech, cujo tecido teria a singularidade de só poder ser visto pelas pessoas inteligentes. A roupa, que nunca existiu, foi elogiada por todos quantos a não-viram, envergonhados pela constatação da própria burrice. Até que uma criança – são sempre os tolos que ousam discordar – denuncia a farsa em alto e bom som. Contagiados por tamanha espontaneidade, todos vão assumindo que não enxergavam nada ali. O rei, soberano também no orgulho, foi o último a admitir que estava nu.
Eu, que sou meio tola, sou do tipo que discorda. Nem sempre em alto e bom som, que é pra não ter muito trabalho, mas vejo que a maioria das autoridades que se exibem por aí muito garbosas de sua erudição estão é peladonas, com tudo balançando. Quanto mais pé-de-página, menos sobra de consistência, se for espremer. Quem sabe o que diz não precisa complicar. Ao contrário, pode ser claro e acessível. O que o manipulador oculta, buscando vantagens pessoais, o verdadeiro sábio revela, em benefício de todos. Naturalmente os embusteiros podem ter mais poder, dinheiro e adeptos que os sábios. Isso ocorre desde que o mundo é mundo e deve haver uma explicação bem complexa para tal fenômeno mas, na minha opinião, é uma simples questão de fé, na pior acepção do termo. Má-fé de quem “veste a roupa” de gênio, boa-fé de quem enxerga pano onde não tem.
O mal dos farsantes é que eles pelados não têm a menor graça e até podem chocar espíritos esteticamente mais sensíveis (vide reação à bunda do Gerald Thomas, tempos atrás). Como está faltando sabedoria legítima na praça, as pessoas estão loucas para ver trajes suntuosos em qualquer um que fale difícil e cite fontes obscuras. Que lhes dê argumentos para justificar as posicões mais tôrpes e egoístas. Que empreste a seus pobres discursos algum glamour filosófico. Pode ser sofisma, premissa falsa também serve, desde que brilhe. E, de preferência, que ostente a grife de algum pensador hermético de nome impronunciável pelo vulgo.
Você leu o que eu li?, pergunta o arrogante , para calar a petulância que o ameaça.
Não li não, que eu tenho mais o que ler, e ainda preciso de tempo para fazer outras coisas. Pensar, por exemplo. Em português. E assino embaixo meu próprio nome. Nome de mulher, que pobreza, e não sou nem phd. E a única citação deste texto é a fábula de Hans Christian Andersen (bom, pelo menos ele é dinamarquês, pensarão alguns).
Veja bem, eu admiro muitíssimo uma citação pertinente e esclarecedora, a riqueza vocabular, as idéias profundas e complexas. Minha implicância é com a forma enganosa, elaborada para iludir, vender um peixe podre sob o aspecto de um manjar. Percebo que a ignorância e a falta de noções rudimentares de lógica, ética e estética favorecem uma postura pouco crítica de boa parte da população, permitindo com isso a proliferação de ídolos ocos ou mesmo deformados. Estas aberrações do intelecto podem ser inofensivamente ridículas mas o pior é que, uma vez alçadas ao patamar de sumidades, podem influenciar um grande contingente de inseguros que buscam desesperadamente respostas e, não sabendo discernir por si, deixam-se seduzir pelo brilho falso da aparência como se fosse sinônimo de essência.
Se alguém estiver falando tão difícil que você não possa compreender, desconfie. Talvez o idiota não seja você.
Afinal, como já dizia o filósofo, asaftasardemdoem hemorroi das idem. Não é mesmo?

Ossos do Ofício

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Coube-me a Sexta-Feira da Paixão.
Então, vamos falar um pouco sobre a paixão de Cristo, já que o tema está atualíssimo, ocupando mentes lúcidas e ferindo corações sensíveis, por conta do filme do Mel Gibson. No ano que vem não provocará tanta emoção, como não provocou no ano passado. Precisamos que o cinema ou a TV nos lembrem do que deve nos compungir.
A paixão - ou pathos, ou sofrimento - é um vínculo que se estabelece entre aquele que sofre e aquele que o vê sofrer, ou toma conhecimento do seu sofrer. Para alguns, o sofrimento gera antipatia. Para outros, simpatia; nos identificamos com ele. Nunca sabemos como o pathos atuará. O certo é que não lhe somos imunes.
As teologias estão repletas de sofrimento. Deuses e profetas são sofredores porque é preciso estabelecer um vínculo com a humanidade e o que temos em comum não é, por suposto, a felicidade, e sim o sofrimento. Santos e mártires tiveram biografias sofridas e cumpriram via dolorosa: raramente a vida alegre dá direito à santidade. Quando o destino não providenciava a dor, a auto-flagelação, o deserto, o jejum ou o cilício davam um jeito de garantir o reino dos céus e a veneração dos homens.
Limitar a jornada cristã ao padecimento físico é banalizar o Cristo no homem Jesus. Fazer um filme sobre Cristo com ênfase na tortura a que foi submetido - e as conseqüentes questões idiotas: quem foram os culpados? - é retirar o pathos da sua trajetória simbólica. Cristo não foi Cristo por ter sido o campeão do sofrimento. Em qualquer época ou latitude homens e mulheres condenados à tortura sofreram mais do que Ele. O que quer que lhe pudessem fazer terminaria ao pôr-do-sol porque ao pôr-do-sol começaria o Shabat - sua sessão de tortura durou algumas horas.
Todos nós - que vivemos em países onde a tortura foi institucionalizada - sabemos que na vida real não foi bem assim. A tortura durava semanas ou meses. Metódica. Científica. Aplicada com cuidado para que o torturado não morresse. Às vezes, se descuidavam e morria mesmo; mas não era essa a intenção, era mantê-lo vivo para que tudo continuasse no dia seguinte.
Torturadores, ao contrário do que mostra o filminho do Mel Gibson, são brutos mas não são burros. Não bateriam tanto num condenado porque seria humanamente impossível subir o Calvário com o lenho ao ombro e não pensariam, certamente, em carregá-lo num andor. Só o Filho do Deus poderia caminhar depois daquela pancadaria, não o Filho do Homem encarnado que Jesus afirmava ser. E, convenhamos, que só a possibilidade do corpo de Cristo ter os mesmos limites que o nosso estabelece o pathos com a Paixão. Se sentisse diferente, não nos identificaríamos.
Mas, neste ano da graça de 2004, estamos todos ligados ao que aconteceu na Galiléia há quase 2000 anos. A Paixão voltou a despertar paixões porque Hollywood a ressuscitou. E desta vez diferente dos filmes anteriores, em que a história bíblica era recontada como o que sempre foi e por isso nunca fez tanto sucesso: uma história sagrada, desvinculada do real, porque o território do profano é um e do sagrado é outro. Humanizaram Cristo, reduziram-no a pó - "quia pulvis es, ad pulverem reverteris", fórmula adequada ao humano, não ao divino -; e Vieira já advertia que "não se medem pela mesma medida os decaídos e os alevantados". É lamentável erro de raciocínio.
Assim, Gibson continua valendo pelo que sempre teve: um excepcional par de olhos azuis. Teve um belo orçamento também, para filmar o Evangelho à sua moda. Dinheiro consegue comprar bela fotografia, cenários, figurinos e um som impactante - tudo que seduz nossos sentidos e provoca emoção. Além de um sangue bastante convincente para expulsar da sala os estômagos mais sensíveis.
Se os olhos azuis, depois da Galiléia, se voltassem para o Cone Sul em busca da tortura cinematográfica e filmassem uma sexta-feira nos porões do Dops há uns trinta anos, com seios arrancados à alicate, tubos de PVC, ratos, baratas, carnes expostas e um som de arrepiar, talvez tivéssemos uma santa brasileira. Talvez as pessoas também saíssem enojadas do cinema e se discutisse a sério o sofrimento humano; não o divino, que não temos a menor noção do que seja.
A Paixão de Gibson é um grande espetáculo, como foi, na sua época, Guerra nas Estrelas, mas o avanço da tecnologia o tornará esquecível em poucos anos. A história é ótima, pena que não seja dele. Como pertence um pouco a cada um de nós, temos o direito e até o dever de malhar o seu roteiro.
Não estamos mais em tempos de Inquisição e podemos ser cristãos, como Gibson, embora desvinculados da instituição que tutela o Cristo. Como podemos ser brasileiros e discordar dos nossos tutores - a época do Brasil, ame-o ou deixe-o já passou -, podemos ser cristãos e discordar de Roma. Parece que Roma aprovou Hollywood.
Mas a visão de Gibson - diferente dos antigos filmes que seguiam singelamente os passos do Evangelho -, humanizou o Deus e não divinizou o Homem. Prestou um desserviço aos Dois. O realismo não consegue chegar ao místico, como o misticismo não dá conta do real. Devemos ser materialistas ao abordar a matéria e místicos quando tratarmos do sagrado.
Como dizia o próprio personagem principal: Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Pequeno Tratado Sobre o Humor

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(Mas não leve isso tão a sério. Quem sou eu para escrever tratados? Não sou filósofa juramentada e, o sendo apenas em sentido lato, não me arrogo a alcunha como outros tantos. Poderia dizer que sou psicóloga, atriz, mãe, mulher, brasileira e tal e coisa, mas isso bem pouco diz do que vai em mim. Se títulos não atestam a consistência de um pensamento, muito menos o farão os falsos ou enganosamente ostentados.)
Isto posto, vamos ao riso que, de todo modo, é o que nos apraz. Quem há de negar que o humor é o que torna a vida suportável? E já que me interessa a vida mais que as seitas da ciência, falo aqui como quem pensa mas, sobretudo, como quem ri. O riso é mais humano que o pensamento, prova disso é que é universal, enquanto que as filosofias geram sempre controvérsia.
A hilariedade congrega, faz gargalhar em uníssono gregos e baianos. Os bebês nascem sabendo rir, embora cientistas muito sérios afirmem que eles não sabem o que fazem. Mas o que é preciso saber para achar graça na vida? A maturidade, ao contrário, faz perder boa parte desta capacidade espontânea. A vida adulta nos dá motivos de sobra para franzir o cenho, como defesa ou mesmo para fazer aquela “cara de conteúdo” que expressa nossa adesão ao lado sério da existência.
A seriedade é a verdadeira negação do riso e não o choro, como se poderia pensar apressadamente. O choro é irmão do riso, tão universal e inato quanto, e ambos produzem um efeito levemente narcótico, já reparou?, aliviam a dor e “dão onda”. Só que o choro faz a gente ficar quietinho, esperando a dor passar e o riso nos deixa mais animados, relaxados o suficiente para enfrentar o problema com mais coragem. São recursos próximos, levemente diferenciados para atender a variadas situações.
O riso é social por excelência. Dificilmente rimos sozinhos; a coletividade, ao contrário, multiplica e potencializa o riso. Houve uma vez, numa cidade indiana, um surto de riso que afetou toda a população por dias e espalhou-se pelas aldeias vizinhas, preocupando as autoridades que, às gargalhadas, mal conseguiram despachar as medidas emergenciais que a insólita situação demandou.
O choro, por sua vez, é evitado ao máximo em público, especialmente pelos homens. É um descontrole no mínimo constrangedor. Pode ser lido como um sinal de fraqueza Pode mesmo ser uma vergonha terrível como a que faz, em I-Juca Pirama, o velho índio amaldiçoar seu filho (Sê maldito, e sozinho na terra/ Pois que a tanta vileza chegaste/ Que em presença da morte choraste/ Tu, cobarde, meu filho não és.) Mas o choro profundo e sincero é sempre transformador, pois que ao final o bravo e lacrimoso guerreiro tem seu valor reconhecido ([…]E à fé que vos digo:/ Parece me encanto/ Que quem chorou tanto /Tivesse a coragem que tinha o Tupi!)
E não é que a forma mais bela e universal de humor é justamente a que transforma a humilhação em graça? O chamado humor patético – de pathos, sofrimento. A comicidade do palhaço, cuja máscara facial representa o pateta – o emocionado, o que chora em público – com nariz vermelho, olhos inchados e a boca virada para baixo. O ridículo, que tem a generosidade de oferecer sua faceta mais íntima e vulnerável ao escárnio público. O que leva tombo, apanha, sofre de amor e não tem juízo nem vintém. Mas que, apesar de tudo, consegue rir de si mesmo porque no fundo é um artista, um acrobata, um ilusionista. Que vai sobreviver incólume a todas as quedas e infâmias para fazer tudo outra vez no próximo espetáculo. E quem sabe, depois de tirar a maquiagem, não é ele quem vai dormir com a bailarina? O senso de humor é uma arma de sedução poderosa.
Há outras formas de humor, não-patéticas e bem menos inocentes. Há as formas satíricas (vêm dos sátiros, aqueles homens-bode gregos), que se utilizam de referências sexuais ou outros temas-tabu e têm a importante função de liberar os conteúdos socialmente reprimidos mas podem facilmente descambar para o grosseiro, o gratuito e o apelativo. Não são, por exemplo, adequadas às crianças, fazem corar as virgens e os celibatários e podem chocar as mentalidades puritanas.
Temos também o humor ferino, sarcástico. Esta forma pode ser bem-sucedida com o público mas não tem a grandeza da auto-imolação. Oferece em sacrifício a imagem do outro e tira o seu da reta; se exclui do ridículo que aponta – e é tão fácil ver o ridículo no outro! Não há quem escape indene ao olhar de um cáustico-compulsivo. O problema de ser tão mau é viver no mundo horrível que daí se enxerga.
Claro que existe a ironia fina, destilada com elegância contra quem bem merece. Esta, convenhamos, é deliciosa.
Outra forma bem aceitável de humor maldoso é a ousadia do bobo-da-corte, que poderia achincalhar o fraco para agradar os poderosos – como fazem os covardes, que são pouquíssimo engraçados – mas aponta sua mira contra o próprio poder que o sustenta, desafiando-o a uma reflexão. Podem ser observações sobre as deformidades dos costumes e do poder que permitam amplas associações, como os bobos de Shakespeare, que conseguem manter, através dos séculos, a jovialidade e o petulante vigor. Nisso se aproximam do espírito imortal do clown, apenas saindo da esfera do sofrimento individual e assumindo a postura de auto-crítica social.
Ou podem ser ataques cirúrgicos, especificamente relativos a pessoas e fatos em evidência naquele momento. Alguns humoristas que “cutucam” os políticos e as celebridades cumprem essa função de “cronistas do aqui-agora”. O problema desse humor mais referenciado é que ele é datado e restrito – os fatos do momento caem rapidamente no ostracismo, e não são compreendidos por quem esteja fora do contexto. Não existe nada mais velho que o “casseta e planeta” da semana passada, assim como um esquimó não moveria um músculo da face ao assistir a uma cena do Macho Gracinha com o Lábio Assunção.
No entanto, Carlitos – o palhaço-vagabundo, com sua melancolia adorável – não perde nunca a graça. Vive ainda em nosso imaginário e viverá enquanto existirem pobreza, inocência e amor-não-correspondido – coisas de que a gente tanto se envergonha e que ele converte em poesia risível.
Nada é mais transformador que uma boa gargalhada, principalmente quando a piada é nossa dor mais funda. Chorar de rir da desgraça nossa de cada dia, essa hilária condição de ser humano num mundo cão.

Você já deu uma boa risada hoje? Um risinho à toa, que tal? Pra tirar ruga da testa é melhor que botox. Satisfação garantida ou seu sorriso de volta. : o)
* * *
Quer um bom exemplo de humor patético? Leia Primavera Eterna!

Limite

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Tive um tio postiço que quando jovem fazia halterofilismo e chegava a levantar 99,400kg.
- 99 e 400 você levantava fácil?
- Fácil não era. Suava. Mas mantive a minha marca por muito tempo.
- E por que não chegava a 100? Ou ao menos a 99 e meio?
- Porque era o meu limite.
Ninguém gosta de limites. O limite é a fronteira, o confim, o ponto. É o que nos reduz, nos restringe. E nos estreita, impiedosamente.
Como todo mundo tem direito a meia dúzia de esquisitices, eu tenho as minhas 4 ou 5. Uma delas é jogar xadrez com o computador. Meu programa atende pelo pitoresco nome de "Genius" e todos os dias eu me sento à frente do gênio e começamos a batalhar. Assim como o tio halterofilista, também treino há muitos anos. Temos níveis para atuar que são chamados de "easy levels" e de easy não têm nada: levei um tempão para vencê-lo no nível 1 (ele é seriíssimo e não se distrai nunca).
Mas hoje, modéstia à parte, nos níveis 1, 2 e 3 ganho dele falando ao telefone ou passando esmalte nas unhas. Do 3 ao 9 tenho que pensar - cada vez mais demoradamente - mas há meses que ele não leva uma. O diabo é o nível 10.
Não gostamos de pensar em limites porque o grande limite é a morte. É no momento da morte que passamos de uma virtualidade para uma realidade, até a hora de morrer somos uma perpétua possibilidade. Através da série de escolhas e recusas da vida cotidiana modificamos a cada dia o que somos e o que somos hoje não é o que seremos amanhã, portanto não é o nosso ser real. Perseguimos a realização do ser enquanto temos vida mas só a alcançamos quando a morte vem colocar um termo à nossa busca.
Chegamos ao mundo plenos de infinitas possibilidades: Napoleão dizia que todo soldado trazia um bastão de marechal "dans sa giberne". Parece que o imperador, entre outros predicados, era bem-humorado. Mas a época e as circunstâncias criaram milhões de soldados e só um Napoleão. A História reduz estas capacidades infinitas e pouquíssimas vêm a se efetivar. O que faria com Napoleão, Buda, César ou Maomé se tivessem nascido 50 anos antes ou depois?
Aquele que é verdadeiramente o nosso ser não é o que somos atualmente mas o que desejamos ser; só desejamos ser o que potencialmente somos. Na verdade, estamos sempre adiante de nós. E ainda não houve uma sociedade sobre a terra que permitisse ao homem cumprir sua potencialidade virtual.
Mas, enquanto não nos colocam o grande limite, vamos tentando. E alguns têm a consciência de que seu ser verdadeiro não está no presente - talvez esteja no futuro. Desconhecemos quem somos até que a morte venha colocar o ponto final nas nossas possibilidades e nos revele a nós mesmos.
Para que tivéssemos alguma realidade hoje, seria preciso que a vida fosse estática e nós imóveis; sempre parecidos com o que fomos. Isto é o contrário da vida, que é movimento, marcha, transformação, ou melhor, transmutação contínua. Mesmo para aqueles que se acreditam personagens de valor. Pretender se perpetuar como são, porque estão bem onde estão, subestimando a influência de eventos exteriores, da evolução ou da revolução - que é a evolução apressada - revela insuficiência de julgamento. É certo que tudo mudará.
Assim, ainda tenho alguma esperança não só de que as relações sociais se modifiquem, como de que ultrapassarei o nível 10. Como meu ser verdadeiro está no futuro, quem sabe um dia ainda não jogarei xadrez com o Deep Blue? Ou o Kasparov, que é quase a mesma coisa?

Pega na Mentira

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Você diz a verdade
e a verdade é seu dom de iludir.
Como pode querer
que a mulher vá viver sem mentir?

- Caetano Veloso

Acho essa letra do Caetano uma pérola. Hoje estou no clima das citações polêmicas, repararam no título? – obra nem tão inspirada do Erasmo (não o de Rotterdam mas nosso Tremendão. Eu poderia ter usado “elogio da mentira”, ficaria mais culto, mais pomposo e mais cínico. Não, fico com meu amigo de fé, mesmo). Os patrulheiros podem cair de pau mas quem não gosta de Raul Seixas, Leminski e Saramago gosta do quê, afinal? Nesse caso não me incomodo que não gostem de mim também.
Mentira, claro que me incomodo, todo mundo quer ser amado, a despeito das divergências estéticas. E nem estou tão interessada em defender minhas preferências musicais ou literárias, acho um saco ficar polemizando sobre isso. Mas quem não mente de vez em quando só pra passar uma impressão superior, ou mesmo pela razão fútil de proferir uma frase de efeito?A mentira filosófica enobrece a existência, imagina se a gente fosse confessar todas as mesquinharias que sente e pensa…mas cabe aqui uma importante distinção entre a mentira honrosa e a hipocrisia barata ou outras formas indignas de faltar com a verdade. É preciso alguma arte até para enganar o próximo. E muito principalmente para enganar a si mesmo.
Mentira não é coisa que se deva cometer o tempo todo – embora muita gente o faça – porque, como todo vício compulsivo, acaba por prejudicar a saúde. Os efeitos colaterais mais visíveis são nariz comprido, rabo preso, sorriso amarelo e baixa estatura moral ( você não sabe que a mentira tem pernas curtas?).
Também não se deve mentir pra todo mundo. Mentir para o analista é jogar dinheiro fora. E para quem você ama, é jogar fora o próprio amor.
No entanto, mesmo nesses casos, certo grau de omissão é até recomendável. Não precisa dizer pro namorado que seu professor de ginástica é lindo, nem pro seu analista que ele tem mau hálito. Pior ainda se o seu analista é que for lindo e o seu namorado tiver mau hálito. A verdade pode ser uma forma requintada de maldade, quando usada sem critério.
E de todo modo, embora pareça objetiva e tenha mesmo este status enquanto categoria ideal, a verdade é sempre um ponto de vista. Portanto é entidade sujeita a tendências pessoais, ideologias, crenças e miopias várias. Acreditar na Verdade é mais pernicioso que a crendice. Com exceção de algumas seitas suicidas orientadas por psicóticos muito convictos que conversam com alienígenas, nunca vi alguém matar ou morrer em nome dos gnomos ou da chama violeta. Já a idéia do Bem está na raiz de todas as guerras da humanidade.
Eu fujo das covicções e persigo as lendas. Podem me chamar de ridícula, eu não ligo (mentira!). Minha realidade é mais bonita que a dos céticos.
Viva a mentira e a poesia que ela torna possível.
* * *
Elemental, meu caro Watson

Inocentes fantasias são capazes de enfurecer certos espíritos racionalistas torturados. Um exemplo famoso é o das fadas de Cottingley. Em 1917, Frances Griffith e Elsie Wright, duas meninas inglesas de 10 e 16 anos, tiraram uma série de fotos em que posavam ao lado de fadas e duendes. As fotos foram parar nos jornais e geraram grande polêmica.
Sir Arthur Conan Doyle, que se havia iniciado em estudos teosóficos, interessou-se pelo caso. Estava estudando energia psíquica, a fotografia estava em seus primórdios e pareceu-lhe possível que as garotas tivessem registrado a matéria sutil que a Teosofia chama de ectoplasma. Esta energia estaria presente em todos os corpos vivos e também nesses seres nem totalmente densos nem totalmente espirituais chamados elementais – fadas, elfos, gnomos, ondinas e salamandras – e emitiria alguma luz, o que poderia sensibilizar os negativos em condições especiais. As meninas afirmavam que obtiveram das fadas, com quem brincavam todos os dias na beira do riacho, permissão para fotografá-las.
Verdade? Suponho que não totalmente, mas o fato é que Conan Doyle investigou o caso e ficou convencido da autenticidade das fotos. Publicou alguns artigos defendendo a história e foi alvo de ataques furibundos.
Não precisa ser nenhum Sherlock Holmes para perceber que as graciosas sílfides parecem recortes de papel. Mas precisamos lembrar que as fotografias foram tiradas por um par de crianças sem nenhum recurso de efeitos especiais. Além disso, as chapas ainda eram de vidro, caras e poucas, de modo que elas tiveram poucas chances de acertar. No entanto as fotos saíram todas lindas e o efeito ficou muito bom. Então, no mínimo, Elsie e Frances eram excelentes fotógrafas! Tinham inventividade, estética e muito senso de humor. E vamos combinar que Conan Doyle, como detetive, era um grande escritor.
Vi essas fotos pela primeira vez na revista Planeta, eu devia ter uns seis anos. Foi um impacto revigorante sobre a minha fantasiosa mente infantil, recém-esvaziada pela cruel revelação de meu irmão de que papai noel não existia. Deixemos as fadinhas de Cottingley seguirem seu caminho poético de devolver a magia à nossa vida densa e limitada.
Viva a imaginação e o mundo de sonhos que ela torna possível.
* * *
Semana que vem vou falar de realidade nua e crua, a vida nas ruas, sangue, suor e violência sob a ótica de um policial que arrisca a própria vida para defender a lei e a ordem.
Caiu, caiu, primeiro de Abril.

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