May 2004 Archives

Dias assim

| | Commentários (0)

Tem dias que eu me sinto vazia como uma bola. Aliás, vazia como um cubo, porque é um vazio com arestas. Um cubo opaco e denso obnubilando minha clareza. Um cubo pequeno onde eu não caibo, sufoco. Fico ali oprimida como assistente de mágico. Empacotada em meu vazio de chumbo que não deixa escapar um grito. Em meu cofre-forte de silêncio. Apalpando os estreitos limites da minha liberdade, as paredes grossas da minha dor.
Tem dias que eu me condeno à solitária sem direito a banho de sol. Arrasto corrente, me visto de listrado e marco os dias, semanas, com riscos de canivete na parede. Me julgo e me penitencio sem indulto.
Tem dias que a vida ganha muros altos, cores cinza. Limites, limites, limites até onde a vista alcança – e a vista alcança bem pouco. O próprio firmamento é um teto rebaixado, baixo astral, como se diz por aí.
Tem dias que são foda. Mas eu não nasci ontem, sabe? Já percebi que o encaixotamento produz uma curiosa ilusão de óptica. No espaço exíguo, eu pareço enorme, ocupo a quase totalidade do espaço, só dá eu lá dentro. E tudo que eu penso e sinto reverbera, ecoa, parece gigante. Minhas motivações, minhas vergonhas, meu sofrimento parecem ser tudo o que há – o mundo como um elevador enguiçado, espelhado por dentro, refletindo meu desespero ad infinitum. Eu no cenário por todo canto e no meio da cena, em foco. Exageros da perpectiva, puro teatro de espelhos. Tão autêntico quanto Konga, a mulher gorila.
Estou aprendendo a fechar os olhos, respirar fundo e perceber que há oxigênio bastante para mim e, se o espaço está apertado, tempos melhores virão. No dia da bonança, quando meu campo de ação se abrir, vou lembrar de dançar bastante para celebrar . Até lá vou dançando miudinho e sempre se pode cantar, mesmo no escuro. Com os pés e mãos vou deformando meu cubo, alargando para os lados, abaulando o teto como um baú. Meu baú de maravilhas boiando no mar à deriva, uma arca que resiste aos dilúvios. Onde minha alegria se preserva mesmo durante as tempestades. Um balsa que balança, vira, dá cambalhota mas não afunda.
Tem dias que eu me sinto plena como uma caixa a ser preenchida. Aliás, como uma bola, porque quando estou assim eu rolo. Deito e rolo.

O tempo é uma caixa que se abre pra dentro

| | Commentários (0)

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
(…)

Oração ao Tempo / Caetano Veloso

Sabe aquele filme tão chato que, ao fim de duas horas, você olha no relógio e só passaram 15 minutos? E aquela pessoa tão maravilhosa que quando você dá por si já é de manhã? Uma vida de felicidade dura um piscar de olhos e um instante de agonia se arrasta séculos. O que se prende na ampulheta é areia, o que se mede num relógio é vibração de quartzo, o tempo não fica em lugar nenhum além de uma impressão na gente. A gente, no final, também não fica e nossa memória, por boa que seja, um dia se esvai. Por importantíssimos que sejamos, imortais em nosso tempo, pereceremos como de resto tudo. Do que não seremos mais surgirá algo muito diferente, estranho ao que fomos ou desejamos. Quem sabe não é aí mesmo que permanecemos existindo, nos ratos de nossa sepultura, na flor que nasceu ali? No vento que dispersa nossas cinzas? (não sei quanto a você mas eu, por via das dúvidas, prefiro ser cremada, não tenho vocação pra rato)
O tempo não é um trem que passa, é o fato dele passar. Nem é, que ser é permanência e o tempo está sempre se deslocando. O tempo é a abstração de quem não está atento. Se você parar de pensar vai perceber o óbvio: o agora é tudo que você tem em mãos. Ele tem todas as possibilidades de vida e morte para você e o universo inteiro e no entanto você acaba de perdê-lo porque, no que tomou consciência, ele tornou-se passado e não está mais ao seu alcance modificá-lo. O tempo é não estar lá – é ontem, semana que vem, naquela época, inda agorinha ou nunca – e, ainda assim, é o lugar onde a gente vive, trabalha, ama, deseja, sofre. Somos cheios de tempos e contra-tempos, temperaturas e temporais. Perdemos tempo precioso tentando controlar o fluxo dos acontecimentos ou perseguindo riquezas e benefícios que talvez nem tenhamos tempo de aproveitar.
O tempo nos é dado de graça e pode ser facilmente perdido, gasto, aplicado, até vendido mas não pode, de jeito nenhum, ser comprado. Ninguém acrescenta, nem com todo o dinheiro do mundo, um segundo a seu prazo. O rico pode morrer mais bonito, com mais dentes, mais cabelo, mais gente chorando em seu velório mas, em seu dia, morre. Nem de véspera nem depois, não tem botão de soneca pra viver mais 10 minutinhos, é fim de jogo sem prorrogação. Talvez tenha o tal “replay” dos melhores momentos com o bolero de Ravel ao fundo como vídeo de casamento mas eu ainda não cheguei nessa parte. Fico curiosa pra ver, nos créditos, se vai aparecer o verdadeiro nome de Deus – a palavra, o hieroglifo, o ideograma redentor. Se não houver nada do outro lado, quero meu óbolo de volta. Tomara que eu consiga lembrar o telefone do Procon.
Tenho gostado de envelhecer. Com a idade aprendi a assoviar e a boiar. Que mais precisarei saber quando estiver no nirvana? Até lá tenho bastante tempo para esquecer, uma a uma, as lembranças e as expectativas que ainda me prendem à roda-viva das glórias e frustrações. Aos poucos vou me deslocando do centro do palco para a platéia, começo a ver meu trem passando de nada a lugar nenhum e o caminho, no final das contas, é o grande espetáculo. O tempo se faz em mim; só existe porque o percebo e, no afã de compreendê-lo, meço, divido, marco. Mas não pode ser feito por mim e nem pela minha vontade. Eu é que sou feita por ele, tenho contornos porque ele me dá limites, tenho substância porque ele me dá realidade. Para os gregos antigos, que sabiam das coisas, o Tempo (Chronos) era o pai de Deus (Zeus, pros íntimos). Talvez Ele também tenha que se conformar ao tempo. Talvez também sinta tédio, pressa, preguiça ou saudade, a Seu modo. Talvez reze para cada um de nós todas as noites, pedindo que nos iluminemos mais depressa, e nós não Lhe damos ouvidos porque estamos muito ocupados com nossa própria agenda e, afinal de contas, o universo pode esperar. Enquanto o nível espiritual da humanidade cai a níveis constrangedores, nosso senhor vai treinando sua Santa Paciência.
O tempo da espera é sempre o mais longo. O tempo da ausência é um silêncio, a mão suspensa em pausa. O tempo presente é som; se for beleza é música. O tempo distante é luz – memória ou imaginação, cinema, fotografia, impressões, reproduções, ilusão de óptica, miragem. Muita luz pode confundir, o silêncio ilumina a verdade como um embrulho.
Tenho alergia a relógios que não sejam de sol. Como ainda não inventaram um relógio-de-sol-de-pulso, não uso. Não me atraso mais do que a média, às vezes até me adianto. Busco mesmo a sincronia, arte para uma vida. Com sorte, chego lá a tempo.
* * *
Impressão minha ou as pessoas não gostam muito de ouvir falar em morte e finitude? Conheço gente que até se ofende com esse assunto, gente que fala “se eu morrer um dia…”. A esses, meus perdões pela desagradável lembrança. Já eu gosto do tema, acho fascinante e odiaria ser imortal. Eu nunca ia poder saber qual era o final do filme e ainda perderia os créditos. Ah, dá um tempo, essa eu não perco nem morta.

Para onde vão os guarda-chuvas?

| | Commentários (0)

Eu, como toda pequeno-burguesa, faço o estilo honesta. Da única vez em que bati num carro estacionado, saltei do carro, escrevi um bilhete toda-fofa pedindo milhões de desculpas e deixando meu telefone que eu pagaria tudo sem problemas. (Porque eu NÃO tinha seguro, não tinha dinheiro pra isso. Mas isso eu não contei no bilhete, que a pobreza é digna mas envergonhada e o tal carro era importado – uma lanterna caríssima que me custaria meses de trabalho) Por sorte o cara não ligou, deve ter pensado que era trote, ou não quis se aborrecer já que seu seguro topo-de-linha cobria tudo. De qualquer modo, na situação contrária, os donos de carros importados não foram tão generosos comigo. Deve ser preguiça de escrever bilhete, ou esqueceu a mont-blanc em casa ou sei lá eu das ricas motivações mas, no dia em que, recém-casada, eu encontrei meu chevetinho recém-lanternado (primeiro investimento conjunto do jovem casal: vender a motinho dele pra reformar o chevetinho dela, não é lindo?) abalroado de jeito e com a frente toda amassada na porta da casa da minha mãe, eu sentei no meio-fio e chorei. Não havia nenhum bilhete. A porteira do prédio ao lado, num silêncio constrangido, continuou a varrer. Anos mais tarde ela me confessou, ainda varrendo, que viu quando a perua da cobertura – que, sendo uma só pessoa, possuía DOIS LAND-ROVERS – bateu no meu carro ao sair da garagem. Só não contou naquela hora porque eu não perguntei. O silêncio dos gentios instintivamente acoberta os poderosos. Como, após tanto tempo, o “crime” já estava prescrito, eu nada pude fazer. E assim os ricos vão ficando mais ricos e os pobres, mais pobres.
Eu devolvo troco errado mesmo sabendo que estou sendo roubada no preço.
Só tem duas coisas que eu não faço: devolver dinheiro achado, porque se eu perguntar “quem perdeu 50 reais”, todo mundo vai dizer “eu” e eu sou pobre mas não sou otária. Claro que se for muito dinheiro eu vou desconfiar. Vou achar que é uma pegadinha, ou que é dinheiro de bandido, vou ficar com medo e vou devolver, pra ver se a honestidade me protege. Então pra essa exceção valer eu tenho que achar até no máximo uns cem reais. Nunca achei nem dez. Tive um amigo (já falecido, que Deus o tenha) que achou no chão de uma boate uma pulseira de ouro com brilhantes. Vendeu e com a grana fez uma viagem maravilhosa que não poderia faltar em sua curta vida. Perguntado se não sentia culpa, ele que nem sabia ainda que sua vida seria curta disse “Quem perde uma pulseira de brilhantes está com a vida ganha. Eu tenho que ganhar a minha e, se a sorte me ajudou, por que não?”. Faz sentido. Mas semana passada deu no jornal que um garçom, muito mais pobre que o meu amigo, devolveu a pulseira de uma gringa milionária. Ganhou uma pequena gratificação, uma foto no jornal e deve ter ido pra casa todo pimpão. Vai morrer pobre e honrado, como a grande maioria desse nosso povo.
Eu tenho essa alma de pobre. Mas tem outra coisa que eu não faço: deixar guarda-chuva na seção de achados e perdidos. Porque todas as vezes que eu perdi um guarda-chuva e fui procurar na seção de achados e perdidos, ele nunca estava lá, independente do quão chique fosse o lugar. Ou culto – em universidades, perdi inúmeros. E nos táxis, ônibus… você levaria fé de encontrar seu guarda-chuva no achados e perdidos da SMTU? Nem eu. Meu compadre tinha uma teoria de que existia uma máfia de ladrões de guarda-chuva, porque todo mundo que ele conhecia já tinha perdido vários e não tinha encontrado nenhum.
Então teve esse dia em que eu estava num ônibus com meu filho (situação que, em si, já denota uma condição desfavorável, especialmente num dia em que começou a chover de uma hora pra outra e eu, sempre otimista, não levei guarda-chuva).
Eis que, ao sentar no banco, deparei-me com ELE pendurado na altura de meus olhos, na alça do assento da frente. Um guarda-chuva desses grandes e pontudos, de seda azul e bico dourado, mecanismo sólido e perfeito, autêntico design italiano. Nada mais justo na minha situação, sobretudo diante dos muitos espécimes que perdi, inclusive um italiano mesmo que foi bem caro mas eu não aguentava mais os chineses que viram ao contrário quando você mais precisa deles – esse eu perdi na mesma semana e fiquei pagando por três meses.
Eu perguntei pra todas as poucas pessoas do ônibus se tinham perdido um guarda-chuva e nem o trocador tinha visto nada, não havia qualquer sinal do legítimo dono, ou dona. Então, docemente constrangida, fiquei com ele pra mim e me tem sido muito útil. Penso que irei perdê-lo qualquer dia mas a vida sabe ser irônica. Outro dia a garçonete de um café correu atrás de mim meio quarteirão para devolvê-lo; já o deixei em banheiros públicos, casa de amigos, ele sempre retorna. Ainda não caiu em nenhuma seção de achados e perdidos mas chegará a sua hora. Se ele sobreviver a isto, terei então confirmado minha suspeita inicial: talvez este guarda-chuva não seja deste planeta, seja uma realidade paralela, sujeita a outras leis. Ou talvez seja o guarda-chuva da Mary Poppins. Ou talvez seja só a boa-sorte que acompanha os ricos me testando, me encorajando a flexibilizar os limites da minha ética.
Difícil foi explicar pro meu filho, começando com a teoria da máfia dos guarda-chuvas e tudo, porque insisto em transmitir os bons valores cristãos e não quero que ele pense que eu sou uma espertalhona adepta do “achado não é roubado”.
Ele boceja e diz ahã, enquanto olha a chuva da janela do ônibus. Pra ele não era impossível que aquele guarda-chuva maneiro tivesse se materializado ali para nós, portanto toda aquela explicação era uma digressão desnecessária, que estava interrompendo uma importante aventura do homem-aranha dentro daquele abismo azul cheio de hastes em que se pendurar e fendas em que se esconder que ele preferia retomar o quanto antes, e eu querendo que ele preste atenção a esse papo, e eu preocupada que ele não rasgue a seda italiana e não abra o guarda-chuva ali, entre as nossas pernas.
Tomara que ele não escute mesmo tanto o que eu digo e possa entender o mundo melhor do que eu entendo.
Resta a pergunta que não quer calar: pra onde vai tudo o que a gente perde nessa vida e ninguém encontra depois, pendurado por aí? Nossa infância, nossa inocência? O existir antes da culpa, dos direito e deveres, do preço de cada coisa?
Um milagre, a pureza alegre das crianças diante das agruras de um dia de chuva. Uma merda, o papel sagrado de educar. Tomara que eu não consiga fazer meu filho crescer tão cedo.

Mamãezinha querida

| | Commentários (48)

Mãe é aquela pessoa de quem a gente adora falar mal mas ai de quem concordar. Pois é, a minha é igualzinha. Só que ninguém tem uma mãe igual à minha (só meus irmãos, mas pra eles ela deve ser um pouquinho diferente).
A minha mãe sempre foi a mais bonita e a mais inteligente de todas as mães da escola. Tá bom, tinha aquela sueca de cabelos prateados e olhos azuis que talvez fosse tão bonita quanto. Agora, mais inteligente, você que a conhece (se não conhece leia abaixo, acima ou em algum lugar por aqui) sabe que não rola mesmo.
Então você está achando que eu era o sucesso da escola, aquela mãe esplêndida me esperando à saída, abrilhantando com suas evidentes qualidades – como uma auspiciosa promessa futura – a imagem pública de sua patinha-feia desengonçada e magricela.
Mas minha mãe não era de facilitar as coisas pra mim. Pra começar tinha o carro. Foram vários, claro, em muitos anos, mas eram sempre velhíssimos, cheios de ferrugem. Meu pai até que ganhava direitinho, eu acho, mas era coisa de estilo, mesmo. Eles já eram comprados velhos e só iam piorando com o tempo. As maçanetas penduradas como balangandãs, faróis caolhos, a tampa da mala amarrada com um barbantinho. Quando um desmontava de vez, meu pai jogava fora e comprava outro. No ferro-velho, provavelmente. O silencioso era considerado um ítem totalmente dispensável, de modo que o evento “lata-velha” nunca era discreto.
Depois, tinha o figurino. Você consegue imaginar um “kaftan” verde, bolsa gigante de palha, tamancos dr. Sholl, maria-chiquinhas e óculos Jackie O. na mesma pessoa? Pois é, mamãe sempre foi mesmo uma mente inspirada. Sabia como transformar a Catherine Deneuve na Regina Casé. E vice-versa também, verdade seja dita. Uma vez ela contratou um garçom pra um jantar que ia ter lá em casa. Passou a tarde com ele na cozinha preparando tudo, em seu melhor modelito amélia-em-fúria: camiseta sungada com buracos de cigarro, calça de moletom manchada, cara amassada com óculos fundo de garrafa sobre os resquícios da máscara facial de pepinos, bobs e lenço. Um mimo. Tudo pronto e ela subiu, tomou banho, soltou as madeixas douradas, pôs as lentes de contato, caprichou no make-up e envergou o pretinho-básico longo com uma fenda estratégica deixando entrever as belas pernas. Quando desceu, o garçom não queria mais atendê-la, onde estava aquela senhora que o tinha contratado? Ela teve que pagar adiantado pra provar que era a contratante e ele teve mesmo que admitir que a voz era igualzinha mas manteve até o fim da noite uma leve suspeita de estar sendo enganado.
Mas o fato é que eu sobrevivi à porta da escola e até à turminha pré-adolescente do clube-classe-média-alta que me fez, durante algum tempo, desjar com todas as forças ter uma mãe igual às outras, por que não? Que me comprasse roupas caras e me enfeitasse como uma boneca pra me exibir às amigas. Que fosse meio velhusca, meio careta, meio feinha e um tanto limitada mas tivesse um carro do ano cheirando a gleid sachê brisa matinal.
Hoje em dia eu sei que, se cada um tem a mãe que merece, Deus me tem em alta conta. Tirei a sorte grande, a sena acumulada, acertei no milhar. Quem quer ser uma boneca enfeitada? Quem suporta a brisa em pastilhas? Quem quer ser uma pessoa normal? Não seria eu se não fosse ela, do jeitinho exato que ela é. Ainda que eu tivesse nascido, não sei se teria resistido até hoje. Eu era tímida, queria ser aceita e não teria coragem de ser a primeira a quebrar os padrões. Mas provavelmente teria morrido sufocada pela camisa-de-força da normalidade. Escolha autênticas não são as mais fáceis e nem sempre são as mais lucrativas do ponto de vista social ou econômico mas, no final das contas, são as únicas que valem a pena. Minha mãe me ensinou, contra minha própria vontade, a ser eu mesma – e eu acabei gostando.
Por essas e outras é que eu digo: minha mãe, não tem igual.
Aposto que a sua é igualzinha: única. Ou não seria você quem é.

* * *
Já reparou que mãe é uma palavra que não tem rima? Só no plural. Mas como mãe só tem uma, o problema se mantém. Por isso nunca fiz pra minha mãe um poeminha que prestasse, e olha que ela bem merecia. Ser filho é isso, é nunca poder retribuir suficientemente o que recebeu de graça.
Estar vivo é ter tido mãe, é ter sido acolhido e expulso. É ter tido uma mulher pra amar e odiar e se culpar e se perdoar. Como se retribui a vida a alguém, com tudo o que ela tem de sofrimento e maravilha? Sendo bonzinho com a mamãe, comprando um presente bacana, escrevendo um bonito cartão? Tá, isso também ajuda mas acho que, no fundo, o que toda mãe quer mesmo é que sua cria sobreviva.
A teimosia da existência, também chamada de instinto de sobrevivência, é uma doença congênita transmitida pela mãe. Quando a gente está quase se curando – na adolescência e em outros momentos de crise – sempre aparece ela querendo inocular um reforcinho do bacilo: você almoçou, olha o casaco, isso são horas, quem é esse cara, você bebeu, fumou, usou camisinha e tantas outras desagradáveis versões do “como você está zelando pela sua preciosa vidinha?”.
Insuportáveis, todas as mães, tanto quanto a vida. Mas não se iluda, um dia a morte nos cura delas. Até lá, temos mais é que aproveitar o dom e agradecer, de todo o coração.
* * *
Aproveito pra fazer aqui a minha parte, pública e ostensivamente, já que tão raramente o faço na privacidade:
Minha Maria mais amada, mais até que a mamãe do céu, bendita sois vós entre as mulheres!
Eternamente grata por tudo tudo, sua filha-do-meio, pra sempre com os olhos grudados em você.

Sobre este arquivo

Esta página é um aquivo de posts de May 2004 listed from newest to oldest.

April 2004 é o arquivo anterior.

June 2004 é o próximo arquivo.

Encontre conteúdo recente na página incial or look in the archives to find all content.