
A fotografia tem o condão de resumir, num flash, todos os meus defeitos, e ocultar todas as minhas qualidades. Por isso é que eu raramente exponho minha imagem à lente dos paparazzi.
Você deve estar achando que eu sou uma monstra, mas na verdade eu não sou tão feia assim. Ainda não pareço muito velha, mantenho meu corpitcho em boas condições à base de caminhadas e até alguma musculação, e a cara que me coube ostentar, se não é nenhuma obra de arte, também não envergonha a família. Tudo bem que um dos meus dentes da frente cruza a perna sobre o outro, mas não parece tão grave, tem até gente (pouca) que acha charmoso. E eu dei um jeito de bagunçar o coreto um pouco mais, quebrando meu (até então) perfeito nariz, orgulho da mamãe. Ele ficou parecido com o que era antes, só ganhou um calinho ósseo onde outrora arrebitava e saiu ligeiramente do prumo, acentuando minha inata assimetria. Mas eu juro que não assusto criancinha. Andando, falando e me movimentando, tenho conseguido sobreviver no mundo das aparências. Não podendo competir por luxo, a gente ganha por originalidade.
Agora, quando minha figura é capturada por uma câmera, acontecem várias coisas estranhas, com as quais não consigo me acostumar. Em primeiro lugar, fico muda, o que, convenhamos, já tira boa parte do meu charme. Em segundo lugar, os ângulos retos da moldura ressaltam as discrepâncias e fazem meu retrato parecer um Picasso. O dente de perna cruzada sempre brilha mais que os outros, e ainda aparecem malignos pontos vermelhos no fundo de meus olhos. Isso quando eles estão abertos, porque eu sou campeã em fechar o olho na hora do xis. Se, por descuido da caminhada, eu tiver acumulado um mínimo pneu na cintura, ele estará lá, se exibindo na calibragem máxima está cientificamente comprovado que câmeras engordam cinco quilos, no mínimo!
Enfim , fotografias são um balde de água-fria na minha auto-estima. Não gosto e pronto. Lembrem de mim pelo que sou, quem me vê ao vivo me conhece, quem não conhece terá que imaginar. Este ano, por exemplo, só tirei umas 4 ou 5 fotos, mas 3 foram vetadas pelo controle de qualidade. Em duas eu fechei os olhos. Na outra, eu tinha acabado de enfiar um sushi dos grandes na boca (este gentil e oportuno fotógrafo chama-se MEU PAI!). Sobrou uma, tirada por um amigo querido, em que exibo uma postura péssima e que de modo algum me agrada mas que salvei por via das dúvidas e, na falta de outra melhor, a tenho usado, a contragosto, cada vez que preciso comprovar minha existência material.
Tais são minhas agruras fotográficas. A baixa fotogenia foi uma das razões para eu desistir para o bem de todo o público de minha carreira de atriz. Foi também o que livrou meus amigos de assistirem vídeos do meu casamento. As poucas fotos que eu permiti foram preto-e-brancas e ficaram bonitas, parecem antigas e tudo, mas não olho nunca, me acho meio ridícula. Mesmo fotos da infância me incomodam um pouco gosto de ver as dos outros, não as minhas. Enfim, não gosto de ficar me olhando em 2-d, congelada no passado, rígida e sem perspectiva, chapada num papel ou numa tela. Prefiro olhar pro futuro.
Estranho, né? Hoje em dia, todo mundo adora sair na foto, aparecer na televisão. Eu, não. Ao vivo não sou propriamente tímida, mas fico envergonhada com a minha imagem solta de mim por aí, nunca sei como ela vai se comportar. Sou que nem índio, índio também não gosta de fotografia, diz que aprisiona a alma.
Sou assim meio selvagem mesmo, arredia aos enquadramentos contemporâneos. Prefiro ser vista por olhos nus, porque eles são esferas e andam aos pares, portanto sabem ver minhas luzes na profundidade de suas dimensões.


