October 2004 Archives

Belben

| | Commentários (2)

belbenrosto.jpgHoje é o aniversário de 47 anos do meu irmão mais velho. Mas essa noite não tem parabéns aqui em casa, porque ele morreu há 12 anos. Tanto tempo que também não tem missa, e ninguém lembra mais de dar os pêsames, o que, aliás, não faz a menor falta. Quem faz falta é ele, o meu irmão. Que morreu com a idade que eu tenho hoje, até menos, um pouco. Portanto eu envelheço aos pouquinhos ao passo que ele não, ele fica jovem pra sempre.

Mas vai desaparecendo. Das nossas vidas, das conversas. Seus amigos, ficando coroas, muitos já avós, talvez nem lembrem que hoje é seu aniversário. E olha que, em seus tempos vivos, ele era muito popular. Bonito (ele era realmente lindo, mas é que pega mal eu falar), extremamente inteligente e sobretudo a pessoa mais engraçada que já encarnou até hoje. Sério, ele era muito hilário, de passar mal. Tinha histórias incríveis, ou as tornava incríveis com seu modo especialíssimo de contar, o que torna frustrante qualquer tentativa de reproduzí-las. Formavam-se rodas à sua volta, onde quer que estivesse. Animava qualquer ambiente, o que lhe garantiu trânsito livre nas festas mais espetaculares do Rio de Janeiro, e também de Paris ou da Riviera Italiana. Melhor que ir a essas festas, só ouvir seus relatos.

Mas os mortos não são populares em nenhum lugar do mundo, simplesmente porque lembram… a morte. Ele não é mais convidado para festas, nem mesmo em espírito, e já deve ter um belo contador de piadas circulando no jet-set internacional, em seu lugar. Assim é a vida; assim é a morte.

Perdão se toco, uma vez mais, neste desagradável assunto. É que está chovendo, portanto eu não pude realizar o pequeno ritual que meu irmão me ensinou num sonho. Ele tomou uma pílula que lhe deu algum tempinho de vida e assim pôde vir numa festa aqui em casa. Eu fiquei muito feliz em vê-lo, claro, e nos abraçamos (foi tudo MUITO real), mas eu estava aflita porque sabia que aquele efeito da tal pílula era passageiro e ele iria embora novamente, então perguntei como poderíamos nos comunicar.
Ele disse que tinha 3 maneiras de falar com ele mas, sabe como são os sonhos, só deu tempo de me contar uma delas: eu poderia colocar bilhetinhos em balões de gás.

belben.jpgDesde então, nos dias de seus aniversários de nascimento ou de morte, sempre que posso eu solto 3 balões, onde amarro bilhetinhos falando de nossas saudades e contando as boas novas – como o nascimento de meu filho, que ele não chegou a conhecer mas que conhece muito bem o Tio Belben, porque eu contei pra ele desde pequenininho sobre esse tio lá do céu. E ele sempre adorou soltar os balões e ficar vendo eles sumirem lá no infinito.

Mesmo com chuva e sem balões coloridos, vou escrevendo a meu modo este bilhetinho aqui, pra que ele saiba que eu não esqueci e que, enquanto eu estiver no mundo, ele não vai desaparecer totalmente.
Quem sabe essa não é uma das duas outras maneiras que não deu tempo dele falar?
Qual será a terceira? Ai, eu sou tão curiosa, essa questão me intriga há anos… O Belben sempre foi muito sacana, deve estar rolando de rir da minha cara lá do outro lado!
Vai ver é isso, é só dar uma boa gargalhada, daquelas de lavar a alma.
Taí, bingo.

O Circo

| | Commentários (0)

seurat-circus.jpg

Sempre fui louca por Circo. Fui poucas vezes, na infância. Acho que minha mãe não era muito fã do programa, ou todo mundo naquela época andava meio traumatizado por causa do incêndio do circo em Niterói, aquela tragédia que acabou por “revelar” o Profeta Gentileza (informação aleatória: muito embora reze a lenda de que ele perdeu toda a família no incêndio, tal fato não ocorreu. Ele abandonou sua própria família e uma vida confortável no interior para prestar auxílio aos familiares das vítimas, seguindo uma revelação espiritual. Sei de fonte limpa, meu amigo fez um filme sobre ele). Fato é que fui poucas vezes ao Circo na infância, não mais que 2 ou 3, portanto pude fantasiar à vontade em cima de cada imagem que consegui capturar então.

Mais do que o show espalhafatoso, que sempre achei meio cafona, ou a profusão de animais torturados, que ofendiam meu espírito ecológico (eu fui uma eco-militante mirim), me fascinavam os números de risco, em que eu percebia a iminência da morte. As facas, os números com fogo, as pirâmides humanas, o trapézio. Aquilo me provocava um verdadeiro êxtase, e um desejo irresistível de estar ali, oferecendo a minha própria morte em espetáculo. Cheguei a fazer umas aulinhas de circo na adolescência, onde experimentei, ainda que brevemente, a sensação de subir num trapézio, ou de me atirar de costas de uma plataforma de 4 metros de altura e cair num colchão, ou escalar um tecido. Mas não tive fibra para persistir diante dos apelos maternos, reforçados maldosamente por previsões astrológicas catastróficas que prometiam aleijões e seqüelas as mais terríveis. Minha faceta mais covarde aliou-se à mais preguiçosa e venceu por maioria absoluta. Abandonei os saltos mortais e resolvi investir em técnicas de "clown": acrobaciazinhas menos arriscadas, nada além de uma parada-de-mão ou uma estrela, só pra poder ver o mundo de cabeça-pra baixo e aprender a cair os mais variados tombos sem perder o rebolado. Meu palhaço, com a idade, tornou-se tímido e o Circo perdeu meu talento. Mas ainda sou dura-na-queda. Ou antes, macia (esse é o segredo!).

No entanto havia na atmosfera circense algo que me fascinava ainda mais que o picadeiro. Um breve recorte, um vislumbre roubado entre ir ao banheiro e voltar: a vida fervilhando por trás da lona, os bastidores. Os trailers, com sua vida nômade suspensa entre a irrealidade do espetáculo e a concretude das meias no varal, os cães e as crianças que circulavam por ali. Ah, que inveja eu sentia daquelas crianças, que viviam viajando e conhecendo gente diferente, aprendendo truques, uma vida de emoções sempre novas, luzes e festa. Mesmo a notória precariedade e a impressão de pobreza do “acampamento” não me incomodavam, era uma pobreza rica, colorida, feliz. Quem precisa de muito dinheiro quando vive assim em meio à arte?

circus.jpg

Minha avó materna compartilhava da minha paixão. Sempre disse que queria ter fugido com o Circo. Eu achava essa idéia incrível, altamente sugestiva, fugir com o Circo.
Então uma vez ela me contou a história de uma contra-parente sua contemporânea, a Maricotinha-dos-Apitos, que foi "roubada" pelos ciganos do Circo, ainda criança (esclarecimento: na maioria das vezes, as crianças eram, na verdade, abandonadas pelas famílias e recolhidas por ciganos. Era uma forma prática de resolver gravidezes indesejadas e outros deslizes do planejamento familiar). Anos depois ela reencontrou a família de sangue, que era abastada e lhe acenava com confortos e dignidades, mas preferiu continuar com sua gente adotiva. Ela amava sua vida de artista e não a trocaria por nada. Deixou para minha avó, como lembrança, um xale preto todo trabalhado em metal dourado, que usava em seu número de andar sobre a bola. Minha avó me deixou de herança o xale e essa alma cigana, que não está no sangue. Um gosto por trupe, caravana, música e dança. Por saia rodada e lenço. Por contar e ouvir histórias. Brincar de adivinhar a sorte.

Mas eu, como minha avó, não segui o Circo, fiquei só imaginando. Minha avó cantava e recitava poesia enquanto cozinhava, arrumava a casa. Foi assim que eu aprendi “Os Lusíadas”, “O Navio Negreiro”, “I-Juca Pirama”, sonetos de Camões… Vovó era uma diva doméstica, uma artista do cotidiano, preenchia com a vivacidade de seu espírito as tarefas mais bisonhas do dia-a-dia. Tinha o Circo em si.

Eu cuido da minha alegria para que minha avó não se perca da família, para que o espetáculo possa sempre recomeçar.
Os cães ladram, mas a caravana passa. A gente recolhe a tenda aqui, pra armar a festa ali adiante.

Eu andava meio tristinha com umas bobeiras aí, mas quer saber do que mais? Palhaço que é esperto aproveita a queda e levanta na cambalhota.
Hoje tem brincadeira? Tem, sim sinhô!

Cine-Preguiça

| | Commentários (1)

preguica.jpg

Eu sofro de uma estranha síndrome, ainda não descrita pela ciência: a Síndrome da Preguiça Crônica De Ir Ao Cinema. Não, não é a Síndrome da Fadiga Crônica, aquela doença cinematográfica do Sean Connery. É preguiça mesmo. Não tenho fadiga alguma, sinto-me perfeitamente bem. Agora mesmo, poderia calçar meus tênis e dar uma volta na Lagoa. Correndo. (ah, deixa eu exagerar, vai)

Mas se você me convidar para ir ao cinema, eu vou dizer “hum…” , enquanto procuro uma boa desculpa. “Agora não dá, estou escrevendo”. Como se eu ganhasse alguma coisa pra isso. Se fosse trabalho, vá lá, mas deixar de ir ao cinema pra ficar escrevendo “di grátis”… nunca consigo convencer os amigos na primeira evasiva e sempre gasto bem mais saliva do que o previsto na negociação. “Tô dura” só é bom argumento com os pobres, os remediados pra cima se oferecem pra pagar. Oh, céus.

Então vou expor aqui todas as minhas razões, de maneira organizada e, da próxima vez que me convidarem, vou enviar este texto pela internet. Parece uma boa tática.

Em primeiro lugar, devo deixar claro que aprecio muitíssimo a sétima-arte, acho das coisas mais interessantes já inventadas pelo homem, depois da asa-delta e da literatura.
Minhas razões não são de ordem ideológica e muito menos artística, mas tão-somente operacionais. Pragmaticamente falando, uma simples relação custo-benefício.

Veja bem. Eu nasci, e tenho a sorte de viver até hoje, num dos lugares mais bonitos do mundo. Não contente em viver no Rio de Janeiro, eu ainda me dou ao luxo extremo de morar no Horto. Pra quem não conhece, o Horto é um mini-bairro espremido entre o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, A Lagoa Rodrigo de Freitas, a Floresta da Tijuca e a Rede Globo (nada é perfeito). Um pedacinho do paraíso, resquício de um tempo que não existe mais. Meia dúzia de ruas arborizadas e tranqüilas, onde sobrevivem arcaicos pregoneiros (olha a vassoura aê…), as crianças soltam pipa e as senhoras gordas põem cadeiras na calçada pra botar a fofoca em dia. Agora mesmo estou escutando o canto de pelo menos 3 tipos diferentes de passarinho, e posso ouvir mais ao longe os gritinhos dos micos. Da janela vejo os morros verdes e, de esguelha, distingo o recorte azulado do pão-de-açucar lá no fundo. Dos fundos da casa, vejo o suvaco do Cristo Redentor. A primavera explodiu a orquídea do jardim em uma nuvem de mini-flores amarelas, e as marias-sem-vergonha estão coalhadas de brotinhos mais gostosos de estourar que plástico-bolha.

Agora, você quer mesmo que eu me enfie numa salinha escura pra ver Kill Bill 2???

(pausa para um cafezinho na cafeteria do Jardim Botânico)

Você vai me perguntar: E quando o dia acaba e a noite chega, mandando pra casa os passarinhos, os micos e os pregoneiros?

Bom, aí eu já dei uma volta na Lagoa, fiz um tour pelo Jardim Botânico, estou confortavelmente instalada, descalça e pés pra cima diante do meu computador, me distraindo com meus próprios pensamentos. Você quer mesmo que eu me vista, ponha sapatos e me desloque no mínimo 2 bairros para chegar ao cinema mais próximo? Sim, porque no Horto não tem cinema (nem farmácia, nem supermercado, nem outros estabelecimentos de primeira necessidade. Pra quem precisa dessas coisas).

Cinema é alimento para o espírito, eu sei, eu sei. Mas sempre existem dietas alternativas. Não tenho paciência pra assistir vídeo nem TV, mas tem livro à beça aqui em casa. Além disso, eu sempre posso ir ali na sala bater um papinho com a minha mãe, que é a pessoa mais interessante de se conversar em todo o planeta Terra. E também tem meus irmãos que, quando não estão sendo insuportáveis, sabem ser muito divertidos. Sem falar do meu filho, que é um espetáculo ambulante. E sempre pode acontecer uma visita surpresa dos meus amigos que, modéstia à parte, são a fina-flor do interessantismo nacional (afinal, são ninguém menos que os meus amigos).

E tem esse negócio do horário, né? Ô coisa chata, ter que chegar na hora certa numa atividade de lazer. Nunca consigo e, em toda a minha escassa filmografia, via de regra faltam as cenas iniciais. Eu sempre juro que vou assistir de novo o filme pra ver o início, mas aí falta ver tanta coisa…

Eu ouvi dizer que o Chico Buarque também tem essa minha doença e que, toda vez que perguntam qual o último filme que ele viu, ele responde “Corra, Lola, corra”. Achei ele super atualizado, porque o meu último, não tenho bem certeza porque foi há muito tempo, mas acho que foi “Titanic”. Ah, teve uns infantis a que a maternidade me obrigou, de lá pra cá, mas foram poucos porque eu geralmente empurro este programa para o progenitor da criança. Tem também os filmes de amigos, em sessões nos Cine Odeon da vida, mas esses, por não terem sido vistos por mais ninguém, não servem de assunto nas rodinhas de chopp, e não livram minha cara quando os assuntos cinéfilos vêm à baila.

Acho que vou convidar o Chico Buarque para um chopp. Tenho certeza de que teríamos assunto para uma noite inteira (pra muitas, mil e uma) sem que nunca um precisasse perguntar para o outro “viu aquele filme?”.

Luis Severiano Ribeiro que me perdoe mas, na minha ordem das coisas, cinema pode não ser a maior diversão. Fazer o que se a minha vida é mais interessante que a da Uma Thurman?

* * *

Já que uma lista dos filmes-que-eu-preciso-ver-urgentemente não caberia nesse espaço, faço aqui uma lista dos filmes que eu vi e de que ainda me lembro. Se quiserem conversar comigo sobre cinema, tenham o bom-tom de se ater a estes títulos.

Hair - mais de 15 vezes.
Embalos de Sábado à noite
Fama
Grease (eu gosto de musicais, fazer o quê?)
Dersú Uzalá
Betty Blue
Meu Tio
Retratos da Vida
Cria Cuervos
A Lagoa Azul (eu era adolescente, pô!)
Pulp Fiction (eu estava grávida – péssima escolha)
O Barato de Grace (Nesse dia eu cheguei em casa e me separei. Não sei se o filme teve alguma culpa nisso, até que eu tinha dado boas gargalhadas, deve ter sido a última vez que gargalhamos juntos. Nada como uma bonança antes da tempestade)
Titanic (pode ser que o Barato de Grace tenha sido posterior, já que nessa ocasião eu ainda estava casada. De qualquer modo, a ordem dos naufrágios não altera o produto)

Qual será o próximo filme que eu não vou ver? Alguma sugestão?

Memórias

| | Commentários (0)

memories.jpg

Deve ser um trânsito astrológico (explica aí, Maria Helena, ou será que você foi mesmo abduzida?). Por uma série de coincidências concomitantes – isto deve ser uma redundância mas minha vida está assim, redundando sobre si mesma – tenho sido levada a exumar meu passado.

Não posso reduzir o fenômeno a um mero “efeito Orkut”, muito embora deva admitir que este clubismo internáutico teve lá sua parte na arqueologia dos reencontros (tendo sido esta, aliás, a maior, senão a única utilidade que encontrei na referida ferramenta que transforma pessoas em fichas e suas relações sociais em álbuns de figurinhas. Mas não sou mal-humorada, aderi à brincadeira, ainda que timidamente, e admito: só por esta função “túnel do tempo”, a xaropada toda já se justifica). No entanto a maré retrô parece ter um alcance mais amplo, e tenho encontrado amigos antigos na rua também, primeiros namoradinhos (já carecas, socorro!), gente do arco-da-velha.
E não só isso, a vida vem em ondas, como bem disse o santo Lulu. Recebi há algumas semanas, de meu ex-marido, uma grande remessa de fotos que eu tinha deixado por lá, nas quais eu mesma, felizmente, pouco apareço, já que na maioria das vezes sou a fotógrafa, mas que reavivaram fatos, pessoas e lugares que marcaram minha trajetória.
Também há pouco, minha turma de Teatro fez reencontro de 15 anos de formados (e eu faltei, na hora H me deu preguiça, pode? Chovia muito. Mas troquei zilhões de e-mails com essa tribo anárquica e dionisíaca, dos ditirambos de minha idade pré-clássica ).
Achei meu caderninho chinês brocado, que é mais velho do que eu imaginava, já que tem dedicatórias dos colegas do ginásio, portanto remonta aos meus treze anos. E ainda fiz, junto com meu irmão, um tour imaginário por nosso colégio dessa época, lembrando cada espaço, cada canto, os móveis, os personagens que povoaram nossa infância e pré-adolescência. Passamos mal de rir a cada detalhe insignificante que era desencavado. Ele também cultiva esse interesse bizarro pelo aleatório inútil, acho que essa doença é genética.

Então eu sofro dessa memória meio absurda, quase sólida, estou em pleno surto mnemônico e não sei bem pra quê isso serve, além de dar risada.

Eu lembro do primeiro número de telefone da minha casa. Da minha professora do maternal (e eu só tinha 2 anos!). Do refeitório da pré-escola, a toalha plástica xadrez, a bica para lavar as mãos, e cada um dos meus coleguinhas, que não encontro desde então. Vejo como num filme o pátio onde eu fazia bolinhos de areia segundo uma técnica bastante elaborada, o pé de carambola e o gosto ora azêdo ora doce de seus frutos, que me ensinaram a diferença entre verde e maduro.
Lembro de um pensamento que eu tive no banheiro de casa, lá pelos meus 9 anos, olhando para os azulejos que agora ainda posso ver diante dos olhos, e pensando em quantas coisas da minha vida eu já tinha esquecido. Então pensei que não queria nunca esquecer aquele pensamento, nem quando eu ficasse bem adulta – assim como eu quase sou hoje– pra não esquecer que eu tinha sido um dia aquela menina que pensou aquilo. Pra não esquecer de mim. E me surpreende que eu não tenha mesmo esquecido. E me dá uma certa dó de que eu, tão jovem, já fosse nostálgica.
Lembro perfeitamente de pessoas que nem me conhecem mais, recordo seus rostos, seus nomes, suas histórias, seus familiares. Não é nenhum esforço, eu simplesmente acesso as informações mais inusitadas, elas me vêm por todos os lados. Pra quê?

Às vezes fico parecendo maluca, descompassada, acenando na rua pra gente que não me acena de volta e ainda olha pra trás com cara de “é comigo?”. Ou então expresso todo meu entusiasmo ao reencontrar um amigo remoto de quem ainda me considero íntima e fico falando sozinha, feito boba. Cada vexame que só vendo.
Os outros ficam sempre parecendo muito mais ocupados com coisas importantes do que eu, que gasto meu tempo com pessoas e outras distrações. Mas já me habituei a passar por doida e perdi a vergonha de andar por aí cantando, inventando moda, olhando pra ontem e colhendo impressões a esmo. Se não são atividades das mais úteis e nem me rendem altos dividendos, também não parecem imorais ou violentas. Os loucos inofensivos costumam ser deixados em paz, e tenho me fiado nisso ao expor assim minha inadequação.

Sigo teimosamente minha trama, costurando o inconsútil, tentando me atar à vida que passa. Bordando em mim mesma um sentido em tanto retalho, um futuro em tanto passado. Nem sempre é possível escapar da solidão do nosso próprio caminho, nem sempre se pode comentar a paisagem, mostrar aquela página secreta do diário de bordo. São minhas relíquias, talvez não sejam importantes pra mais ninguém.
Lembranças não-compartilhadas são tão reais como sonhos. E acabam sendo, talvez, contaminadas por eles. Não dou garantia de minhas memórias, elas podem ser distorcidas, exageradas. Mas dou fé, as tenho. Enquanto tiver espaço em meu baú – e sempre há tanto vazio aí, um universo a preencher – vai entrando gente, idéia, afeto, imagem, música, história de verdade e de mentira. Vai ficando mais preciosa e colorida a minha coleção.

Ainda que seja invisível de fora e impalpável, há de ter alguma serventia tanta matéria insólita. Nem que seja pra escrever estas bobagens por aqui. Nem que seja pra embaralhar tudo e reeditar num sonho. Nem que seja pra esquecer quando eu despertar.

Sobre este arquivo

Esta página é um aquivo de posts de October 2004 listed from newest to oldest.

September 2004 é o arquivo anterior.

November 2004 é o próximo arquivo.

Encontre conteúdo recente na página incial or look in the archives to find all content.