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?PROIBIDO LER ESTE TEXTO

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olympia.jpg"Olympia"
Edouard Manet
1863

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Se o homem fosse obediente, estaria até hoje sentado à sombra de uma macieira, fazendo cafuné na Eva sem segundas intenções. Não tendo pecado, não teria tido filhos. Seus pimpolhos Caim e Abel, que só faziam besteira (e devem ter comido as irmãs, talvez até a mãe, do contrário a história não poderia continuar), deram seguimento à cadeia de desacertos que caracteriza a passagem da humanidade pela Terra. Ao cometer fratricídio, incesto e outras tantas atrocidades, nosso tataravô Caim teve que inventar a primeira mentira (“E eu lá sei do meu irmão? Pô, nem vi o cara hoje…”), e todo mundo sabe que exaustivo trabalho de imaginação está por trás de uma mentira. Ainda mais mentir pra Deus, o tipo do sujeito que sabe tudo … mesmo assim Caim, em sua juventude transviada, jogou o barro na parede pra ver se colava. Fazendo isso, tornou-se criativo e pode ser considerado o primeiro publicitário da história (digo: o primeiro humano porque, quando Deus disse “Não coma DESTE fruto”, é evidente que ele sabia muito bem o que estava fazendo e COM QUEM estava lidando, pois não foi ele próprio que nos dotou desta mortal curiosidade? Então o interdito poderia equivaler a colocar na tal árvore um letreiro luminoso: COMA-ME. Já esta ordem “coma-me”, assim no imperativo, poderia soar como uma imposição o que, imediatamente, geraria fastio e Adão iria lembrar que gostava mesmo de abacaxi, deixando intocado o bendito fruto por puro descaso).

Se não transgredíssemos, não incorreríamos jamais em erro. Portanto não buscaríamos soluções e não inventaríamos nada. Se fôssemos bem-mandados, aceitaríamos nossos limites e viveríamos, uma geração após a outra, felizes dentro deles. Não cometeríamos crimes, respeitaríamos regras e leis. E não estaríamos aqui, pilotando computadores e nos comunicando à velocidade da luz. Estaríamos catando piolhos de nossos filhos, muito longe deste ou de qualquer outro questionamento. Uma existência plácida, sem dúvida, mas não muito dinâmica em termos evolutivos. A transgressão é mãe da invenção.

Desde que o mundo é mundo, o proibido é mais gostoso. O beijo roubado, o segredo guardado a sete chaves, a sedução lisérgica das substâncias ilícitas, o erotismo das partes escondidas do corpo (coisa que algumas revistas masculinas parecem desconhecer. Outro dia um amigo me confessou que não agüenta mais ver mulheres em posições ginecológicas. Que esse excesso de exposição acaba com o tesão de qualquer um, não sobra nada pra imaginar. E não se pode negar que a imaginação, quase sempre, supera a realidade) Muito mais excitante que a nudez arreganhada que se oferece é aquela que mostra-esconde, a do decote, a que se adivinha sob o pano ou se espia pelo buraco da fechadura. Muito melhor que a comida que empanturra é aquela provinha roubada da iguaria que ainda não foi servida, que fica reverberando no paladar, prometendo sabores e saciedades futuras. O que não pode torna-se tabu, envolve-se em mistério e temos uma tendência inata a achar que é aí que vamos encontrar o tal prazer de que tanto precisamos, um prazer absoluto imaginário, inatingível em sua plenitude mas do qual chegamos perto em raros momentos. E, de fato, em situações-limite nosso organismo libera uma verdadeira bomba química, altíssimamente estimulante. O perigo nos faz sentir vivos, cheios de energia, capazes de coisas que, em outros momentos, nos pareceriam impossíveis.

Isso, pra mim, é uma programação genética seriamente comprometida com o princípio da transformação. O homem é um poderosíssimo agente transformador da natureza. Esse parece ser nosso papel na história evolucionária do planeta, é o que mais nos distingue enquanto espécie. Nós não somos confiáveis quanto à manutenção da ordem, sobre isso ainda temos muito o que aprender com as abelhas. A humanidade age introduzindo o caos. A partir daí, a busca de harmonia gera uma nova realidade.
O princípio da manutenção, tão característico dos insetos, é fundamental para a estrutura organizacional e para a eficiência produtiva. Se fôssemos tão trabalhadores e ordeiros como nossas amiguinhas melíferas, nosso mundo seria limpo, funcional, previsível e….bzzzzzzz
Quem quer ser uma abelha? Eu morreria de tédio. A gente é bagunceiro mas se diverte. Usa roupa colorida, faz arte, pinta, borda e sapateia. E as abelhas só dançam aquela dancinha em forma de 8 que os cientistas adoram mas, cá entre nós, sou mais o Baryshnikov. E, se elas podem voar, nós não temos asas mas também demos um jeito. Hoje em dia o homem até que voa muito bem, melhor que as galinhas, que são naturalmente aladas. Um Ícaro ou outro quebrou a cara pra nos abrir o caminho, mas é assim mesmo que temos vindo até aqui. Errando e nos virando pra consertar. Fazendo bobagem, pulando a cerca, levando tombo e levantando outra vez. Quebrando um vaso de vez em quando, estilhaçando uma vidraça, partindo um coração – o nosso, quase sempre – e depois recombinando os caquinhos num mosaico novo e surpreendente.

O problema de desafiar os limites impostos é que, quando apanhados em flagrante-delito, em geral sofremos conseqüências bem dolorosas. Como Prometeu, acorrentado e devorado permanentemente no fígado só porque ensinou aos homens o truquezinho do fogo, privilégio dos deuses, artifício através do qual nos mantinham ignorantes e tementes a Zeus. Prometeu sofreu horrores, coitado, porque era forte o suficiente pra não morrer e seu fígado se regenerava a tempo de ser devorado novamente. Eu não queria estar em sua pele, e muito menos em suas vísceras. Sentir dor é, definitivamente, o que eu mais odeio na vida, não sou titã nem nada...

Então o proibido é um jogo arriscado, que não pode ser jogado o tempo todo, não por qualquer um. Existem os mais intrépidos, de alto cacife emocional. E os apegados, que só arriscam uns poucos níqueis nas maquininhas. Cada um tem sua medida de coragem e sua zona de conforto, este é um equilíbrio pessoal e muito sutil.
Ei, cabe aqui um esclarecimento importante: Não estou fazendo apologia do crime ou da barbárie. Me parece que a compaixão e o respeito ao próximo devem ser os princípios éticos inabaláveis por trás de cada ato humano.
O que diferencia o amoral do imoral é que o primeiro busca a liberdade como um valor universal às custas da conveniência dos costumes. O segundo busca o lucro pessoal às custas da própria consciência.

Definitivamente a história da humanidade não foi escrita pelos ordeiros, não se fez nos caça-níqueis. Foi feita em apostas arrojadas, no olho-no-olho, na ousadia do blefe, no alto risco, nas transações suspeitas por debaixo das mesas. Nas viradas de mesa, nas quebras de padrões, na cara e na coragem.
Inconformados com limites, somos tão mais humanos quanto menos abelhas.
Cada vez que, temendo o colapso de nossa espécie, voltamos para a colméia pelo mesmo caminho de sempre, sem parar nem para olhar a vista, estamos fazendo nossa parte na produção do mel e prestando fiéis serviços à Rainha.
Cada vez que, distraídos por uma flor no caminho, passamos além dos limites conhecidos, estamos fatalmente quebrando um protocolo ou infringindo alguma lei e, portanto, nos arriscando a uma punição. Ao mesmo tempo, estamos contribuindo para libertar a humanidade inteira de seu medo infantil de Deus.

Ainda bem que você é desobediente e leu este texto.

Botox

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Meus 3 leitores sabem que eu não assisto mais novela. Só que, diferentemente do Xexéo, eu não assisto mesmo.
Simplesmente não dá, gente. Eu sou formada em Teatro, levei anos aperfeiçoando a máscara facial para que fosse a mais expressiva, a mais reveladora do sentimento humano. Aí eu ligo o aparelho e começo a ver uma sucessão de caras-botox que não alteram um músculo, quer a cena seja de alegria, dor, ciúme ou violência.
Todo o elenco ostenta um semblante plácido, como que recém-saído de um SPA cinco estrelas numa estação termal na Nova Zelândia. Pra disfarçar a pouca expressividade facial, agora deram pra exibir cada vez mais os corpos, de preferência em “ensaios paparazzo” sensuais com as jovens estrelas da dramaturgia (ou as velhas, repaginadas), ou em cenas de porrada entre mulheres, onde as caras duras ficam meio disfarçadas sob o mega-hair sacudido aos puxões.
Não vou perder meu precioso tempo assistindo cenas grotescas. Prefiro cuidar da vida, fazer minhas coisas.
Ir ao dermatologista, por exemplo. Tava precisando porque, depois de velha, voltei a ter espinhas como uma adolescente. O doutor até que foi ótimo, porque curou minhas espinhas em 1 mês. Achei que ele fosse se orgulhar desse resultado, mas agora, pensando bem, suponho que ele teria preferido que eu demorasse mais tempo, mais peelings e mais cremes pra ficar boa. Mas eu sou saudavelzinha, fazer o quê?
Daí que, quando eu estava naquela posição vulnerável, deitada na cadeira igual à de dentista, sob a lente de aumento e com aquela luz horrorosa revelando todas as minhas imperfeições, refletidas no espelhão gigante em frente, o doutor mandou essa:
– A gente podia tirar essas ruguinhas aqui em volta dos olhos…
(eu não me dei por achada)
– Ah, doutor, até que, pra uma balzaquiana, eu não tenho tantas rugas assim. As pessoas acham que eu tenho quase 10 anos menos. Eu não quero parecer que tenho 13 anos! Acabei de me livrar das espinhas…
(mas o momento “segura de sua beleza” dura pouco)
– Doutor, o senhor acha mesmo que eu estou enrugada?????
– Deixa eu ver. Enruga a testa…..com força!
(obedeço pensando em Lady Macbeth em seus delírios de horror)
(ele tenta, sem sucesso, franzir a própria testa ao me dar o diagnóstico)
– Ihhhhh….
(qual auto-estima resiste a isso??)
_ Um botox aí ia bem…
(mas aí ele falou a palavra errada para a pessoa errada. Eu mesma me surpreendo às vezes com as minhas reações)
– Doutor… (empurrando a lente para o lado e levantando da cadeira) se o senhor disser mais uma vez que eu pareço velha, eu saio por aquela porta e vou procurar um médico que diga que eu sou bonita. Eu vim aqui tratar espinhas, não velhice. Não me sinto nem um pouco velha. E injeção na testa, nem de graça!
O doutor esbugalhou os olhos e foi lá pra outra salinha, onde ficou uns bons minutos digitando na minha ficha, tlec-tlec-tlec. Espero que ele tenha posto um lembrete em letras vermelhas garrafais pra nunca mais tentar me detonar pra vender tratamentos. Terminamos muito amigavelmente a consulta e só na saída eu percebi que estava chamando o sujeito pelo nome errado o tempo todo. Ele não só não reclamou como, quando me desculpei, disse que eu podia chamá-lo como quisesse, que não tinha a MENOR importância, se despediu todo fofo e sorridente e ainda me deu amostrinhas grátis de uma máscara ótima de argila. Pianinho, me amando (ou fingindo que me ama, o que, na prática, é o que interessa).
As pessoas são mesmo muito estranhas.

A todas essas, preservei minha integridade motora e continuo 100% orgânica, não-transgênica e sem aditivos químicos. Sem neuro-toxinas botulínicas, próteses plásticas, cabelo alheio e outros adendos bizarros da cosmética contemporânea.

A quem se utiliza deles, meu respeito e admiração pela coragem e pela dedicação à causa narcísica.

Às que os dispensam, unamo-nos! Eu nos acho lindas do jeitinho que nós somos e com a idade que nós temos. Ainda deve ter gente que concorda comigo.

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Minhas melhores fotos são dos olhos do meu filho.

Meus melhores poemas, confesso, não sou eu que faço.

Laço o que posso, o pouco que não esqueço

do sopro (ab)surdo que ouço em quanto passo.

Christiana Nóvoa

meuemail: christiana ponto novoa arroba gmail ponto com

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