March 2005 Archives

Cadernos

| | Comments (9)

caderno.jpgNão gosto de escrever diários, não tenho paciência.
Quando criança, quis ter os dias um após o outro, de modo que os pudesse folhear, me recobrando, mas sempre me perdia. Vivia culpada pelos dias saltados e entediada de datas e cabeçalhos e “queridos diários”.
Nunca sabia o que confessar: se era segredo, me sentia exposta, nua, e suava frio de pensar que alguém pudesse violar meus esconderijos, profanar altares íntimos. Se era fato notório, assunto corriqueiro e de domínio público, não seria digno de nota.
Abandonei então os relatos, as datas ordenadas, e fui abstraindo de mim.
Com o tempo as linhas se quebraram, versos. Os sons, fonemas, cada vez menos. Me envergonhava tão estranha escrita. Em meus livros de areia, a cada vez que os abria eu era uma, nunca a mesma.
Passei a suar ainda mais pelos cadernos. Sorte que, agora, poucos me entendiam.

Madalena Renascida

| | Comments (8)

Noli mi tangere.jpgA cada santo dia
Eu renasço da dor
Da paixão e da morte

Aleluia Senhor
Eu sobrevivo ao calvário
Da Tua ausência
.

A PCOA DA RESSUREI?O

| | Comments (10)

Terri Schiavo.jpg
Como a Semana da Paixão sempre provoca reflexões sobre a vida e a morte, temos falado bastante - à volta da nossa távola retangular - do que seria um possível direito à morte e quem poderia reivindicá-lo para terceiros.

O direito de escolher para si mesmo uma morte decente, sem sofrer o aviltamento da dor constante ou tornar-se um fardo penoso para os que estão próximos, me parece um direito quase inalienável de qualquer pessoa mas há veementes argumentos contrários, apoiados principalmente em convicções religiosas.

A legislação suíça e a holandesa permitem o "suicídio assistido" para doentes terminais lúcidos mas a defesa intransigente da vida é uma constante nas Constituições ocidentais (não sei como o Oriente trata estes assuntos).

O avanço acelerado da Ciência nas últimas décadas está nos obrigando, cada vez mais, a rever nossos conceitos sobre a vida e a morte. Até pouco tempo, vida e morte pertenciam ao território do fortuito ou da vontade de Deus. Mas hoje, criamos bebês de proveta, podemos clonar qualquer ser vivo e adiar a morte quase indefinidamente com aparelhos sofisticados ou congelamento. A "vontade de Deus" ficou bastante relativa diante do nosso progresso e mais cedo ou mais tarde seríamos convidados a definir os limites para as nossas possibilidades. Talvez poder fazer nem sempre signifique que devamos fazer.

O caso de Terri Schiavo, em coma há 15 anos, sem chances de recuperação e mantida viva com auxílio de aparelhos, está mobilizando tanto a opinião pública porque suscita uma questão dentro de cada um de nós - o quê eu faria, se fosse esta mãe, este marido ou este juiz?

Os religiosos esperam a orientação canônica da sua Igreja para saber como pensar. Alguns apressadinhos "acham" rapidamente qualquer coisa e saem com faixas e cartazes para defender o achamento. Outros, apenas ficam perplexos. Não se trata de decidir o que "eu" gostaria que fizessem comigo. Trata-se de definir o que é Vida. Ou, na sua ausência, a Morte. Há 100 anos, isto seria muito fácil; hoje, é complicadíssimo.

Parece que existem alguns milhares de pessoas nas condições de Terri, só nos Estados Unidos. É justo destinar recursos e leitos de hospital para quem não tem a menor possibilidade de recuperação? Por outro lado, quantos diagnosticados como irrecuperáveis não se recuperaram? Quanto tempo é razoável que se espere pelo milagre, 1 ano, 15 anos, 40 anos?

As leis são sempre cautelosas quando concedem direitos. Primeiro vem o ventre livre, depois os sexagenários e só então a abolição. Terri é uma vítima não só do destino quanto da morosidade legal. Foi permitido o desligamento do tubo milagroso, só isso. Não foi nem reivindicado o direito a uma injeção letal porque seria eutanásia. scream.jpgEntão, parece que Terri vai morrer de morte bastante primitiva: de fome e sede, o que, afinal, é cruel, quando existem recursos para impedir. E caímos no círculo vicioso.

Talvez, daqui a 20 anos, haja definições mais claras, não só legais mas também filosóficas, para a Vida, já que a vida humana deve ser protegida em todas as suas formas, é um consenso. Talvez não se permita que a Ciência fabrique zumbis - corpos mortos mantidos vivos artificialmente, à espera de um milagre futuro - se ainda não pode devolver-lhes a vida plena nem dar-lhes, porque ilegal, a morte de direito.

E a gente não passe a Páscoa com estas questões angustiantes a verrumar os miolos: mas, afinal, a Terri está viva? E o Timothy Leary?

Ora (direis) ouvir estrelas!*

| | Comments (41)

*do poema Via Láctea, de Olavo Bilac, que eu sempre achei a minha cara. O poema, não o Olavo.

noite estrelada.jpg

Podem dizer que eu vivo no mundo da Lua. Vivo mesmo. Perdida no espaço, viajandona. Desde criança eu sou assim, olho mais pra cima que pra baixo.
Quem me ensinou a reconhecer as principais estrelas e constelações foi o legendário Prof. Assuramaya, astrólogo e professor de minha mãe, eu devia ter uns doze ou treze anos. E até hoje, sou a astrônoma oficial da família. Isso porque minha mãe, apesar de ter se tornado, seguramente, uma das melhores astrólogas do Brasil, e saber enxergar longe apenas observando aqueles símbolos engraçados impressos numa carta astrológica, na verdade é míope como uma porta, tadinha, uma espécie de Mr. Magoo de saias e, por conta desta deficiência, nunca conseguiu sequer distinguir, no céu real, uma estrela de um planeta. Quanto mais diferençar o falso do verdadeiro Cruzeiro do Sul.
Mas eu, desde que aprendi com o venerável mestre a encontrar o Escorpião, com seu comprido rabo de bengala (“Vê aquela estrela vermelha bem no meio do corpo?” mostrava ele, “É Antares, o coração do Escorpião”), me empolguei com o negócio. Durante a adolescência, fui freqüentadora assídua das sessões de observação do céu no Planetário, infelizmente cada vez mais prejudicadas pelas luzes da cidade. Comprei cartas celestes e tentava reproduzir no teto do quarto, com aqueles adesivinhos fosforescentes, as minhas constelações preferidas: o Órion, com as Três Marias ao centro; o Touro, um “V” perfeito, com as fofinhas Plêiades a reboque, todas juntinhas; a Alfa e a Beta do Centauro, alinhadas com o braço menor do Cruzeiro…
As estrelas fixas (assim chamadas em oposição aos planetas, “estrelas móveis”), por manterem sua configuração praticamente inalterada ao longo das eras, me despertam um fascínio particular. São o que os chineses chamariam de 'o imutável dentre as mutações'. Giram, somem e reaparecem conforme as estações, mas estão sempre lá, formando aqueles desenhos que nossos ancentrais mais remotos já conheciam.
São tão maiores e mais luminosas que nós e, no entanto, parecem poeira cósmica. São modestas em sua grandeza. Mesmo o Sol, próximo a ponto de nos queimar a pele, não parece maior que um disco de frisbee. Mas brilha que só e dá vida a tudo que há na Terra. E, diante de tanta luz, ainda tem gente que “se acha”.
Se a humanidade olhasse mais para o céu, penso que o mundo seria melhor. Os poderosos seriam mais humildes, os belos, mais modestos, e os sofredores saberiam relativizar sua dor. Haveria mais poetas e menos generais.
Ou talvez ficassem todos meio paspalhões assim como eu, contemplativos compulsivos anônimos, incapazes de ganhar muito dinheiro e cobrir o firmamento com os tetos luxuosos dos palácios e das mansões. Incapazes de arranhar os céus com espelhados prédios de escritórios. Incapazes de se fechar em bunkers para se proteger dos inimigos. Incapazes, enfim.
Que seja. Minha vida é bela, mais que a de muito milionário, porque eu escolho a cada dia olhar a beleza, e ela é abundante e gratuita. Está aí pra quem quiser ver, ouvir, cheirar, saborear.
Aos devotos do vil metal, os sensatos que constróem e dominam nosso estranho mundo, meu sincero respeito: vocês merecem cada centavo do muito que têm.
Aos visionários renitentes, de pouco mando, pouco siso e utilidade controversa, minha fé solidária: nós merecemos cada menor estrela do infinito que somos.

A FOLHAS TANTAS,

| | Comments (43)

a saudade bateu. Pespegou. Escrever na Internet é mais divertido do que escrever um livro, acreditem. Assim, livro pronto, foi admitida a vontade de voltar à Rede: escrever sem revisão, como quem fala, o que é pecado mortal num livro mas pecar é divertido.
Nós, os Nóvoa, somos uma família falante. Mãe – eu – e três filhos – eles – que nos falamos horas por dia há algumas décadas. Temos em casa uma mesa que os amigos dizem que é feita de um cristal diabólico, quem senta não levanta, como em filme de Buñuel. Acabamos de comer e lá ficamos, falando; vai chegando gente e não nos mudamos para os sofás, permanecemos em torno da mesa excomungada; os amigos às vezes vêm nos buscar para algum programa mas no que puxam a cadeira e sentam conosco estão perdidos, começam a falar também, perdem a hora e falamos todos até bater a fome outra vez e sair o macarrão da madrugada.
Se tiver a cervejinha, o vinho, o uísque e uns belisquetes caprichados, é bom. Mas já vimos muitas vezes o dia amanhecer com café e sanduíche de queijo. Por isso, não foi surpresa a primeira faculdade de todos os filhos ter sido Comunicação. Escolha insensata, desde a minha época. Quando muito jovem, a gente acha que pode ganhar dinheiro fazendo o que faria de graça. Às vezes, até pode. Porém, como ficou claro desde as primeiras aulas de Teoria da Imprensa que nunca seríamos donos de um jornal, tomamos todos novos rumos mas restou aquela inveja cavilosa do Roberto Marinho.
Quando Christiana – a falante filha do meio – veio me propor fazer um blog, jurando que eu só iria escrever e o mistério insondável dos movable types ficaria por conta dela, pensei em John Malcovich, naquele túnel maluco e no Roberto Marinho. Confesso que sempre quis ser dona de um jornal para escrever o que me desse na telha, uma evidente impossibilidade, quem escreve o que lhe dá na telha jamais será dono de jornal.
Mas o mundo virtual é o avesso do real e aderi ao “Nóvoa em Folha”. Combinamos, de saída, um folhetim: uma idéia de anquinhas, que qualquer dono de jornal rejeitaria e substituiria por uma idéia de biquini. Prometemos que não será longo como novela de Aguinaldo Silva nem sucinto como hai-kai do Leminski. Também não asseguramos regularidade jornalística porque, bolas, precisamos ganhar a vida. Ficaremos naquele padrão-blog, vocês sabem como é. É que Christiana – que faz da edição à faxina – na verdade ainda não sabe nem postar uma foto.
Eu cá é que estou achando muito bom ser sócia de uma folha e dizer tudo que me vier ao bestunto.

Folhetim: Cora? de Pedra

| | Comments (1)

Capítulo I – A Carta

O verão de 1918 foi muito abafado. Especialmente agora, sob o mormaço do meio-dia que tingia a paisagem lá fora num tom ofuscante de cinza chumbo. missloveletter.jpg Metal ardente. Como ardia também em brasa o coração da jovem Frederica Eugênia, que em vão se abanava, perto da janela, deixando no ar o aroma suave de seu leque de sândalo. Derretia sob o vestido preto e fingia consternação diante do corpo inerte de Eulógio Sepúlveda, Barão da Grota Funda, seu nem tão amado avô. Ainda que pouquíssimo estimado pelos que o conheceram, Eulógio havia amealhado fortuna suficiente para comprar uma legião de falsos amigos. Estavam todos lá, inconsoláveis, carpindo. Frederica Eugênia, à falta de lágrimas, usava o lenço de cambraia para enxugar a testa, misturando ao sândalo um leve olor de alfazema. Seus olhos buscavam, dentre a multidão de hipócritas, o único semblante capaz de refrescar-lhe a alma. Ao encontrá-lo enfim, quase não conseguiu conter um sorriso desabrido demais para a ocasião. Abaixou a cabeça e esperou que ele se aproximasse. O coração aos pulos só de pensar que iria abraçá-lo, mesmo sabendo que seria apenas um abraço de pêsames.

A estr?

| | Comments (39)

il_matto.jpg Ouvi dizer que a quantidade de adrenalina liberada pelo organismo de um ator, no instante que antecede sua entrada em cena, seria suficiente para matar um ser humano “normal”. Isso deve significar que atores, se estão vivos até hoje, não são pessoas normais. Não sei se esta informação é correta mas concordo inteiramente. Fiz anos de Teatro e nunca conheci um só ator normal. É bem verdade que nunca encontrei alguém que fosse totalmente normal, mesmo entre os não-atores. Aliás, se encontrasse esta normalidade encarnada, penso que seria uma personalidade altamente patológica. Mas não quero enveredar aqui por discussões sobre normal e patológico. Vamos apelar para o senso-comum e admitir que existem pessoas mais escandalosamente anormais que outras. E o ator é, definitivamente, um anormal escandaloso.
Só quem já esteve numa coxia, à beira do abismo do palco, sabe a dor de barriga que dá quando soa o terceiro sinal. A sensação de morte iminente, a vontade de fugir, o arrependimento por ter se colocado em tal perigo, a paralisia e o “branco” total radiante, esqueci tudo, não vou conseguir, não dá tempo de ir ao banheiro, ai, caralho, e agora? Mas alguma loucura (ou um colega do elenco) empurra o infeliz para o palco e ele só tem tempo de pensar: seja o que Deus quiser!… E Deus costuma ajudar. Raramente um ator morre em cena. A Denise Stoklos quebrou a perna outro dia, Sarah Bernhardt também, mas já faz tempo. Ossos (quebrados) do ofício. Ao fim do espetáculo, porém, a recompensa: o ópio das palmas. E o ator sai do Teatro num estado de consciência totalmente alterado, entorpecido dos humores báquicos. Pupilas dilatadas, ego inflado, libido em alta e senso crítico lisergicamente nulo. De modo que as prazerosas sensações ocorrem mesmo que sua performance tenha sido lamentável. Por isso tanta gente faz mau Teatro pelos palcos da vida. Pobres dependentes químicos.
Por sorte eu consegui me livrar desse vício da adrenalina braba do Teatro. Hoje só uso drogas leves. Estréia escrita é bem mais light, dá pra avaliar a obra antes de se expor e tentar corrigir. Não é atividade 100% segura, pode-se quebrar a cara também, mas a perna geralmente é poupada, exceto pelo risco de varizes por ficar sentado tanto tempo.
No entanto, o melhor da escrita é não estar lá na hora da vaia. Mesmo um comentário ácido ou uma resenha arrasadora ferem menos, se escritos, que um impropério berrado ao vivo, um tomate lançado em fúria ou, tragédia das tragédias, o ronco de um espectador.
Por essas e outras estou aqui hoje, buscando na escritura a cachaça que embriague meu espírito, a marijuana que me incense a dor, o tédio, a revolta. Sentindo aquela ondinha boa, aquele certo nervoso, aquele medo básico do ridículo na hora de apertar o SAVE.
Primeiro sinal: !¡!¡!¡!¡. Com as bênçãos de Dioniso, vai começar a bacanal. Evoé. Merda. Quebre a perna.
Segundo:!¡!¡!¡!¡. Tá quase. Respira fundo e solta em oito. Seja o que Deus quiser.
Salvem espíritos das letras e das cenas, salvem amigos e desconhecidos, salve a musa, salve mãezinha, salve rainha, salve a amazônia, salve a mangueira, estação primeira, pátria amada, salve, salve. !¡!¡!¡... SAVE.

Minha casa, sua casa

| | Comments (0)

gogh.white-house.jpgUm sítio aprazível para toda a família, versão virtual do Solar dos Nóvoa.

A mesa está posta, pode puxar uma cadeira e degustar nossos acepipes.
Sirva-se à vontade, que idéia aqui dá em árvore genealógica.

Não cobramos 10% mas seu pitaco será bem-vindo.

Agradecemos a preferência. Volte sempre.

Powered by Movable Type 4.1

Minhas melhores fotos são dos olhos do meu filho.

Meus melhores poemas, confesso, não sou eu que faço.

Laço o que posso, o pouco que não esqueço

do sopro (ab)surdo que ouço em quanto passo.

Christiana Nóvoa

meuemail: christiana ponto novoa arroba gmail ponto com

About this Archive

This page is an archive of entries from March 2005 listed from newest to oldest.

February 2005 is the previous archive.

April 2005 is the next archive.

Find recent content on the main index or look in the archives to find all content.