May 2005 Archives

Chose de Locke!

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De passar mal, os comentários da galera no post abaixo! Quem arrisca mais um trocadêmico?

Seleção de comentários: Diálogo na Academia

Diálogo na Academia

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foucault.giffreud.gif
– - E aí, tudo Deleuze?
– - Nada, meu orientador Mi-Foucault.
– - Marx safado!
– - Nietzsche conto…
– - O meu também só me Freud.
– - Minha tese é um deSartre.
– - Mas deve Habermas. E a vida?
– - Ah, a Wittgenstein…
– - Como?? Pra ser Frankfurt, não entendi.
– - Nem eu. É só Adorno.
– …(silêncio lacaniano)
(Pano rápido)

O ESCRITOR, ESTE POBRE COITADO

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Hoje é o último dia da Bienal Internacional do Livro, que lota o Riocentro há duas semanas. O terno branco de Tom Wolfe disputou espaço com os cigarros de Lolita Pille nos jornais; mas os grandes sucessos de público – assediados por multidão de fãs – foram MV Bill e o Big Brother Jean Wyllys.

Um romance recém-lançado, do espanhol José Luis Saorín, fala de uma “grande editora que não só mata o romance como também todos os gêneros literários, criando uma fábrica de livros escritos por ‘ghost-writers’, na qual os autores são engrenagens na cadeia de produção e onde não se fala mais em literatura e leitores mas somente em produtos e clientes”. Alguns escritores, às vezes, são profetas.

Moro no Rio e aqui não podemos reclamar de pobreza cultural. Há algum tempo, a Prefeitura gastou 2 milhões de dólares só num “estudo de viabilidades” para trazer o Guggenheim para cá. Os shows nas praias custam somas fabulosas e acontecem com freqüência, não só no réveillon. Trazem Rodin, trazem Monet, trazem Dali e esta agenda cultural é montada com dinheiro assumidamente público ou isenção fiscal, o que dá no mesmo. Nossa condição de platéia custa caro aos cofres brasileiros mas a produção de uma cultura nacional é mais do que precária – é quase inexistente. O músico, o ator, o bailarino, o artista plástico, o cineasta, ainda podem ter a esperança de que a Lei Rouanet, um dia, invista em seu talento. O escritor, coitadinho, tem que rezar para ganhar na Mega-Sena.

Em tempos de Bienal do Livro, o BNDES anuncia novas medidas (junto com o Ministério da Cultura) para editoras e livrarias: empréstimos a partir de 1 milhão de reais e não mais de 10 milhões – só uma editora no Brasil tinha potencial para empréstimos desta monta. E a produção de livros no país, com a desoneração fiscal de fins de 2004, tornou-se totalmente isenta de impostos. Bom, para os empresários do livro. Mas... o que se pensa para os autores de livros?

biotonico_fontoura.jpgNo Almanaque do Biotônico Fontoura de 1943 (não posso ver um Biotônico ou um Abacateirol antigos que não compre, são cultura mais compactada do que na Internet), há uma impressionante relação, sob o título de "Escritores Pobres”: Desde Milton, que vendeu seu Paraíso Perdido por 10 libras, ao que vendeu o corpo para cirurgiões, ao que casou com a lavadeira para pagar dívidas. Além de Camões e Cervantes, que morreram na miséria.
Há um vínculo perverso entre literatura e indigência. Ariosto habitava, no fim de sua vida, uma das casas mais ordinárias da cidade e era o primeiro a gracejar com a magnificência dos palácios que descrevera no Orlando, dizendo que era mais fácil juntar palavras do que pedras. Ou moedas.

As moedas públicas saem para outras áreas culturais e possibilitam a revelação de talentos. Só a literatura é a enjeitadinha das artes. Há o prêmio Camões, vocês dirão, 100 mil euros. Sim, para autor consagrado. Mas, qual o caminho para o escritor talentoso e ainda não editado? Um editor declarou uma vez (não posso jurar que tenha sido o dono da Companhia das Letras mas me parece que era) que só editou duas obras cujos originais lhe chegaram pelos Correios. O escritor precisa ser indicado como escritor para vir a ser um escritor. Absurdo, não?

Qual a chance do escritor talentoso que nasceu no Acre ou no Piauí, não se mudou para o Rio ou São Paulo e não conhece intelectuais que o indiquem? Se a bailarina dança, o ator representa, o peixe nada e o passarinho canta, por que o escritor deve ser funcionário público para se sustentar? Por que lhe cobram que seja ou best seller ou mendigo? Por que não existe escritor classe média, sustentando-se dignamente com aquilo que escreve? Há dinheiro público para financiar a cultura, e o fundamento de quase todas as artes é a literatura, sem dúvida.

Vamos pensar no que custa um filme. E no que custa um livro. Em um ano, um escritor pode escrever seu livro, desde que possa se dedicar a ele todos os dias. Se houvesse verba pública para, todos os anos, premiar dez autores em concurso, se este prêmio fosse algo não menor do que 50 mil, teríamos uma despesa anual de 500 mil (bem menor do que o custo de um filme) com o incentivo à literatura e, com este dinheiro, o autor poderia pensar em passar um ano escrevendo seu próximo livro. Profissionalmente. E não amadoristicamente - no tempo que lhe sobra de outras atividades - ou se sujeitando a viver o mito do artista miserável que morre de fome enquanto engendra a sua obra.

Os festivais de MPB, na década de 60, renovaram a música popular. Os que ainda hoje estão aí, Chico, Caetano, Gil, Edu, etc; etc; foram revelados em festivais e conseguiram furar o bloqueio das gravadoras. O Brasil inteiro mandou fitas para os festivais e as melhores foram selecionadas e apresentadas ao público; ou seja, foi dada visibilidade àqueles compositores e eles iniciaram uma carreira profissional. Lucraram todos, eles e a música.

Por que não há um concurso decente para o escritor iniciante?

Não sei como é a “política literária” em outros países. Aqui no Brasil, é quase impossível ao jovem escritor editar seu livro. Fala-se muito que o brasileiro precisa ler mais; mas não se dá a mínima chance ao escritor inédito brasileiro. E, enquanto “consumimos” música brasileira e dramaturgia brasileira – com as novelas de TV -, e isto é muito bom, lemos Dan Brown: a lista dos 10 mais vendidos, em tempos de estímulo literário provocado pela Bienal, traz 7 estrangeiros e apenas 3 brasileiros: Paulo Coelho (fenômeno mundial), Jô Soares (que chegou à literatura oriundo de outras áreas) e Lya Luft (mulher de dois escritores com trânsito em editoras e que, certamente, nunca mandou um original pelos Correios).

Onde estão os escritores brasileiros, que poderiam ter sido descobertos pelo Ministério da Cultura?

Sina de poeta

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Queria trazer aqui, para ilustrar o texto de minha mãe, um trecho da peça Antônio José ou O Poeta e a Inquisição (1838), de Gonçalves de Magalhães (1811 – 1882), considerada a primeira tragédia brasileira, e encenada por João Caetano.
Qual não foi minha surpresa ao perceber que, ainda que esteja em domínio público, e apesar da importância da obra, não é possível, ao que parece, encontrar uma versão eletrônica da mesma. Tive então que desencavar meu velho texto, uma cópia xerox em estado bastante precário, e dar-me-ei à pachorra de digitar aqui um trecho, para vosso deleite. Peço perdão pelo reduzido do excerto, uma vez que eu cato um milho danado e não sou capaz de me concentrar por muito tempo em tarefas enfadonhas de cópia. Se alguém souber onde encontrar este texto completo na web, agradeço muitíssimo a indicação.
Pois bem, vamos à peça. Nesta cena, Mariana, atriz, lamenta-se de seu destino de artista à criada Lúcia. A aia, em seu bom-senso, condói-se da triste sina da patroa, bem como de todos os escritores e poetas, como o protagonista Antônio José, um dramaturgo, ou Camões, obrigados pela vocação a dedicar-se apaixonadamente a seus ingratos ofícios, por amor à glória.


Antonio José ou O Poeta e a Inquisição
Gonçalves de Magalhães

(cena III – Primeiro Ato)

(…)

Mariana (Levantando-se) – Vê como é difícil
O trabalho da mente, e o quanto custa
Ter um nome no mundo! Enquanto dormes
No teu leito tranqüila, eu velo, eu luto.
A noite para ti traz o repouso,
E se o dia ao trabalho te convida
Com a paz no coração deixas o leito.
Teu diurno trabalho não te cansa;
Com a paz no coração ao leito voltas.
Mas eu, quando repouso? Ante um espelho
Estudando paixões, compondo o corpo,
Mil expressões numa hora procurando,
Meus dias passo; – e tu doida me julgas
Quando me vês lutar, gritar, ferir-me,
E às vezes investir-te delirante!
Durante a noite minha fronte escaldo
Junto desta candeia, que me aclara,
Sua negra fumaça respirando,
Ou medindo o salão de um lado a outro
Sempre com o meu papel diante dos olhos
Como um espectro do sepulcro erguido,
Em desalinho, pálida: e cem vezes
Primeiro a luz se apaga, que eu me deite.
Se busco o leito então, oh, que tormento!
Da cabeça inflamada o sono foge;
Nova cena a meus olhos se apresenta.
No teatro me cuido; escuto a orquestra,
Vejo a platéia, e os camarotes cheios,
Ouço os aplausos, bravos que me animam,
E com esta ilusão a vida cobro.
Mas eis que durmo, sonho, e de repente
Ao som da pateada aflita acordo.
É manhã; – e outra vez começa a lida.
Oh vida! Oh ilusão! Oh meu martírio!

Lúcia – Oh! Certamente que me causa pena.
Tanto eu não poderia: antes quisera
Uma esmola pedir de porta em porta,
Do que seguir tal gênero de vida.
E então por que ralar sua existência?!
Para agradar ao povo! E apresentar-se
A rir, ou a chorar, como uma doida!

Mariana – Que dizes tu? Coitada! O teu discurso
Bem mostra que da glória o amor não sentes.

Festa no C? Casamento de Ti®

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Jupiter and the Moon.jpgEssa noite temos um motivo a mais para olhar para o céu.
A partir das 18:16 (hora de Brasília) ocorre um fenômeno raro, chamado Ocultação de Júpiter, o que significa que o planeta Júpiter será eclipsado pela Lua.
Isso ocorre porque os dois corpos celestes, embora bem distantes um do outro, estarão alinhados com relação à Terra. A Lua vai ficar na frente de Júpiter por exatamente 1 hora. Às 19:16 o planeta volta a aparecer do outro lado.

Panfleto

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foragarotinhos.gif

O Gejfin criou este mimoso panfleto pra ilustrar nossa "passeata virtual".
Clicando sobre a imagem, você tem acesso ao arquivo, pra poder copiar e reproduzir à vontade. Cole em seu blog, imprima, envie por e-mail.

Aproveite pra dar um rolé pelos blogs amigos que estão engajados nesta causa:
Cora , Guto , Idelber , Leila , Paulo , Sergio , Tiagón, Inagaki, entre outros. A lista não pára de crescer. É a blogosfera unida em defesa da justiça e da democracia. Expresse sua indignação, proteste você também.
O povo unido jamais será vencido!

Garotinhos fora-da-lei

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Gente, tem post no Idelber e na Leila sobre o caso dos Garotinhos. Vão lá, dêem pitaco, desçam o pau, mandem e-mail pros amigos, pros políticos, pros juízes, façam todo o barulho possível. Vamos livrar o Rio dessa turminha da pesada!

Claustrofobia

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escher.jpgEu preciso sair já
Deste corpo sem espaço
Zarpar pra terras distantes

Ver as praias com outros olhos
Outros braços, almirante
Do barco de outros cansaços

Outras fome e paladar
Inéditas, frescas memórias
Novas histórias antigas

Parentes velhos em folha
Tias-avós rebordadas
Jovens familiaridades

Lembrar daquela cantiga
Que uma mãe desconhecida
Calou pra não me acordar

Não a mesma arca cheia
A resma de escritos velhos
Testamentos, evangelhos

Mesmos livros preferidos
Sebo das meias-verdades
Saldos de tardes relidas

Amores, pranto, feridas
Tudo tão passado quanto
Mais pesado nesse aqui

Que não me deixa sair
Que me apega ao que está morto
E me conserva latente

Na vã e impaciente espera
Pelo redentor aborto
De minha última quimera


.


P.S. - Sai, Augusto dos Anjos, deste corpo que não lhe pertence! :o)

Microcontos

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a casa das mil portas.gif

Tem microcontos meus na nova fornada do interessante projeto A Casa das Mil Portas, do Nemo Nox.
Dentre os autores tem muita gente boa que eu já conhecia, como Idelber Avelar (nos brindando com um raro momento assumidamente literário) e Alexandre Inagaki, um dos primeiros a aderir à brincadeira. Também descobri novas preciosidades, como o blog da Crib Tanaka (vocês têm que ir lá ver como ela escreve MUI lindamente!), entre inúmeros outros que vale a pena visitar.

A idéia aqui é contar uma história em cerca de 50 caracteres, ou menos, a exemplo da célebre "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.", do guatemalteco Augusto Monterroso.
Como a ordem em que os contos se apresentam é aleatória, e são até agora 111 autores, vocês podem ficar um tempão explorando a "casa" e nem chegar a ver alguma de minhas cinco pequenas infâmias. Ei-las portanto aqui agrupadas, para vosso conforto:

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Tinha medo de morrer dormindo. Morreu em pé, de medo.

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Entrou escondido, pé ante pé, para que não se encontrasse.

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Tinha muita gente dentro daqueles olhos. Foi fumar lá fora.

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Atravessando a rua, pensava: a vida é. No que pensou, já era.

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Sempre foi um otimista. Ao suicidar-se, morreu de rir.

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birth_of_venus.jpg

Eu costumo manter certa distância dos movimentos feministas (embora reconheça suas importantíssimas conquistas), porque eles ainda estão longe de defender o que eu entendo por FEMININO. Como não estou a fim de ir à reunião pra ficar polemizando com as colegas (que afinal de contas são bem-intencionadas) divido aqui com vocês minhas reflexões sobre as chamadas questões de gênero.

SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS

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Tenho pena do camelô mudo, aquele que fica sentado na frente do seu caixotinho, em silêncio, desviando o olhar de quem passa e quase pedindo desculpas por ser o que é. Ao mesmo tempo em que sou fascinada pelo camelô falante, embora nunca tenha encontrado pessoalmente o Sílvio Santos. O último camelô que me hipnotizou, meses atrás, estava em Copacabana vendendo por 5 reais notas de 10. A multidão se acotovelava em volta, disputando aos empurrões a utilíssima mercadoria; alguns perguntavam se aceitava cheques e ele negava, só dinheiro vivo; falava biblicamente sobre milagres, multiplicação dos pães, exploração do homem e FMI, enquanto o bolo de notas de 5 ia crescendo em suas mãos e o bolo de notas falsas diminuía na gamela de barro que lhe servia de guichê. Um craque da comunicação, aquele camelô; e só não comprei notinhas de 10 por pura vergonha de virar estelionatária a esta altura da vida, alguns anos atrás, não sei não. Fiquei lá, em êxtase, no meio da turba, enquanto ele rapidamente liquidava seu estoque e sumia, abraçado ao alguidar, por uma tranversal em direção à praia.

M??udo igual mas ?ma 

| | Commentários (7)

Ano passado eu escrevi este texto declarando o mais babento amor filial por minha especialíssima mãe. Como minha progenitora e meu amor continuam os mesmos, resolvi brindá-los com um repeteco safado. Até porque hoje temos, acima, texto inédito da própria, só pra lembrar que ela anda ocupada e meio ausente por aqui mas continua a mesma maravilhosa de sempre.
FELIZ DIA DAS MÃES A TODOS!

F?ro

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fosforo.jpgMúsicos se atêm ao tema
Ateus, ao sistema
Tementes, a Deus

Só eu me aferro a mim no vão do acaso
No fundo a ordem é só isso: o caos
Desinventando onde duvidar

Ontem, no escuro, me perdi da fé
Sobrou-me um fósforo que não encontro
Nessa bagunça de livros, papéis

Pra quê meu deus arrisco este poema?
A quem eu penso que meu tiro queima?
De quanto peso eu teimo que me livro?

.

Novas p?las

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PEROLA.jpgSó pra avisar que continua

pingando poesia

no nosso sarau

.

Liberdade para as Borboletas

| | Commentários (11)

“Gostar deve ser a melhor maneira de ter. Ter deve ser a pior maneira de gostar.”
(O Conto da Ilha Desconhecida – José Saramago)
butterfly.jpg

Esta semana deve ser homologado meu divórcio, tornando-me uma mulher oficialmente livre (e uma católica excomungada).
O novo estado civil levou-me a uma reflexão sobre o pacto insalubre da fidelidade: da exclusividade sobre o desejo do outro e do suposto controle voluntário sobre nosso próprio desejo em favor de outrem.
Antes que alguém pense que estou advogando em causa própria, devo esclarecer que sempre fui estritamente fiel. Por princípio, por higiene, por falta de iniciativa, sei lá, fato é que sou assim, naturalmente inclinada à fidelidade.
No entanto, não acredito mais no COMPROMISSO monogâmico. Embora tenha jurado em voz alta diante de uma igreja (uma capelinha, vá lá) lotada que seria fiel até a morte. Isso confesso que não fui, já que, separada, ainda estou viva. Mas avisei ao principal implicado (no caso, meu marido) com bastante tempo de antecedência, de modo que ele pudesse ser perjuro bem antes de mim, como convém à dignidade masculina. E assim quebramos, de comum acordo, o insano contrato que firmamos no calor da empolgação casamenteira.
Acho que se tivéssemos jurado ser AMIGOS para sempre, nosso trato teria sido mais útil em vários momentos delicados em que chegamos a perder de vista este aspecto. Ser amigo significa prezar o bem-estar do outro incondicionalmente, acima de quaisquer motivações egoístas.
Separar os corpos mantendo a amizade, eis aí uma arte que deveria ser cultivada pela sociedade, muito mais que o apego possessivo ao ser do outro como um bem agregado. Os termos que se usa para falar de relacionamentos não distinguem pessoas de coisas: ganhou fulano, perdeu sicrano, pegou, comeu, largou.
A jura de fidelidade é a garantia do amor capitalista, a apólice de seguro. Emitimos e recebemos promissórias como se fosse possível dar lastro substancial ao que é essência. Quando nos sentimos ameaçados ou traídos, saímos logo cobrando, protestando nossos títulos. Puro dispêndio de energia, já que ninguém pode restituir por direito o que nos foi dado por graça.
É, portanto, por fé no amor que não quero mais ter, nas empresas amorosas, o departamento de cobrança. Anistia para o amor: ampla, geral e irrestrita.

P.S. – Hoje é aniversário do meu ex-marido, o MELHOR pai do mundo, motivo mais do que suficiente para fazê-lo amado por todo o sempre. Não fossem tantos outros bons motivos, como se, aliás, precisássemos de razões para amar.

Caixa de j?

| | Commentários (5)

psyche.jpgAs coisas mais lindas da vida não são coisas, são momentos que guardamos num relicário íntimo.
Trocar poesia e arte com amigos é, pra mim, o máximo requinte da natureza humana - pelo menos, dentre as coisas que se podem fazer em público.
Este Sarau que "brotou" na nossa caixa de comentários foi uma manifestação espontânea e luxuosa do que a vida tem de melhor. Vocês que comentam aqui (ou mesmo os que apenas lêem, porque também participam desta abundância) me fazem sentir milionária.

Expostas abaixo, as jóias deixadas nas caixas:

P?las do Sarau

| | Commentários (8)

Não é por nada não mas este sítio é freqüentado por pessoas MUITO especiais.
Pra quem tem preguiça de olhar as caixas de comentários, aqui vai uma seleta do que rolou no nosso Sarau:
pearl_shell.jpg

Por Alexandre Inagaki:

Não sei falar de mim mas falo
Palavras se escrevem e eu me calo
O tempo é soco e o soco não sara
Rara é a vida e o amor é a máscara
Língua é bala se míngua é a fala
Mas não tenho certeza de nada

Não sei falar de mim mas falo
O tempo se escreve e eu me calo

.


Por Flavio Prada:

Eu não me traio em enganos
Lendo aqui os teus versos
Que os poemas como os panos
Recobrem as verdades, perversos

Invente sim e fale e diga
Porem nao tente esconder
Pois se é mesmo minha amiga
No fundo me fará tudo saber

.


Por Nelson Moraes:

Ela me pede um verso alexandrino
E nos dedos as sílabas fico a contar
Me esquecendo que na hora de poetar
O vate adulto não passa de menino

Culpa minha, ah, essa sina tétrica
Que desde sempre me faz perseguição
Ao invés de nos versos pôr coração
Fico é enredado ao seguir a métrica

Ó, Christiana, que a modéstia me ataque
Mas sonetos mui melhores que o meu
Já estão aí: o do Flavio e o do Inagaki!

.


Por Christiana Nóvoa:

Poeta Nelson, é mesmo quase um soneto
O alexandrino que você me prometeu
E em má emenda eu lhe dedico este terceto

.


Por Maria Helena Nóvoa:

Aqui no nosso solar
(que não é só lar, é festa,
basta puxar a cadeira
que a conversa ou a seresta
vão rolar a noite inteira)
não cabem só acadêmicas
trovas digitais perfeitas
contadas com zelo e fé.

Que ao poema christiano
se junte o de pé quebrado
e à rima flaviana
se una rima sem pé.
Que o alexandrino Inagaki,
desde o berço destinado
a engendrar dodecaversos,
tente repentes que lembrem
Patativa do Assaré.

Que venham versos em sete
com aquela cara de Lorca,
concretos - como os De Campos -
ou hai-kais, que eu duvido
um Bashô mais divertido
que Nelson, nosso Almirante.
Que venham Carpinejares
e também Camões e Dante.

Só não vale sonegar,
por vergonha ou timidez,
o dom, o talento, a veia
e engavetá-los de vez.
Um poeta de coragem,
convidado de um sarau,
levanta-se, pigarreia,
mata cobra e mostra o pau.

.


Por Flavio Prada:

Vejam voces que diferente
Um comment assim se fazer
Estimulado por toda essa gente
Que poetando se põe a dizer.

Tudo começa no inicio, que heresia
Quando a nossa doce Christiana,
Postando uma bela e meiga poesia
Mente e finge sim, mas não engana.

Agora não paro com os versos
Ja está se formando um vìcio
Até na fila do banco, perversos
Me veem à mente sem sacrificio

A moça do bar parece que gosta
Já o cara do posto me olha de lado
A minha vizinha me chama de bosta
Mas eu nao lhe respondo, controlado.

Espero que a coisa prossiga
Para poder voltar e comentar
Porem me permitam que diga
Que blog bom para poetar!

.


Por Renata Maneschy:

O poeta é um fingidor
Assim como a mulher
Ao escrever a sua dor
E disfarçar o que quiser

E se o que quer é amor
E ela o faz por merecer
Em suas palavras há clamor
E um desejo de vencer

Um jardim sem flor
Um luar ao amanhecer
Banho sem frescor
Lágrimas ao entardecer

Metáforas de um escritor
Com medo de enlouquecer
Ver um arco-íris sem cor
E a inocência se perder

Quando cala, sorri
Mas por dentro sente
A realidade destruir
Algum desejo inconsciente

Catarse no divã
Freud, Jung ou Lacan
Tradutores de um mundo invisível
Tecla sap do incompreensível

Deita, fala e analisa
Quem escuta não explica
Só quem vive, sabe
Que ser livre é ser metade

É bobo ou infantil
É maduro ou senil
Mas que diferença há
Entre ver e enxergar?

Nesse palco sou atriz
Nessas linhas sou poeta
Nesse jogo sem juiz
Divagar é o que me resta

Quem cala, consente
Quem fala convence
Quem olha, sente
Se gostar, comente

.


Por Fernando Paiva:

No meio dos Bambas
Um Conga sujinho
Não tenho nada na gaveta
E num momento solene
Eu comendo pipoca na platéia vibrante

As vossas pérolas amadurecidas
Faiscam no sol dos arrecifes
E minhas bolinhas de gude
Desceram ao fundo do mar

Nesse globo todo mapeado
Do falecido Eldorado
Meus olhos ficaram parados
Nessa minha visita ao vosso sobrado

Um pedacinho de horizonte!
Que beleza!
Lá além dele
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

Só estou fingindo ser poeta
Pra não levar nariz torcido
Melhor ser palhaço do circo
Só sei andar de bicicleta

Só queria dizer -Oi querida.
E acabei tendo que...
Como se diz mesmo?

.


Por Luiz Biajoni:

o poeta é um miserável desgraçado sem ter onde cair
morto
mesmo nesse estado continua sendo o que sempre foi

.


Por Cynthia Feitosa:

Chego assim, depois da hora

Com a sala já escura,

E a festa há muito acabada

Justifico minha demora

Com a vergonha da feiúra

E da roupa larga e emprestada

Com todos adormecidos,

Deixo num canto, escondido

O meu presente, coitado

Tão pobrinho e mal embrulhado

Um poeminha indigente

Versos sem nenhuma métrica

Profundidade adolescente

Uma ou outra rima tétrica

Não sabe contar nos dedos

Nunca foi alexandrino

Nem sabe o que é um soneto

É um pobre cynthiano

Que só se mostra com medo

Mente ser pós-moderno e urbano

Mas só faz papel de cretino

Ouço um barulho na escada

Será que tem gente acordada ?

Fujo a toda velocidade

Antes que alguém leia - e trema

Com a ruindade do poema

Que era prova de amizade.


.


Por Celso Carneiro:

POETA
Ser poeta!
Será um estado...
uma sensação...
uma emoção...
uma impressão...
elaboração?
Uma profissão,
decerto que não!
Um ofício?
Não, que alívio!
Uma divagação, talvez...
Uma desocupação, certamente.
Mais,
uma pretensão descomunal
de reduzir a versos o anverso da razão;
de transfundir as cores das visões
e desenhar o redemoinho das paixões,
num pedaço raso de papel.
É mais:
o desvario de supor
que tu aí,
que vives no tempo
e cuidas da moeda,
entediado no desencanto das esperanças fugidias,
possas ouvir o canto mudo
de uma poesia pequenina.


.


E aí, quem vai dizer o próximo?

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