- No dia 12, não dê bichinhos de pelúcia à amada nem a invoque no diminutivo; o amor é grave e não atende por eufemismos ou onomatopéias. Seu significado mais aproximado é morte mas não aconselho chamá-lo pelo nome verdadeiro (assusta) nem empregar o apelido meloso (avilta).
- No dia 12, não se meta a definir o amor à amada para assegurar que o experimenta. Muitos tentaram, pouquíssimos conseguiram, e em nenhum dos casos a amada estava ao lado para ouvir. Arrisque a mudez. Não diga não tenho palavras porque não é deficiência sua. Não as há. E jamais assine embaixo de cartões impressos, são epitáfios para o amor.
- Não procure ser excepcionalmente agradável neste dia e satisfazer todos os desejos dela o amor deseja além do desejo dos que dele participam e nunca ninguém se fez amar sendo gentil.
- Não planeje o hotel, o vinho, a banheira, não compre uma camisa nova, não adianta nada; o amor não acompanha o ser mais bonito que nos apareceu, nem o mais inteligente, nem a trepada inesquecível, nem o cenário perfeito. O amor é absurdo.
- Não dê rosas no dia 12, ou marias-sem-vergonha. Nem diamantes ou bijuterias. Não serão lembrados se não for amor; não serão necessários, se for.
- Não comam bombons a dois, imaginando que o amor é doce como chocolate. Nem é apimentado como acarajé. Deve ter gosto de ambrosia mas os deuses do Olimpo nunca disponibilizaram a receita, então, esqueçam as comidinhas talvez o dia do amor peça o jejum.
- Nem adianta convocar qualquer outro dos sentidos para tornar o amor presente no seu dia. Amor não tem forma, cheiro, som ou gosto e permanece na presença como na ausência. Não é abstrato mas concreto, certamente, não é.
- O amor sobrevive ao tempo. Dizem até que é eterno mas isso não podemos afirmar, só saberemos se o encontrarmos na eternidade. Crônico, é. Como vírus resistente, que não nos mata mas também não vai embora; morre conosco. Se morrer antes, não era amor.
- O amor é um, vocês sabem, e o um não pode ser definido. Pode ser, em raros momentos, experimentado. Mas não nos dá nada, não recebe nada, não facilita, não cria, não é sujeito nem objeto de qualquer ação que se costuma vincular a ele. Apenas existe. E um dia, se tivermos sorte, nos aparece face a face.
- No dia 12, agora, domingo, vá à presença da amada e cumpra toda a liturgia do amor; os cerimoniais são belos. Mas não confunda a amada com o amor e ela no futuro lhe agradecerá a lucidez. O amor não é um encontro, é uma perseverante espera por si mesmo.
(Publicado pela primeira vez no Epinion, em 07/06/2004)