June 2005 Archives

Corpo Santo

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davidmichelangelo_.jpgTua lembrança pulsa
Luz densa
Como se houvera

Imensa como se fôra

Nostalgia da espera

Obra-prima da coisa extensa:
Cogita onde não existe

Surpresa tão mais persiste
Incógnita

Verbo em silêncio agudo
Abismo por princípio
Oni-ausência

Ilusão que me pensa

Fogo que não se sabe pra quê
Não cabe

Arde aí
No que me escapa

(paira em suspensão íntima
latente e súbito como se)

A solidez da tua falta
É laje que me eclipsa
Vão que me sepulta
Ôco que me cria

Solidão última

O não posso de cada dia


.

Dia de S?Pedro

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baloes.JPG

Há treze anos a vida perdeu boa parte da graça, da beleza, do glamour. Perdeu até a fé, que recuperou aos poucos porque o tempo muda a face da dor. A fisgada aguda, passar não passa, torna-se crônica. O que era figura torna-se fundo e o drama encena novos atos. Mas o nunca mais... ah, isso não tem cura.
Há treze anos a vida perdeu uma grande piada, o senso do belo, uma voz de barítono. Uma festa, um festival completo, um riso iluminado como balão de São João.
Hoje é dia de soltar balões porque num dia de São Pedro, há exatos treze anos, a vida perdeu o Belben e nunca mais encontrou.

TEORIAS DA CONSPIRA?O

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bataves.jpg
Circula pela Internet um documento que fala em ”golpe de estado”, recheado de lances rocambolescos e tendo como personagens algumas das figuras mais conhecidas da República.

O que, antes da Internet, se falava à boca pequena e jamais seria publicado por qualquer veículo sério, hoje cai na Rede. Nem tudo que cai na rede é peixe: há mentiras e verdades, pérolas e lixo, versões prováveis e absolutamente improváveis dos acontecimentos. É o que me encanta, todas as manhãs, quando fecho o jornal e abro o computador – no jornal eu tenho o que é provável (passível de prova), na Internet o anonimato dispensa a cautela e podemos ter a hipótese não provável mas possível. E há mais possibilidades entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.

As “teorias da conspiração” têm inegável vantagem sobre os fatos provados – são mais inteligentes.

Ao longo dos muitos anos que vivi, acompanhei versões que viraram História: os eventos de 64 foram motivados por um discurso infeliz do Presidente Goulart no Clube dos Sargentos e a marcha Pela Família Com Deus das donas-de-casa paulistas; em 15 dias, os militares se mobilizaram e tomaram o poder por 25 anos. Na época, muitos falavam da CIA e de um plano maior do governo americano para a América Latina mas teorias conspiratórias – todos sabemos – são improváveis.

O mineiro s?solid?o no c?er

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Nelson_Rodrigues.jpg
Poucas experiências se comparam ao prazer do bom teatro. Em compensação, nenhuma tortura cultural se iguala ao constrangimento de assistir a uma peça ruim.
Eu pensava que já tinha visto o pior em termos cênicos mas o mau gosto consegue encontrar novas roupagens sem, contudo, inovar.
Eu não vou fazer uma crítica do espetáculo a que fui assistir na sexta-feira, até porque não sei a ficha técnica e nem nada. Sei apenas que se tratava de uma montagem de um aluno-diretor da Faculdade de Artes Cênicas da UNI-Rio. Pra vocês verem que eu sou uma pessoa moderna, aberta ao novo e que acredita nos potenciais emergentes.

A Normal e a Patal?a

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"O ser tem inumeráveis estados, cada vez mais perigosos." (Antonin Artaud)
padrao-patalogica.jpg

O pior de ter estudado Psicologia foi descobrir um sem-número de distúrbios dos quais sou portadora. Aí vai minha insana lista, certamente incompleta (os grifos são meus):

Síndrome de Idiot-Savant (idiota-sábio) – forma rara de autismo, também conhecida como “Síndrome de Asperger”, onde uma ou mais habilidades, geralmente artísticas ou matemáticas, podem ser extremamente desenvolvidas, enquanto outras beiram a idiotia. Seriam como “ilhas de genialidade” em meio a um mar de incapacidades.
Segundo a CID-10: “Esta síndrome se diferencia do autismo essencialmente pelo fato de que não se acompanha de um retardo ou de uma deficiência de linguagem ou do desenvolvimento cognitivo. Os sujeitos que apresentam este transtorno são em geral muito desajeitados

Meu jeito Mr. Bean de ser tem denominação científica!…


Delírio- Juízo patologicamente falso da realidade. Este juízo falso deve apresentar três características:
1 - deve apresentar-se como uma convicção subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável;
2 - deve ser impenetrável e incompreensível para o indivíduo normal, bem como impossível de sujeitar-se às influências de correções quaisquer, seja através da experiência ou da argumentação lógica e;
3 - impossibilidade de conteúdo plausível.
Segundo Kraepelin, "Delírios são idéias morbidamente falseadas que não são acessíveis à correção por meio do argumento". Bleuler, por sua vez, dizia que "Idéias Delirantes são representações inexatas que se formaram não por uma causal insuficiência da lógica, mas por uma necessidade interior. Não há necessidades senão afetivas"

Meu juízo, via de regra, satisfaz a estes critérios, ou seja: não tem critério algum.

Sonho de uma noite de S?J˙

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Na madrugada de ontem (21 de junho, 3:47 AM), o sol passou pelo ponto zero de Câncer, que marca o solstício de inverno para o hemisfério Sul. Portanto, esta foi a noite mais longa do ano. Em homenagem ao fato, re-publico no post abaixo meu mais longo poema, em nova decoração temática com bandeirinhas de Volpi. Viva São João!
Desde já me desculpo pela comprideza da ladainha, e faço minhas as palavras de Puck, o Robin Bom-Camarada. Se vocês forem benevolentes e me perdoarem por essa, prometo que um dia eu me emendo:
puck.jpgPUCK

If we shadows have offended,
Think but this, and all is mended,
That you have but slumber'd here
While these visions did appear.
And this weak and idle theme,
No more yielding but a dream,
Gentles, do not reprehend:
if you pardon, we will mend:
And, as I am an honest Puck,
If we have unearned luck
Now to 'scape the serpent's tongue,
We will make amends ere long;
Else the Puck a liar call;
So, good night unto you all.
Give me your hands, if we be friends,
And Robin shall restore amends.

(Shakespeare – Midsummer night's dream / Sonho de uma noite de verão – ato V, cena I, final).

J

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(Publicado pela primeira vez no epinion em 06/09/2004)

15606.jpg15606.jpg15606.jpg15606.jpg15606.jpg15606.jpg15606.jpg

João-bobo
João-ninguém
João-teimoso
João-sem-braço

Não é Augusto
Não é Ricardo
João-sem-nome
O pai, um traço

Um osso em cada tijolo
Mão-de-obra barata
Antes de tudo um forte

É pedra-pra-toda-obra
Viga-mestra, coluna
Um pilar, um poste

NADA DE NOVO SOB O SOL, J?LEMBRAVA O ECCLESIATES

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brasil.jpgAs “forças terríveis” atacam novamente (Jânio nunca disse que eram ocultas, embora também sejam) e vamos rever o velho filme. Quem disse que a reprise não nos emociona mais? Continuamos a chorar no final.

Nas esferas oficiais, todos sabiam de Gregório Fortunato; como de PC Farias; como dos acertos para a prorrogação de mandato do Sarney (“é dando que se recebe”, lembram?); como da compra de parlamentares para a reeleição de Fernando Henrique; como do mensalão. Nossas práticas republicanas sempre foram escandalosas mas só viram escândalo quando se tornam públicas. E, quando chegam aos jornais, são muito mais uma denúncia contra aqueles que as praticam do que contra elas mesmas.

Quando as práticas escusas são divulgadas para o povo (e o povo é como marido enganado, o principal interessado e o último a saber), temos o escândalo; embora as práticas sejam sempre bem anteriores ao escândalo. E toleradas por todos aqueles que teriam a obrigação rasteira de não só repeli-las como denunciá-las.

'ua Viva

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acalanto por um coração derramado.................. (para j.)
agua_viva.jpg


Quem tem o coração mole

Quando ama, se esparrama

Quando sofre, se desmancha

Quando cai, fica na lama


Quando explode, se esbagaça

Quando chora, se dissolve

Quando escorre, se devolve

Volta correndo pro mar


Mergulha, coração mole

Se espraia, arrebentação

Quem perde o chão ganha a graça

A grandeza é o seu lugar


.

Salam-Aleikum

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salam-alaikum.gif
Você me escreve
Arabesco
Eu pergaminho


.

Pensata de outono

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Sabe o que é lindo na vida? Um dia nunca é igual ao outro. Os dias passam, eu permaneço.
oldchinesewoman.jpg

PEQUENOS LEMBRETES AOS NAMORADOS, NO SEU DIA

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abduction_of_psyche.jpg- No dia 12, não dê bichinhos de pelúcia à amada nem a invoque no diminutivo; o amor é grave e não atende por eufemismos ou onomatopéias. Seu significado mais aproximado é morte mas não aconselho chamá-lo pelo nome verdadeiro (assusta) nem empregar o apelido meloso (avilta).

- No dia 12, não se meta a definir o amor à amada para assegurar que o experimenta. Muitos tentaram, pouquíssimos conseguiram, e em nenhum dos casos a amada estava ao lado para ouvir. Arrisque a mudez. Não diga “não tenho palavras” porque não é deficiência sua. Não as há. E jamais assine embaixo de cartões impressos, são epitáfios para o amor.

- Não procure ser excepcionalmente agradável neste dia e satisfazer todos os desejos dela – o amor deseja além do desejo dos que dele participam e nunca ninguém se fez amar sendo gentil.

- Não planeje o hotel, o vinho, a banheira, não compre uma camisa nova, não adianta nada; o amor não acompanha o ser mais bonito que nos apareceu, nem o mais inteligente, nem a trepada inesquecível, nem o cenário perfeito. O amor é absurdo.

- Não dê rosas no dia 12, ou marias-sem-vergonha. Nem diamantes ou bijuterias. Não serão lembrados se não for amor; não serão necessários, se for.

- Não comam bombons a dois, imaginando que o amor é doce como chocolate. Nem é apimentado como acarajé. Deve ter gosto de ambrosia mas os deuses do Olimpo nunca disponibilizaram a receita, então, esqueçam as comidinhas – talvez o dia do amor peça o jejum.

- Nem adianta convocar qualquer outro dos sentidos para tornar o amor presente no seu dia. Amor não tem forma, cheiro, som ou gosto e permanece na presença como na ausência. Não é abstrato mas concreto, certamente, não é.

- O amor sobrevive ao tempo. Dizem até que é eterno mas isso não podemos afirmar, só saberemos se o encontrarmos na eternidade. Crônico, é. Como vírus resistente, que não nos mata mas também não vai embora; morre conosco. Se morrer antes, não era amor.

- O amor é um, vocês sabem, e o um não pode ser definido. Pode ser, em raros momentos, experimentado. Mas não nos dá nada, não recebe nada, não facilita, não cria, não é sujeito nem objeto de qualquer ação que se costuma vincular a ele. Apenas existe. E um dia, se tivermos sorte, nos aparece face a face.

- No dia 12, agora, domingo, vá à presença da amada e cumpra toda a liturgia do amor; os cerimoniais são belos. Mas não confunda a amada com o amor e ela no futuro lhe agradecerá a lucidez. O amor não é um encontro, é uma perseverante espera por si mesmo.


(Publicado pela primeira vez no Epinion, em 07/06/2004)

Boas Novas

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Vocês lembram do meu amigo cujo gato subiu no telhado e depois, milagrosamente, ressuscitou na Páscoa?
Pois ele, além de amigo-gato e cineasta-gentileza, também é poeta inspiradíssimo e criou um blog na maior moita. Fez a confissão hoje, durante nosso almoço (quando também revelou que há tempos frequenta este sítio aqui no mais absoluto mutismo. Pode?). Como quase ninguém conhece seu endereço secreto, o único comentário que recebeu até agora foi do ilustre poeta Chacal, raposa-velha que é fã do moço, e com toda razão. Vamos lá bagunçar a maloca do Dado!

Outro que inaugurou cafofo na surdina foi o impagável Biajoni. Mas o povo já descobriu o caminho da roça e lotou a caixa de comentários antes mesmo que ele abrisse a boca pra dizer ao que veio. Isso é que é carisma. Parabéns, Bia!

Só mesmo na blogoseira pra dar homem bom em penca... Um espetáculo!!!
Aproveitem, gentem, enquanto é de graça!...

O dia dos sem-namorado

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sour_loneliness.sized.jpgO dia dos sem-namorado cai dos sonhos com um suspiro comprido. Sem beijo de bom-dia nem nada de bom pra fazer na cama depois de acordar.
Começa com jornal e coisas importantes acontecendo no mundo, um café preto e uma esperança quase afogada no fundinho da xícara: será que é hoje? Mas isso ninguém vê, nem a lágrima escapulida que a mão rápida dispersa. A cena seguinte, exaustivamente ensaiada, já vem automática: olhar pra cima e respirar fundo, vestir o sorriso e ir à luta, que com cara de palhaço é que não se arruma ninguém mesmo.
O dia dos sem-namorado se demora em papéis e desktops e liga a tv na hora do almoço, pra distrair da falta de companhia. Evita as vitrines e os out-doors, repletos de corações e sorrisos felizes de quem nasceu um-para-o-outro. Passa direto pelo cinema com sua fila de pombinhos e dispensa, constrangido, a promoção bem-me-quer da operadora de celular.
O dia dos sem-namorado sai cedo e volta tarde, liga pros amigos, faz ginástica. Come fora, dá-se um livro – de pena, no fundo. É triste não ter a quem dar flores. O dia dos sem-namorado, se o quiser florido, compre as próprias; se o quer doce, encha a boca de bombons. Se romântico, abra um vinho e pegue um filminho piegas na locadora, daqueles que um namorado se recusaria a assistir. A maior vantagem de estar só é não ter que chegar a um consenso.
O dia dos sem-namorado é um dia como outro qualquer, só que mais longo. Pela simples razão de que ele deveria ser especial como, aliás, todos os dias. Pela falta que faz alguém pra surpreender minhas cores. A noite cresce e eu vou ficando esmaecida...
O dia dos sem-namorado termina como começou, num sonho – terra sem-fim da ilusão solitária, quase totalmente apartada do que sei pelo esquecimento e ainda assim tão minha.
E vai cair num suspiro comprido lá do outro lado, no próximo dia. Um dia normal, ufa, onde eu não seja um estranho ser que anda partido e sobrevive por teimosia, feito rabo de lagartixa.


(Publicado pela primeira vez no Epinion, em 10/06/2004)

Consult? Sentimental da Dra. Lovesick

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broken heart.jpgTeste cardio-psico-patológico:
Quem é você quando seu coração vai mal?

1- Quando se apaixona pela pessoa errada, você:

a) Nega, afasta, esconjura com todas as forças do peito e pronto: desapaixona na mesma hora;
b) Aceita com um suspiro profundo sua sina de melancolia;
c) Escreve um poema;
d) Liga o “foda-se” e corre atrás, doa a quem doer (desde que o prejudicado não seja você);
e) Se mata

2- Quando aquela pessoa por quem você andava apaixonado(a) o(a) trata com certo desprezo ou mesmo o(a) ignora solenemente, você:

a) Responde com uma agressão ostensiva, na lata, e esquece logo depois;
b) Recolhe-se num silêncio magoado e corta relações;
c) Faz que nem percebeu, superior;
d) Arquiteta uma grande vingança para momento posterior e inesperado;
e) Se mata

3- Quando descobre que levou um baita chifre, você:

a) Não sabe a sua reação porque isso nunca lhe aconteceu ;
b) Faz o maior drama, termina tudo e depois chafurda na depressão profunda;
c) Não fala nada, enfia a viola no saco e sai de fininho antes que alguém perceba;
d) Chama na chincha, desce o barraco, roda a baiana, depois passa o rodo em todos(as) amigos(as) dele(a) para provar QUEM É O(A) MELHOR;
e) Se mata

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Resultados:

Maioria de letras A: Você é um forte, um vencedor, orgulho de sua raça, mas é um(a) ogro(a) insensível, incapaz de viver um grande amor.
Maioria de letras B: Você é um(a) idiota e sofre demais. Agora vai chorar 3 dias e 3 noites porque eu disse isso.
Maioria de letras C: Você se acha muito chic mas no fundo é um poço de soberba.
Maioria de letras D: Você não é fácil, hein? Vá de retro!
Maioria de letras E: Você já era há muito tempo… ui, sai daí, alma penada!
Uma letra de cada: Você é incoerente e totalmente esquizofrênico (meu caso, é claro!).

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Conclusão:
Ninguém fica bem na foto quando o coração vai mal.

Por fora, bela viola. Por dentro....

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pao bolorento.jpgPra mim, o Diogo Mainardi não passa de um rostinho bonito.
Aquelas sobrancelhas bem desenhadas e o sorriso de galã já me levaram repetidamente a perder preciosos momentos do meu tempo com este moço, tentando encontrar algum valor em suas ridículas declarações (afinal qualquer mulher sabe que, pra ganhar um homem, temos que achar graça em suas piadas. Ou, no mínimo, fingir bem). E por essa mesma razão ainda gasto aqui meu não menos precioso espaço, porque não me conformo que tão bela compleição não preste pra nada. Minha condescendência para com a boniteza masculina é quase infinita mas ele realmente não facilita as coisas. Fala cada asneira que faria corar a loura-burra mais empedernida, e o faz com uma empáfia de que só um homem é capaz. É o tipo do burro com opinião, o que vem a ser a exata definição do chato. Além de tudo é de uma grosseria totalmente desnecessária, o que extrapola os largos limites de minha tolerância.
Eu veria amarradona um “ensaio Paparazzo” em que ele aparecesse em poses sensuais, na mais perfeita nudez-mudez. Mas troco de canal correndo se ele estiver manifestando as (des)graças de seu tosco espírito, coisas como “odeio música”, "futebol é uma coisa totalmente irrelevante" e outras pérolas desse quilate. Também tenho que me policiar para, daqui por diante, não recair em fazer sequer uma leitura automática de suas tolices escritas, principalmente se estiver comendo ao folhear a revista, porque suas opiniões sempre me dão engulhos. Drogas pesadas fazem mal à saúde e eu tô fora, meu fígado é muito sensível.
Não precisam argumentar que ele é irônico, que polemiza por esporte e que, no final, consegue exatamente o que quer, ou seja, um pouco de atenção e notoriedade na base do “falem mal mas falem de mim”. Já ouvi tudo isso mas a verdade é que aqui no Nóvoa em Folha ele só tem vez mesmo porque é gostoso.
Portanto aos “mainardetes”, embora eu duvide que os haja entre meus inteligentes leitores, dou toda razão e quase os invejo por conseguirem amá-lo. Que fiquem com ele, se lhes apraz, e sejam felizes.
Mas aos insistentes que quiserem me convencer a engolir este pão bolorento, por gentileza, vão ver se eu tô lá em Cuiabá.

Rapunzel on the rocks

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Waterhouse_John_William-Knight.(poesia de guardanapo)

Ignoram os olhares
Dos gentios deste bar
Que daqui de uma alta torre
Isolada em meu castelo
Avisto já teu cavalo

Galopando decidido
No resgate do meu corpo
Que julgavas já perdido
Por tua longa demora

Muito te enganas se pensas
Que perdi o meu encanto
Fiz do tédio um aliado
Da ilusão meu romance

Dos anos guardei os fios
Com eles teci um manto
Pra te enredar em meus sonhos
E te alçar ao meu alcance

Qual Penélope sem trono
Bordei pra enganar a vida
E fiz das noites sem sono
Longa trama sobre o nada

Mil e uma vezes tecida
Desfeita de madrugada
Esgarçada pela espera
Cerzida pela esperança

Absurda perseverança
Desfia o que eu mais quisera
Remenda o que eu não sou mais

Mas se já te vejo agora
Iluminando o caminho
Lanço a enorme trança ao tempo
Que em seu vão nos leva embora

Faz de mim a tua escada
Escala até minha cela
Ousa profanar meu templo
Que eu te abro a janela
E no calor do meu ninho
Tem repouso a tua espada

Eu te compenso o esforço
Tu me devolves o espaço
No imenso do teu abraço
No infinito do teu dorso

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Minhas melhores fotos são dos olhos do meu filho.

Meus melhores poemas, confesso, não sou eu que faço.

Laço o que posso, o pouco que não esqueço

do sopro (ab)surdo que ouço em quanto passo.

Christiana Nóvoa

meuemail: christiana ponto novoa arroba gmail ponto com

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