Esta é a sua história. Por isso o espanto, logo no início: Como assim, a minha história?.
Mas foi aí mesmo no espanto que ela começou.
Você não devia duvidar de que eu fosse capaz de contar a sua história. Não são sempre os outros que contam nossa história? Só um estranho pode saber como sua história termina.
Você pode pensar Como ela vai saber? mas é assim mesmo, ninguém acredita, num primeiro momento, que sua própria história venha a ser contada de um ponto-de-vista tão bizarro. No entanto, lhe asseguro, foi você quem escolheu isso, ao começar a ler, aqui, este relato. Mas agora você não tem mais escolha, porque eu já comecei. Você pode fechar os olhos e mudar de assunto mas sempre saberá que a sua história está aqui, lhe esperando, e sempre terá uma vontade horrível de saber como ela vai terminar. Portanto, continuemos.
Você também não sabe como ela começa, embora estivesse lá, mas é como se não estivesse, não é mesmo? Então vou lhe refrescar a memória: era bom antes, muito melhor que depois, quando começou a doer. Mas você quis, você desejou expressamente o soco no peito, esse tambor infernal que nunca mais abandonou seu corpo. Não me culpe por lhe recordar este incômodo fato, agora você pulsa e é refém dessa percussão mas foi você mesmo quem começou tudo isso.
E aí você quis mais, você desejou a luz. Só não previu que junto da luz viria o corte e, com ele, o susto. E o horror de perceber que, a partir de então, era preciso se assustar constantemente, enchendo e esvaziando o fole para manter o pulso, esse tirano.
Depois do susto veio a fome. A insuportável dor da falta, e com ela a raiva. Não tente negar a raiva, eu estava lá e atesto, pela expressão desesperada do seu choro, que você odiou a vida então, apenas porque ela não era plena. Você odiou sua mãe, porque não alimentava mais seu umbigo e fez você descobrir que tinha boca, esse grande buraco. E você escancarou o seu buraco sem o menor pudor naquele dia, que eu vi.
Agora que você sabe que eu conheço suas vergonhas mais antigas, talvez já acredite em mim. Ou talvez ainda espere que eu lhe dê mais provas, e eu poderia desfiar aqui cada um dos seus dias mas, no fundo, o que você quer mesmo saber é aquele, nem tão distante, que vai dar sentido a essa história toda.
Você quer saber as circunstâncias mas isso talvez não lhe diga, nem a hora exata, porque você não pode evitar o fato. Mas chegando lá, vai ver que estarei a seu lado, anotando minuciosamente, para a posteridade, com quanto despudor você há de abrir a boca. E aí você vai acreditar, finalmente, em minhas palavras, que atravessaram o tempo e já viram tudo isso. Por isso o espanto quando chegar a hora.
Porque é mesmo no espanto que há de terminar sua história: com a boca aberta num grande buraco, eu a seu lado, vendo tudo, e um simples ponto final.
(depois do quê tudo muda completamente de figura, mas aí já é outra história)