November 2005 Archives
E pouco a pouco entra em cena a versão morena do meu ser. Sai o banho-de-lua, chegam os banhos-de-sol. Já recuperei a marca do biquíni, símbolo-mor da identidade carioca. Quem me viu na coleção outono-inverno, momento branca-de-neve, pode não acreditar: Yes, nós temos melanina!
O bronzeado vai me colorindo também por dentro. Devagar, que ainda tem muito verão pela frente (a rigor ainda estamos na primavera). A previsão para os próximos meses é de muito calor. Que venha! Eu vou pela sombra mas sempre na luz.

Alguém busca no Google: "O gato que ri do meu ego esquizofrênico"
Caiu aqui. Não posso deixar de achar graça.
A lua sorri no escuro. O Gato de Cheshire me olha atravessado.
Começo a desconfiar de mim.

Nascera rica, é verdade. Mas nem toda rica tem bom-gosto, ela gostava de frisar. E, dentre as de bom-gosto, pouquíssimas são as que de fato entendem de arte. Gesticulam nos leilões como loucas, querem encher as paredes de suas mansões, agradar ao decorador ou às amigas.
Ela se orgulhava de nunca ter pago um centavo mais do que uma obra valia, conhecia bem as manobras dos especuladores, os blefes do mercado. Mas também sabia reconhecer uma verdadeira preciosidade, e já empenhara somas altíssimas sem o menor remorso.
Possuía sólidos conhecimentos até mesmo sobre arte moderna, de que não gostava muito. Tinha predileção pela escola holandesa do século XVII e dizia que antes de morrer ainda teria um Vermeer. Certa vez fôra às últimas consequências por um Frans Snyders, uma esplêndida peixaria que seu marido, na época, não gostou: achou nojento e disse que não gostaria de ter que olhar para aquilo todo dia de manhã. Ela resolveu neste momento que não podia olhar para aquele homem todo dia de manhã. Arrematou o quadro e desfez-se do marido.
Depois dele colecionou amantes, de idades e naturalidades diversas, mas todos muito, muito belos, de modo que não se arrependia por um instante do negócio.
Noutra ocasião mandou soltar os cães ferozes em cima de um espertalhão que tentou vender-lhe uma cópia habilidosa como um autêntico Bega. O sujeito correu e escalou um muro altíssimo com uma agilidade ninja, caiu sabe Deus como do outro lado e nunca mais voltou, nem pra buscar a tela falsa. Ela mandou colocar o quadro no hall, com uma belíssima moldura e uma placa embaixo, numa sutil referência a Magritte: isto não é um Bega e sempre contava o caso, às gargalhadas, às visitas. Ainda que pouquíssimas ou nenhuma soubesse quem fôra Bega ou mesmo Magritte, todas riam muito.
Ela colecionava amigos falsos também, na saleta e nos salões. Rindo de suas piadas obscuras apenas para comer de seu caviar e beber de seu champanhe.
Por isso toda manhã, sob a luz branca do jardim de inverno de seu palacete, ela tomava seu desjejum de croissants e mel desejando secretamente estar na imundície daquele mercado de peixes, com aquele nojento do seu ex-marido.
Minha mãe engravidava e perdia o bebê. Antes do meu irmão, foram dois. Depois dele, três. Ela foi no médium, Zé Arigó, de Minas, que recebia o doutor Fritz. Aos prantos, disse que queria muito uma menininha. Ele mandou ela se acalmar e tomar insulina, que antes do final do ano ela teria sua menina. Ela não entendeu nada, não tomou nada e continuou tentando.
Até que ela engravidou pela enésima vez e finalmente descobriu que ficava diabética na gravidez. Começou a se tratar e tudo evoluiu bem, ou quase.
Eu era esperada pra fevereiro mas o sangue da minha mãe era doce demais, eu engordei mais do que devia e, por isso, tive que nascer antes da hora, de 7 meses. 28 de dezembro, 3 dias antes do fim do ano, portanto. Dr. Fritz sabe tudo!
O obstetra era contra cesariana nestes casos, achava que a passagem pelo canal era importante para desidratar a criança e evitar a ocorrência de membrana hialina. Não me pergunte o que é isso que eu não sei, estou repetindo o que minha mãe me contou, mas achei alguma coisa aqui. Só sei que nasci de parto normal induzido, as contrações provocadas por uma droga, à minha revelia. Contrações sem dilatação, e essa minha bendita cabeça enorme. Quem mandou vir com recheio extra?
Doeu!, diz minha mãe. Eu não lembro mas deve ter doído pra mim também, porque quase morri. Nasci roxinha. Depois fiquei amarela, icterícia. Depois, não sei que cor me deu afinal, e resolvi que ia vingar, ainda que doce demais pra este mundo amargo. Por sorte, não sou diabética, e aproveito pra mandar um grande beijo pro meu pâncreas, que tá aí me assistindo. Sempre na maior insulina, acompanhando nosso programa!
Isso tudo foi pra dizer que a diabetes é uma doença grave, porém controlável. Vale a pena estar informado. Na dúvida, consulte um médico e faça os exames. Vai que você não encontra o Dr. Fritz pra te avisar...
Hoje é o dia mundial da diabetes. A Lucia Malla dá várias informações e links úteis, vai lá!
Saúde pra todos.
João, conheci menina
Antes mesmo que me lembre
Depois, ninguém me contou
Onde é que foi parar
Lembro dele sempre ali
E então eu nem percebia
Sem que eu desse pela falta
A vida andou, distraída
E João? Ninguém me contou
Onde é que foi parar
Lembro de sermos amigos
Que me emprestava a borracha
E sorria, tolerante
Que a devolvesse mordida
Lembro que nunca falou
Nem eu pude confessar
O que ainda descabia
Em imaturos sentidos
Não nos complicava a culpa
Nem paixão, ciúme, apêgo
Nem desejo não havia
Só tínhamos um ao outro
Cúmplices na mordida
Solidários no apêrto
Apertados pra ir ao banheiro
Sem saber pra quê ao certo
Sem lembrar que o outro existia
Quando a escola estava longe
Sentindo o que a gente sentia
Quando se sentava perto
Me interesso mais por um afluente do que pelo rio principal. Prefiro a Gnose ao Cristianismo, a Cabala ao Judaísmo, a Parapsicologia à Psicologia. Estudo há muitos anos estados alterados de consciência; e o que é percebido nestes estados me parece mais próximo da verdade do que a avaliação da realidade feita pela mente lógica que utilizamos no dia-a-dia.
Assim, não é de admirar que tenha dado com os costados em algumas Escolas Iniciáticas; que eram chamadas, por quem nunca as freqüentou, de Colégios de Magos. O que virou uma piada, depois de Harry Potter.

A morte é uma das iniciações. E, por iniciação, entenda-se dar um outro sentido, que não o profano, a algumas palavras. Compreendê-las de outra maneira.
A propósito do Dia de Finados, um trecho do meu livro O Espelho da Lua:

A maravilhosa Fal, destacada integrante de nosso grupo e-néditos, cansou de esperar que uma editora de visão invista em seu talento. Arregaçou as mangas, raspou o cofrinho e vai lançar, por conta própria, seu segundo livro, O Nome da Cousa.
Está aberta a temporada de pré-venda do livro, ao preço promocional de 25 Reais. Manda um e-mail pra reservar seus exemplares: livronovodafal@gmail.com . Compre vários. Excelente opção de presente de natal, amigo oculto e o que mais sua imaginação sugerir. Eu recomeindo e assino embaixo.
Quer uma amostrinha da prosa da moça? Olha aqui, ó.



