Lembra do Belben*, aquele meu irmão das histórias incríveis? Certa vez, quando eu era criança (e ele já era um adolescente, o que o tornava, a meus olhos, um ser superior) ele me contou que, em suas fantasias da infância, imaginara que o mundo era a caixa de sapatos de um gigante. A coisa seria mais ou menos assim:
Durante o dia a caixa ficava aberta e dava pra ver a lâmpada no teto do gigante, lá no alto.
De noite ele fechava a caixa mas fez uns furinhos na tampa as estrelas pra gente poder respirar. Depois ele achou pouco e fez um furo maior com o dedão a lua.
A teoria não parava por aí. Ele me explicou, por exemplo, que o gigante ficava mudando a caixa de lugar, e que a posição da caixa com relação à lâmpada daria origem às fases da lua. Quando era lua cheia, é porque a lâmpada estava toda visível pela abertura. Quando a caixa se afastava deste ponto, a lua minguava, e assim por diante. Às vezes, só por distração, ele tampava com algum objeto a abertura e então tínhamos um eclipse. Volta e meia ele abria a tampa de manhã mas colocava um véu por cima e não podíamos ver a lâmpada: estava nublado. Às vezes também ele resolvia regar a caixa, pra chover. Gostava de fazer isso através do véu, pra distribuir melhor os pingos, mas às vezes tirava o tecido e nos regava livremente, fazendo os dias de chuva-e-sol que quase sempre formavam arco-íris em volta da lâmpada. E muito mais poderíamos pensar sobre nossa vida na caixa de sapatos do Gigante.
Eu achei essa idéia incrível, e que bem podia ser verdade. Pelo menos teria alguém cuidando de nós.
Lembrei do Belben quando fiz o poema da clarabóia, outro dia.
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(*) - sim, o link leva àquele post velho e surrado sobre o Belben, que você já está careca de conhecer. O texto continua o mesmo mas, pelo menos, foi repaginado: agora vem com fotos! Só pra provar (se é que você duvidava da minha insuspeitíssima opinião) que ele era, de fato, lindo. Quanto às outras qualidades mencionadas, já que eu não possuo as tais pílulas para trazê-lo à vida, você vai ter que acreditar na minha palavra mesmo.
A propósito, deu pra perceber que eu andei escaneando fotos antigas esta semana?
Comentário sobre a foto que ilustra este post: parece que o Gigante tem olho azul.
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