January 2006 Archives

Palavras que eu queria ter escrito...

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Por Sophia de Mello Breyner Andresen (1950)

blue_drop.jpgDepois da cinza morta destes dias,
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.

...mas o que tenho ?uase pouca coisa

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blooddrop(stef.arcidiacono).jpgNão fosse agora uma hora tão tarde
Eu lhe daria todo o meu amor
Se ainda tivesse amor pra oferecer

Se eu não restasse menos da metade
Sentindo dor na carne mutilada
Saudosa e sem saber nem bem do quê

Eu lhe teria um amor de verdade
Se ainda tivesse a minha melhor parte
Que, se eu me lembro, amor, era você

Sapon?o

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111.jpgMinha amiga bióloga informou outro dia que os sapos estão em extinção – como de resto virtualmente toda a fauna e flora deste planeta, segundo este outro biólogo – por causa do aquecimento global.

Concordo que o calor está de matar mas a verdade é que aqui pro meu lado não faltam sapos. Eu mesma andei beijando alguns – e engolindo vários.
Então, contas feitas, talvez seja eu a responsável pela extinção dos sapos, pois que os engulo até bem mais que beijo... Socorro, é uma orquestra a coaxar em mim, e o mundo um deserto silencioso?!

Pois que solto os bichos imediatamente: Xô, vai nessa, sai de mim! Ó Seu Sapo, vai pra Rua do Sabão! E devolvo cada um ao brejo longínquo de onde veio.

Aqui, o doce silêncio barulhento da mata e os sapos lá fora, como sempre. A noite está linda, o tempo é todo meu e o mundo nem parece um lugar tão quente.

Graal

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calix.jpg
Cristalina taça eu

bebo recebo o teu vinho


.


Te ofereço o meu vazio


.

Desa-bafo quente

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ipanemantiga.jpgNão é descontente
minha natureza
mas eu bem queria
um ambiente inteiro

Que o meio-ambiente
me causa tristeza
e a minha agonia
não tem paradeiro

Calor é uma droga
não há quem agüente
este sol tão quente
sem entrar no mar

Pois agora o Rio
que era de Janeiro
passa a se chamar
Rio de Gigoga

Não sei se o culpado
é o César Maia
ou se a culpa é dela
madame Rosinha

Sei que nossa praia
virou uma favela
mar de São Conrado
esgoto da Rocinha

Queiram perdoar-me
por baixar o nível
ao trazer à tona
todo este vexame

Temo que este alarme
soe um tanto infame
poema cafona
de um verão sofrível

.

Veraneio

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pinupbik.jpgEstou de volta de uma temporada em Angra dos Reis, o trepidante balneário dos ricos e famosos. Não sendo rica nem famosa, e pouco afeita à trepidação, confesso que não tenho muito o que contar.
Pretendia dedicar-me aos esportes náuticos, à alimentação equilibrada e ao bronzeamento, de modo que estaria de volta como a mais morena e glamourosa das pin-ups. Mas ocorre que choveu quase todo o tempo e eu acabei por me dedicar ao sono, à gula e à lassidão. Assim, terei sorte se tiver ao menos mantido o peso e a cor que ostentava antes.
Diante das condições meteorologicamente adversas ao culto ao corpo, ter-me-ia consagrado a elevadas atividades do espírito, como a leitura dos clássicos da Literatura e a escrita de textos densos e profundos. No entanto a coleção de revistas pseudo-científicas de meu pai atraiu-me mais que sua excelente biblioteca, e o dolce far niente na varanda frente ao mar suplantou o chamamento da escrita engajada.
O saldo cultural da temporada foi: 357 revistas, uma dúzia de DVDs (incluam-se aí "A Noviça Rebelde" pela enésima vez, uma temporada inteira de "Sex and the City" e outros títulos edificantes) e meio livro (vou dizer a meu favor que era um livro grossinho...). Escrevi um poema que, de tão ruim, jamais será publicado, e um texto medíocre que, após alguns retoques, talvez publique num dia de pouca inspiração.
Resumindo: continuo tão branca, gorda e burra quanto antes, só que um ano mais velha, já que nesse meio tempo aproveitei para fazer aniversário.

Por essas e outras é que eu AMO o verão!
Beijos saudosos a todos.

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