Ontem a mulher de branco passou por mim na rua e sorriu. A mulher de branco é uma lenda viva de Ipanema. E pelo menos até ontem estava mesmo viva, que eu vi.
A mulher de branco não estava de branco, vestia uma cor indefinível, vai ver foi branca um dia. Ontem estava mais pra cor-de-burro-quando-foge.
A mulher de branco usa uma pinta verde no terceiro olho, mas enxerga bem e não rasga dinheiro. Outro dia um amigo meu, vizinho da mulher de branco, ouviu uma discussão dela com a empregada, a respeito de uma grana preta que sumiu. Sou louca mas não sou burra, gritava ela, verde de raiva.
A mulher de branco veste burro-quando-foge, mas de burra não tem nada. Tampouco parecia estar fugindo, andava calmamente e, ao passar por mim, sorriu. Não foi um riso amarelo, era um sorriso outrora branco de quem já foi linda, é o que dizem. Namorou muito tempo com alguém famoso, quem era mesmo? A mulher de branco ainda é famosa nas areias outrora brancas de Ipanema.
Eu não sou famosa e nem louca, ou assim quero crer. Só não sei por que ela sorriu pra mim um sorriso não-branco tão cúmplice.
