February 2009 Archives

À falta de fantasia nova para minha misantropia -  e na ausência de alguma súbita disposição foliã que me prenda a esta cidade maravilha purgatório da beleza e do caos - deixo uns versos de tempos atrás fazendo as honras da casa durante meu retiro momesco, onde somente o amor há de me lançar perfumes. 

 

HarlequinandColombineDegas.jpgcarnaval : o aval da carne
entrudo : o nome diz tudo
momo é do balaco, baco
tem álcool pra todo mundo

abram alas, foliões
que o meu fígado é mais fraco
sou meio ruim da cabeça
meio doente do pé

vejam só, quebrei o salto
e nem sei sambar direito
não tenho piercing no umbigo
nem silicone no peito

de tudo que eu mais amava
nos carnavais da infância
dos bailes e das marchinhas
de máscara e fantasia

não ficou mais que a lembrança
qual confete e serpentina
obstruindo os bueiros
na quarta-feira de cinzas 

.

as multidões se aglomeram
como surtos se propagam
e os lixeiros é que pagam
a conta dessa folia

 

 

Imagem: Degas - Arlequin et Colombine

coraline1.jpgPoesia pura, o filme Coraline, animação de Henry Selick sobre o livro de Neil Gaiman. A caprichadíssima cena inicial, da "reciclagem" da boneca pela aranha, já remete a uma série sem fim de analogias entre a costura, a narrativa - trama, enredo, novela etc - e a própria vida. A artrópode sinistra também me trouxe à mente as figuras mitológicas das três parcas, fiandeiras de destinos: uma fia, outra tece, outra corta.

E uma (nem tão) nova história (re)começa.

Coraline, cujo nome contém as letras de Alice, também segue um roedor, passa por uma portinha e adentra um mundo paralelo e maravilhoso, para só depois perceber que está num lugar estranho onde uma mulher poderosa e terrível quer lhe cortar a cabeça (no caso, os olhos).

Mas não são todas as histórias um mesmo sonho reciclado?

Nos dois apartamentos vizinhos ao de Coraline, no casarão, temos o domador de ratos e as duas irmãs atrizes (que me lembraram um continho delicioso de Cora Coralina, poeta-tecelã, o que me levou ao trocadalho do título). Os personagens, ora decadentes, ora espetaculosos, descortinam o encantamento dos universos do circo e do teatro, justamente os ancestrais do cinema nas artes e manhas da ilusão.

No "outro mundo", todos parecem melhores: mais jovens, perfeitos e encantadores. Só que têm botões no lugar dos olhos.

Todos, menos o gato (de Cheshire?), o único que, como ela, tem olhos de verdade e é capaz de transitar entre os dois mundos. Sonhos lúcidos são para poucos, afinal quem consegue manter os olhos despertos diante da sedução das imagens criadas por nossos próprios desejos?

Coraline é um pesadelo lindamente tecido em cada detalhe. Sensível, inteligente, triste e gracioso como toda criança solitária que, para escapar ao tédio, cria mundos e abismos em si mesma. 

 

 

 

 

singing_rain.jpg

 

hoje dilúvio

segue-se o óbvio

amanhã bonança

.

ouvido atento

conforme o tempo

é que se dança

 

..

 

Quem me passou o meme foi o Samurai, querendo que eu conte seis coisas que (quase) ninguém sabe sobre mim. Depois vi em um blog amigo outra versão da brincadeira, com apenas cinco ítens.

Vejamos a quantos chego. Agora, pensando assim, não lembro de nenhum segredo, dos reveláveis. Mas vamos lá, com boa vontade e algum desprendimento eu posso conseguir.

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1) Sim, eu corrijo meus textos depois de postados. Quando vejo uma besteira, um erro de português ou uma ideia (sem acento, ugh) ruim, ou quando encontro uma solução melhor pra uma frase ou um verso, eu mudo na hora. Às vezes chego a refazer o texto todo, ou até deleto o malfadado post, mesmo sabendo que, a essa altura, o RSS já me denunciou. E mexo também nas minhas respostas aos comentários, sempre que acho que fui indelicada, ou simplesmente boba, ou quando desconfio que possa ser mal interpretada.

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2) Morro de vergonha que leiam meus textos "em processo". Não suporto alguém olhando pra tela do computador ou pro meu caderno, enquanto escrevo. Nem o namorado pode, nem meu filho, nem minha mãe. Passo mal só de pensar que o administrador do blog possa ler meus rascunhos (viu, Roney?). E quando eu morrer, vou dar um jeito de assombrar qualquer curioso que se atreva a profanar meus "inéditos". Se eu não mostrei pra ninguém, é porque não gostei, ou então não está pronto. Aos editores: façam a gentileza de me publicar em vida, ou me esqueçam pra todo o sempre.

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3) Sou capaz de dormir mais de 12 horas, tranquilamente. Pode-se dizer que sou muito boa de cama. Só não durmo tanto todos os dias porque a rotina trabalhista não permite, mas sinto falta. Acho mesmo que tenho escrito pouco ultimamente, não por falta de tempo útil, mas por falta de sono. Estou certa de que as idéias se arrumam durante os sonhos e, com o déficit onírico acumulado, fica tudo bagunçado, chacoalhando cá dentro, e as palavras não conseguem se encaixar.

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4) Odeio sutiã e só uso por motivo de força maior (leia-se camiseta branca, ou "marcante", ou transparente). Outro dia, pra minha glória, li em algum lugar que, contrariamente ao que dizem por aí, estudos comprovam que usar sutiã faz cair o peito.  Eu acredito e assino embaixo (ou melhor, em cima, que pra cima é que se olha!).

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5) Embora não seja segredo, não cheguei a comentar por aqui que, em 28 de dezembro, eu fiz aniversário. E como nasci no fatídico ano de 68, isso significa que completei inacreditáveis... bom, não preciso dizer com todas as letras (no caso, todos os algarismos), vocês já fizeram a conta, né? Pois é, aconteceu comigo. Entrou nos enta, agora aguenta!

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6) Tá bom de sinceridade por hoje? Parei.

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Não sei se devo repassar o meme, tem gente que odeia. Vou deixar apenas como sugestão pro Guga, o Pinto, a Dalva, a Cynthia, a Pat, o já citado Roney e quem mais quiser. Ou não.

 

.

 

Não há teto e lustre que eu não prefira ver

 

lua

 

.

 

Não há roupa linda que eu não quisesse estar

 

nua

 

.

 

Não há outro olhar que eu não deseje ser só 

 

sua

 

.

 

tempo vai

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SandClock.jpg

 

é fevereiro.

o rio de janeiro

já escorreu pro mar.

 

 

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Minhas melhores fotos são dos olhos do meu filho.

Meus melhores poemas, confesso, não sou eu que faço.

Laço o que posso, o pouco que não esqueço

do sopro (ab)surdo que ouço em quanto passo.

Christiana Nóvoa

meuemail: christiana ponto novoa arroba gmail ponto com

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