.
Eu choro muito.
.
Não que tenha motivo. Ou até tenho, quem não? Mas desconfio que a hiperatividade das minhas glândulas lacrimais independa de bons, ou no caso maus, motivos. As pobrezinhas simplesmente são assim desabridas, derramadas.
.
Eu choro no cinema, até aí tudo bem. Mas também choro em novela, seriado enlatado, até em anúncio. Telejornal, então, é uma choradeira só.
.
A primeira vez que chorei, estava roxa, afogada no assombro de ter que nascer de véspera, prematura e incompleta. Não lembro, claro, faz tempo. Mas a crueza da vida ainda me azula.
.
De alegria ou frustração, saudade, raiva, vergonha... tem vexame pra todo gosto, não dá nem pra disfarçar: o nariz fica vermelho e o olho esguicha.
.
Meu pai dizia que eu chorava em jatos. Ainda choro, ele que não fala mais. Por essa falta, volta e meia me sobe aos olhos uma orfandade súbita, autopiedosa, que quase justifica o derrame, mas isso não é tudo. Sei de outros vazios fundos e mudos, inomináveis, como se as palavras, nem elas, fossem mais minhas amigas.
.
Como se só água dissesse o que fui, o que nem sei quem sou.
.
Como se meus olhos quisessem lavar a dor do mundo.
.
Como se eu fosse triste. Como se já tivesse nascido.
.
Como se a chuva na praia pudesse regar o sol.
.
.

6 Comentários
Leave a comment