das lágrimas

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Eu choro muito.

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Não que tenha motivo. Ou até tenho, quem não?  Mas desconfio que a hiperatividade das minhas glândulas lacrimais independa de bons, ou no caso maus, motivos. As pobrezinhas simplesmente são assim desabridas, derramadas.

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Eu choro no cinema, até aí tudo bem. Mas também choro em novela, seriado enlatado, até em anúncio. Telejornal, então, é uma choradeira só.

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A primeira vez que chorei, estava roxa, afogada no assombro de ter que nascer de véspera, prematura e incompleta.  Não lembro, claro, faz tempo.  Mas a crueza da vida ainda me azula.

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De alegria ou frustração, saudade, raiva, vergonha... tem vexame pra todo gosto, não dá nem pra disfarçar: o nariz fica vermelho e o olho esguicha.

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Meu pai dizia que eu chorava em jatos.  Ainda choro, ele que não fala mais.  Por essa falta, volta e meia me sobe aos olhos uma orfandade súbita, autopiedosa, que quase justifica o derrame, mas isso não é tudo. Sei de outros vazios fundos e mudos, inomináveis, como se as palavras, nem elas, fossem mais minhas amigas.

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Como se só água dissesse o que fui, o que nem sei quem sou.

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Como se meus olhos quisessem lavar a dor do mundo.

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Como se eu fosse triste. Como se já tivesse nascido. 

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Como se a chuva na praia pudesse regar o sol. 

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6 Comments

e quem disse que não rega? Que não nasceu? Que não lava?
Represar sem ladrão é perigoso.
Beijos lacrimalmente secos

guga,
crendice que não? ladrão de lágrimas vai represo :)
beijos sorridentes

"Sei de outros vazios fundos e mudos, inomináveis, como se as palavras, nem elas, fossem mais minhas amigas."

Triste isso, mas bonito de doer. Chorei. Continuo gostando muito do que você escreve.

do_eu?
do seu?
ou de outra
pessoa?

a dor é
dadivosa
doa
a quem doa

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Também gosto muito quando você aparece, Olga, beijos.

Xô, Rorô.
Choro vá!
Outros cílios
a regar.

guga,
chorar, vá lá...
arregar, jamais!

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Minhas melhores fotos são dos olhos do meu filho.

Meus melhores poemas, confesso, não sou eu que faço.

Laço o que posso, o pouco que não esqueço

do sopro (ab)surdo que ouço em quanto passo.

Christiana Nóvoa

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