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A MORTE INICIICA

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Me interesso mais por um afluente do que pelo rio principal. Prefiro a Gnose ao Cristianismo, a Cabala ao Judaísmo, a Parapsicologia à Psicologia. Estudo há muitos anos estados alterados de consciência; e o que é percebido nestes estados me parece mais próximo da verdade do que a avaliação da realidade feita pela mente lógica que utilizamos no dia-a-dia.

Assim, não é de admirar que tenha dado com os costados em algumas Escolas Iniciáticas; que eram chamadas, por quem nunca as freqüentou, de Colégios de Magos. O que virou uma piada, depois de Harry Potter.
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A morte é uma das iniciações. E, por iniciação, entenda-se dar um outro sentido, que não o profano, a algumas palavras. Compreendê-las de outra maneira.

A propósito do Dia de Finados, um trecho do meu livro O Espelho da Lua:

A NULO OU A NÃO

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Sobre a nossa “jornada cívica” do dia 23, primeiro é preciso distinguir entre plebiscito e referendo. No plebiscito, nos consultam se queremos ou não instituir uma nova regra. No referendo, vamos apenas referendar (ou não) norma polêmica já existente. É bom lembrar que o chamado Estatuto do Desarmamento já está em vigor; portanto, é importante dar uma lida na lei antes de enfrentar as filas do dia 23, porque ela regula muito mais do que nos faz crer a pergunta simples que devemos responder nas urnas com um ingênuo “voto 1” ou “voto 2”.

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POR QUE SOU CONTRA O ABORTO

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Hoje, dia 28 de Setembro, é o dia pela descriminalização do aborto na América Latina. Logo...

POR QUE SOU CONTRA O ABORTO

(veja outras opiniões aqui. blogagem coletiva nós na rede)
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BRUTUS IS AN HONOURABLE MAN

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jcaesar_coin.jpgQuando César foi assassinado no Senado (porque em Roma não havia Câmara), seus algozes alegaram que ele se havia tornado um ambicioso e a ambição dos governantes leva quase sempre à tirania.

Há dois mil anos, esperava-se do homem público que fosse virtuoso; algumas expectativas são eternas. Mas César foi dominado pela ambição - portanto, deixara de ser virtuoso - e os cidadãos de bem do Senado Romano tramaram a sua morte. Entre as adagas que o derrubaram estava a de Brutus, seu aliado, sua cria, quase um filho: Tu quoque Brute, fili mihi? César também andava em más companhias.

No século XVI Shakespeare escreve uma peça, "Julio César", em que fala sobre ambições, traições e, principalmente, sobre a volubilidade do povo. A época era elizabetana, poder absoluto nas mãos de um só monarca: poderia existir governo que visasse realmente o bem do povo ou a ambição - companheira inseparável do poder - esqueceria o povo na sua trajetória? Na peça de Shakespeare, a resposta estaria com os cidadãos de Roma.

Brutus, ao lado do cadáver ensangüentado, fala à multidão sobre a transformação do herói em tirano. Apesar da vitória nas guerras, dos tributos pagos pelos territórios conquistados e de uma inegável prosperidade, o povo começa a imprecar contra César, percebendo no herói uma falha, um componente humano que lhe retirava o caráter divino. Reconhecendo nele a ambição, anteviram uma possível tirania e aprovaram o gesto assassino de Brutus e seus comparsas, estes sim, homens virtuosos.
Brutus reforça com eloqüência o seu lugar de substituto natural de César: "E, se eu for vítima da ambição, que esta mesma adaga que destruiu César se volte contra mim". A turba aplaude, enlouquecida. Rei morto, rei posto; o circo romano já estava armado para a sucessão.

AS SAGRADAS FAMˇIAS

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family.jpgQuando Pero Vaz de Caminha informou a D. Manoel que “a terra é de tal modo graciosa que, em se plantando, tudo nela dá”, aproveitou o ensejo e pediu ao Venturoso um emprego para o genro.

Plantou-se e deu, dizem as más línguas, o nepotismo no lado de cá. Não é verdade, sempre floresceu em todas as latitudes.

Nosso rigor republicano, gerado pelos enciclopedistas, exige um Robespierre de cada cidadão que se dá bem. Tolice. As capitanias sempre foram hereditárias e as monarquias ainda hoje se mantêm sem nos tirar o sono. Consideramos alguns regimes monárquicos bastante democráticos e até aceitáveis as despesas que Charles e Dianas, Juans e Sophias, Graces e Carolines deram e darão aos seus países. A mídia sempre destacou a elegância de seus gestos, roupas e atitudes; raramente questionou a legitimidade dos seus gastos.

A tradição cabalística ensina que se pode ascender por duas vias: o caminho da graça ou o caminho do esforço. Mas, ironicamente, afirma que os dois caminhos se unem num caminho do meio, mais direto, que conjuga os outros dois. Ou seja, aquele que é ungido pela graça mas também se esforça, caminha mais rapidamente. Ou vice-versa.

Os que são filhos, genros, irmãos ou cônjuges dos esforçados sempre fizeram um caminho mais rápido. Ou, talvez, fizeram um caminho que nem fariam se não fosse o parentesco a lhes facilitar as escolhas. Se não houvesse esta teia indiscernível (Destino? Esforço? Como sabê-lo?) não teríamos Evitas e Isabelitas; Hillarys e Rosinhas; John, Bob e Ted. Nem Amaral Peixoto e Moreira Franco (o genro e o genro do genro), nem Sarney e Roseana, nem Tancredo e Aécio, nem César Maia e Rodrigo, nem ACM e seu neto, que não lembro o nome mas é a cara do pai que por sua vez era filho.

No meio artístico não é diferente. Michael Douglas é filho que Kirk e no-lo (gostaram?) trouxe de volta com a mesma covinha no queixo; Jamie Lee Curtis e Jennifer Jason Leigh são filhas de Tony Curtis e Janet Leigh; o clã dos Barrymore atravessou gerações até chegar ao ET; Liza é filha de Judy, Nana é filha do Caymmi, Leandra é filha da Ângela e Sylvia é filha do Chico.

Nepotismo? Sim e não.

TEORIAS DA CONSPIRA?O

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Circula pela Internet um documento que fala em ”golpe de estado”, recheado de lances rocambolescos e tendo como personagens algumas das figuras mais conhecidas da República.

O que, antes da Internet, se falava à boca pequena e jamais seria publicado por qualquer veículo sério, hoje cai na Rede. Nem tudo que cai na rede é peixe: há mentiras e verdades, pérolas e lixo, versões prováveis e absolutamente improváveis dos acontecimentos. É o que me encanta, todas as manhãs, quando fecho o jornal e abro o computador – no jornal eu tenho o que é provável (passível de prova), na Internet o anonimato dispensa a cautela e podemos ter a hipótese não provável mas possível. E há mais possibilidades entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.

As “teorias da conspiração” têm inegável vantagem sobre os fatos provados – são mais inteligentes.

Ao longo dos muitos anos que vivi, acompanhei versões que viraram História: os eventos de 64 foram motivados por um discurso infeliz do Presidente Goulart no Clube dos Sargentos e a marcha Pela Família Com Deus das donas-de-casa paulistas; em 15 dias, os militares se mobilizaram e tomaram o poder por 25 anos. Na época, muitos falavam da CIA e de um plano maior do governo americano para a América Latina mas teorias conspiratórias – todos sabemos – são improváveis.

NADA DE NOVO SOB O SOL, J?LEMBRAVA O ECCLESIATES

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brasil.jpgAs “forças terríveis” atacam novamente (Jânio nunca disse que eram ocultas, embora também sejam) e vamos rever o velho filme. Quem disse que a reprise não nos emociona mais? Continuamos a chorar no final.

Nas esferas oficiais, todos sabiam de Gregório Fortunato; como de PC Farias; como dos acertos para a prorrogação de mandato do Sarney (“é dando que se recebe”, lembram?); como da compra de parlamentares para a reeleição de Fernando Henrique; como do mensalão. Nossas práticas republicanas sempre foram escandalosas mas só viram escândalo quando se tornam públicas. E, quando chegam aos jornais, são muito mais uma denúncia contra aqueles que as praticam do que contra elas mesmas.

Quando as práticas escusas são divulgadas para o povo (e o povo é como marido enganado, o principal interessado e o último a saber), temos o escândalo; embora as práticas sejam sempre bem anteriores ao escândalo. E toleradas por todos aqueles que teriam a obrigação rasteira de não só repeli-las como denunciá-las.

PEQUENOS LEMBRETES AOS NAMORADOS, NO SEU DIA

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abduction_of_psyche.jpg- No dia 12, não dê bichinhos de pelúcia à amada nem a invoque no diminutivo; o amor é grave e não atende por eufemismos ou onomatopéias. Seu significado mais aproximado é morte mas não aconselho chamá-lo pelo nome verdadeiro (assusta) nem empregar o apelido meloso (avilta).

- No dia 12, não se meta a definir o amor à amada para assegurar que o experimenta. Muitos tentaram, pouquíssimos conseguiram, e em nenhum dos casos a amada estava ao lado para ouvir. Arrisque a mudez. Não diga “não tenho palavras” porque não é deficiência sua. Não as há. E jamais assine embaixo de cartões impressos, são epitáfios para o amor.

- Não procure ser excepcionalmente agradável neste dia e satisfazer todos os desejos dela – o amor deseja além do desejo dos que dele participam e nunca ninguém se fez amar sendo gentil.

- Não planeje o hotel, o vinho, a banheira, não compre uma camisa nova, não adianta nada; o amor não acompanha o ser mais bonito que nos apareceu, nem o mais inteligente, nem a trepada inesquecível, nem o cenário perfeito. O amor é absurdo.

- Não dê rosas no dia 12, ou marias-sem-vergonha. Nem diamantes ou bijuterias. Não serão lembrados se não for amor; não serão necessários, se for.

- Não comam bombons a dois, imaginando que o amor é doce como chocolate. Nem é apimentado como acarajé. Deve ter gosto de ambrosia mas os deuses do Olimpo nunca disponibilizaram a receita, então, esqueçam as comidinhas – talvez o dia do amor peça o jejum.

- Nem adianta convocar qualquer outro dos sentidos para tornar o amor presente no seu dia. Amor não tem forma, cheiro, som ou gosto e permanece na presença como na ausência. Não é abstrato mas concreto, certamente, não é.

- O amor sobrevive ao tempo. Dizem até que é eterno mas isso não podemos afirmar, só saberemos se o encontrarmos na eternidade. Crônico, é. Como vírus resistente, que não nos mata mas também não vai embora; morre conosco. Se morrer antes, não era amor.

- O amor é um, vocês sabem, e o um não pode ser definido. Pode ser, em raros momentos, experimentado. Mas não nos dá nada, não recebe nada, não facilita, não cria, não é sujeito nem objeto de qualquer ação que se costuma vincular a ele. Apenas existe. E um dia, se tivermos sorte, nos aparece face a face.

- No dia 12, agora, domingo, vá à presença da amada e cumpra toda a liturgia do amor; os cerimoniais são belos. Mas não confunda a amada com o amor e ela no futuro lhe agradecerá a lucidez. O amor não é um encontro, é uma perseverante espera por si mesmo.


(Publicado pela primeira vez no Epinion, em 07/06/2004)

O ESCRITOR, ESTE POBRE COITADO

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Hoje é o último dia da Bienal Internacional do Livro, que lota o Riocentro há duas semanas. O terno branco de Tom Wolfe disputou espaço com os cigarros de Lolita Pille nos jornais; mas os grandes sucessos de público – assediados por multidão de fãs – foram MV Bill e o Big Brother Jean Wyllys.

Um romance recém-lançado, do espanhol José Luis Saorín, fala de uma “grande editora que não só mata o romance como também todos os gêneros literários, criando uma fábrica de livros escritos por ‘ghost-writers’, na qual os autores são engrenagens na cadeia de produção e onde não se fala mais em literatura e leitores mas somente em produtos e clientes”. Alguns escritores, às vezes, são profetas.

Moro no Rio e aqui não podemos reclamar de pobreza cultural. Há algum tempo, a Prefeitura gastou 2 milhões de dólares só num “estudo de viabilidades” para trazer o Guggenheim para cá. Os shows nas praias custam somas fabulosas e acontecem com freqüência, não só no réveillon. Trazem Rodin, trazem Monet, trazem Dali e esta agenda cultural é montada com dinheiro assumidamente público ou isenção fiscal, o que dá no mesmo. Nossa condição de platéia custa caro aos cofres brasileiros mas a produção de uma cultura nacional é mais do que precária – é quase inexistente. O músico, o ator, o bailarino, o artista plástico, o cineasta, ainda podem ter a esperança de que a Lei Rouanet, um dia, invista em seu talento. O escritor, coitadinho, tem que rezar para ganhar na Mega-Sena.

Em tempos de Bienal do Livro, o BNDES anuncia novas medidas (junto com o Ministério da Cultura) para editoras e livrarias: empréstimos a partir de 1 milhão de reais e não mais de 10 milhões – só uma editora no Brasil tinha potencial para empréstimos desta monta. E a produção de livros no país, com a desoneração fiscal de fins de 2004, tornou-se totalmente isenta de impostos. Bom, para os empresários do livro. Mas... o que se pensa para os autores de livros?

biotonico_fontoura.jpgNo Almanaque do Biotônico Fontoura de 1943 (não posso ver um Biotônico ou um Abacateirol antigos que não compre, são cultura mais compactada do que na Internet), há uma impressionante relação, sob o título de "Escritores Pobres”: Desde Milton, que vendeu seu Paraíso Perdido por 10 libras, ao que vendeu o corpo para cirurgiões, ao que casou com a lavadeira para pagar dívidas. Além de Camões e Cervantes, que morreram na miséria.
Há um vínculo perverso entre literatura e indigência. Ariosto habitava, no fim de sua vida, uma das casas mais ordinárias da cidade e era o primeiro a gracejar com a magnificência dos palácios que descrevera no Orlando, dizendo que era mais fácil juntar palavras do que pedras. Ou moedas.

As moedas públicas saem para outras áreas culturais e possibilitam a revelação de talentos. Só a literatura é a enjeitadinha das artes. Há o prêmio Camões, vocês dirão, 100 mil euros. Sim, para autor consagrado. Mas, qual o caminho para o escritor talentoso e ainda não editado? Um editor declarou uma vez (não posso jurar que tenha sido o dono da Companhia das Letras mas me parece que era) que só editou duas obras cujos originais lhe chegaram pelos Correios. O escritor precisa ser indicado como escritor para vir a ser um escritor. Absurdo, não?

Qual a chance do escritor talentoso que nasceu no Acre ou no Piauí, não se mudou para o Rio ou São Paulo e não conhece intelectuais que o indiquem? Se a bailarina dança, o ator representa, o peixe nada e o passarinho canta, por que o escritor deve ser funcionário público para se sustentar? Por que lhe cobram que seja ou best seller ou mendigo? Por que não existe escritor classe média, sustentando-se dignamente com aquilo que escreve? Há dinheiro público para financiar a cultura, e o fundamento de quase todas as artes é a literatura, sem dúvida.

Vamos pensar no que custa um filme. E no que custa um livro. Em um ano, um escritor pode escrever seu livro, desde que possa se dedicar a ele todos os dias. Se houvesse verba pública para, todos os anos, premiar dez autores em concurso, se este prêmio fosse algo não menor do que 50 mil, teríamos uma despesa anual de 500 mil (bem menor do que o custo de um filme) com o incentivo à literatura e, com este dinheiro, o autor poderia pensar em passar um ano escrevendo seu próximo livro. Profissionalmente. E não amadoristicamente - no tempo que lhe sobra de outras atividades - ou se sujeitando a viver o mito do artista miserável que morre de fome enquanto engendra a sua obra.

Os festivais de MPB, na década de 60, renovaram a música popular. Os que ainda hoje estão aí, Chico, Caetano, Gil, Edu, etc; etc; foram revelados em festivais e conseguiram furar o bloqueio das gravadoras. O Brasil inteiro mandou fitas para os festivais e as melhores foram selecionadas e apresentadas ao público; ou seja, foi dada visibilidade àqueles compositores e eles iniciaram uma carreira profissional. Lucraram todos, eles e a música.

Por que não há um concurso decente para o escritor iniciante?

Não sei como é a “política literária” em outros países. Aqui no Brasil, é quase impossível ao jovem escritor editar seu livro. Fala-se muito que o brasileiro precisa ler mais; mas não se dá a mínima chance ao escritor inédito brasileiro. E, enquanto “consumimos” música brasileira e dramaturgia brasileira – com as novelas de TV -, e isto é muito bom, lemos Dan Brown: a lista dos 10 mais vendidos, em tempos de estímulo literário provocado pela Bienal, traz 7 estrangeiros e apenas 3 brasileiros: Paulo Coelho (fenômeno mundial), Jô Soares (que chegou à literatura oriundo de outras áreas) e Lya Luft (mulher de dois escritores com trânsito em editoras e que, certamente, nunca mandou um original pelos Correios).

Onde estão os escritores brasileiros, que poderiam ter sido descobertos pelo Ministério da Cultura?

SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS

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Tenho pena do camelô mudo, aquele que fica sentado na frente do seu caixotinho, em silêncio, desviando o olhar de quem passa e quase pedindo desculpas por ser o que é. Ao mesmo tempo em que sou fascinada pelo camelô falante, embora nunca tenha encontrado pessoalmente o Sílvio Santos. O último camelô que me hipnotizou, meses atrás, estava em Copacabana vendendo por 5 reais notas de 10. A multidão se acotovelava em volta, disputando aos empurrões a utilíssima mercadoria; alguns perguntavam se aceitava cheques e ele negava, só dinheiro vivo; falava biblicamente sobre milagres, multiplicação dos pães, exploração do homem e FMI, enquanto o bolo de notas de 5 ia crescendo em suas mãos e o bolo de notas falsas diminuía na gamela de barro que lhe servia de guichê. Um craque da comunicação, aquele camelô; e só não comprei notinhas de 10 por pura vergonha de virar estelionatária a esta altura da vida, alguns anos atrás, não sei não. Fiquei lá, em êxtase, no meio da turba, enquanto ele rapidamente liquidava seu estoque e sumia, abraçado ao alguidar, por uma tranversal em direção à praia.

AS SAND IAS DO PESCADOR

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pes.jpgAssistimos, nos últimos dias, a um curioso fenômeno de massas - milhões de pessoas acorrendo ao Vaticano para ver o corpo do Papa. Nem todas são católicas fervorosas, poucas se importavam com a saúde do Papa há um mês e pouquíssimas saberiam dizer por que admiram o Papa. Mas estão lá, de sacos de dormir e mochila, enfrentando filas quilométricas e espremidas em multidão que dá medo. O desconforto é grande e o risco é real: ninguém controlaria um estouro desta boiada.

O que leva estas pessoas a saírem de suas casas para participar de um velório de quem não conheciam e que também não as conhecia é uma necessidade pouco estudada e pouco compreendida em tempos de globalização: a necessidade de "pertencer".

O "pertencimento" é dos poucos estados emocionais que rompe a barreira do individualismo: quem pertence - a uma causa, um time, um partido, uma família ou a uma grande multidão - sai da solidão do próprio "eu" e experimenta o compartilhamento do "nós", do coletivo. Experimenta uma forma de amor.

As pessoas que foram ao funeral do Papa (e choraram, sinceramente), como quem foi ao funeral do Getúlio, da Carmen Miranda, do Tancredo e de tantos outros que mobilizaram grandes massas, corriam atrás de um estado emocional que raramente pode ser descrito. É o que dizem os entrevistados, depois de desfilar por sua Escola, na Sapucaí: - É emoção demais; indescritível.

Os gregos chamavam de "ágape" a este grau indescritível da "participação mística". Poucas causas e poucos eventos nos proporcionam o encontro com "ágape"; quando os farejamos, corremos para eles, enlouquecidos. O ágape nos pede sacrifícios materiais, aferíveis, e só nos remunera com um vago e raro sentimento: por alguns momentos, rompemos a barreira do "eu" individual e participamos de "algo" maior do que nós. É a experiência mística - a experiência de Deus -, a iluminação possível aos humanos, imersos nas trevas.

Quando voltar para suas casas e suas vidas, aquela multidão já não pensará muito nas orientações de João Paulo II e, certamente, não as seguirá ao pé da letra: a adesão ao velho Papa não é tão grande. Mas, os momentos de êxtase vividos em Roma serão inesquecíveis.

É um fenômeno dos nossos tempos, em que os costumes (ou a mídia) desqualificaram esta forma de amor, limitando-o a um bom encontro sexual, mas ela permanece lá, adormecida, esperando o próximo evento que reúna grandes massas, ou um grande jogo, ou um grande "show", ou outro grande funeral para proporcionar a experiência transcendente do encontro da parte com o todo. Um estado de felicidade inalienável - não sujeita às vicissitudes da existência - que sempre foi a meta da jornada mística em busca de Deus.

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shoes of pope paul V.jpgAs Sandálias do Pescador é um romance, escrito por Morris West na década de 1960. Conta as ardilosas maquinações que se sucedem à morte de um Papa e a improvável eleição de um Cardeal não italiano e oriundo de país comunista para o Trono de Pedro. No livro, o novo Papa não se chama Karol mas Kiril - Morris West chegou perto, com 15 anos de antecedência. Parece que escritores e poetas acabam vaticinando, mesmo sem querer.

E lembrei deste romance quando vi o corpo de João Paulo em mocassins calçado.
Não sou da época do bom e velho velório em casa, meus mortos já morreram em hospitais, a Santa Casa se encarrega de todos os procedimentos e a família mal cuida do corpo defunto.
Mas não esqueço a minha mãe lembrando que não se enterra ninguém de sapatos e parece que a Santa Casa segue o costume: veste, coloca no caixão, cobre de flores mas não calça.

Não sei de onde vem esta tradição, é possível que seja muito arcaica. Quando Moisés se apresenta diante de Deus ouve uma voz que diz: "Tira as sandálias, o solo em que pisas é sagrado". Talvez não se deva chegar com os pés cobertos à presença do Senhor.

O mocassim do Papa me causou certa estranheza.
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DONA PET?IA

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petunia.jpgTenho em boa conta meu hemisfério cerebral esquerdo; construo direitinho uns silogismos quando quero argumentar; sempre me dei bem em testes de QI mas nunca assisti palestra ou conferência de filósofos: acho-as chatas, de antemão.

Penso na platéia silenciosa e reverente e me imagino espirrando, penso que o ar refrigerado pode pifar, penso - principalmente - em passar duas horas sem fumar e acho que é mais negócio comprar o livro do filósofo (o filósofo sempre documenta o que pensa, para a posteridade; só Sócrates sabia que nada sabia). Ou lê-lo, aos sábados, no jornal. Grandes jornais não nos dão só notícias, diversão e arte - também nos dão filosofia, quase sempre aos sábados.

Mas não chego a reler os livros que andei comprando nos últimos tempos e não recorto - há muitos anos - qualquer artigo que um filósofo de pulso tenha escrito. Ando descrente da Filosofia e dos filósofos, aliás, comecei a achá-los um pouco pálidos e muito repetitivos.

Não sou, pois, uma buscadora convicta da sabedoria. Volto para os gregos - aqueles livrinhos ensebados das estantes - e estou me distanciando das especulações filosóficas do meu tempo, alheia aos cursos, palestras e conferências que poderiam me atualizar; e os convites bem que chegam, tem sempre uma alma amiga que tenta botar pilha: - A Mente Magna vai falar hoje no Espaço Total sobre O Poder Transformador do Olhar Lúcido. Vamos? - Não vou. Penso nas duas horas sem fumar e fico em casa. Penso também nas caras pálidas.

Mas confesso que me amarro num vidente.

Quando ouvi falar de Dona Petúnia - "ela fala pouco, só 15 minutos, mas diz tudo!" - já fui anotando o endereço, pensando em compactar a agenda para tirar uma tarde livre e nem aventei a hipótese de possível palidez.

Assim, na última tarde útil da semana, driblei horários e compromissos e segui para Nilópolis com amiga tão pouco filosófica quanto eu.
A amiga tem mente lógica e estudiosa, é respeitada cirurgiã e corta e costura com a maior competência qualquer problema grave que lhe apareça. Mas também anda meio cansada da inteligência e não busca mais a sabedoria, corre atrás do fenômeno - ou da Dona Petúnia - que talvez possa explicar melhor os mistérios que paralisam a Ciência e que a gente, bolas, quer entender antes de morrer.

Nilópolis é longe para quem mora onde moramos, é reduto da Beija-Flor e não somos chegadas nem em Filosofia nem em Escolas de Samba. Arranjamos um mapa (que nenhuma das duas sabia decifar muito bem) e lá fomos nós. - De carro, em 40 minutos vocês chegam - asseverou a minha faxineira. Levamos mais de 2 horas. As indicações fornecidas pelos pedestres abordados, como costuma acontecer, só nos faziam andar em círculos: "Nilópolis é fácil. Vai reto até encontrar o Bar do Mateus. Aí, vira às direita (gestos enfáticos com a esquerda). Primeiro vai subir, depois descer, não desce até o fim, vira como quem vai pra Anchieta mas não entra em Anchieta, segue em frente que vocês vão dar direto em São João de Meriti". Sim; e Nilópolis?

As idiotas levaram três vezes o tempo que levariam se tivessem um pouco mais de orientação espacial, um dos requisitos para aferir a inteligência. E, na volta, não lograram diminuir o tempo do percurso: quem disse que um caminho iniciático é mais fácil quando o percorremos pela segunda vez?

A duras penas, chegamos à Dona Petúnia. Que é coradinha, como as pessoas normais devem ser, e nunca ouviu falar em Filosofia.

Mas, gente, Dona Petúnia diz TUDO!!!

A PCOA DA RESSUREI?O

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Como a Semana da Paixão sempre provoca reflexões sobre a vida e a morte, temos falado bastante - à volta da nossa távola retangular - do que seria um possível direito à morte e quem poderia reivindicá-lo para terceiros.

O direito de escolher para si mesmo uma morte decente, sem sofrer o aviltamento da dor constante ou tornar-se um fardo penoso para os que estão próximos, me parece um direito quase inalienável de qualquer pessoa mas há veementes argumentos contrários, apoiados principalmente em convicções religiosas.

A legislação suíça e a holandesa permitem o "suicídio assistido" para doentes terminais lúcidos mas a defesa intransigente da vida é uma constante nas Constituições ocidentais (não sei como o Oriente trata estes assuntos).

O avanço acelerado da Ciência nas últimas décadas está nos obrigando, cada vez mais, a rever nossos conceitos sobre a vida e a morte. Até pouco tempo, vida e morte pertenciam ao território do fortuito ou da vontade de Deus. Mas hoje, criamos bebês de proveta, podemos clonar qualquer ser vivo e adiar a morte quase indefinidamente com aparelhos sofisticados ou congelamento. A "vontade de Deus" ficou bastante relativa diante do nosso progresso e mais cedo ou mais tarde seríamos convidados a definir os limites para as nossas possibilidades. Talvez poder fazer nem sempre signifique que devamos fazer.

O caso de Terri Schiavo, em coma há 15 anos, sem chances de recuperação e mantida viva com auxílio de aparelhos, está mobilizando tanto a opinião pública porque suscita uma questão dentro de cada um de nós - o quê eu faria, se fosse esta mãe, este marido ou este juiz?

Os religiosos esperam a orientação canônica da sua Igreja para saber como pensar. Alguns apressadinhos "acham" rapidamente qualquer coisa e saem com faixas e cartazes para defender o achamento. Outros, apenas ficam perplexos. Não se trata de decidir o que "eu" gostaria que fizessem comigo. Trata-se de definir o que é Vida. Ou, na sua ausência, a Morte. Há 100 anos, isto seria muito fácil; hoje, é complicadíssimo.

Parece que existem alguns milhares de pessoas nas condições de Terri, só nos Estados Unidos. É justo destinar recursos e leitos de hospital para quem não tem a menor possibilidade de recuperação? Por outro lado, quantos diagnosticados como irrecuperáveis não se recuperaram? Quanto tempo é razoável que se espere pelo milagre, 1 ano, 15 anos, 40 anos?

As leis são sempre cautelosas quando concedem direitos. Primeiro vem o ventre livre, depois os sexagenários e só então a abolição. Terri é uma vítima não só do destino quanto da morosidade legal. Foi permitido o desligamento do tubo milagroso, só isso. Não foi nem reivindicado o direito a uma injeção letal porque seria eutanásia. scream.jpgEntão, parece que Terri vai morrer de morte bastante primitiva: de fome e sede, o que, afinal, é cruel, quando existem recursos para impedir. E caímos no círculo vicioso.

Talvez, daqui a 20 anos, haja definições mais claras, não só legais mas também filosóficas, para a Vida, já que a vida humana deve ser protegida em todas as suas formas, é um consenso. Talvez não se permita que a Ciência fabrique zumbis - corpos mortos mantidos vivos artificialmente, à espera de um milagre futuro - se ainda não pode devolver-lhes a vida plena nem dar-lhes, porque ilegal, a morte de direito.

E a gente não passe a Páscoa com estas questões angustiantes a verrumar os miolos: mas, afinal, a Terri está viva? E o Timothy Leary?

A FOLHAS TANTAS,

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a saudade bateu. Pespegou. Escrever na Internet é mais divertido do que escrever um livro, acreditem. Assim, livro pronto, foi admitida a vontade de voltar à Rede: escrever sem revisão, como quem fala, o que é pecado mortal num livro mas pecar é divertido.
Nós, os Nóvoa, somos uma família falante. Mãe – eu – e três filhos – eles – que nos falamos horas por dia há algumas décadas. Temos em casa uma mesa que os amigos dizem que é feita de um cristal diabólico, quem senta não levanta, como em filme de Buñuel. Acabamos de comer e lá ficamos, falando; vai chegando gente e não nos mudamos para os sofás, permanecemos em torno da mesa excomungada; os amigos às vezes vêm nos buscar para algum programa mas no que puxam a cadeira e sentam conosco estão perdidos, começam a falar também, perdem a hora e falamos todos até bater a fome outra vez e sair o macarrão da madrugada.
Se tiver a cervejinha, o vinho, o uísque e uns belisquetes caprichados, é bom. Mas já vimos muitas vezes o dia amanhecer com café e sanduíche de queijo. Por isso, não foi surpresa a primeira faculdade de todos os filhos ter sido Comunicação. Escolha insensata, desde a minha época. Quando muito jovem, a gente acha que pode ganhar dinheiro fazendo o que faria de graça. Às vezes, até pode. Porém, como ficou claro desde as primeiras aulas de Teoria da Imprensa que nunca seríamos donos de um jornal, tomamos todos novos rumos mas restou aquela inveja cavilosa do Roberto Marinho.
Quando Christiana – a falante filha do meio – veio me propor fazer um blog, jurando que eu só iria escrever e o mistério insondável dos movable types ficaria por conta dela, pensei em John Malcovich, naquele túnel maluco e no Roberto Marinho. Confesso que sempre quis ser dona de um jornal para escrever o que me desse na telha, uma evidente impossibilidade, quem escreve o que lhe dá na telha jamais será dono de jornal.
Mas o mundo virtual é o avesso do real e aderi ao “Nóvoa em Folha”. Combinamos, de saída, um folhetim: uma idéia de anquinhas, que qualquer dono de jornal rejeitaria e substituiria por uma idéia de biquini. Prometemos que não será longo como novela de Aguinaldo Silva nem sucinto como hai-kai do Leminski. Também não asseguramos regularidade jornalística porque, bolas, precisamos ganhar a vida. Ficaremos naquele padrão-blog, vocês sabem como é. É que Christiana – que faz da edição à faxina – na verdade ainda não sabe nem postar uma foto.
Eu cá é que estou achando muito bom ser sócia de uma folha e dizer tudo que me vier ao bestunto.

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