Hoje é o último dia da Bienal Internacional do Livro, que lota o Riocentro há duas semanas. O terno branco de Tom Wolfe disputou espaço com os cigarros de Lolita Pille nos jornais; mas os grandes sucessos de público assediados por multidão de fãs foram MV Bill e o Big Brother Jean Wyllys.
Um romance recém-lançado, do espanhol José Luis Saorín, fala de uma grande editora que não só mata o romance como também todos os gêneros literários, criando uma fábrica de livros escritos por ghost-writers, na qual os autores são engrenagens na cadeia de produção e onde não se fala mais em literatura e leitores mas somente em produtos e clientes. Alguns escritores, às vezes, são profetas.
Moro no Rio e aqui não podemos reclamar de pobreza cultural. Há algum tempo, a Prefeitura gastou 2 milhões de dólares só num estudo de viabilidades para trazer o Guggenheim para cá. Os shows nas praias custam somas fabulosas e acontecem com freqüência, não só no réveillon. Trazem Rodin, trazem Monet, trazem Dali e esta agenda cultural é montada com dinheiro assumidamente público ou isenção fiscal, o que dá no mesmo. Nossa condição de platéia custa caro aos cofres brasileiros mas a produção de uma cultura nacional é mais do que precária é quase inexistente. O músico, o ator, o bailarino, o artista plástico, o cineasta, ainda podem ter a esperança de que a Lei Rouanet, um dia, invista em seu talento. O escritor, coitadinho, tem que rezar para ganhar na Mega-Sena.
Em tempos de Bienal do Livro, o BNDES anuncia novas medidas (junto com o Ministério da Cultura) para editoras e livrarias: empréstimos a partir de 1 milhão de reais e não mais de 10 milhões só uma editora no Brasil tinha potencial para empréstimos desta monta. E a produção de livros no país, com a desoneração fiscal de fins de 2004, tornou-se totalmente isenta de impostos. Bom, para os empresários do livro. Mas... o que se pensa para os autores de livros?
No Almanaque do Biotônico Fontoura de 1943 (não posso ver um Biotônico ou um Abacateirol antigos que não compre, são cultura mais compactada do que na Internet), há uma impressionante relação, sob o título de "Escritores Pobres: Desde Milton, que vendeu seu Paraíso Perdido por 10 libras, ao que vendeu o corpo para cirurgiões, ao que casou com a lavadeira para pagar dívidas. Além de Camões e Cervantes, que morreram na miséria.
Há um vínculo perverso entre literatura e indigência. Ariosto habitava, no fim de sua vida, uma das casas mais ordinárias da cidade e era o primeiro a gracejar com a magnificência dos palácios que descrevera no Orlando, dizendo que era mais fácil juntar palavras do que pedras. Ou moedas.
As moedas públicas saem para outras áreas culturais e possibilitam a revelação de talentos. Só a literatura é a enjeitadinha das artes. Há o prêmio Camões, vocês dirão, 100 mil euros. Sim, para autor consagrado. Mas, qual o caminho para o escritor talentoso e ainda não editado? Um editor declarou uma vez (não posso jurar que tenha sido o dono da Companhia das Letras mas me parece que era) que só editou duas obras cujos originais lhe chegaram pelos Correios. O escritor precisa ser indicado como escritor para vir a ser um escritor. Absurdo, não?
Qual a chance do escritor talentoso que nasceu no Acre ou no Piauí, não se mudou para o Rio ou São Paulo e não conhece intelectuais que o indiquem? Se a bailarina dança, o ator representa, o peixe nada e o passarinho canta, por que o escritor deve ser funcionário público para se sustentar? Por que lhe cobram que seja ou best seller ou mendigo? Por que não existe escritor classe média, sustentando-se dignamente com aquilo que escreve? Há dinheiro público para financiar a cultura, e o fundamento de quase todas as artes é a literatura, sem dúvida.
Vamos pensar no que custa um filme. E no que custa um livro. Em um ano, um escritor pode escrever seu livro, desde que possa se dedicar a ele todos os dias. Se houvesse verba pública para, todos os anos, premiar dez autores em concurso, se este prêmio fosse algo não menor do que 50 mil, teríamos uma despesa anual de 500 mil (bem menor do que o custo de um filme) com o incentivo à literatura e, com este dinheiro, o autor poderia pensar em passar um ano escrevendo seu próximo livro. Profissionalmente. E não amadoristicamente - no tempo que lhe sobra de outras atividades - ou se sujeitando a viver o mito do artista miserável que morre de fome enquanto engendra a sua obra.
Os festivais de MPB, na década de 60, renovaram a música popular. Os que ainda hoje estão aí, Chico, Caetano, Gil, Edu, etc; etc; foram revelados em festivais e conseguiram furar o bloqueio das gravadoras. O Brasil inteiro mandou fitas para os festivais e as melhores foram selecionadas e apresentadas ao público; ou seja, foi dada visibilidade àqueles compositores e eles iniciaram uma carreira profissional. Lucraram todos, eles e a música.
Por que não há um concurso decente para o escritor iniciante?
Não sei como é a política literária em outros países. Aqui no Brasil, é quase impossível ao jovem escritor editar seu livro. Fala-se muito que o brasileiro precisa ler mais; mas não se dá a mínima chance ao escritor inédito brasileiro. E, enquanto consumimos música brasileira e dramaturgia brasileira com as novelas de TV -, e isto é muito bom, lemos Dan Brown: a lista dos 10 mais vendidos, em tempos de estímulo literário provocado pela Bienal, traz 7 estrangeiros e apenas 3 brasileiros: Paulo Coelho (fenômeno mundial), Jô Soares (que chegou à literatura oriundo de outras áreas) e Lya Luft (mulher de dois escritores com trânsito em editoras e que, certamente, nunca mandou um original pelos Correios).
Onde estão os escritores brasileiros, que poderiam ter sido descobertos pelo Ministério da Cultura?