ARQUIVOS MARIA HELENA NÓVOA: March 2005 Archives

A PCOA DA RESSUREI?O

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Terri Schiavo.jpg
Como a Semana da Paixão sempre provoca reflexões sobre a vida e a morte, temos falado bastante - à volta da nossa távola retangular - do que seria um possível direito à morte e quem poderia reivindicá-lo para terceiros.

O direito de escolher para si mesmo uma morte decente, sem sofrer o aviltamento da dor constante ou tornar-se um fardo penoso para os que estão próximos, me parece um direito quase inalienável de qualquer pessoa mas há veementes argumentos contrários, apoiados principalmente em convicções religiosas.

A legislação suíça e a holandesa permitem o "suicídio assistido" para doentes terminais lúcidos mas a defesa intransigente da vida é uma constante nas Constituições ocidentais (não sei como o Oriente trata estes assuntos).

O avanço acelerado da Ciência nas últimas décadas está nos obrigando, cada vez mais, a rever nossos conceitos sobre a vida e a morte. Até pouco tempo, vida e morte pertenciam ao território do fortuito ou da vontade de Deus. Mas hoje, criamos bebês de proveta, podemos clonar qualquer ser vivo e adiar a morte quase indefinidamente com aparelhos sofisticados ou congelamento. A "vontade de Deus" ficou bastante relativa diante do nosso progresso e mais cedo ou mais tarde seríamos convidados a definir os limites para as nossas possibilidades. Talvez poder fazer nem sempre signifique que devamos fazer.

O caso de Terri Schiavo, em coma há 15 anos, sem chances de recuperação e mantida viva com auxílio de aparelhos, está mobilizando tanto a opinião pública porque suscita uma questão dentro de cada um de nós - o quê eu faria, se fosse esta mãe, este marido ou este juiz?

Os religiosos esperam a orientação canônica da sua Igreja para saber como pensar. Alguns apressadinhos "acham" rapidamente qualquer coisa e saem com faixas e cartazes para defender o achamento. Outros, apenas ficam perplexos. Não se trata de decidir o que "eu" gostaria que fizessem comigo. Trata-se de definir o que é Vida. Ou, na sua ausência, a Morte. Há 100 anos, isto seria muito fácil; hoje, é complicadíssimo.

Parece que existem alguns milhares de pessoas nas condições de Terri, só nos Estados Unidos. É justo destinar recursos e leitos de hospital para quem não tem a menor possibilidade de recuperação? Por outro lado, quantos diagnosticados como irrecuperáveis não se recuperaram? Quanto tempo é razoável que se espere pelo milagre, 1 ano, 15 anos, 40 anos?

As leis são sempre cautelosas quando concedem direitos. Primeiro vem o ventre livre, depois os sexagenários e só então a abolição. Terri é uma vítima não só do destino quanto da morosidade legal. Foi permitido o desligamento do tubo milagroso, só isso. Não foi nem reivindicado o direito a uma injeção letal porque seria eutanásia. scream.jpgEntão, parece que Terri vai morrer de morte bastante primitiva: de fome e sede, o que, afinal, é cruel, quando existem recursos para impedir. E caímos no círculo vicioso.

Talvez, daqui a 20 anos, haja definições mais claras, não só legais mas também filosóficas, para a Vida, já que a vida humana deve ser protegida em todas as suas formas, é um consenso. Talvez não se permita que a Ciência fabrique zumbis - corpos mortos mantidos vivos artificialmente, à espera de um milagre futuro - se ainda não pode devolver-lhes a vida plena nem dar-lhes, porque ilegal, a morte de direito.

E a gente não passe a Páscoa com estas questões angustiantes a verrumar os miolos: mas, afinal, a Terri está viva? E o Timothy Leary?

A FOLHAS TANTAS,

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a saudade bateu. Pespegou. Escrever na Internet é mais divertido do que escrever um livro, acreditem. Assim, livro pronto, foi admitida a vontade de voltar à Rede: escrever sem revisão, como quem fala, o que é pecado mortal num livro mas pecar é divertido.
Nós, os Nóvoa, somos uma família falante. Mãe – eu – e três filhos – eles – que nos falamos horas por dia há algumas décadas. Temos em casa uma mesa que os amigos dizem que é feita de um cristal diabólico, quem senta não levanta, como em filme de Buñuel. Acabamos de comer e lá ficamos, falando; vai chegando gente e não nos mudamos para os sofás, permanecemos em torno da mesa excomungada; os amigos às vezes vêm nos buscar para algum programa mas no que puxam a cadeira e sentam conosco estão perdidos, começam a falar também, perdem a hora e falamos todos até bater a fome outra vez e sair o macarrão da madrugada.
Se tiver a cervejinha, o vinho, o uísque e uns belisquetes caprichados, é bom. Mas já vimos muitas vezes o dia amanhecer com café e sanduíche de queijo. Por isso, não foi surpresa a primeira faculdade de todos os filhos ter sido Comunicação. Escolha insensata, desde a minha época. Quando muito jovem, a gente acha que pode ganhar dinheiro fazendo o que faria de graça. Às vezes, até pode. Porém, como ficou claro desde as primeiras aulas de Teoria da Imprensa que nunca seríamos donos de um jornal, tomamos todos novos rumos mas restou aquela inveja cavilosa do Roberto Marinho.
Quando Christiana – a falante filha do meio – veio me propor fazer um blog, jurando que eu só iria escrever e o mistério insondável dos movable types ficaria por conta dela, pensei em John Malcovich, naquele túnel maluco e no Roberto Marinho. Confesso que sempre quis ser dona de um jornal para escrever o que me desse na telha, uma evidente impossibilidade, quem escreve o que lhe dá na telha jamais será dono de jornal.
Mas o mundo virtual é o avesso do real e aderi ao “Nóvoa em Folha”. Combinamos, de saída, um folhetim: uma idéia de anquinhas, que qualquer dono de jornal rejeitaria e substituiria por uma idéia de biquini. Prometemos que não será longo como novela de Aguinaldo Silva nem sucinto como hai-kai do Leminski. Também não asseguramos regularidade jornalística porque, bolas, precisamos ganhar a vida. Ficaremos naquele padrão-blog, vocês sabem como é. É que Christiana – que faz da edição à faxina – na verdade ainda não sabe nem postar uma foto.
Eu cá é que estou achando muito bom ser sócia de uma folha e dizer tudo que me vier ao bestunto.

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Minhas melhores fotos são dos olhos do meu filho.

Meus melhores poemas, confesso, não sou eu que faço.

Laço o que posso, o pouco que não esqueço

do sopro (ab)surdo que ouço em quanto passo.

Christiana Nóvoa

meuemail: christiana ponto novoa arroba gmail ponto com

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