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AS SAND IAS DO PESCADOR

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pes.jpgAssistimos, nos últimos dias, a um curioso fenômeno de massas - milhões de pessoas acorrendo ao Vaticano para ver o corpo do Papa. Nem todas são católicas fervorosas, poucas se importavam com a saúde do Papa há um mês e pouquíssimas saberiam dizer por que admiram o Papa. Mas estão lá, de sacos de dormir e mochila, enfrentando filas quilométricas e espremidas em multidão que dá medo. O desconforto é grande e o risco é real: ninguém controlaria um estouro desta boiada.

O que leva estas pessoas a saírem de suas casas para participar de um velório de quem não conheciam e que também não as conhecia é uma necessidade pouco estudada e pouco compreendida em tempos de globalização: a necessidade de "pertencer".

O "pertencimento" é dos poucos estados emocionais que rompe a barreira do individualismo: quem pertence - a uma causa, um time, um partido, uma família ou a uma grande multidão - sai da solidão do próprio "eu" e experimenta o compartilhamento do "nós", do coletivo. Experimenta uma forma de amor.

As pessoas que foram ao funeral do Papa (e choraram, sinceramente), como quem foi ao funeral do Getúlio, da Carmen Miranda, do Tancredo e de tantos outros que mobilizaram grandes massas, corriam atrás de um estado emocional que raramente pode ser descrito. É o que dizem os entrevistados, depois de desfilar por sua Escola, na Sapucaí: - É emoção demais; indescritível.

Os gregos chamavam de "ágape" a este grau indescritível da "participação mística". Poucas causas e poucos eventos nos proporcionam o encontro com "ágape"; quando os farejamos, corremos para eles, enlouquecidos. O ágape nos pede sacrifícios materiais, aferíveis, e só nos remunera com um vago e raro sentimento: por alguns momentos, rompemos a barreira do "eu" individual e participamos de "algo" maior do que nós. É a experiência mística - a experiência de Deus -, a iluminação possível aos humanos, imersos nas trevas.

Quando voltar para suas casas e suas vidas, aquela multidão já não pensará muito nas orientações de João Paulo II e, certamente, não as seguirá ao pé da letra: a adesão ao velho Papa não é tão grande. Mas, os momentos de êxtase vividos em Roma serão inesquecíveis.

É um fenômeno dos nossos tempos, em que os costumes (ou a mídia) desqualificaram esta forma de amor, limitando-o a um bom encontro sexual, mas ela permanece lá, adormecida, esperando o próximo evento que reúna grandes massas, ou um grande jogo, ou um grande "show", ou outro grande funeral para proporcionar a experiência transcendente do encontro da parte com o todo. Um estado de felicidade inalienável - não sujeita às vicissitudes da existência - que sempre foi a meta da jornada mística em busca de Deus.

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shoes of pope paul V.jpgAs Sandálias do Pescador é um romance, escrito por Morris West na década de 1960. Conta as ardilosas maquinações que se sucedem à morte de um Papa e a improvável eleição de um Cardeal não italiano e oriundo de país comunista para o Trono de Pedro. No livro, o novo Papa não se chama Karol mas Kiril - Morris West chegou perto, com 15 anos de antecedência. Parece que escritores e poetas acabam vaticinando, mesmo sem querer.

E lembrei deste romance quando vi o corpo de João Paulo em mocassins calçado.
Não sou da época do bom e velho velório em casa, meus mortos já morreram em hospitais, a Santa Casa se encarrega de todos os procedimentos e a família mal cuida do corpo defunto.
Mas não esqueço a minha mãe lembrando que não se enterra ninguém de sapatos e parece que a Santa Casa segue o costume: veste, coloca no caixão, cobre de flores mas não calça.

Não sei de onde vem esta tradição, é possível que seja muito arcaica. Quando Moisés se apresenta diante de Deus ouve uma voz que diz: "Tira as sandálias, o solo em que pisas é sagrado". Talvez não se deva chegar com os pés cobertos à presença do Senhor.

O mocassim do Papa me causou certa estranheza.
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DONA PET?IA

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petunia.jpgTenho em boa conta meu hemisfério cerebral esquerdo; construo direitinho uns silogismos quando quero argumentar; sempre me dei bem em testes de QI mas nunca assisti palestra ou conferência de filósofos: acho-as chatas, de antemão.

Penso na platéia silenciosa e reverente e me imagino espirrando, penso que o ar refrigerado pode pifar, penso - principalmente - em passar duas horas sem fumar e acho que é mais negócio comprar o livro do filósofo (o filósofo sempre documenta o que pensa, para a posteridade; só Sócrates sabia que nada sabia). Ou lê-lo, aos sábados, no jornal. Grandes jornais não nos dão só notícias, diversão e arte - também nos dão filosofia, quase sempre aos sábados.

Mas não chego a reler os livros que andei comprando nos últimos tempos e não recorto - há muitos anos - qualquer artigo que um filósofo de pulso tenha escrito. Ando descrente da Filosofia e dos filósofos, aliás, comecei a achá-los um pouco pálidos e muito repetitivos.

Não sou, pois, uma buscadora convicta da sabedoria. Volto para os gregos - aqueles livrinhos ensebados das estantes - e estou me distanciando das especulações filosóficas do meu tempo, alheia aos cursos, palestras e conferências que poderiam me atualizar; e os convites bem que chegam, tem sempre uma alma amiga que tenta botar pilha: - A Mente Magna vai falar hoje no Espaço Total sobre O Poder Transformador do Olhar Lúcido. Vamos? - Não vou. Penso nas duas horas sem fumar e fico em casa. Penso também nas caras pálidas.

Mas confesso que me amarro num vidente.

Quando ouvi falar de Dona Petúnia - "ela fala pouco, só 15 minutos, mas diz tudo!" - já fui anotando o endereço, pensando em compactar a agenda para tirar uma tarde livre e nem aventei a hipótese de possível palidez.

Assim, na última tarde útil da semana, driblei horários e compromissos e segui para Nilópolis com amiga tão pouco filosófica quanto eu.
A amiga tem mente lógica e estudiosa, é respeitada cirurgiã e corta e costura com a maior competência qualquer problema grave que lhe apareça. Mas também anda meio cansada da inteligência e não busca mais a sabedoria, corre atrás do fenômeno - ou da Dona Petúnia - que talvez possa explicar melhor os mistérios que paralisam a Ciência e que a gente, bolas, quer entender antes de morrer.

Nilópolis é longe para quem mora onde moramos, é reduto da Beija-Flor e não somos chegadas nem em Filosofia nem em Escolas de Samba. Arranjamos um mapa (que nenhuma das duas sabia decifar muito bem) e lá fomos nós. - De carro, em 40 minutos vocês chegam - asseverou a minha faxineira. Levamos mais de 2 horas. As indicações fornecidas pelos pedestres abordados, como costuma acontecer, só nos faziam andar em círculos: "Nilópolis é fácil. Vai reto até encontrar o Bar do Mateus. Aí, vira às direita (gestos enfáticos com a esquerda). Primeiro vai subir, depois descer, não desce até o fim, vira como quem vai pra Anchieta mas não entra em Anchieta, segue em frente que vocês vão dar direto em São João de Meriti". Sim; e Nilópolis?

As idiotas levaram três vezes o tempo que levariam se tivessem um pouco mais de orientação espacial, um dos requisitos para aferir a inteligência. E, na volta, não lograram diminuir o tempo do percurso: quem disse que um caminho iniciático é mais fácil quando o percorremos pela segunda vez?

A duras penas, chegamos à Dona Petúnia. Que é coradinha, como as pessoas normais devem ser, e nunca ouviu falar em Filosofia.

Mas, gente, Dona Petúnia diz TUDO!!!

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