ARQUIVOS MARIA HELENA NÓVOA: June 2005 Archives

TEORIAS DA CONSPIRA?O

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Circula pela Internet um documento que fala em ”golpe de estado”, recheado de lances rocambolescos e tendo como personagens algumas das figuras mais conhecidas da República.

O que, antes da Internet, se falava à boca pequena e jamais seria publicado por qualquer veículo sério, hoje cai na Rede. Nem tudo que cai na rede é peixe: há mentiras e verdades, pérolas e lixo, versões prováveis e absolutamente improváveis dos acontecimentos. É o que me encanta, todas as manhãs, quando fecho o jornal e abro o computador – no jornal eu tenho o que é provável (passível de prova), na Internet o anonimato dispensa a cautela e podemos ter a hipótese não provável mas possível. E há mais possibilidades entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.

As “teorias da conspiração” têm inegável vantagem sobre os fatos provados – são mais inteligentes.

Ao longo dos muitos anos que vivi, acompanhei versões que viraram História: os eventos de 64 foram motivados por um discurso infeliz do Presidente Goulart no Clube dos Sargentos e a marcha Pela Família Com Deus das donas-de-casa paulistas; em 15 dias, os militares se mobilizaram e tomaram o poder por 25 anos. Na época, muitos falavam da CIA e de um plano maior do governo americano para a América Latina mas teorias conspiratórias – todos sabemos – são improváveis.

NADA DE NOVO SOB O SOL, J?LEMBRAVA O ECCLESIATES

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brasil.jpgAs “forças terríveis” atacam novamente (Jânio nunca disse que eram ocultas, embora também sejam) e vamos rever o velho filme. Quem disse que a reprise não nos emociona mais? Continuamos a chorar no final.

Nas esferas oficiais, todos sabiam de Gregório Fortunato; como de PC Farias; como dos acertos para a prorrogação de mandato do Sarney (“é dando que se recebe”, lembram?); como da compra de parlamentares para a reeleição de Fernando Henrique; como do mensalão. Nossas práticas republicanas sempre foram escandalosas mas só viram escândalo quando se tornam públicas. E, quando chegam aos jornais, são muito mais uma denúncia contra aqueles que as praticam do que contra elas mesmas.

Quando as práticas escusas são divulgadas para o povo (e o povo é como marido enganado, o principal interessado e o último a saber), temos o escândalo; embora as práticas sejam sempre bem anteriores ao escândalo. E toleradas por todos aqueles que teriam a obrigação rasteira de não só repeli-las como denunciá-las.

PEQUENOS LEMBRETES AOS NAMORADOS, NO SEU DIA

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abduction_of_psyche.jpg- No dia 12, não dê bichinhos de pelúcia à amada nem a invoque no diminutivo; o amor é grave e não atende por eufemismos ou onomatopéias. Seu significado mais aproximado é morte mas não aconselho chamá-lo pelo nome verdadeiro (assusta) nem empregar o apelido meloso (avilta).

- No dia 12, não se meta a definir o amor à amada para assegurar que o experimenta. Muitos tentaram, pouquíssimos conseguiram, e em nenhum dos casos a amada estava ao lado para ouvir. Arrisque a mudez. Não diga “não tenho palavras” porque não é deficiência sua. Não as há. E jamais assine embaixo de cartões impressos, são epitáfios para o amor.

- Não procure ser excepcionalmente agradável neste dia e satisfazer todos os desejos dela – o amor deseja além do desejo dos que dele participam e nunca ninguém se fez amar sendo gentil.

- Não planeje o hotel, o vinho, a banheira, não compre uma camisa nova, não adianta nada; o amor não acompanha o ser mais bonito que nos apareceu, nem o mais inteligente, nem a trepada inesquecível, nem o cenário perfeito. O amor é absurdo.

- Não dê rosas no dia 12, ou marias-sem-vergonha. Nem diamantes ou bijuterias. Não serão lembrados se não for amor; não serão necessários, se for.

- Não comam bombons a dois, imaginando que o amor é doce como chocolate. Nem é apimentado como acarajé. Deve ter gosto de ambrosia mas os deuses do Olimpo nunca disponibilizaram a receita, então, esqueçam as comidinhas – talvez o dia do amor peça o jejum.

- Nem adianta convocar qualquer outro dos sentidos para tornar o amor presente no seu dia. Amor não tem forma, cheiro, som ou gosto e permanece na presença como na ausência. Não é abstrato mas concreto, certamente, não é.

- O amor sobrevive ao tempo. Dizem até que é eterno mas isso não podemos afirmar, só saberemos se o encontrarmos na eternidade. Crônico, é. Como vírus resistente, que não nos mata mas também não vai embora; morre conosco. Se morrer antes, não era amor.

- O amor é um, vocês sabem, e o um não pode ser definido. Pode ser, em raros momentos, experimentado. Mas não nos dá nada, não recebe nada, não facilita, não cria, não é sujeito nem objeto de qualquer ação que se costuma vincular a ele. Apenas existe. E um dia, se tivermos sorte, nos aparece face a face.

- No dia 12, agora, domingo, vá à presença da amada e cumpra toda a liturgia do amor; os cerimoniais são belos. Mas não confunda a amada com o amor e ela no futuro lhe agradecerá a lucidez. O amor não é um encontro, é uma perseverante espera por si mesmo.


(Publicado pela primeira vez no Epinion, em 07/06/2004)

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