Eu preciso sair já
Deste corpo sem espaço
Zarpar pra terras distantes
Ver as praias com outros olhos
Outros braços, almirante
Do barco de outros cansaços
Outras fome e paladar
Inéditas, frescas memórias
Novas histórias antigas
Parentes velhos em folha
Tias-avós rebordadas
Jovens familiaridades
Lembrar daquela cantiga
Que uma mãe desconhecida
Calou pra não me acordar
Não a mesma arca cheia
A resma de escritos velhos
Testamentos, evangelhos
Mesmos livros preferidos
Sebo das meias-verdades
Saldos de tardes relidas
Amores, pranto, feridas
Tudo tão passado quanto
Mais pesado nesse aqui
Que não me deixa sair
Que me apega ao que está morto
E me conserva latente
Na vã e impaciente espera
Pelo redentor aborto
De minha última quimera
.
P.S. - Sai, Augusto dos Anjos, deste corpo que não lhe pertence! :o)

