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Category Archive for 'Uncategorized'

o boto

  , no fundo nada há que esconda : em sonho o seu mar me ronda ; meu sonar ainda sonda onde anda a sua onda    

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o origami

  a dor me dobra com afinco cego um vinco que me obra eu trinco quebro abro brinco erro em tudo eu sou o berro agudo de um ornitorrinco mudo              

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a vigilante

  minha vigília é trocada viro noite sem remorso almoço de madrugada   canto danço queimo lenha que mantenha as estrelas despertas (mesmo sem vê-las)   nas horas desertas apanho e espalho poesia   mas é de dia que eu mais trabalho   no turno diurno eu durmo sem descanso   sonhos estranhos bonitos pelos insones aflitos   [...]

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a fermata

  do que falo a melhor parte é o intervalo   o vazio é uma arte sem bordas   não há som no aço   o que vibra é o espaço entre as cordas   se a palavra demora o silêncio é a causa   a música mora na pausa      

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o mandacaru

  cactos têm flor de mil pétalas finas como fitas   e espinhos escuros retos duros e exatos   para espetá-las tão bonitas como furos   o impacto da dor nas retinas dos insetos        

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a poeta

  poeta é quem poetiza.   fazer gênero, não precisa.      

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a lição

  o bem me bela o querer me querela o amar me amarela   a morte me mortadela a metrópole me atropela o porto me portela   o estro me estrela o mar me mela o rei me rela   o ser me sela o teu me tela o eu me ela       [...]

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o instantâneo

  , o todo por exemplo do lodo ao lótus contemplo   meu templo é amplo refúgio de samurai relógio de sóis remotos   (e os outros e você vendo mortos na tv)   meu tempo a sós não se vê não sai em fotos      

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o tao

  à tardinha o mar é zen um refresco de groselha um barquinho e mais ninguém   segue em paz meu coração meu caminho é bossa-velha   um violão bem baixinho um chão de areia um banquinho um ancinho um ancião    

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olho dágua

  água me turva a vidraça e já nada vejo   e não me protejo dessa chuva que nunca passa   quando choro não gotejo escorro esguicho   quando amo incho e me esparramo sem socorro   não sou dura na queda qualquer pedra me perfura   o chão me quebra mas de secura é que eu [...]

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o manacá

  de uma queda fui ao chão   coração aberto um rombo e essa dor que não estanca e ainda me toma   ;   o mesmo tombo que fere me oferece uma flor roxa   :   um hematoma à flor da pele branca da coxa              

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o tritão

  viria a nado nadando costas vestindo nada   dar com os costados à orla da ilha à enseada   onde eu prostrada em pedras de joelhos   as mãos em concha postas em ostras como pétalas   pesco as escamas seu corpo em postas em chamas   pisco nas pregas das pálpebras   no [...]

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o dragão

  uma indiferença tão sincera fere dilacera o coração dessa quimera   uma fera imensa cai ao chão a cada vez que você não me pensa        

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o renitente

  termino e recomeço o penúltimo ensaio da inúmera carta ; assino e endereço ao raio que o parta      

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a maresia

  a baía é um ventre pra um barco que entre onde o vento alisa   o poente é uma brasa que se esfuma na bruma imprecisa   ilha dos amores traga o sol de alhures na salgada brisa   que um doce perfume de flor e estrume molha e fertiliza      

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o poleiro

  na praça crianças escalam os galhos de árvores idosas   lenhosas mansões de copas frondosas troncos centenários   lar de gerações de abelhas canários   e velhas lembranças de outrora pirralhos      

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a roda

  não há via certa toda reta torce o rabo   nada permanece tudo desce e sobe e eu não paro   cá onde me acabo outra orbe me completa   como o par de aros dessa bicicleta      

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uma borboleta para chuang tzu

  vista de perto não estou bem certa se existo   vista desperta não sei ao certo quem sonha   visto uma fronha no meu recheio disperso   a luz me avista um olho no meio do verso      

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o relicário

  faço listas de afazeres deixo pistas enganosas o ensejo de uma prosa maus escritos de meu punho desdizeres desconexos interditos   mais protejo meus rascunhos que meu sexo            

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o plâncton

  nada procuro nágua flutuo ilha   alga que brilha na superfície do escuro fluo   supérflua maravilha flor de flúor              

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a dama

  duas damas na janela uma é enorme outra é meia ostra e metade sereia (ouça a voz dela)   uma é mar outra é areia uma só dorme outra vela uma se inflama outra gela o sangue na veia   pois eu sou essa e aquela a moça bela e a feia as faces [...]

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o telhado

  o céu é bonito mas não acaba nas linhas da aba do meu chapéu   o infinito desaba nas telhas sobre as minhas sobrancelhas      

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o náufrago

  mensagem numa garrafa: quem me dera um saca-rolha que liberte a minha folha deste vidro que me abafa   quem me dera a maresia já houvera corroído a carta do mar perdido onde inda exista a poesia   cada vista é uma janela e o filme do mar revela que o sol ilha mais [...]

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o santo

  pelos dedos teus deus se fez carícia   e se o amor não existe que seja um delírio triste   o teu medo em riste em plena delícia e martírio      

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a fome

  sofro de ausência essa ardência no âmago esse estômago oco   no meio de um soco      

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a flecha

  meu poema não tem santo nem pajé que quebre o encanto do meu canto de iracema   não tem cacique que pare minha pena > uma seta de curare em sua reta      

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ponte da saudade

  saudade é uma ponte entre a ilha e o horizonte   longe de mim   na praia a canoa sem quilha com o nome na proa   marfim          

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o epitáfio

  pensando morreu um burro cantando morreu um bardo ¨já vou tarde desse mundo”   seguro morreu de velho zurrando morreu um soldado e no silêncio, um surdo   janis morreu de overdose da língua morreu o freud e o leminski de cirrose   até buda teve um bode morrer não é nenhum absurdo cristo [...]

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o portulano

  em bom espanhol “la mar” é uma mulher e eu acho que eles têm lá sua razão   nenhum macho vai tão alto e baixo numa só onda   não há um homem que esconda tanto pesar em seu fundo   ou que abrigue um mundo tão rico e diverso e abissal por entre as dobras dos [...]

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a ametista

  entre o verso e a frente de uma ideia assaz violenta   há de haver um recheio uma massa cinzenta   um caminho do meio entre o norte e o sul da coreia   entre o azul e o vermelho um roxo batata quase lilás violeta   um golpe de paz que arrebata o [...]

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o lar

  diz a lenda que ao sul da ilha tem uma casa da cor do céu azul zinho   com nuvens esparsas   é lá que as garças cinzentas fazem ninho quando venta   e inventam asas      

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a oliveira

  do meio do monte vejo o vasto horizonte de que me afasto   subo à fonte o cálice cheio de mágoa e deleite   não há água que azeite tanta lástima   então eu rio   ;   à noite o ar frio decanta a mistura depura   uma lágrima furtiva se esquiva dos seus olhos [...]

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a miragem

  a lua cheia tinge a baía de guanabara   um mar de areia um saara   neblina esfinge o morro da urca como uma burca      

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o esplendor

  depois do raio o estouro depois da chuva a bonança depois do choro a alegria ; quando estia o sol transforma em ouro as águas de chumbo da baía    

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o celacanto

  zarpo do cais na última nau   nada de mau me abala mais o íntimo   me embala um ritmo que a noite entorna marítima   no céu incendeia um balão em forma de baleia      

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a lanterna

  sonho letras acesas e enfeito a casa   enfronho em sedas palavras em brasa   o enfadonho abecedário feito labaredas presas num aquário    

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o ato

  atitude é um passo em falso pra fora do cadafalso   é uma dança um salto alto de um pé descalço   é um risco um traço que toma de assalto o agora   é uma lança um laço que ata que solta um lenço   é um lance de dardo é um barco [...]

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o círculo

  navios ao mar sigamos em frente a terra é redonda   de tanto afastar quem sabe se a gente ainda se encontra   o tempo é o lugar onde o corpo sente e o resto é onda      

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a guanabara

  que pasárgada que nada vou-me embora para lá vou ser amiga do rei na ilha de paquetá   serei a mulher que eu quero – luz del fuego, a moreninha – vou-me embora ser rainha eu sigo o farol que brilha   teu caminho escolherá a minha cama onde fores o mar é a [...]

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a tempestade

  vendo-a tristonha à varanda disse próspero à sua filha:   a vida é um sopro que sonha não perdes por esperar   mira miranda tu és o mar cercado de ilha      

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  anjo de luz que passa   ave marinha cheia de garça          

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a diáspora

  já míngua a lua em mim agúa uma vez mais   me rasgo abro caminho corro escorro nua   o jorro o sangue das ancestrais pelos joelhos   como uma língua a atravessar eus e o diabo   do caos ao mangue pelos vermelhos em que esse mar   morto me instrua     [...]

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a cicatriz

  faço prece ao meu umbigo – já pensou se eu não estivesse falando comigo agora?   o fato é que ninguém chora ou tem saudade de si   se a falta arde lá fora o buraco mora aqui      

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a barca

  na nau dos loucos dizem que uns poucos cantam à proa versos à toa os outros comem (menos um homem que diz “não sigam”) uns tantos brigam um grupo parte hoje pra marte outro mergulha tem uma agulha de ouro no fundo (mas todo mundo viu que não tinha) tem uma rainha que nasceu muda [...]

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a torre

    alimento com óleos bentos meu farol no invisível arrecife   esquife esculpido em murmúrio e letra   pra que o casco dos olhos desatentos não espatife à luz do sol a mucosa sensível do planeta mercúrio      

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o bispo

  um verso iníquo me escarpa o mar como farpa me cega   navega imerso em líquor meu olhar oblíquo        

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a rainha

  um poeta que se preza não tem prega ; entrega       (em resposta a poema de Carlos Moreira)

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o elevador

  ora vê se não me amola com esse papo profundo de que no fundo do poço tem mola   pra subir há que ter força maior do que um edifício qualquer sapo sabe disso   o fundo do fosso é imundo e tem poça        

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o arco-íris

  a arte é vária e profusa nas 7 faces da musa   não há na verdade um cisma entre os verdes e os azuis dos 7 mil tons que um prisma reluz      

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ex libris

  ; no princípio era o bang pondo o caos sobre tudo   (abrir um livro pode ter criado o mundo)   e mais não disse . a pouca elipse   (um livro fechado é um criado -mudo)      

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