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novelo.jpg  Teve essa história da Laurita que, quando criança, era obrigada a fazer tricô. Era a hora em que a sua mãe prestava serviço voluntário na igreja e, não tendo com quem deixá-la, fez este acêrto com a Dona Ditinha, tia da sua comadre Conceição, que dava aulas de tricô para um grupo de senhoras do bairro. Ela tinha que ir, fazer o quê?, mas era uma agonia pra Laurita aquilo. Um monte de velhinha lembrando do passado, falando da vida de gente que já morreu, e ela à beira da morte por tédio fulminante. Meeeeeeeetros de fio, hooooooooooooras de papo de velhinha, e a Laurita mais querendo era namorar e falar no telefone com as amigas. E tome encomenda de gorro pro seu irmão, sapatinho pra filha da vizinha, meias pra toda a família, e pra ela era a sua mocidade se perdendo em ponto meia e ponto tricô. Quando as carreiras estavam desiguais, Dona Ditinha desmanchava e mandava fazer tudo de novo. Ela não ia discutir com a tia da comadre da sua mãe, então fazia, né? Não se preocupava em terminar logo, já que tecia mesmo para esperar. Um dia a mãe da Laurita arrumou outra solução, ou vai ver largou o voluntariado, fato é que ela se livrou do martírio das agulhas.
O tempo passou, aaaaaanos a fio. Laurita namorou muito, casou. Mas um dia deu uma coisa nela, sei lá, uma nostalgia. Passou numa loja, comprou um par de agulhas enormes, um cesto cheio de novelos bem felpudos e começou a tricotar com luxúria. Fez um xale deslumbrante, inveja de todas as amigas, até da Lulu, que vai a Paris como quem vai à esquina. Desde então não parou mais, fez cachecóis, pulôveres e até um sobretudo. Confessou-me que anseia pelo momento de chegar em casa ao fim do dia, pra sentar na poltrona e tricotar seus paninhos. Tem ido pra cama cada vez mais tarde, noite dessas já era dia quando ela adormeceu sentada, ainda segurando uma ponta do fio. Coincidência ou não, sonhou com labirinto.
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A Colecionadora

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Nascera rica, é verdade. Mas nem toda rica tem bom-gosto, ela gostava de frisar. E, dentre as de bom-gosto, pouquíssimas são as que de fato entendem de arte. Gesticulam nos leilões como loucas, querem encher as paredes de suas mansões, agradar ao decorador ou às amigas.
Ela se orgulhava de nunca ter pago um centavo mais do que uma obra valia, conhecia bem as manobras dos especuladores, os blefes do mercado. Mas também sabia reconhecer uma verdadeira preciosidade, e já empenhara somas altíssimas sem o menor remorso.

Possuía sólidos conhecimentos até mesmo sobre arte moderna, de que não gostava muito. Tinha predileção pela escola holandesa do século XVII e dizia que antes de morrer ainda teria um Vermeer. Certa vez fôra às últimas consequências por um Frans Snyders, uma esplêndida peixaria que seu marido, na época, não gostou: achou nojento e disse que não gostaria de ter que olhar para “aquilo” todo dia de manhã. Ela resolveu neste momento que não podia olhar para “aquele” homem todo dia de manhã. Arrematou o quadro e desfez-se do marido.
Depois dele colecionou amantes, de idades e naturalidades diversas, mas todos muito, muito belos, de modo que não se arrependia por um instante do negócio.

Noutra ocasião mandou soltar os cães ferozes em cima de um espertalhão que tentou vender-lhe uma cópia habilidosa como um autêntico Bega. O sujeito correu e escalou um muro altíssimo com uma agilidade ninja, caiu sabe Deus como do outro lado e nunca mais voltou, nem pra buscar a tela falsa. Ela mandou colocar o quadro no hall, com uma belíssima moldura e uma placa embaixo, numa sutil referência a Magritte: “isto não é um Bega” e sempre contava o caso, às gargalhadas, às visitas. Ainda que pouquíssimas ou nenhuma soubesse quem fôra Bega ou mesmo Magritte, todas riam muito.
Ela colecionava amigos falsos também, na saleta e nos salões. Rindo de suas piadas obscuras apenas para comer de seu caviar e beber de seu champanhe.

Por isso toda manhã, sob a luz branca do jardim de inverno de seu palacete, ela tomava seu desjejum de croissants e mel desejando secretamente estar na imundície daquele mercado de peixes, com aquele nojento do seu ex-marido.

Desen-conto

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(Farsa em Ato Único)


Disse: "Você é um achado!"

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Não deu 3 tempos...
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...deu-lhe um perdido.


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A travessa ?squerda

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Renoir-WomanRose.jpgA coisa toda pode começar assim, já pelo meio de um dia difícil. Porque não vale a pena lembrar os dias difíceis na íntegra, podemos começar do momento em que eles se revelam surpreendentes. E não são as pequenas decisões que mudam tudo, alteram para sempre o rumo dos acontecimentos?

Por que virar à esquerda na pequena travessa para tomar um café na livraria antes de ir para casa? Poderia escolher outro refúgio, ou podia simplesmente ir embora, como recomendaria o bom-senso num dia como aquele. Mas se ela tivesse bom-senso teria vindo até aqui? Teria feito o que já fizera de seu dia, de sua vida? A verdade é que ninguém é tão previsível.
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E se não tivesse alguém, movido por sabe-se lá que espécie de motivação súbita, deixado ali em cima do balcão da livraria aquele livro, aberto displicentemente naquela página em que ela leu aquele poema de que agora já não se recorda mas que naquele instante a fez chorar? Talvez não fosse preciso um poema para fazê-la chorar naquele dia, mas que o tenha sido foi o que chamou a atenção dele, que estava pagando sua compra e iria imediatamente embora, não tivesse visto aquela moça discretamente bonita em segundos tornar-se rubra e expelir lágrimas em todas as direções, ao deitar os olhos sobre um poema. Não que tivesse um lenço para oferecer mas decidiu, num ímpeto, comprar-lhe o livro, o que teria sido indiscutivelmente um ótimo início de conversa, não fosse ele tão pouco firme em suas decisões, pois que achou a atitude descabida e potencialmente perigosa e logo desistiu, uma vez que ela poderia rechaçá-lo e sua auto-estima não suportaria tanto, após o péssimo dia que tivera até ali.

E se ele não tivesse resolvido, após perder sua felicidade, dar às circunstâncias mais uma chance? Só por isso pegou um livro de arte para olhar, sentou-se e pediu mais um café. Que tenha sido Renoir foi o que chamou a atenção dela, embora para ele tenha sido um mero acaso, foi o primeiro que viu.

E se ela não acreditasse no poder do acaso? E se tivesse juízo? Se não tivesse a ousadia de puxar aquele papo sobre impressionismo, que teria sido realmente um péssimo início de conversa, não fosse o celular dele tocar, deixando os dois constrangidos, no que ela se afastou embora fosse engano, passando a examinar as estantes com fingida atenção?

Que o tenha feito permitiu que ele lesse rapidamente o texto introdutório do livro que tinha em mãos, a partir do quê pôde entender, finalmente, a pergunta dela, que agora estava folheando, muito entretida, um livro de culinária, o que, sem dúvida alguma, facilitava as coisas.

Mas ele teria dito alguma coisa se ela não tivesse parado exatamente naquela foto, sob aquela luz, contra aquele fundo, o quadro todo enfim que se formou? Se não ostentasse aquele exato meio-sorriso, a expressão absôrta, o olhar na página do livro, a mordida quase atrevidamente convidativa nos lábios como que saboreando a imaginária iguaria?
– Eu sei fazer uns Crepes Suzette mais bonitos que esses aí da foto, acredita?
– Ah, não acredito mesmo.– ela riu – De jeito nenhum.
– Vamos lá em casa que eu te mostro. – ele arriscou, embora fosse mentira.

E não é que ela foi, embora fosse loucura? A vida não pode ser surpreendente?

Este foi o dia em que ela teria sido feliz, não fosse o bom-senso tê-la dissuadido de virar à esquerda naquela travessa para tomar um café na livraria, em meio a um dia como aquele.

Sua hist?

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3W2SZ-smaller-N07842-26.jpgEsta é a sua história. Por isso o espanto, logo no início: “Como assim, a minha história?”.
Mas foi aí mesmo no espanto que ela começou.

Você não devia duvidar de que eu fosse capaz de contar a sua história. Não são sempre os outros que contam nossa história? Só um estranho pode saber como sua história termina.

Você pode pensar “Como ela vai saber?” mas é assim mesmo, ninguém acredita, num primeiro momento, que sua própria história venha a ser contada de um ponto-de-vista tão bizarro. No entanto, lhe asseguro, foi você quem escolheu isso, ao começar a ler, aqui, este relato. Mas agora você não tem mais escolha, porque eu já comecei. Você pode fechar os olhos e mudar de assunto mas sempre saberá que a sua história está aqui, lhe esperando, e sempre terá uma vontade horrível de saber como ela vai terminar. Portanto, continuemos.

Você também não sabe como ela começa, embora estivesse lá, mas é como se não estivesse, não é mesmo? Então vou lhe refrescar a memória: era bom antes, muito melhor que depois, quando começou a doer. Mas você quis, você desejou expressamente o soco no peito, esse tambor infernal que nunca mais abandonou seu corpo. Não me culpe por lhe recordar este incômodo fato, agora você pulsa e é refém dessa percussão mas foi você mesmo quem começou tudo isso.
E aí você quis mais, você desejou a luz. Só não previu que junto da luz viria o corte e, com ele, o susto. E o horror de perceber que, a partir de então, era preciso se assustar constantemente, enchendo e esvaziando o fole para manter o pulso, esse tirano.

Depois do susto veio a fome. A insuportável dor da falta, e com ela a raiva. Não tente negar a raiva, eu estava lá e atesto, pela expressão desesperada do seu choro, que você odiou a vida então, apenas porque ela não era plena. Você odiou sua mãe, porque não alimentava mais seu umbigo e fez você descobrir que tinha boca, esse grande buraco. E você escancarou o seu buraco sem o menor pudor naquele dia, que eu vi.

Agora que você sabe que eu conheço suas vergonhas mais antigas, talvez já acredite em mim. Ou talvez ainda espere que eu lhe dê mais provas, e eu poderia desfiar aqui cada um dos seus dias mas, no fundo, o que você quer mesmo saber é aquele, nem tão distante, que vai dar sentido a essa história toda.
Você quer saber as circunstâncias mas isso talvez não lhe diga, nem a hora exata, porque você não pode evitar o fato. Mas chegando lá, vai ver que estarei a seu lado, anotando minuciosamente, para a posteridade, com quanto despudor você há de abrir a boca. E aí você vai acreditar, finalmente, em minhas palavras, que atravessaram o tempo e já viram tudo isso. Por isso o espanto quando chegar a hora.

Porque é mesmo no espanto que há de terminar sua história: com a boca aberta num grande buraco, eu a seu lado, vendo tudo, e um simples ponto final.

(depois do quê tudo muda completamente de figura, mas aí já é outra história)

Microcontos

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a casa das mil portas.gif

Tem microcontos meus na nova fornada do interessante projeto A Casa das Mil Portas, do Nemo Nox.
Dentre os autores tem muita gente boa que eu já conhecia, como Idelber Avelar (nos brindando com um raro momento assumidamente literário) e Alexandre Inagaki, um dos primeiros a aderir à brincadeira. Também descobri novas preciosidades, como o blog da Crib Tanaka (vocês têm que ir lá ver como ela escreve MUI lindamente!), entre inúmeros outros que vale a pena visitar.

A idéia aqui é contar uma história em cerca de 50 caracteres, ou menos, a exemplo da célebre "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.", do guatemalteco Augusto Monterroso.
Como a ordem em que os contos se apresentam é aleatória, e são até agora 111 autores, vocês podem ficar um tempão explorando a "casa" e nem chegar a ver alguma de minhas cinco pequenas infâmias. Ei-las portanto aqui agrupadas, para vosso conforto:

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Tinha medo de morrer dormindo. Morreu em pé, de medo.

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Entrou escondido, pé ante pé, para que não se encontrasse.

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Tinha muita gente dentro daqueles olhos. Foi fumar lá fora.

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Atravessando a rua, pensava: a vida é. No que pensou, já era.

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Sempre foi um otimista. Ao suicidar-se, morreu de rir.

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Castelos

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Sand castle.jpg Naquele verão, tinha uma menininha que gostava de fazer castelos de areia. Todo dia, quando a maré vazava, lá ia ela com seu baldinho. Passava a manhã inteira esculpindo, alisando, caprichando em cada detalhe, até achar que estava tudo perfeito. Aí ela sentava e ficava esperando a maré encher . Morria de rir ao ver as ondas destruírem, uma após outra, as formas que ela tinha criado com tanto esforço.
Um menininho, que detestava perder seus brinquedos, começou a reparar nela. Observou aquilo uma semana inteira, encafifado. Um dia ele tomou coragem e sentou ao lado da menininha. Quando uma onda derrubou a primeira torre, ele não se conteve:

– Por que você não faz seu castelo mais pra lá, longe do mar?
– Pra que? Eu gosto é de ver ele desmanchar.
– Que maluquice, não entendo. Depois de tanto trabalho, você fica sem nada.
– Engano seu! Eu tenho mais castelos do que a princesa mais rica do mundo.
– Ah é, e onde eles estão?
– Aqui na praia, ué.
– Eu não estou vendo nenhum. O único que tinha, o mar acaba de levar.
– É, olhando assim é realmente uma pena mas… sabe que eu não ligo? É só querer e pronto, eu vejo uma porção deles. Olha só, nessa areia aí tem todos os que eu já fiz até hoje. Você mesmo está sentado em cima de um dos meus preferidos. Se eu começar a pensar, lembro de cada detalhe, cada janelinha, cada ponte... Também tem muitos outros que estou planejando fazer, cada um mais lindo, precisa ver. E ainda tem mais uns que nem vai dar tempo mas que eu faria, se quisesse. Acho que se eles estivessem todos aqui, de pé, um do lado do outro, não caberiam nessa praia... e o pior é que ia faltar espaço na areia pra quem viesse brincar depois.
– Mas se você tivesse unzinho só, de verdade, seria melhor do que todos esses juntos. Você poderia entrar e morar dentro dele pro resto da vida.

A menininha pensou um pouco.

– Pode ser …mas eu gosto mesmo é de ficar aqui do lado de fora, na praia, fazendo um castelo diferente todo dia.

Uma onda mais forte chegou de surpresa e derrubou o brinquedo que o menininho tinha na mão. Ele procurou, procurou, procurou e não encontrou mais. Então ele ficou muito triste mas nem chorou, porque era um menino. Pediu à mãe pra ir embora e passou o resto do dia chateado, no seu quarto lotado de brinquedos, porque tinha perdido um carrinho novo, muito caro e importante.

A menininha fez mais 20 castelos até o fim do verão, depois foi brincar de outra coisa.

A história de Cecille

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ballet.jpgQuando Isadora Duncan apareceu em Paris, Cecille tinha acabado de chegar ao topo. O ponto mais alto de sua carreira - um caminho de suor e dor que teve início quando a preparadora Ivanovna (que foi a segunda mais temível de toda a história do corpo de baile da Ópera de Paris) reparou que a filha da humilde camareira Josephine tinha os pés perfeitos. Olhou bem fundo nos olhos da criança – aquela magricela que ainda há pouco dormia enroscada nas cortinas adamascadas da coxia – e proferiu seu parecer mais como ameaça que bom augúrio:
– Deus concedeu-lhe a Graça dos pés perfeitos para o ballet. Este é um dom raro, que pode levá-la à frente deste grande palco. Mas não se iluda: talento não é tudo. Para chegar a ser uma estrela você tem que ser a melhor dentre as melhores e para tanto você deve estar disposta a sofrer todos os dias de sua vida em nome da Arte.
Aquilo pareceu à pequena uma espécie de chamamento divino, uma revelação. Ela, que até então fôra apenas um estorvo para sua mãe, percebia que tinha um dom, que havia sido ungida com uma qualidade especial. Agora ela tinha uma vocação, um talento e, finalmente, um futuro.
Tinha cinco anos nessa época. Ivanovna começou imediatamente a treiná-la com a rigidez que lhe era característica. Era estúpida e humilhava as alunas que freqüentemente choravam, protestavam e, não raro, desistiam. Mas Cecille suportava tudo com resignação. Se o sofrimento era o caminho da Arte, chegaria ao mais alto nível que seu corpo e sua alma pudessem suportar.
Em poucos anos já era uma das melhores de sua geração, segundo a própria preparadora que, a despeito de sua secura, quase gostava da filha da camareira que possuía essa determinação incomum (além dos pés perfeitos). Tinha lesões frequentes nos músculos e feridas nos pés, por excesso de treinamento, mas nunca interrompia os exercícios, sublimando as dores intensas com a perseverança – esse vício dos fortes, dos raros, os que jamais desistem de um objetivo. Deus está vendo, pensava ela, e abria, puxava, subia, saltava e girava, girava, girava.
Costumava treinar na primeira fila, porque sempre executava corretamente os exercícios, mesmo as seqüências mais longas e complexas – memorizava de primeira. Esta qualidade foi percebida e admirada por todos quantos vieram algum dia a treinar com ela. Sua concentração imperturbável, a disciplina férrea e a obsessão pelo movimento perfeito ainda potencializavam essa natural aptidão, de modo que jamais errava, mesmo nos ensaios.
Seu corpo todo desenvolveu-se em consonância com os pés. Cada uma de suas medidas proporcionava-se com as outras de modo ideal, como se projetadas por precisa engenharia divina especialmente para o ballet. Seu tronco era esguio, os seios pequenos, os braços longos e suaves, o pescoço elegante encimado pelo rosto encantador, o belo sorriso, os olhos enormes e amendoados, os lindos e compridíssimos cabelos cor de mel impecavelmente trançados e presos num grande coque na altura da nuca. Sem falar nas pernas admiravelmente torneadas, arrematadas pelos pés perfeitos.
Sua técnica era sólida, precisa, virtuosa. Sua abertura era impressionante; seus saltos, que não faziam o menor barulho no assoalho, eram apontados por Ivanovna como exemplo de leveza para todas as novatas. Seu arabesque inscrevia no ar uma curva perfeita, seus braços mantinham a angulação e o alongamento mesmo nos momentos mais difíceis. E tudo isso sem jamais perder a postura ou deixar de sorrir.
Ela tinha tudo para ser a melhor. Estava em franca ascensão nas linhas do corpo de baile e, na ocasião em que a excelente Marie-Therèse, já beirando os 30, abandonou a carreira para ter um filho, Cecille, então na exuberância de seus 18, teria assumido naturalmente seu lugar. Não fosse o azar de ter chegado naquele mesmo ano à companhia a menina-prodígio russa Olga Olenska, dois anos mais jovem e treinada sob os rigorosos métodos do Teatro Bolshoi. Ela também tinha os pés perfeitos. Corria o boato – e não sei se é verdade – que seus pais, ambos bailarinos, exercitaram suas pernas desde o berço e que seus primeiros sapatinhos foram sapatilhas de ponta, para que os ossos consolidassem na fôrma adequada.
Olga roubou para si a cena e o ambicionado posto de primeiríssima-bailarina na temporada seguinte de Giselle. Cecille dividiria com ela o papel mas faria as récitas menos importantes: o segundo dia, a matinée de domingo, as quartas e quintas-feiras. Não seria comentada pelos críticos nem vista pelas personalidades importantes, os formadores de opinião. E de fato ela dançou perfeitamente bem seu papel, recebeu os elogios habituais dos colegas mas passou despercebida para o público e a imprensa.
Paris não falava de outra coisa, todos queriam ver os saltos sensacionais de la Olenska. A própria treinedora Ivanovna, já perto de se aposentar, parecia ter perdido a fibra e rendera-se aos encantos de sua jovem conterrânea. Se não chegava a fazer elogios durante os ensaios, a observava com um ar embevecido e jamais gritava ou fazia suas ríspidas correções. Cecille ficou profundamente enciumada mas não era de se abater com as dificuldades, então meteu na cabeça que superaria Olga em todos os pontos e provaria a Ivanovna e ao mundo o valor da formação francesa e dos pés congenitamente perfeitos. Prometeu a si mesma que no ano seguinte dançaria o papel principal na récita da estréia e sua pobre mãe teria o orgulho de guardar para a posteridade um exemplar dos jornais que trariam em letras garrafais: Paris cai aos pés de Cecille Druot.
Naquele ano ela treinou mais que nunca, aumentou de 8 para 10 horas sua rotina diária de exercícios. Estendeu em alguns centímetros sua já excepcional abertura, perdeu mais 3 quilos para que seu partner a suspendesse como uma pluma no pas-de-deux. Cecille agora era mais-que-perfeita.
Olga por sua vez, como tantos prodígios meteóricos, parecia consumir-se em sua própria chama. Já durante a temporada, envolveu-se com Jean-Pierre, o jovem terceiro-violino da orquestra que desde os ensaios suspirava por ela, embora fosse casado e pai de um bebê de poucos meses. O tórrido romance, sem esperanças de consolidar-se numa tranqüila relação marital, assumiu a urgência das paixões proibidas, devorando as noites e a saúde da moça. Num dia em que ela estava particularmente abatida, teve uma queda espetacular ao aterrissar de um grand jeté, no solo do segundo ato.
– É preciso bem mais que talento para ser primeiríssima-bailarina do palco mais importante do mundo - pensou Cecille, que assistia a todas as récitas da rival. Mal conseguia disfarçar a satisfação. Sabia que era chegada sua hora.
De fato, no ano seguinte, foi sua a Grand-Premiére: O Lago dos Cisnes, interpretando a protagonista Odette/Odile - seu papel predileto, pelo desafio técnico que representava. Ela teria a oportunidade de exibir seu virtuosismo ao realizar com a habitual perfeição a dificílima seqüência de 32 fouettés que, anos antes, alçara à fama a italiana Pierina Legnani. Cecille estava no auge da forma, estava pronta para seu grandioso destino.
Rezou muito, com intenso fervor, para expressar sua gratidão, e até encomendou uma missa. Sua mãe, que não cabia em si, pagou uma novena e prendeu, no avesso do figurino, uma medalhinha do Divino Espírito Santo, para proteger a filha da inveja das outras moças.
A estréia foi impecável. Cecille esbanjou perfeição em cada fundamento: equilíbrio absoluto, sicronia precisa, extensão e leveza nos saltos, elegância no port-de-bras, maestria nos mínimos detalhes. O mais rigoroso crítico não seria capaz de apontar-lhe uma falha sequer. Sébastien, seu partner, cometeu um pequeno deslize ao fazer-lhe a base de um rond-de-jamb , motivo pelo qual ela quase tirou-lhe o couro na coxia durante o intervalo, mas ela conseguiu contornar o imprevisto com tal destreza que nem Ivanovna percebeu.
No final, os aplausos duraram 12 minutos e meio, quase um minuto a mais que os da estréia de Olenska! É a consagração, pensou a filha da camareira em sua noite de glória. Mal conseguiu dormir. No dia seguinte, esperou ansiosa pela edição vespertina dos jornais.
Chegou enfim o pacote, com as letras garrafais:
Paris cai aos pés de Isadora.

Isadora Duncan, a americana? Não pode ser…dizem que ela dança descalça, com os pés grotescamente flexionados e é incapaz de um attitude … O que ela tem afinal, que arte é essa que qualquer criança pode imitar? Em que mundo nós estamos, para onde terão ido os séculos de desenvolvimento do ballet? Para a lixeira de um modismo!… Os críticos podiam se render às inegáveis qualidades de Olga Olenska, isso era algo com que ela podia lidar até como um estímulo, mas tecer loas a uma novidadeira era revoltante e profundamente injusto.
No entanto, Paris não falava em outra coisa. A revolucionária Isadora arrebatara os corações de público e críticos. Apresentava-se em salões e outros espaços não-convencionais e sua dança livre arrancava aplausos por mais de trinta minutos.
E nem uma linha na primeira página sobre a gloriosa estréia de Cecille.
Lá dentro do jornal, espremida num canto da página que estampava fotos de Isadora, a crítica à estréia do Lago dos Cisnes.
“… a técnica irretocável de Cecille Druot, se impressiona, não emociona. Cumpre sua função com a frieza sorridente dos que acreditam que a perfeição formal possa substituir a graça espontânea de um corpo feliz. Dos que não têm a grandeza da expressão autêntica e nem a ousadia de arriscar-se ao erro em público. Uma interpretação artificial, desprovida de carisma, daquelas que a história tratará de encobrir sob o manto inexorável do esquecimento.”
Injustiça ou não, o fato é que o público, bem como a duração e a intensidade dos aplausos, foram decaindo a cada apresentação, sepultando, noite após noite, os sonhos de grandeza de Cecille. O último espetáculo da temporada ela dançou chorando, embora mantivesse, como sempre, o sorriso estampado.
Na montagem seguinte, Olenska, já curada de seu malfadado romance, recuperou seu posto de estrela da companhia, no qual permaneceu por mais 10 anos.
Cecille – para quem dançar nunca fôra um prazer e que só se importava em ser a melhor dentre as melhores – teve que se conformar com sua posição um degrau abaixo, lugar que, em si, seria uma honra para qualquer bailarina mas, para ela, era sinônimo de fracasso. Externamente mantinha a disciplina e a postura de sempre mas seu coração, já pouco caloroso, congelou por completo. Com o passar dos anos e a ascensão das novas gerações, caiu para os segundos-papéis. Quando se aposentou dos palcos, aos 33 anos, tornou-se preparadora, substituindo a gentil mme. Geneviève, sucessora de Ivanovna que, para o gosto de Cecille, era muito frouxa com as novatas, comprometendo seriamente o nível técnico do corpo de baile.
Ao assumir a nova função, Cecille resgatou os métodos da russa: sua exigência sobre-humana, sua rispidez, seu proverbial mau-humor. A preparadora Druot – como ficou para sempre conhecida – foi a única a superar a mestra no índice de rejeição dos alunos. Marcou profundamente toda uma geração que, a despeito da excelência técnica, teve os mais altos números de abandono da profissão. Quando alguém ria ou conversava durante os treinos, era implacável. Uma vez expulsou uma talentosa e falante bailarina:
– Quer brincar de fazer ballet? Pois vá dançar descalça no olho da rua!
E acabou com a carreira da moça, sem pestanejar e sem perder um minuto de sono, nem mesmo quando todo o grupo veio pedir-lhe que ponderasse melhor e reintegrasse a garota, que estava inconsolável e prometera emendar-se. Mas ela não era pessoa de voltar atrás em uma decisão.
Não casou nem teve filhos. Cuidou da mãe, que ficou cega e inválida mas viveu para enterrá-la. Morreu aos 55 anos, dormindo.
No dia seguinte foi cancelado o treino da parte da tarde na Ópera de Paris, para que os integrantes do corpo de baile pudessem comparecer ao enterro da preparadora Druot, cujos pés, no caixão, deformados pela artrite, eram uma caricatura grosseira da perfeição de outrora. Mas o rigor cadavérico não a traiu e os entregou à posteridade perfeitamente esticados numa ponta eterna. Isso pouca gente viu, porque a maior parte dos bailarinos preferiu dar destino menos funesto à rara tarde de folga.
Esta foi a história esquecida de Cecille, a bailarina perfeita, a quem Deus não concedeu a Graça dos pés felizes de Isadora.

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O sonho de Lenora

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tritao.jpgA primeira vez que vi Lenora, ela era um homem. Um senhor que poderia ser seu pai ou até seu avô. Mas parecia ter havido um terrível engano ali, era o que ele me contava como um segredo que precisa desesperadamente ser revelado, ser gritado em praça pública e no entanto, por uma dessas escolhas da vida, havia sido sepultado sob a aparência sólida e absolutamente normal de um chefe de família aposentado.
Antenor procurou-me no consultório e, já na primeira sessão ao divã, contou sua triste história, que não vou reproduzir na íntegra. O que importa é que sua mãe não se conformava em ter um filho homem, dizia que o teria abortado se soubesse e, aproveitando-se das longas ausências do marido militar, criou-o como uma menininha, chamando-o carinhosamente de Lenora. Acrescente-se a isso uma infância vivida entre mulheres, em meio a imagens e notícias da Segunda Guerra – o espetáculo de horror e violência que parecia ser o destino dos homens em contraste com o fútil e harmonioso universo feminino, tão mais acolhedor.
Há mais coisa, sempre há muito mais coisa a dizer sobre alguém mas, com o que temos, posso continuar.
Ela só teve consciência de que era homem quando uma amiga mais velha referiu-se a ele como “bicha”. Foi pesquisar o que era mas não se viu nessa espécie de caricatura do feminino, cheia de maneirismos e exageros que não correspondiam à sua natureza doce e contida. Ela era uma moça suave como poucas mas, no fundo, sabia que era diferente. A natureza não lhe dera um corpo correspondente à idéia que fazia de si mesma.
Então compreendeu que, sendo quem era, só podia ser duas coisas: homem ou bicha. Escolheu ser homem até porque seu pai estava se reformando e vinha finalmente morar com a família. Junto com o pai vieram os hormônios da puberdade e a barba, os músculos, a voz grossa, as garotas. Sim, porque ele ficou um rapaz muito bonito e as mulheres adoram homens femininos.
Agora ele era Antenor e estava prestes a entrar para o exército. Hesitou. Chegou a formular pensamentos de fuga – tentar vida nova como mulher, bem longe dali, onde a vergonha do pai e o desprezo da mãe não pudessem atingi-lo.
Um dia bem cedo foi nadar no mar. Suas costas largas o levaram para além da arrebentação. Lá parou e ficou chorando, olhando o horizonte. As traineiras indo e vindo, um navio lá no fundo, tudo lembrava distância, afastamento; ele só queria ir embora.
Não foi. Voltou, tomou um banho frio e alistou-se nesta mesma manhã.
O exército foi uma pá de cal em sua sensibilidade feminina. Ele aprendeu a ser durão. Criou calo na alma, uma crosta dura e impenetrável que escondeu para sempre suas lágrimas.
Daí em diante foi homem: casou, trabalhou, teve filhos, ganhou um dinheiro razoável e foi muito, muito infeliz. Seu pai e sua mãe não o amaram mais nem menos por isso – pai e mãe não amam o quanto a gente merece mas sim o quanto podem.
Ele se perguntava se tinha valido a pena o sacrifício, achava que não. Estava deprimido, sentia-se velho e cansado. Tinha palpitações intermitentes, uma falta de ar crônica e sua claustrofobia estava piorando com a idade. Tinha pavor de morrer porque ainda não tinha sido verdadeiramente feliz. Pedia-me ajuda e eu não tinha uma cura para seu sofrimento. Não podia dar-lhe um corpo mais adequado, nem o amor de sua mãe, nem sua vida de volta.
Nesta noite eu tive um estranho sonho, do qual não participava senão como espectadora.
Vi Antenor no mar além da arrebentação, de manhã bem cedo, chorando e olhando o horizonte; vi os barcos de pesca que iam e vinham. Vi o que ele via.
Eis que surge um tritão. Belíssimo, pele e cauda dourados, os olhos também. Reluzia todas as cores do sol que se acabava de nascer. Nadava em torno dele como alegre delfim e o convidava a ir mais longe, bem longe mesmo dali. Ele foi.
Ao chegar a uma praia remota, Antenor era mulher. Lenora levantou das águas, exuberante, torceu a longa cabeleira ruiva e foi secar ao sol a escultura que tinha agora por carne. Assim ficou estirada, nua sobre a areia branca, até que adormeceu. Alguns pescadores que estavam por perto vieram olhá-la, em pouco tempo havia uma multidão de homens à sua volta, desejando-a, sem ousar tocá-la, temendo que despertasse.
Ao acordar, Lenora correu para o mar e procurou pelo tritão mas só pôde ver seu corpo dourado sumir lá longe, entre as ondas. Chamou por ele, implorou que voltasse mas só recebeu de volta um murmúrio longínquo, embora claro como água límpida:
- Não me espere, Lenora, viva sua vida. Um dia eu volto.
Vendo-se sozinha, ela percebeu que tinha um mundo a desbravar. Deu-se conta de que estava nua, vulnerável, exposta. Os pescadores, que antes a olhavam à distância, agora vinham ter com ela, faziam gracejos e queriam tocá-la. Estava assustada, eles eram muitos, a cercavam por todos os lados, os corpos suados e curtidos de maresia, peles salgadas, chegavam a machucá-la em sua sofreguidão, deixaram-na tonta com seus bafos a álcool e apertavam o cêrco, sufocando-a até ela desmaiar. Esse foi o início da movimentada e intensa vida sexual de Lenora, que foi a partir de então seu ganha-pão e muitas vezes seu prazer. Teve centenas, talvez milhares de homens. Gordos, magros, carecas, militares, traficantes, teve até embaixadores. Alguns eram mesmo lindos, uns poucos foram gentis, três ou quatro quiseram casar, mas Lenora sabia que estavam só de passagem. Todo dia, ao amanhecer, ia para a praia e ficava olhando o mar, à espera de seu tritão de ouro.
Assim passou-se uma vida e Lenora, como toda mulher, começou a murchar. Foi perdendo lentamente o viço da pele, a firmeza das carnes, o brilho dos cabelos. A clientela foi minguando e ela ajeitou-se, com suas economias, numa casinha de frente para o mar.
De manhã ia para a praia e ficava tricotando sapatinhos para seus muitos afilhados, enquanto lembrava, entre sorrisos, os amigos e amigas que fizera, as farras, as noites de diversão, música e sexo. Gargalhadas e champanhe em festas faraônicas. Ressacas em quartinho imundo de motel barato. Não se arrependia de nada. Mas lá no fundinho de sua alma ainda esperava o tritão e, com o rabo do olho, espiava o mar.
Eis que uma bela manhã sai do mar um homem. Um senhor de sua idade, com olhos dourados e doces como mel. Caminha em sua direção. Ela vê em seu olhar que é ele, não há a menor dúvida. Abraçam-se, beijam-se, trocam palavras carinhosas, juras de amor eterno. Choram juntos um mar de tristezas que já não sentem mais. Só a alegria do encontro, ainda que tardio.
Ela diz que ele lhe dá segurança e a faz amada como ninguém. Ele diz que ela é luz em sua vida, oxigênio para o seu espírito e o faz sentir-se um novo homem.
No meu sonho, Lenora e Antenor foram felizes para sempre. O par alquímico perfeito, Hermes e Afrodite enfim reunidos. E que nem a morte, essa tirana, os separe nunca mais.

A Luminosa Senda do Vazio Perfeito

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money1_sm.jpgNos tempos do Imperador Amarelo, numa aldeia às margens do Rio Lo, nasceu a pequena Ch’ien-Li, prematura e muito amarela, mesmo se comparada à sua gente e ao próprio Imperador.
Temendo pela vida de seu bebê, a boa Sun- K’an implorou ao marido que fosse consultar o santo-sábio K’en-Tsé, que vivia isolado na Montanha do Oeste e dominava o Oráculo das Mutações.
O Sr. Ch’en teve que empreender, em pleno inverno, a árdua peregrinação até a morada do eremita. Lá chegando, foi recebido sem surpresa por um ancião que sorria muito com poucos dentes e nada dizia.
Após ouvir o relato do homem, o sábio levantou-se e buscou lá dentro da cabana um grande casco de tartaruga, que lançou ao fogo. Acompanhou com estreitos olhos e grandes orelhas atentas cada menor estalo, cada rachadura que se abria, cada transformação provocada pelo calor. Assim ficou toda a noite, em desperta contemplação, até a fogueira se apagar, quando os primeiros raios púrpura já despontavam no oriente.
velho sabio.jpgK’en-Tsé então examinou a carapaça carbonizada para decifrar sua escrita.
Aos primeiros sinais, levantou a sobrancelha esquerda, deixando o Sr. Ch’en em grande agonia. Parecendo não crer no que lia, foi buscar suas varetas de caule de milefólio. Após longuíssimo ritual – suplício eterno para um pai ansioso – o sábio ergueu por fim a sobrancelha direita.
E foi assim, com todas as muitas pregas de sua venerável fisionomia puxadas para cima pela admiração, que ele vaticinou:
- Não morre tão cedo mas seu destino é muito incomum. Trará desgosto e humilhação para a família. Depois, virá um grande sábio do Leste para remediar o mal que ela há de provocar.
E mais não disse. O Sr. Ch’en ficou desolado. Desgosto e humilhação para a família? Ele não merecia isso, cumpria todos os ritos e oferecia, apesar de suas poucas posses, generosos sacrifícios aos deuses e aos antepassados. Mesmo sabendo que viria o tal sábio ao final, isso não parecia muito animador, uma vez que o estrago já estaria feito.
O pobre homem virou-se, cabisbaixo, e tomou o caminho para descer a montanha. O Mestre chamou-o ainda e entregou-lhe um pequeno disco de jade polido, vazado ao centro, preso num fio de lã vermelha. Disse que amarrasse ao pescoço da menina, para firmar seu destino.
A descida, pela aflição que o acometia, pareceu ao Sr. Ch’en ainda mais penosa que a subida. Ele estava intrigado: afinal de contas, o que é que aquela garotinha poderia fazer de tão grave?
Ah, pensou ele, corando, deve ser daquelas que têm a ...porta-de-jade...em chamas! Então era esse o significado do amuleto, uma proteção contra a luxúria. Ele tivera uma prima-bisavó assim; e as mulheres de sua família levaram 3 gerações pra se livrar da má-fama e voltar a conseguir bons casamentos. Algumas pessoas antigas ainda lembravam das histórias de K’un-Tui, a bela, a louca, a destruidora de lares, que surpreendia os homens nas plantações e os deitava ali mesmo, para que satisfizessem seus exuberantes e insaciáveis desejos. Os homens já não conseguiam mais trabalhar, à espera de suas visitas intermitentes. Houve fome e escassez naqueles anos e um alto consumo de vinho de arroz. As leis diluíram-se, os clãs foram ameaçados pelo desregramento da volúpia. Até que as senhoras perderam a linha e a tocaiaram numa noite de lua cheia. É o que dizem. Seu corpo de deusa nunca foi encontrado.
Tais eram os terrores que assombravam o Sr. Ch’en quando chegou em casa e deu com a pequena lombriga amarela, enrolada em pobres panos. Mesmo custando a crer que tão triste figura pudesse um dia vir a provocar tal celeuma, não ousou duvidar das palavras do Mestre K’en e pôs-lhe o talismã no pescoço.
Depois de relatar à esposa o que ouvira na montanha, o Sr. Ch’en retirou-se a um canto, pensativo, deixando-a a chorar copiosamente, debruçada sobre a garotinha que, em seu colo, dormia.
Pela manhã o Sr. Ch’en comunicou sua decisão:
- Não amarraremos seus pés!
Sun-K’an esboçou uma reação mas, pensando bem, assentiu. Acreditava-se que o estiramento muscular provocado pela deformação dos pés tornasse a mulher mais satisfatória do ponto de vista sexual. Pés bem pequenos e torcidos indicavam feminilidade e eram atraentes aos olhos masculinos. Não amarrar os pés de uma moça era quase uma condenação ao insucesso na corrida matrimonial mas, diante da perspectiva da desonra, esta parecia uma boa alternativa, uma indução ao recato.
Assim cresceu Ch’ien-Li, com seus enormes e estranhíssimos pés normais.
Talvez por força do amuleto, ou pela excessiva soltura dos pés, ou talvez pelas dificuldades do parto prematuro – foi o que pensou sua mãe, ao tentar encontrar uma explicação – Ch’ien-Li aderiu sem dificuldades a uma vida casta mas revelou-se um tanto incapaz. Simplesmente não aprendia as coisas como as outras crianças. Até os cinco anos foi de uma mudez constrangedora, não ensaiava nem o tatibitate.
Quando rompeu o silêncio, saiu-se logo com esta:
- Por quê o céu?
Passado o espanto, todos caíram na gargalhada. Nunca tinham ouvido nada tão estúpido e sem sentido. Esta foi apenas a primeira de longa série de tolices; ela não parou mais de fazer perguntas idiotas, uma atrás da outra. Queria saber do cego “é bonito aí dentro?” e do velho “quanto tempo falta pra você ficar novo outra vez?”. Sua mãe não sabia onde enfiar a cara.
chien-li jovem.jpgAs risadas foram dando lugar à censura, quando ela já não tinha idade de ser tão parva. Na adolescência, tornou-se retraída. Quando começou a fazer perguntas embaraçosas sobre o próprio corpo, sua mãe mandou pensar mais e falar menos. Ela procurou seguir o conselho materno mas, às vezes, deixava escapar alguma. Uma vez, durante os importantes preparativos para a festa de ano novo, ao adornar o altar dos Sábios Veneráveis, perguntou em alto e bom som:
- Por que as mulheres sábias não estão no altar?
Sua mãe apressou-se em repreendê-la pela blasfêmia, onde já se viu colocar mulheres junto aos Veneráveis? Mas o mal estava feito. À hora da festa, toda a aldeia já sabia da ignorância de Ch’ien-Li, que desconhecia as diferenças entre homem e mulher. Tal confusão revelou-se novamente em sua infeliz resposta a um improvável pedido de casamento.
Lá pelos 14 anos, contrariando as expectativas, Ch’ien-Li atraiu a atenção de um bom rapaz, que quis casar-se com ela a despeito de seus modos estranhos e seus pés compridos. Seguindo os costumes, dirigiu-se primeiro aos pais dela – que estavam a um passo de esquecer a agourenta profecia. Tendo obtido permissão, foi perguntar à jovem se aceitava desposá-lo.
Ao que ela, na falta de uma certeza, respondeu com a pergunta:
- Se você fosse eu, e um rapaz assim como você lhe pedisse em casamento, o que diria?
O rapaz não entendeu muito bem mas, na dúvida, ficou ofendido. Como é que ele, sendo homem, poderia ser cortejado por outro homem, ainda que fosse ele mesmo? Calou um silêncio magoado e foi-se embora sem oficializar o contrato. Ch’ien-Li suspirou, talvez aliviada.
E assim perdeu sua única oportunidade de viver uma vida normal.
Tendo ficado solteira e sendo, portanto, um fardo, procurava ajudar em casa e dar pouca despesa mas percebia a decepção que causava a seus pais o fato dela ser assim como era.
Um dia perguntou ao pai:
- Por que não me amarraram os pés?
O pai, que já andava exasperado e voltara a pensar no oráculo, desabafou:
jovem.gif- Para que você não arruinasse a família. Mas em vez de luxúria, acometeu-lhe a estupidez crônica, o que vai nos levar para o mesmo buraco. Não adianta lutar contra o destino!
Ch’ien-Li viu o pai chorar pela primeira vez.
Depois desse dia, não foi mais vista; simplesmente desapareceu. Sua mãe adoeceu, seu pai arrependeu-se amargamente de suas palavras mas, com o tempo, conformaram-se e a verdade é que a vida correu mais tranqüila desde então. Somente muitos anos mais tarde, já perto de morrer, Sun- K’an voltou a mencionar o nome da filha:
- Jamais poderei perdoar o que você disse a Ch’ien-Li.
O Sr. Ch’en defendeu-se como soube:
- Você é que não conseguiu fazer dela uma menina como as outras. As mulheres de sua família, aliás, sempre foram meio esquisitas, minha mãe bem que avisou.
- Olha quem fala, bisneto da tarada-do-arrozal...
- Bisneto, não; ela era prima da minha bisavó!
...e assim acabou a paz de superfície que reinara ali toda uma vida.
Mais ou menos por essa época, espalhou-se a notícia de que um grande sábio – um Venerável Mestre da Luminosa Senda do Vazio Perfeito – se aproximava da aldeia pela estrada do Leste. Sun-K’an foi com grande alegria contar a boa nova ao marido e até esqueceu que andavam de mal. O Sr. Ch’en imediatamente recordou-se das palavras do eremita e compreendeu que a ajuda prometida estava a caminho, para consertar os estragos causados por sua filha.
O ilustre peregrino afinal chegou e o Sr. e a Sra. Ch’en foram ter com ele, que já estava cercado por uma penca de aldeões. Mas o tal velho, ao que parece, era mudo ou não gostava de falar. Após escutar uma pessoa, rabiscava alguns ideogramas num papel e os entregava em silêncio. Mal se lhe via o rosto, sombreado por grande capuz de onde projetavam-se a barbicha e os bigodes em três tufos brancos, longos e bem aparados nas pontas. Sua figura pequena era quase cômica, andava descalço e em andrajos. Contudo suas enigmáticas mensagens, geralmente interrogativas, embora estranhas à primeira vista, levavam as pessoas a reflexões transformadoras.
Os dois velhos mal agüentaram esperar muitas horas por sua vez. Quase pela manhã, já exaustos, puderam enfim contar ao sábio, entre lágrimas, seu drama com a filha desaparecida. Receberam estas palavras numa folha de grosseiro papel de arroz:
- Como podem lamentar a sorte de quem vive na abundância de sua esplêndida morada?
Os velhos abraçaram-se, exultantes. Aquilo parecia querer dizer que sua filha encontrara um bom lar, um marido, uma família enfim! Teria filhos crescidos, quiçá netos, na aldeia vizinha. E pelo visto, se o velho não exagerava, era muito rica.
No dia seguinte o Sr. Ch’en quis ver o sábio novamente, para saber se interpretara corretamente suas nobres palavras, mas este havia partido antes mesmo do amanhecer. Na pressa tinha esquecido sua bagagem, uma modesta trouxa com poucos pertences. Os aldeões resolveram – após rápida e unânime votação – abrir a sacola, onde encontraram apenas uma caixinha contendo cola de arroz e longos chumaços brancos e muito bem aparados de pelo de cabra, embrulhados em papel grosseiro onde se lia, numa fileira de intrincados rabiscos:
- Qual a diferença entre um idiota e um sábio?
Foi uma criança que encontrou, no fundinho da bolsa, o amuleto de jade, amarrado no que restava de um fiapo de lã vermelha.
Ch’ien-Li não voltou a ver seus pais mas, ainda assim, eles puderam morrer felizes. Sua imagem sem rosto sob um capuz, adornada pelo disco vazado – símbolo do oco fecundo, da plenitude do vazio, da mulher, da concubina, dos loucos e dos santos – foi entronizada com grande pompa no altar dos Sábios Veneráveis. Sua família passou a gozar de excelente estima social na aldeia por muitas e muitas gerações.
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