.Contos (Christiana): August 2005 Archives
A coisa toda pode começar assim, já pelo meio de um dia difícil. Porque não vale a pena lembrar os dias difíceis na íntegra, podemos começar do momento em que eles se revelam surpreendentes. E não são as pequenas decisões que mudam tudo, alteram para sempre o rumo dos acontecimentos?
Por que virar à esquerda na pequena travessa para tomar um café na livraria antes de ir para casa? Poderia escolher outro refúgio, ou podia simplesmente ir embora, como recomendaria o bom-senso num dia como aquele. Mas se ela tivesse bom-senso teria vindo até aqui? Teria feito o que já fizera de seu dia, de sua vida? A verdade é que ninguém é tão previsível.
E se não tivesse alguém, movido por sabe-se lá que espécie de motivação súbita, deixado ali em cima do balcão da livraria aquele livro, aberto displicentemente naquela página em que ela leu aquele poema de que agora já não se recorda mas que naquele instante a fez chorar? Talvez não fosse preciso um poema para fazê-la chorar naquele dia, mas que o tenha sido foi o que chamou a atenção dele, que estava pagando sua compra e iria imediatamente embora, não tivesse visto aquela moça discretamente bonita em segundos tornar-se rubra e expelir lágrimas em todas as direções, ao deitar os olhos sobre um poema. Não que tivesse um lenço para oferecer mas decidiu, num ímpeto, comprar-lhe o livro, o que teria sido indiscutivelmente um ótimo início de conversa, não fosse ele tão pouco firme em suas decisões, pois que achou a atitude descabida e potencialmente perigosa e logo desistiu, uma vez que ela poderia rechaçá-lo e sua auto-estima não suportaria tanto, após o péssimo dia que tivera até ali.
E se ele não tivesse resolvido, após perder sua felicidade, dar às circunstâncias mais uma chance? Só por isso pegou um livro de arte para olhar, sentou-se e pediu mais um café. Que tenha sido Renoir foi o que chamou a atenção dela, embora para ele tenha sido um mero acaso, foi o primeiro que viu.
E se ela não acreditasse no poder do acaso? E se tivesse juízo? Se não tivesse a ousadia de puxar aquele papo sobre impressionismo, que teria sido realmente um péssimo início de conversa, não fosse o celular dele tocar, deixando os dois constrangidos, no que ela se afastou embora fosse engano, passando a examinar as estantes com fingida atenção?
Que o tenha feito permitiu que ele lesse rapidamente o texto introdutório do livro que tinha em mãos, a partir do quê pôde entender, finalmente, a pergunta dela, que agora estava folheando, muito entretida, um livro de culinária, o que, sem dúvida alguma, facilitava as coisas.
Mas ele teria dito alguma coisa se ela não tivesse parado exatamente naquela foto, sob aquela luz, contra aquele fundo, o quadro todo enfim que se formou? Se não ostentasse aquele exato meio-sorriso, a expressão absôrta, o olhar na página do livro, a mordida quase atrevidamente convidativa nos lábios como que saboreando a imaginária iguaria?
Eu sei fazer uns Crepes Suzette mais bonitos que esses aí da foto, acredita?
Ah, não acredito mesmo. ela riu De jeito nenhum.
Vamos lá em casa que eu te mostro. ele arriscou, embora fosse mentira.
E não é que ela foi, embora fosse loucura? A vida não pode ser surpreendente?
Este foi o dia em que ela teria sido feliz, não fosse o bom-senso tê-la dissuadido de virar à esquerda naquela travessa para tomar um café na livraria, em meio a um dia como aquele.

