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A Colecionadora

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Nascera rica, é verdade. Mas nem toda rica tem bom-gosto, ela gostava de frisar. E, dentre as de bom-gosto, pouquíssimas são as que de fato entendem de arte. Gesticulam nos leilões como loucas, querem encher as paredes de suas mansões, agradar ao decorador ou às amigas.
Ela se orgulhava de nunca ter pago um centavo mais do que uma obra valia, conhecia bem as manobras dos especuladores, os blefes do mercado. Mas também sabia reconhecer uma verdadeira preciosidade, e já empenhara somas altíssimas sem o menor remorso.

Possuía sólidos conhecimentos até mesmo sobre arte moderna, de que não gostava muito. Tinha predileção pela escola holandesa do século XVII e dizia que antes de morrer ainda teria um Vermeer. Certa vez fôra às últimas consequências por um Frans Snyders, uma esplêndida peixaria que seu marido, na época, não gostou: achou nojento e disse que não gostaria de ter que olhar para “aquilo” todo dia de manhã. Ela resolveu neste momento que não podia olhar para “aquele” homem todo dia de manhã. Arrematou o quadro e desfez-se do marido.
Depois dele colecionou amantes, de idades e naturalidades diversas, mas todos muito, muito belos, de modo que não se arrependia por um instante do negócio.

Noutra ocasião mandou soltar os cães ferozes em cima de um espertalhão que tentou vender-lhe uma cópia habilidosa como um autêntico Bega. O sujeito correu e escalou um muro altíssimo com uma agilidade ninja, caiu sabe Deus como do outro lado e nunca mais voltou, nem pra buscar a tela falsa. Ela mandou colocar o quadro no hall, com uma belíssima moldura e uma placa embaixo, numa sutil referência a Magritte: “isto não é um Bega” e sempre contava o caso, às gargalhadas, às visitas. Ainda que pouquíssimas ou nenhuma soubesse quem fôra Bega ou mesmo Magritte, todas riam muito.
Ela colecionava amigos falsos também, na saleta e nos salões. Rindo de suas piadas obscuras apenas para comer de seu caviar e beber de seu champanhe.

Por isso toda manhã, sob a luz branca do jardim de inverno de seu palacete, ela tomava seu desjejum de croissants e mel desejando secretamente estar na imundície daquele mercado de peixes, com aquele nojento do seu ex-marido.

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