Capítulo I A Carta
O verão de 1918 foi muito abafado. Especialmente agora, sob o mormaço do meio-dia que tingia a paisagem lá fora num tom ofuscante de cinza chumbo.
Metal ardente. Como ardia também em brasa o coração da jovem Frederica Eugênia, que em vão se abanava, perto da janela, deixando no ar o aroma suave de seu leque de sândalo. Derretia sob o vestido preto e fingia consternação diante do corpo inerte de Eulógio Sepúlveda, Barão da Grota Funda, seu nem tão amado avô. Ainda que pouquíssimo estimado pelos que o conheceram, Eulógio havia amealhado fortuna suficiente para comprar uma legião de falsos amigos. Estavam todos lá, inconsoláveis, carpindo. Frederica Eugênia, à falta de lágrimas, usava o lenço de cambraia para enxugar a testa, misturando ao sândalo um leve olor de alfazema. Seus olhos buscavam, dentre a multidão de hipócritas, o único semblante capaz de refrescar-lhe a alma. Ao encontrá-lo enfim, quase não conseguiu conter um sorriso desabrido demais para a ocasião. Abaixou a cabeça e esperou que ele se aproximasse. O coração aos pulos só de pensar que iria abraçá-lo, mesmo sabendo que seria apenas um abraço de pêsames.
