vivo cigana
carta na manga
rota na mão
a caravana
passa e eu, ladra
(ar)roubo um tesouro
teu coração
sorte no amor
bazar no jogo
me aferro à fé
a ferro e fogo
um dia amarro
minha carroça
planto uma roça
no teu regaço
por ora solto
volto pra praia
com um pedaço do mar
sob a saia
.
foto: guga alayon
.
a lua chia
mata em silêncio cheia
de som e folha
.
foto: mata atlântica - broto de samambaia gigante, por luizdemog. [fonte]
o branco do olho pinta
na pálpebra um arco
íris
.
é o mar em mim que não sei onde barco
nem bem quem sinto com essa maré tanta
onda me perco inda que leve a fundo
ao cabo tudo que a corda arrebenta
.
toda tormenta tem sua bonança
cada criança tem o seu instinto
singrar na unha o espesso oceano
por vir ao ar mesmo que um fio parco
.
enfuno em claravela o ar retinto
semeio tempestade colho in vento
desvendo o verbo que replanta o mundo
derrame de água-benta em terra santa
.
imagem: piers brown
ateorema inequação
e-nigma insanalógico
fórmula única insolúvel
amalgarismo vírgula dígitos infinitos
esquadratura do círculo
raiz incúbica de pi
se faz de conta
me explica tudo
expressa de modo preciso
quão desmedido
o que impermanece
incógnito
a última voz que anima um corpo insano é a dor
paixão terminal da carne
antes do sono a esperança
é a penúltima que morre
.
Pau no sistema
[ pAusa para o poema ]
Inverno, pena.
Isso eu escrevi há 2 meses, quando soube que meu pai estava doente. Na época não quis publicar, ficou no rascunho. Agora vai, sei lá porquê. Antes que ele vá.
Que Deus o (man)tenha, uma coisa ou outra, o que for melhor.

Quadro de Lucas Penacchi
Amigos do coração,
eu venho por meio desta
convidá-los pr'uma festa:
um sarau de São João.
A festança é no arraial
O endereço é virtual
mas o ambiente é bom.
Não tem ladrão nem quadrilha,
só poetas de família.
Não tem fogueira ou balão,
só a luz da inspiração.
Não tem quentão nem cachaça
mas, para espantar o frio,
tem repente, desafio
e rimas cheias de graça.
Se você tem um minuto,
passe aqui pra ver se gosta.
Diga um verso, que eu escuto
e versejo uma resposta.
Se achar que foi divertido,
comovida, eu lhe convido
a retornar para o bis.
Um beijo e até logo, Chris.
.
o amor que a gente faz
surpreende que ainda soe
perfeito como sói
suspeito até que mais
tanto tempo depois
adoro como sois
poente como sóis
queimando ardendo em nós
dois
imagens: Benn Flemming
Como quem faz desenhos na areia:
Traça uma linha a ponta do graveto,
Sobe a maré, apaga linha e meia.
Dos versos presunçosos que cometo,
Quero escrever, bem antes que alguém leia,
As letras em nanquim no fundo preto
Que, assim, a coisa fica menos feia.
Mas nem sempre a censura funciona,
Tem um sopro rebelde que me escapa
E, à minha revelia, vem à tona.
Debalde meu esforço, um mau poema
Liberta-se do escuro, à socapa,
Mata a família e estréia no cinema.
Quis Cuba Libre;
embargado, nao caiu!
- so' chamou Raul
.
.
.
.
.

Po, que pena, eu nao sou pop!
Nao escrevo soap-opera
nem letra de hip-hop...
No meu verso invento moda,
minhas redondilhas fecham
porem, no universo fashion,
confesso: nao to no top.
O ultimo show eu nao vi,
so escutei a zoeira
(nao ganhei uma pulseira
para o curralzinho vip).
Vai bem baixo meu ibope:
nao sou apresentadora,
nem garota de programa,
nem miss, nem BBB,
nem policial do Bope...
Mas tambem posso aprender;
to a fim de dar um up!
Aparecer na TV
e ganhar uma bolada,
antes que a chance me escape.
Resolvi vender a pena
e o meu contrato com a musa,
em negociata espuria,
pra um tabloide classe Z.
Vou ver se compro, com o troco
um armamento pesado,
um pente de chumbo grosso
e um modelito que arrase.
Adentro algum mega-evento
e, ao som de um funk indigente,
disparo verbos em furia
no primeiro que passar!
Saio mandando objeto
direto pra todo lado;
se o sujeito discordar,
vai tomar no predicado...
Briga sempre junta gente:
aproveito os paparazzi,
vou logo tirando a blusa.
Meio minuto de fama
eh mais que suficiente
pra eu deitar, fazer a cama
e editar a obra completa.
Pois finalmente a poesia
vai estar em cada banca
- num ensaio da playboy:
Poetisa aliterada
abusa da lingua e arranca
a roupa que o rato roi
.
.
.
(fonte da imagem: http://www.thepinupfiles.com/frahm.html )
quando chove
de raio
eu chamo
as palavras
de risco
pra vir brincar
em casa
bem longe
de espelho
tesoura
arvore
agua
poste
vassoura
agulha
vidro quebrado
tudo que
fura
ou fere
ou fulgura
um reflexo
qualquer
um cisco
se der
fagulha
atrai
um corisco
que credo
ninguem
aguenta
com o coice
vixe
nem fale
nisso
isola
.
.
.
de capinhas de borracha
vem as chatas
de galochas
e aqui dentro
se abrigam
seguras
ate' o estio
as intempestivas
e um tanto parvas
(com perdao da ma'...)
palavras
.