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Castelos

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Sand castle.jpg Naquele verão, tinha uma menininha que gostava de fazer castelos de areia. Todo dia, quando a maré vazava, lá ia ela com seu baldinho. Passava a manhã inteira esculpindo, alisando, caprichando em cada detalhe, até achar que estava tudo perfeito. Aí ela sentava e ficava esperando a maré encher . Morria de rir ao ver as ondas destruírem, uma após outra, as formas que ela tinha criado com tanto esforço.
Um menininho, que detestava perder seus brinquedos, começou a reparar nela. Observou aquilo uma semana inteira, encafifado. Um dia ele tomou coragem e sentou ao lado da menininha. Quando uma onda derrubou a primeira torre, ele não se conteve:

– Por que você não faz seu castelo mais pra lá, longe do mar?
– Pra que? Eu gosto é de ver ele desmanchar.
– Que maluquice, não entendo. Depois de tanto trabalho, você fica sem nada.
– Engano seu! Eu tenho mais castelos do que a princesa mais rica do mundo.
– Ah é, e onde eles estão?
– Aqui na praia, ué.
– Eu não estou vendo nenhum. O único que tinha, o mar acaba de levar.
– É, olhando assim é realmente uma pena mas… sabe que eu não ligo? É só querer e pronto, eu vejo uma porção deles. Olha só, nessa areia aí tem todos os que eu já fiz até hoje. Você mesmo está sentado em cima de um dos meus preferidos. Se eu começar a pensar, lembro de cada detalhe, cada janelinha, cada ponte... Também tem muitos outros que estou planejando fazer, cada um mais lindo, precisa ver. E ainda tem mais uns que nem vai dar tempo mas que eu faria, se quisesse. Acho que se eles estivessem todos aqui, de pé, um do lado do outro, não caberiam nessa praia... e o pior é que ia faltar espaço na areia pra quem viesse brincar depois.
– Mas se você tivesse unzinho só, de verdade, seria melhor do que todos esses juntos. Você poderia entrar e morar dentro dele pro resto da vida.

A menininha pensou um pouco.

– Pode ser …mas eu gosto mesmo é de ficar aqui do lado de fora, na praia, fazendo um castelo diferente todo dia.

Uma onda mais forte chegou de surpresa e derrubou o brinquedo que o menininho tinha na mão. Ele procurou, procurou, procurou e não encontrou mais. Então ele ficou muito triste mas nem chorou, porque era um menino. Pediu à mãe pra ir embora e passou o resto do dia chateado, no seu quarto lotado de brinquedos, porque tinha perdido um carrinho novo, muito caro e importante.

A menininha fez mais 20 castelos até o fim do verão, depois foi brincar de outra coisa.

"A nau dos Loucos - um exerc?o" ou "Brainstorm"

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Há muitos anos atrás, um livreiro meio doido me deu de presente um livrinho curioso, cheio de teorias conspiratórias esotéricas, chamado “Os livros malditos”, de Jacques Bergier (ed. Hemus). Nem sei se ainda é possível encontrá-lo à venda mas o tenho aqui em mãos.
Traz várias histórias bizarras e supostamente verdadeiras sobre a destruição sistemática desde tempos imemoriais – empreendida por uns tais “homens de negro” (ui, que macaaaabroooooo) - de livros e obras reveladoras de altíssimos e profundos segredos. O incêndio da biblioteca de Alexandria nada mais teria sido que um dos ousados atos terroristas da tal “ordem negra”…
Sei não, acredito em tudo só até a página 5, mas ele cita vários casos e fundamenta, ou finge fundamentar. Tive preguiça de verificar as fontes mas pelo menos uma passagem do livro tornou-se um de meus exercícios de imaginação favoritos. Penso em escrever um conto sobre isso um dia mas sempre adio o projeto. Então, enquanto seu lobo não vem, publico aqui o trecho para que vocês também se divirtam e me dêem sugestões. Prometo dar os créditos quando escrever minha pequena-grande-obra. Aí vai:

“No momento em que escrevemos, um iate luxuoso percorre os oceanos do globo. Traz bandeira que não é de nenhum país conhecido ou desconhecido. Tem a bordo um certo número de guardas armados, pois muitas vezes tentou-se forçar o cofre-forte do capitão; esse cofre contém um livro muito perigoso cuja leitura torna louco o que lê e se chama Excalibur.”
…

Então, o que estaria escrito neste livro de TÃO perigoso?
O nome de Deus? Os resultados da loteria da Califórnia até 2020? A prova do amor de Cristo por Maria Madalena? A fórmula da pedra filosofal? Ou será apenas uma perguntinha auto-reflexiva, tipo “quem és tu”?
Penso que bem pode ser como o livro de areia de que fala Borges, que a cada vez que se abre é um livro diferente portanto nunca se volta à mesma página…. penso num livro que conte a história de quem o lê e descreva em detalhes sua morte… penso numa simples página em branco….

Diga aí: e pra você, o que pode haver num livro que leve à loucura? Que idéia faria em pedaços cada uma de suas certezas?
Hein? Pense… (imagine um pêndulo diante de seus olhos: tic-tac-tic-tac…)

Mas peraí: os tais guardas armados são analfabetos, não têm curiosidade alguma (nesse caso, aposto que não são mulheres) ou será que estão todos loucos? E o capitão, que a essa altura deve estar completamente ensandecido, será que ainda lembra o segredo do cofre?….

Hum...pense mais...eu, de minha parte, estou ficando um pouco zonza…

(momento dossiê: se eu morrer esta semana, os culpados são os Homens de Ne..

Da s?e ?Em poucas palavras? ou "Mais uma lista para nossa cole?"

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ManuscriptLeaf_thumb.jpg Coisas que não me interessam numa pessoa:

O tamanho de seu poder;
A marca de seus sapatos;
Seu nome de família;
Se anda a pé ou de "chauffeur" (grafia corrigida pela Cynthia, minha revisora poliglota de plantão);
Qual seu Big Brother favorito;
O relatório de suas ações;
Os retratos de sua vaidade.


Coisas que me interessam numa pessoa:

Seu bom humor;
A qualidade de seus afetos;
O relato dos seus sonhos;
O poder de atravessar vidraças;
O desenho de suas cicatrizes;
A memória de suas batalhas;
As imagens de sua história.

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taoist-painting.jpg De uma maneira geral, pessoas me interessam mas não todas e penso que nenhuma o tempo todo, o que é um problema. Já dizia Sartre : “O inferno são os outros.”
Brilhante mas discordo. Nem eu mesma sou tão interessante e divertida que valha a pena full-time e, dentre os chatos que me cercam, sou a mais difícil de despachar. Estou treinando técnicas avançadas de meditação pra largar de meu próprio pé e me mandar passear de vez em quando. Pra ver se me curo dessa doença de ser eu mesma.
Esse negócio de fazer listas, por exemplo, só pode ser loucura. Ou preguiça de ser extensa, ainda não decidi, mas boa coisa não é, que preguiça é pecado tão capital quanto a inveja, a avareza e outras coisas feias (ou charmosas, como a luxúria que, no imaginário coletivo, tem a cara – e principalmente o corpo - da Luma de Oliveira).
Tem outros sintomas da minha esquisitice: palavras que eu repito demais como sonho, memória, vidraça - coisas muito pouco confiáveis para alguém se apoiar. Outras que evito sistematicamente como contabilidade, dívidas, cobranças. Onde é mesmo que eu planejo investimentos, recolho dividendos, consolido lucros?

Estava precisando de um eletrochoque pra entrar nos eixos e começar a me preocupar mais seriamente com o que, afinal, parece ser a única preocupação séria: quanto é que eu levo nesse bolo? Ou então um mestre zen à moda antiga pra rachar logo meu coco com uma cajadada. Diz que o método era tiro e queda: quando o discípulo não morria, ficava calminho, um verdadeiro santo.

Sempre-viva, flor teimosa do cerrado

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sempre viva.jpg
Eu sei que estou viva quando:
me apaixono como adolescente; dou risada; sinto o vento arrepiar o rosto; sinto medo; sinto fome; canso o corpo; sinto prazer; sinto saudades; percebo que ainda posso chorar lendo um poema ou simplesmente achando uma coisa linda.
Eu morro um pouco quando:
perco a fé; perco tempo com quem não merece; perco a paciência com quem amo; perco o celular com o telefone de todos os amigos; perco um pôr-do-sol no Arpoador ou no Kilimanjaro; perco uma boa oportunidade de ficar quieta ou de agir, quando chega a hora.
Eu não morro nunca quando:
sobrevivo a tanta morte.

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Ei de herrar aimda

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monkey.03.jpg Não tenho vergonha de dizer: sou do tipo que erra um bocado, especialmente em público. Macaco é meu signo no horóscopo chinês e, de fato, micos e outros símios me são bem familiares. Aliás pareço ter, desde sempre, uma certa compulsão pelo erro ostensivo, de modo que aproveitei ao máximo cada chance que a vida me ofereceu de expor minhas imperfeições à visitação das gentes. Em criança, fui anjinho de presépio vivo, mãe da noiva em casamento caipira, oradora do dia da Independência, cisne-do-lago em balé-de-fim-de-ano … não que tivesse grandes talentos ou que apreciasse tanto assim os nem sempre efusivos aplausos familiares mas gostava da sensação de sobreviver a mim mesma. Mais tarde fui fazer canto coral, Teatro de Rua e, pior, Teatro Infantil de Shopping, onde vivi a experiência única e inenarrável de panfletar pelos corredores, em pleno verão carioca, vestida de coelho de pelúcia. Hoje em dia, disponibilizo graciosa e voluntariamente minhas asneiras a quem interessar possa, via internet. Um exemplo de dedicação à causa primata.
Mas também sou um espírito oportunista e não deixo passar as ocasiões espontâneas para testar meu fair-play. Já caí sentada com as pernas pra cima ao fim de um almoço de negócios, derrubei cerveja num professor estrangeiro seriíssimo, e olha que eu nem bebo! Meu currículo de vexames, tombos e tropeços faria corar o Inspetor Closeau. E as bobagens de amor, quantas já cometi, e tamanhas? Ah, como sou tolinha!…
Mas não é que estou aqui inteira pra contar a história? Vergonha não mata, garanto por ampla experiência própria, o rubor até irriga a pele e rejuvenesce, faz a gente se sentir criança. Com aquele risinho de traquinagem, a sem-vergonhice íntima de quem está sempre tentando alguma coisa nova. O vizinho que me perdoe e cuide de sua vidraça, porque eu tô aqui é pra brincar e bola fora faz parte.
Deixa estar que eu ainda aprendo. No dia em que eu parar de errar será realmente confortável, um alívio, e quase anseio por este momento: hora de pendurar as chuteiras… e bater as botas.

Id? nº 1 do 1 do 5

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idea lighbulb.JPG Quando eu tenho uma idéia ruim, das que me acometem aos montes, não tenho a menor dúvida de que fui eu a autora da infâmia. Já quando é uma idéia realmente boa, devo admitir, por muito que eu quisesse me arrogar valor, que não passei de um meio: a Idéia é que me teve, à revelia. Costuma vir pronta e não me larga até que a ponha no mundo, não sem algum indelével prejuízo à sua pureza original. Esses momentos de inspiração límpida são bem raros e, infelizmente, imprevisíveis. Muitas vezes os perco porque esqueço antes de registrar, ou por não saber o que fazer com a idéia ou, simplesmente, por não reconhecê-la como boa. Também já perdi muito tempo com idéias que pareciam boas mas não eram. Às vezes até eram péssimas.
Mas uma idéia realmente boa costuma ter algumas características, que já estou aprendendo a distinguir:
1. É simples, sem ser simplória;
2. É óbvia, sem ser ululante;
3. É profunda e abrangente;
4. É bela;
5. É útil;
6. Quase sempre é engraçada;
7. Também pode ser triste;
8. Não obedece regras;
9. Pode ser totalmente diversa da presente descrição;
10. Pode ser que eu desconheça totalmente o que vem a ser uma idéia realmente boa.


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Porque é que eu tenho mania de elaborar listas de 10 ítens?
Não faço a menor idéia.

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O carro, o m?, o sonho

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cheval-ferrari.jpg Tem gente que escolhe o amor como quem escolhe um carro. Avalia ano, marca e modelo, o estado da lataria, a performance e, principalmente, o valor de mercado. Não se importa de gastar uma nota preta com isso, investe em seguro total e não economiza na manutenção. Volta e meia troca de amor por um mais novo, mais bonito, mais possante ou, melhor ainda, acumula. Detesta perder o que é seu e pensa que sempre cabe mais um na garagem: ter é poder. O mundo é dos ambiciosos e o fundamental é estar bem na fita, desfilar seu sucesso, mostrar a todos que é um vencedor. Mais cedo ou mais tarde, infelizmente, nosso campeão vai cair do cavalo. Vai ficar obsoleto ou, antes disso, vai sofrer um acidente de percurso e sua sucata vai terminar no ferro-velho, como todas as outras.
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armchair.gif
Tem gente que escolhe o amor como quem escolhe um móvel. Avalia funcionalidade, durabilidade, beleza também, é claro. Mas o que importa mesmo é o conforto, aquela sensação familiar, de pertencimento. Com o tempo esse amor vai se desgastando, desbota, ganha marcas de uso, manchas, arranhões. No entanto pode se recuperar lindamente se ganhar uma demão de verniz de quando em quando, um novo estofamento, um reforcinho básico na estrutura. Agora, um móvel também pode às vezes perder sua função, mesmo após muitos anos de utilíssimos serviços. É uma pena mas acontece nas melhores famílias. Nesse caso, antes de abandoná-lo às traças, mais vale mandar para um brechó e livrar o espaço. Sempre haverá algum canto vazio no mundo onde ele caiba à perfeição e tenha melhor serventia.
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Swirling Dream.jpg Tem gente que escolhe o amor como quem escolhe um sonho. Sabe que não escolhe, que avaliações são inúteis aqui. Reluta e se angustia pelo imponderável da situação ou simplesmente entrega e se deixa levar. Aproveita o que tem de bom, sofre o que tem que sofrer, vive a estranheza e o maravilhamento. Não tenta controlar, nem adianta. Percebe a liberdade absoluta que há no meio desse caos. Aceita o fato de que não há garantia de espécie alguma. Pra não se apavorar, é sempre bom lembrar que está sonhando. E, pra não se apegar, é bom saber que um dia acaba, por muito que dure. Antes de acordar sozinho, não custa nada agradecer essa estadia, ainda que breve, num lugar onde se voa.
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Re-invent?o de Ano-Bom

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Xsantaballoon.jpgCartinha ao Papai Noel:

Querido velhinho,

Como eu tenho insistido em ser boazinha neste mundo mau o ano todo, e sobretudo porque eu continuo acreditando em seu “espírito natalino” – mesmo com essa imagem usada e abusada por marcas de refrigerante, pneus e calcinhas e reproduzida ad nauseam nas fachadas de todos os centros comerciais do mundo, de shoppings luxuosos de grandes cidades a camelódromos infectos, nos cantos mais êrmos e obscuros do planeta – penso que devo ter algum crédito como criança. Pelo menos ando merecendo, e com louvor, os títulos de ingênua de carteirinha, bobinha de plantão, palhaça honoris causa e outros apelidos carinhosos com que meu superego vem me brindando ultimamente. Nesse caso, creio que posso pedir ao senhor ao menos um presentinho. Um só, meu sonho de consumo desde a mais tenra infância, o tipo da coisa simplesinha mas que me faria feliz para todo o sempre:
O Impossível.


“Só o impossível acontece, o possível apenas se repete.”
(Chacal)

Um jingle beijo,
Christiana.

P.S. – Pendurei minha meia mais comprida na lareira, mas será que meu presente vai caber lá dentro? Se não couber, pode espalhar pelo lado de fora, pelo chão da sala, pelo mundo todo, se quiser. O mais gostoso vai ser essa parte: sair por aí afora, catando surpresas aos 4 ventos.

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Resoluções de Ano Novo para 2005:

1. Voltar a fumar
2. Engordar 3 quilos
3. Ir mais ao médico
4. Sonhar menos
5. Fazer escolhas sensatas
6. Casar novamente
7. Adequar-me à rotina
8. Adotar animais (ou cuidar dos de outrem)
9. Fazer botox, silicone e escova progressiva
10. Dizer Amém

Como nunca consegui cumprir minhas resoluções de Ano Novo, pretendo chegar a 2006 tão desobediente (e saudável, benza Deus!) como tenho sido até aqui.

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Pra você que me presenteou com sua leitura, desejo de todo o coração um milagre de Natal. E que o seu Ano Novo seja parco em resoluções e pleno de acontecimentos, os mais impossíveis!

Seu gato subiu no telhado

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black-cat.jpg
Veja você a minha situação.
Eu sou daquelas pessoas que amam a natureza mas têm pavor de insetos estranhos. Bucólica ma non troppo, sabe como é? Pousadinha na serra é tudo, trilha na mata é 10, Floresta Amazônica é meu sonho de consumo, mas com Raid sempre à mão. Promiscuidade com a natureza tem limites.
Pois é, com animais eu também sou assim. Gosto, com algumas pequenas restrições. Acho fofos, quero que eles vivam e sejam felizes e bem tratados, mas não AMO a ponto de cuidar de um. Acho eles meio fedorentinhos, não sabem falar, e tem o cocô, né? Todo bicho faz cocô. E tem que comer na hora certa, então você tem que estar em casa naquele horário ou, pelo menos uma vez por dia, tem que parar pra pensar nisso.
Você pode argumentar: mas você tem um filho, e isso dá muuuuuito mais trabalho! Verdade, mas existem diferenças, embora não muitas. Em primeiro lugar, ele é cheirosinho, ou tão fedorento quanto qualquer um de nós. Conversa comigo, sabe beijar sem lamber (embora já esteja ensaiando umas lambidas pré-adolescentes nas amiguinhas) e aprendeu bem cedo a fazer cocô sozinho e despachar pelo cano. Por essas e outras, ganhou minha preferência e, quando eu e meu marido começamos a achar que faltava um terceiro pra complicar nossa relação, ao invés de um cão ou um amante, arrumamos um filho. Deu certo, e passamos cinco anos nos distraindo com ele e sem ter tempo de lembrar que talvez não estivéssemos mais tão felizes…
Bom, essa foi minha escolha e nunca me arrependi. Mas tenho uma fraqueza: eu AMO meus amigos. Daí que, às vezes, me deixo levar pela emoção solidária para além dos limites da razão.
Foi assim que, ao ver meu amigo amado em crise de angústia, por não ter onde deixar seu gatinho durante uma temporada de 3 meses na Europa, não resisti: “ah, meu querido, não se preocupe, eu alimento seu gatinho…”
Ei, você achou que eu ia ADOTAR o gatinho? Não, eu disse ALIMENTAR. É que esse amigo é meu vizinho, então eu me propus a ir à casa dele, uma vez por dia, alimentar o gatinho e limpar o cocô – sim, o trabalho sujo também – para que o bichano pudesse ficar em seu próprio lar. A opção em que você pensou (e talvez o meu amigo, secretamente, mas teve a delicadeza de não expressar), ou seja, eu adotar o gatinho durante esse tempo, não seria viável por no mínimo 2 razões. Primeira e mais importante: eu moro com minha mãe, ela tem PAVOR de animais e se recusa a conviver com mais um (além da tartaruga de meu filho que eu impus, garantindo que ela jamais conseguiria chegar a uma velocidade de ataque suficientemente ameaçadora). Segunda: minha casa, durante o dia, vive toda aberta, e dá fundos para a Floresta da Tijuca, portanto seria difícil evitar que o gato fugisse.
Ficamos combinados assim e o amigo partiu, muitíssimo agradecido. A minha rotina ficou pouca coisa mais pesada, apesar do amigo morar num 3º andar sem elevador – pernas, pra quê te quero?. Era todo dia escada-escada-escada, comida, agüinha, cocô, bilu-bilu gatinho, até amanhã. Tranqüilo, não?
Não, não e não. O gatinho não ficou bem. É que o amigo estava em obras. Ah, isso você ainda não sabia, mas eu já, burra. Só que não pensei que fosse dar problema. Na verdade pensei bem pouco em tudo, conforme as coisas iam acontecendo.
Desde o início, o gato parecia um pouco intoxicado, o cocô estava mole e se esparramava para fora do “pipi cat”, o que aliás tornava bem mais penoso o “trabalho sujo”, sem contar que, por conta da obra, o amigo estava sem água (!!!!!!!). Então eu passei a deixar a janela mais aberta e o cocô melhorou. Ufa, resolvido, amigo mais feliz lá do outro lado, tudo certo. Até que.
Campainha.
– Oi, eu sou a vizinha aqui do prédio. Não é você que está cuidando do gatinho?
– Sou, por quê?
– Ele caiu da janela.
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Devo dizer logo que o gato sobreviveu. A vizinha foi fofésima, já tinha levado pra sua casa o acidentado e estava aguardando a chegada de sua irmã que, por sorte suprema, era veterinária especializada em emergências felinas. Depois de examinado e medicado, o gato parecia fora de perigo mas inspirava cuidados especiais. Devia ficar em observação, teria que tirar radiografias para apurar uma suspeita de luxação na perna e tinha que tratar escoriações na boca e uma ferida no lombo.
Diante do quadro, me vi na obrigação de recolher o enfêrmo, ainda mais que minha irmã, bem mais empolgada com gatos do que eu, comprou a idéia e se propôs a ser a enfermeira-chefe.
Minha mãe, pobrezinha, foi vencida pelo trágico das circunstâncias e passou a andar pela casa acuada, temendo que saísse das sombras um gato preto para lhe atacar a jugular. E a paz doméstica foi pras cucuias.
No dia seguinte, diante de um novo surto gatofóbico de minha progenitora, resolvi dar um basta na situação e ficou afinal decidido que a namorada do amigo ia assumir o gatinho. Sim, porque o amigo tinha uma namorada desde o início. E você deve concordar que ela seria a herdeira natural, não? Mas é que ela não AMA muito gatos, então ficou aquela coisa de ver, até o último momento, se não havia uma outra solução. Talvez por isso, ela também demorou uns diazinhos pra vir buscar. E minha mãe surtando a cada vez que tinha que sair do bunker de seu quarto.
Até que a menina veio buscar o gato.
Mas aí, cadê o gato? Sumiu. Toca a procurar em todo canto e nada. Fugiu, desapareceu no mato e não voltou até agora. Os vizinhos não viram, nem sinal. Isso tem uns 10 dias.
Tive que contar pro amigo, que ficou arrasado lá do outro lado do mundo. E eu, que só queria fazer-lhe uma gentileza, agora temo que ele me odeie para sempre.

?PROIBIDO LER ESTE TEXTO

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olympia.jpg"Olympia"
Edouard Manet
1863

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Se o homem fosse obediente, estaria até hoje sentado à sombra de uma macieira, fazendo cafuné na Eva sem segundas intenções. Não tendo pecado, não teria tido filhos. Seus pimpolhos Caim e Abel, que só faziam besteira (e devem ter comido as irmãs, talvez até a mãe, do contrário a história não poderia continuar), deram seguimento à cadeia de desacertos que caracteriza a passagem da humanidade pela Terra. Ao cometer fratricídio, incesto e outras tantas atrocidades, nosso tataravô Caim teve que inventar a primeira mentira (“E eu lá sei do meu irmão? Pô, nem vi o cara hoje…”), e todo mundo sabe que exaustivo trabalho de imaginação está por trás de uma mentira. Ainda mais mentir pra Deus, o tipo do sujeito que sabe tudo … mesmo assim Caim, em sua juventude transviada, jogou o barro na parede pra ver se colava. Fazendo isso, tornou-se criativo e pode ser considerado o primeiro publicitário da história (digo: o primeiro humano porque, quando Deus disse “Não coma DESTE fruto”, é evidente que ele sabia muito bem o que estava fazendo e COM QUEM estava lidando, pois não foi ele próprio que nos dotou desta mortal curiosidade? Então o interdito poderia equivaler a colocar na tal árvore um letreiro luminoso: COMA-ME. Já esta ordem “coma-me”, assim no imperativo, poderia soar como uma imposição o que, imediatamente, geraria fastio e Adão iria lembrar que gostava mesmo de abacaxi, deixando intocado o bendito fruto por puro descaso).

Se não transgredíssemos, não incorreríamos jamais em erro. Portanto não buscaríamos soluções e não inventaríamos nada. Se fôssemos bem-mandados, aceitaríamos nossos limites e viveríamos, uma geração após a outra, felizes dentro deles. Não cometeríamos crimes, respeitaríamos regras e leis. E não estaríamos aqui, pilotando computadores e nos comunicando à velocidade da luz. Estaríamos catando piolhos de nossos filhos, muito longe deste ou de qualquer outro questionamento. Uma existência plácida, sem dúvida, mas não muito dinâmica em termos evolutivos. A transgressão é mãe da invenção.

Desde que o mundo é mundo, o proibido é mais gostoso. O beijo roubado, o segredo guardado a sete chaves, a sedução lisérgica das substâncias ilícitas, o erotismo das partes escondidas do corpo (coisa que algumas revistas masculinas parecem desconhecer. Outro dia um amigo me confessou que não agüenta mais ver mulheres em posições ginecológicas. Que esse excesso de exposição acaba com o tesão de qualquer um, não sobra nada pra imaginar. E não se pode negar que a imaginação, quase sempre, supera a realidade) Muito mais excitante que a nudez arreganhada que se oferece é aquela que mostra-esconde, a do decote, a que se adivinha sob o pano ou se espia pelo buraco da fechadura. Muito melhor que a comida que empanturra é aquela provinha roubada da iguaria que ainda não foi servida, que fica reverberando no paladar, prometendo sabores e saciedades futuras. O que não pode torna-se tabu, envolve-se em mistério e temos uma tendência inata a achar que é aí que vamos encontrar o tal prazer de que tanto precisamos, um prazer absoluto imaginário, inatingível em sua plenitude mas do qual chegamos perto em raros momentos. E, de fato, em situações-limite nosso organismo libera uma verdadeira bomba química, altíssimamente estimulante. O perigo nos faz sentir vivos, cheios de energia, capazes de coisas que, em outros momentos, nos pareceriam impossíveis.

Isso, pra mim, é uma programação genética seriamente comprometida com o princípio da transformação. O homem é um poderosíssimo agente transformador da natureza. Esse parece ser nosso papel na história evolucionária do planeta, é o que mais nos distingue enquanto espécie. Nós não somos confiáveis quanto à manutenção da ordem, sobre isso ainda temos muito o que aprender com as abelhas. A humanidade age introduzindo o caos. A partir daí, a busca de harmonia gera uma nova realidade.
O princípio da manutenção, tão característico dos insetos, é fundamental para a estrutura organizacional e para a eficiência produtiva. Se fôssemos tão trabalhadores e ordeiros como nossas amiguinhas melíferas, nosso mundo seria limpo, funcional, previsível e….bzzzzzzz
Quem quer ser uma abelha? Eu morreria de tédio. A gente é bagunceiro mas se diverte. Usa roupa colorida, faz arte, pinta, borda e sapateia. E as abelhas só dançam aquela dancinha em forma de 8 que os cientistas adoram mas, cá entre nós, sou mais o Baryshnikov. E, se elas podem voar, nós não temos asas mas também demos um jeito. Hoje em dia o homem até que voa muito bem, melhor que as galinhas, que são naturalmente aladas. Um Ícaro ou outro quebrou a cara pra nos abrir o caminho, mas é assim mesmo que temos vindo até aqui. Errando e nos virando pra consertar. Fazendo bobagem, pulando a cerca, levando tombo e levantando outra vez. Quebrando um vaso de vez em quando, estilhaçando uma vidraça, partindo um coração – o nosso, quase sempre – e depois recombinando os caquinhos num mosaico novo e surpreendente.

O problema de desafiar os limites impostos é que, quando apanhados em flagrante-delito, em geral sofremos conseqüências bem dolorosas. Como Prometeu, acorrentado e devorado permanentemente no fígado só porque ensinou aos homens o truquezinho do fogo, privilégio dos deuses, artifício através do qual nos mantinham ignorantes e tementes a Zeus. Prometeu sofreu horrores, coitado, porque era forte o suficiente pra não morrer e seu fígado se regenerava a tempo de ser devorado novamente. Eu não queria estar em sua pele, e muito menos em suas vísceras. Sentir dor é, definitivamente, o que eu mais odeio na vida, não sou titã nem nada...

Então o proibido é um jogo arriscado, que não pode ser jogado o tempo todo, não por qualquer um. Existem os mais intrépidos, de alto cacife emocional. E os apegados, que só arriscam uns poucos níqueis nas maquininhas. Cada um tem sua medida de coragem e sua zona de conforto, este é um equilíbrio pessoal e muito sutil.
Ei, cabe aqui um esclarecimento importante: Não estou fazendo apologia do crime ou da barbárie. Me parece que a compaixão e o respeito ao próximo devem ser os princípios éticos inabaláveis por trás de cada ato humano.
O que diferencia o amoral do imoral é que o primeiro busca a liberdade como um valor universal às custas da conveniência dos costumes. O segundo busca o lucro pessoal às custas da própria consciência.

Definitivamente a história da humanidade não foi escrita pelos ordeiros, não se fez nos caça-níqueis. Foi feita em apostas arrojadas, no olho-no-olho, na ousadia do blefe, no alto risco, nas transações suspeitas por debaixo das mesas. Nas viradas de mesa, nas quebras de padrões, na cara e na coragem.
Inconformados com limites, somos tão mais humanos quanto menos abelhas.
Cada vez que, temendo o colapso de nossa espécie, voltamos para a colméia pelo mesmo caminho de sempre, sem parar nem para olhar a vista, estamos fazendo nossa parte na produção do mel e prestando fiéis serviços à Rainha.
Cada vez que, distraídos por uma flor no caminho, passamos além dos limites conhecidos, estamos fatalmente quebrando um protocolo ou infringindo alguma lei e, portanto, nos arriscando a uma punição. Ao mesmo tempo, estamos contribuindo para libertar a humanidade inteira de seu medo infantil de Deus.

Ainda bem que você é desobediente e leu este texto.

Botox

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30botox1.JPG

Meus 3 leitores sabem que eu não assisto mais novela. Só que, diferentemente do Xexéo, eu não assisto mesmo.
Simplesmente não dá, gente. Eu sou formada em Teatro, levei anos aperfeiçoando a máscara facial para que fosse a mais expressiva, a mais reveladora do sentimento humano. Aí eu ligo o aparelho e começo a ver uma sucessão de caras-botox que não alteram um músculo, quer a cena seja de alegria, dor, ciúme ou violência.
Todo o elenco ostenta um semblante plácido, como que recém-saído de um SPA cinco estrelas numa estação termal na Nova Zelândia. Pra disfarçar a pouca expressividade facial, agora deram pra exibir cada vez mais os corpos, de preferência em “ensaios paparazzo” sensuais com as jovens estrelas da dramaturgia (ou as velhas, repaginadas), ou em cenas de porrada entre mulheres, onde as caras duras ficam meio disfarçadas sob o mega-hair sacudido aos puxões.
Não vou perder meu precioso tempo assistindo cenas grotescas. Prefiro cuidar da vida, fazer minhas coisas.
Ir ao dermatologista, por exemplo. Tava precisando porque, depois de velha, voltei a ter espinhas como uma adolescente. O doutor até que foi ótimo, porque curou minhas espinhas em 1 mês. Achei que ele fosse se orgulhar desse resultado, mas agora, pensando bem, suponho que ele teria preferido que eu demorasse mais tempo, mais peelings e mais cremes pra ficar boa. Mas eu sou saudavelzinha, fazer o quê?
Daí que, quando eu estava naquela posição vulnerável, deitada na cadeira igual à de dentista, sob a lente de aumento e com aquela luz horrorosa revelando todas as minhas imperfeições, refletidas no espelhão gigante em frente, o doutor mandou essa:
– A gente podia tirar essas ruguinhas aqui em volta dos olhos…
(eu não me dei por achada)
– Ah, doutor, até que, pra uma balzaquiana, eu não tenho tantas rugas assim. As pessoas acham que eu tenho quase 10 anos menos. Eu não quero parecer que tenho 13 anos! Acabei de me livrar das espinhas…
(mas o momento “segura de sua beleza” dura pouco)
– Doutor, o senhor acha mesmo que eu estou enrugada?????
– Deixa eu ver. Enruga a testa…..com força!
(obedeço pensando em Lady Macbeth em seus delírios de horror)
(ele tenta, sem sucesso, franzir a própria testa ao me dar o diagnóstico)
– Ihhhhh….
(qual auto-estima resiste a isso??)
_ Um botox aí ia bem…
(mas aí ele falou a palavra errada para a pessoa errada. Eu mesma me surpreendo às vezes com as minhas reações)
– Doutor… (empurrando a lente para o lado e levantando da cadeira) se o senhor disser mais uma vez que eu pareço velha, eu saio por aquela porta e vou procurar um médico que diga que eu sou bonita. Eu vim aqui tratar espinhas, não velhice. Não me sinto nem um pouco velha. E injeção na testa, nem de graça!
O doutor esbugalhou os olhos e foi lá pra outra salinha, onde ficou uns bons minutos digitando na minha ficha, tlec-tlec-tlec. Espero que ele tenha posto um lembrete em letras vermelhas garrafais pra nunca mais tentar me detonar pra vender tratamentos. Terminamos muito amigavelmente a consulta e só na saída eu percebi que estava chamando o sujeito pelo nome errado o tempo todo. Ele não só não reclamou como, quando me desculpei, disse que eu podia chamá-lo como quisesse, que não tinha a MENOR importância, se despediu todo fofo e sorridente e ainda me deu amostrinhas grátis de uma máscara ótima de argila. Pianinho, me amando (ou fingindo que me ama, o que, na prática, é o que interessa).
As pessoas são mesmo muito estranhas.

A todas essas, preservei minha integridade motora e continuo 100% orgânica, não-transgênica e sem aditivos químicos. Sem neuro-toxinas botulínicas, próteses plásticas, cabelo alheio e outros adendos bizarros da cosmética contemporânea.

A quem se utiliza deles, meu respeito e admiração pela coragem e pela dedicação à causa narcísica.

Às que os dispensam, unamo-nos! Eu nos acho lindas do jeitinho que nós somos e com a idade que nós temos. Ainda deve ter gente que concorda comigo.

Belben

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belben.jpgHoje é o aniversário de 47 anos do meu irmão mais velho. Mas essa noite não tem parabéns aqui em casa, porque ele morreu há 12 anos. Tanto tempo que também não tem missa, e ninguém lembra mais de dar os pêsames, o que, aliás, não faz a menor falta. Quem faz falta é ele, o meu irmão. Que morreu com a idade que eu tenho hoje, até menos, um pouco. Portanto eu envelheço aos pouquinhos ao passo que ele não, ele fica jovem pra sempre.

Mas vai desaparecendo. Das nossas vidas, das conversas. Seus amigos, ficando coroas, muitos já avós, talvez nem lembrem que hoje é seu aniversário. E olha que, em seus tempos vivos, ele era muito popular. Bonito (ele era realmente lindo, mas é que pega mal eu falar), extremamente inteligente e sobretudo a pessoa mais engraçada que já encarnou até hoje. Sério, ele era muito hilário, de passar mal. Tinha histórias incríveis, ou as tornava incríveis com seu modo especialíssimo de contar, o que torna frustrante qualquer tentativa de reproduzí-las. Formavam-se rodas à sua volta, onde quer que estivesse. Animava qualquer ambiente, o que lhe garantiu trânsito livre nas festas mais espetaculares do Rio de Janeiro, e também de Paris ou da Riviera Italiana. Melhor que ir a essas festas, só ouvir seus relatos.

Mas os mortos não são populares em nenhum lugar do mundo, simplesmente porque lembram... a morte. Ele não é mais convidado para festas, nem mesmo em espírito, e já deve ter um belo contador de piadas circulando no jet-set internacional, em seu lugar. Assim é a vida; assim é a morte.

Perdão se toco, uma vez mais, neste desagradável assunto. É que está chovendo, portanto eu não pude realizar o pequeno ritual que meu irmão me ensinou num sonho. Ele tomou uma pílula que lhe deu algum tempinho de vida e assim pôde vir numa festa aqui em casa. Eu fiquei muito feliz em vê-lo, claro, e nos abraçamos (foi tudo MUITO real), mas eu estava aflita porque sabia que aquele efeito da tal pílula era passageiro e ele iria embora novamente, então perguntei como poderíamos nos comunicar.
Ele disse que tinha 3 maneiras de falar com ele mas, sabe como são os sonhos, só deu tempo de me contar uma delas: eu poderia colocar bilhetinhos em balões de gás.

Desde então, nos dias de seus aniversários de nascimento ou de morte, sempre que posso eu solto 3 balões, onde amarro bilhetinhos falando de nossas saudades e contando as boas novas, como o nascimento de meu filho, que ele não chegou a conhecer mas que conhece muito bem o Tio Belben, porque eu contei pra ele desde pequenininho sobre esse tio lá do céu. E ele sempre adorou soltar os balões e ficar vendo eles sumirem lá no infinito.

Mesmo com chuva e sem balões coloridos, vou escrevendo a meu modo este bilhetinho aqui, pra que ele saiba que eu não esqueci e que, enquanto eu estiver no mundo, ele não vai desaparecer totalmente.
Quem sabe essa não é uma das duas outras maneiras que não deu tempo dele falar?
Qual será a terceira? Ai, eu sou tão curiosa, essa questão me intriga há anos… O Belben sempre foi muito sacana, deve estar rolando de rir da minha cara lá do outro lado!
Vai ver é isso, é só dar uma boa gargalhada, daquelas de lavar a alma.
Taí, bingo.

O Circo

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Sempre fui louca por Circo. Fui poucas vezes, na infância. Acho que minha mãe não era muito fã do programa, ou todo mundo naquela época andava meio traumatizado por causa do incêndio do circo em Niterói, aquela tragédia que acabou por “revelar” o Profeta Gentileza (informação aleatória: muito embora reze a lenda de que ele perdeu toda a família no incêndio, tal fato não ocorreu. Ele abandonou sua própria família e uma vida confortável no interior para prestar auxílio aos familiares das vítimas, seguindo uma revelação espiritual. Sei de fonte limpa, meu amigo fez um filme sobre ele). Fato é que fui poucas vezes ao Circo na infância, não mais que 2 ou 3, portanto pude fantasiar à vontade em cima de cada imagem que consegui capturar então.

Mais do que o show espalhafatoso, que sempre achei meio cafona, ou a profusão de animais torturados, que ofendiam meu espírito ecológico (eu fui uma eco-militante mirim), me fascinavam os números de risco, em que eu percebia a iminência da morte. As facas, os números com fogo, as pirâmides humanas, o trapézio. Aquilo me provocava um verdadeiro êxtase, e um desejo irresistível de estar ali, oferecendo a minha própria morte em espetáculo. Cheguei a fazer umas aulinhas de circo na adolescência, onde experimentei, ainda que brevemente, a sensação de subir num trapézio, ou de me atirar de costas de uma plataforma de 4 metros de altura e cair num colchão, ou escalar um tecido. Mas não tive fibra para persistir diante dos apelos maternos, reforçados maldosamente por previsões astrológicas catastróficas que prometiam aleijões e seqüelas as mais terríveis. Minha faceta mais covarde aliou-se à mais preguiçosa e venceu por maioria absoluta. Abandonei os saltos mortais e resolvi investir em técnicas de "clown": acrobaciazinhas menos arriscadas, nada além de uma parada-de-mão ou uma estrela, só pra poder ver o mundo de cabeça-pra baixo e aprender a cair os mais variados tombos sem perder o rebolado. Meu palhaço, com a idade, tornou-se tímido e o Circo perdeu meu talento. Mas ainda sou dura-na-queda. Ou antes, macia (esse é o segredo!).

No entanto havia na atmosfera circense algo que me fascinava ainda mais que o picadeiro. Um breve recorte, um vislumbre roubado entre ir ao banheiro e voltar: a vida fervilhando por trás da lona, os bastidores. Os trailers, com sua vida nômade suspensa entre a irrealidade do espetáculo e a concretude das meias no varal, os cães e as crianças que circulavam por ali. Ah, que inveja eu sentia daquelas crianças, que viviam viajando e conhecendo gente diferente, aprendendo truques, uma vida de emoções sempre novas, luzes e festa. Mesmo a notória precariedade e a impressão de pobreza do “acampamento” não me incomodavam, era uma pobreza rica, colorida, feliz. Quem precisa de muito dinheiro quando vive assim em meio à arte?

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Minha avó materna compartilhava da minha paixão. Sempre disse que queria ter fugido com o Circo. Eu achava essa idéia incrível, altamente sugestiva, fugir com o Circo.
Então uma vez ela me contou a história de uma contra-parente sua contemporânea, a Maricotinha-dos-Apitos, que foi "roubada" pelos ciganos do Circo, ainda criança (esclarecimento: na maioria das vezes, as crianças eram, na verdade, abandonadas pelas famílias e recolhidas por ciganos. Era uma forma prática de resolver gravidezes indesejadas e outros deslizes do planejamento familiar). Anos depois ela reencontrou a família de sangue, que era abastada e lhe acenava com confortos e dignidades, mas preferiu continuar com sua gente adotiva. Ela amava sua vida de artista e não a trocaria por nada. Deixou para minha avó, como lembrança, um xale preto todo trabalhado em metal dourado, que usava em seu número de andar sobre a bola. Minha avó me deixou de herança o xale e essa alma cigana, que não está no sangue. Um gosto por trupe, caravana, música e dança. Por saia rodada e lenço. Por contar e ouvir histórias. Brincar de adivinhar a sorte.

Mas eu, como minha avó, não segui o Circo, fiquei só imaginando. Minha avó cantava e recitava poesia enquanto cozinhava, arrumava a casa. Foi assim que eu aprendi “Os Lusíadas”, “O Navio Negreiro”, “I-Juca Pirama”, sonetos de Camões… Vovó era uma diva doméstica, uma artista do cotidiano, preenchia com a vivacidade de seu espírito as tarefas mais bisonhas do dia-a-dia. Tinha o Circo em si.

Eu cuido da minha alegria para que minha avó não se perca da família, para que o espetáculo possa sempre recomeçar.
Os cães ladram, mas a caravana passa. A gente recolhe a tenda aqui, pra armar a festa ali adiante.

Eu andava meio tristinha com umas bobeiras aí, mas quer saber do que mais? Palhaço que é esperto aproveita a queda e levanta na cambalhota.
Hoje tem brincadeira? Tem, sim sinhô!

Cine-Preguiça

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Eu sofro de uma estranha síndrome, ainda não descrita pela ciência: a Síndrome da Preguiça Crônica De Ir Ao Cinema. Não, não é a Síndrome da Fadiga Crônica, aquela doença cinematográfica do Sean Connery. É preguiça mesmo. Não tenho fadiga alguma, sinto-me perfeitamente bem. Agora mesmo, poderia calçar meus tênis e dar uma volta na Lagoa. Correndo. (ah, deixa eu exagerar, vai)

Mas se você me convidar para ir ao cinema, eu vou dizer “hum…” , enquanto procuro uma boa desculpa. “Agora não dá, estou escrevendo”. Como se eu ganhasse alguma coisa pra isso. Se fosse trabalho, vá lá, mas deixar de ir ao cinema pra ficar escrevendo “di grátis”… nunca consigo convencer os amigos na primeira evasiva e sempre gasto bem mais saliva do que o previsto na negociação. “Tô dura” só é bom argumento com os pobres, os remediados pra cima se oferecem pra pagar. Oh, céus.

Então vou expor aqui todas as minhas razões, de maneira organizada e, da próxima vez que me convidarem, vou enviar este texto pela internet. Parece uma boa tática.

Em primeiro lugar, devo deixar claro que aprecio muitíssimo a sétima-arte, acho das coisas mais interessantes já inventadas pelo homem, depois da asa-delta e da literatura.
Minhas razões não são de ordem ideológica e muito menos artística, mas tão-somente operacionais. Pragmaticamente falando, uma simples relação custo-benefício.

Veja bem. Eu nasci, e tenho a sorte de viver até hoje, num dos lugares mais bonitos do mundo. Não contente em viver no Rio de Janeiro, eu ainda me dou ao luxo extremo de morar no Horto. Pra quem não conhece, o Horto é um mini-bairro espremido entre o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, A Lagoa Rodrigo de Freitas, a Floresta da Tijuca e a Rede Globo (nada é perfeito). Um pedacinho do paraíso, resquício de um tempo que não existe mais. Meia dúzia de ruas arborizadas e tranqüilas, onde sobrevivem arcaicos pregoneiros (olha a vassoura aê…), as crianças soltam pipa e as senhoras gordas põem cadeiras na calçada pra botar a fofoca em dia. Agora mesmo estou escutando o canto de pelo menos 3 tipos diferentes de passarinho, e posso ouvir mais ao longe os gritinhos dos micos. Da janela vejo os morros verdes e, de esguelha, distingo o recorte azulado do pão-de-açucar lá no fundo. Dos fundos da casa, vejo o suvaco do Cristo Redentor. A primavera explodiu a orquídea do jardim em uma nuvem de mini-flores amarelas, e as marias-sem-vergonha estão coalhadas de brotinhos mais gostosos de estourar que plástico-bolha.

Agora, você quer mesmo que eu me enfie numa salinha escura pra ver Kill Bill 2???

(pausa para um cafezinho na cafeteria do Jardim Botânico)

Você vai me perguntar: E quando o dia acaba e a noite chega, mandando pra casa os passarinhos, os micos e os pregoneiros?

Bom, aí eu já dei uma volta na Lagoa, fiz um tour pelo Jardim Botânico, estou confortavelmente instalada, descalça e pés pra cima diante do meu computador, me distraindo com meus próprios pensamentos. Você quer mesmo que eu me vista, ponha sapatos e me desloque no mínimo 2 bairros para chegar ao cinema mais próximo? Sim, porque no Horto não tem cinema (nem farmácia, nem supermercado, nem outros estabelecimentos de primeira necessidade. Pra quem precisa dessas coisas).

Cinema é alimento para o espírito, eu sei, eu sei. Mas sempre existem dietas alternativas. Não tenho paciência pra assistir vídeo nem TV, mas tem livro à beça aqui em casa. Além disso, eu sempre posso ir ali na sala bater um papinho com a minha mãe, que é a pessoa mais interessante de se conversar em todo o planeta Terra. E também tem meus irmãos que, quando não estão sendo insuportáveis, sabem ser muito divertidos. Sem falar do meu filho, que é um espetáculo ambulante. E sempre pode acontecer uma visita surpresa dos meus amigos que, modéstia à parte, são a fina-flor do interessantismo nacional (afinal, são ninguém menos que os meus amigos).

E tem esse negócio do horário, né? Ô coisa chata, ter que chegar na hora certa numa atividade de lazer. Nunca consigo e, em toda a minha escassa filmografia, via de regra faltam as cenas iniciais. Eu sempre juro que vou assistir de novo o filme pra ver o início, mas aí falta ver tanta coisa…

Eu ouvi dizer que o Chico Buarque também tem essa minha doença e que, toda vez que perguntam qual o último filme que ele viu, ele responde “Corra, Lola, corra”. Achei ele super atualizado, porque o meu último, não tenho bem certeza porque foi há muito tempo, mas acho que foi “Titanic”. Ah, teve uns infantis a que a maternidade me obrigou, de lá pra cá, mas foram poucos porque eu geralmente empurro este programa para o progenitor da criança. Tem também os filmes de amigos, em sessões nos Cine Odeon da vida, mas esses, por não terem sido vistos por mais ninguém, não servem de assunto nas rodinhas de chopp, e não livram minha cara quando os assuntos cinéfilos vêm à baila.

Acho que vou convidar o Chico Buarque para um chopp. Tenho certeza de que teríamos assunto para uma noite inteira (pra muitas, mil e uma) sem que nunca um precisasse perguntar para o outro “viu aquele filme?”.

Luis Severiano Ribeiro que me perdoe mas, na minha ordem das coisas, cinema pode não ser a maior diversão. Fazer o que se a minha vida é mais interessante que a da Uma Thurman?

* * *

Já que uma lista dos filmes-que-eu-preciso-ver-urgentemente não caberia nesse espaço, faço aqui uma lista dos filmes que eu vi e de que ainda me lembro. Se quiserem conversar comigo sobre cinema, tenham o bom-tom de se ater a estes títulos.

Hair - mais de 15 vezes.
Embalos de Sábado à noite
Fama
Grease (eu gosto de musicais, fazer o quê?)
Dersú Uzalá
Betty Blue
Meu Tio
Retratos da Vida
Cria Cuervos
A Lagoa Azul (eu era adolescente, pô!)
Pulp Fiction (eu estava grávida – péssima escolha)
O Barato de Grace (Nesse dia eu cheguei em casa e me separei. Não sei se o filme teve alguma culpa nisso, até que eu tinha dado boas gargalhadas, deve ter sido a última vez que gargalhamos juntos. Nada como uma bonança antes da tempestade)
Titanic (pode ser que o Barato de Grace tenha sido posterior, já que nessa ocasião eu ainda estava casada. De qualquer modo, a ordem dos naufrágios não altera o produto)

Qual será o próximo filme que eu não vou ver? Alguma sugestão?

Memórias

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Deve ser um trânsito astrológico (explica aí, Maria Helena, ou será que você foi mesmo abduzida?). Por uma série de coincidências concomitantes – isto deve ser uma redundância mas minha vida está assim, redundando sobre si mesma – tenho sido levada a exumar meu passado.

Não posso reduzir o fenômeno a um mero “efeito Orkut”, muito embora deva admitir que este clubismo internáutico teve lá sua parte na arqueologia dos reencontros (tendo sido esta, aliás, a maior, senão a única utilidade que encontrei na referida ferramenta que transforma pessoas em fichas e suas relações sociais em álbuns de figurinhas. Mas não sou mal-humorada, aderi à brincadeira, ainda que timidamente, e admito: só por esta função “túnel do tempo”, a xaropada toda já se justifica). No entanto a maré retrô parece ter um alcance mais amplo, e tenho encontrado amigos antigos na rua também, primeiros namoradinhos (já carecas, socorro!), gente do arco-da-velha.
E não só isso, a vida vem em ondas, como bem disse o santo Lulu. Recebi há algumas semanas, de meu ex-marido, uma grande remessa de fotos que eu tinha deixado por lá, nas quais eu mesma, felizmente, pouco apareço, já que na maioria das vezes sou a fotógrafa, mas que reavivaram fatos, pessoas e lugares que marcaram minha trajetória.
Também há pouco, minha turma de Teatro fez reencontro de 15 anos de formados (e eu faltei, na hora H me deu preguiça, pode? Chovia muito. Mas troquei zilhões de e-mails com essa tribo anárquica e dionisíaca, dos ditirambos de minha idade pré-clássica ).
Achei meu caderninho chinês brocado, que é mais velho do que eu imaginava, já que tem dedicatórias dos colegas do ginásio, portanto remonta aos meus treze anos. E ainda fiz, junto com meu irmão, um tour imaginário por nosso colégio dessa época, lembrando cada espaço, cada canto, os móveis, os personagens que povoaram nossa infância e pré-adolescência. Passamos mal de rir a cada detalhe insignificante que era desencavado. Ele também cultiva esse interesse bizarro pelo aleatório inútil, acho que essa doença é genética.

Então eu sofro dessa memória meio absurda, quase sólida, estou em pleno surto mnemônico e não sei bem pra quê isso serve, além de dar risada.

Eu lembro do primeiro número de telefone da minha casa. Da minha professora do maternal (e eu só tinha 2 anos!). Do refeitório da pré-escola, a toalha plástica xadrez, a bica para lavar as mãos, e cada um dos meus coleguinhas, que não encontro desde então. Vejo como num filme o pátio onde eu fazia bolinhos de areia segundo uma técnica bastante elaborada, o pé de carambola e o gosto ora azêdo ora doce de seus frutos, que me ensinaram a diferença entre verde e maduro.
Lembro de um pensamento que eu tive no banheiro de casa, lá pelos meus 9 anos, olhando para os azulejos que agora ainda posso ver diante dos olhos, e pensando em quantas coisas da minha vida eu já tinha esquecido. Então pensei que não queria nunca esquecer aquele pensamento, nem quando eu ficasse bem adulta – assim como eu quase sou hoje– pra não esquecer que eu tinha sido um dia aquela menina que pensou aquilo. Pra não esquecer de mim. E me surpreende que eu não tenha mesmo esquecido. E me dá uma certa dó de que eu, tão jovem, já fosse nostálgica.
Lembro perfeitamente de pessoas que nem me conhecem mais, recordo seus rostos, seus nomes, suas histórias, seus familiares. Não é nenhum esforço, eu simplesmente acesso as informações mais inusitadas, elas me vêm por todos os lados. Pra quê?

Às vezes fico parecendo maluca, descompassada, acenando na rua pra gente que não me acena de volta e ainda olha pra trás com cara de “é comigo?”. Ou então expresso todo meu entusiasmo ao reencontrar um amigo remoto de quem ainda me considero íntima e fico falando sozinha, feito boba. Cada vexame que só vendo.
Os outros ficam sempre parecendo muito mais ocupados com coisas importantes do que eu, que gasto meu tempo com pessoas e outras distrações. Mas já me habituei a passar por doida e perdi a vergonha de andar por aí cantando, inventando moda, olhando pra ontem e colhendo impressões a esmo. Se não são atividades das mais úteis e nem me rendem altos dividendos, também não parecem imorais ou violentas. Os loucos inofensivos costumam ser deixados em paz, e tenho me fiado nisso ao expor assim minha inadequação.

Sigo teimosamente minha trama, costurando o inconsútil, tentando me atar à vida que passa. Bordando em mim mesma um sentido em tanto retalho, um futuro em tanto passado. Nem sempre é possível escapar da solidão do nosso próprio caminho, nem sempre se pode comentar a paisagem, mostrar aquela página secreta do diário de bordo. São minhas relíquias, talvez não sejam importantes pra mais ninguém.
Lembranças não-compartilhadas são tão reais como sonhos. E acabam sendo, talvez, contaminadas por eles. Não dou garantia de minhas memórias, elas podem ser distorcidas, exageradas. Mas dou fé, as tenho. Enquanto tiver espaço em meu baú – e sempre há tanto vazio aí, um universo a preencher – vai entrando gente, idéia, afeto, imagem, música, história de verdade e de mentira. Vai ficando mais preciosa e colorida a minha coleção.

Ainda que seja invisível de fora e impalpável, há de ter alguma serventia tanta matéria insólita. Nem que seja pra escrever estas bobagens por aqui. Nem que seja pra embaralhar tudo e reeditar num sonho. Nem que seja pra esquecer quando eu despertar.

Fotofobia

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A fotografia tem o condão de resumir, num flash, todos os meus defeitos, e ocultar todas as minhas qualidades. Por isso é que eu raramente exponho minha imagem à lente dos paparazzi.
Você deve estar achando que eu sou uma monstra, mas na verdade eu não sou tão feia assim. Ainda não pareço muito velha, mantenho meu corpitcho em boas condições à base de caminhadas e até alguma musculação, e a cara que me coube ostentar, se não é nenhuma obra de arte, também não envergonha a família. Tudo bem que um dos meus dentes da frente cruza a perna sobre o outro, mas não parece tão grave, tem até gente (pouca) que acha charmoso. E eu dei um jeito de bagunçar o coreto um pouco mais, quebrando meu (até então) perfeito nariz, orgulho da mamãe. Ele ficou parecido com o que era antes, só ganhou um calinho ósseo onde outrora arrebitava e saiu ligeiramente do prumo, acentuando minha inata assimetria. Mas eu juro que não assusto criancinha. Andando, falando e me movimentando, tenho conseguido sobreviver no mundo das aparências. Não podendo competir por luxo, a gente ganha por originalidade.
Agora, quando minha figura é capturada por uma câmera, acontecem várias coisas estranhas, com as quais não consigo me acostumar. Em primeiro lugar, fico muda, o que, convenhamos, já tira boa parte do meu charme. Em segundo lugar, os ângulos retos da moldura ressaltam as discrepâncias e fazem meu retrato parecer um Picasso. O dente de perna cruzada sempre brilha mais que os outros, e ainda aparecem malignos pontos vermelhos no fundo de meus olhos. Isso quando eles estão abertos, porque eu sou campeã em fechar o olho na hora do xis. Se, por descuido da caminhada, eu tiver acumulado um mínimo pneu na cintura, ele estará lá, se exibindo na calibragem máxima – está cientificamente comprovado que câmeras engordam cinco quilos, no mínimo!
Enfim , fotografias são um balde de água-fria na minha auto-estima. Não gosto e pronto. Lembrem de mim pelo que sou, quem me vê ao vivo me conhece, quem não conhece terá que imaginar. Este ano, por exemplo, só tirei umas 4 ou 5 fotos, mas 3 foram vetadas pelo controle de qualidade. Em duas eu fechei os olhos. Na outra, eu tinha acabado de enfiar um sushi – dos grandes – na boca (este gentil e oportuno fotógrafo chama-se MEU PAI!). Sobrou uma, tirada por um amigo querido, em que exibo uma postura péssima e que de modo algum me agrada mas que salvei por via das dúvidas e, na falta de outra melhor, a tenho usado, a contragosto, cada vez que preciso comprovar minha existência material.
Tais são minhas agruras fotográficas. A baixa fotogenia foi uma das razões para eu desistir – para o bem de todo o público – de minha carreira de atriz. Foi também o que livrou meus amigos de assistirem vídeos do meu casamento. As poucas fotos que eu permiti foram preto-e-brancas e ficaram bonitas, parecem antigas e tudo, mas não olho nunca, me acho meio ridícula. Mesmo fotos da infância me incomodam um pouco – gosto de ver as dos outros, não as minhas. Enfim, não gosto de ficar me olhando em 2-d, congelada no passado, rígida e sem perspectiva, chapada num papel ou numa tela. Prefiro olhar pro futuro.
Estranho, né? Hoje em dia, todo mundo adora sair na foto, aparecer na televisão. Eu, não. Ao vivo não sou propriamente tímida, mas fico envergonhada com a minha imagem solta de mim por aí, nunca sei como ela vai se comportar. Sou que nem índio, índio também não gosta de fotografia, diz que aprisiona a alma.
Sou assim meio selvagem mesmo, arredia aos enquadramentos contemporâneos. Prefiro ser vista por olhos nus, porque eles são esferas e andam aos pares, portanto sabem ver minhas luzes na profundidade de suas dimensões.

Da série “novas diretrizes em tempos bicudos”:

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Pirate Face2.jpg

Sou pirata até que a maré mude.


Eu tinha pruridos de comprar cd pirata. Mas com o mau estado atual da minha conta bancária, resolvi proceder uma pequena distribuição de renda, uma reforma agrária no campo da minha própria pessoa. Ou seja: Diante da mendicância musical em que a dureza estava me confinando, resolvi aderir à pirataria sem culpa, salvando apenas aqueles artistas que sejam mais pobres do que eu ( acho que nesse grupo só ficaram o Daminhão Experiença e uns poucos malucos meus amigos, aos quais já encomendei meus originais autografados). Eu tenho certeza que não estou tirando leitinho da boca do bebê da Maria Rita, e também aposto que o Caetano Veloso não vai ter que vender a cobertura da Vieira Souto por causa disso. Ah, e o dono da EMI, tadinho? Será que vai ficar pendurado na prestação do avião?
O pirateiro meu amigo é um carinha bacana, ralador, tá se virando como pode. Faz um trabalho limpinho, som perfeito, põe capinha colorida, transporta, vende, foge do rapa e ainda consegue cobrar míseros R$ 5,00 por um produto muito similar ao original, que não sai por menos de 30. Pô, tem alguém ganhando muito nisso, e não é a cultura.
A indústria fonográfica que se coce pra praticar preços competitivos. Se o original custasse R$ 7,00, eu pagava, mesmo sendo um pouco mais caro, pelo prazer de remunerar o artista, e pelo luxo de um encarte com as letras. Quase ninguém faz xerox de livro hoje em dia, porque sai quase o mesmo preço e fica feio. Então é sinal de que as editoras correm mais atrás de seu prejuízo. Mas convenhamos que, na música, a diferença é gritante. E olha que a indústria compra matéria-prima no atacado, prensa em série e nem paga tão bem assim os músicos e técnicos. Tem pirata grande aí nessa rede, tubarão branco comendo nosso tutu.
Então agora eu sou a Robin Hood dos trópicos, uma desobediente civil na legítima defesa da musicalidade nacional: contra os preços abusivos, pirataria já!
A minha vida e a do meu pirateiro vão cada vez melhor, quem canta seus 7 mares espanta.

Sugar blues

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Estava eu em meu contemplativo sábado sem criança em casa, quando fui subitamente transportada por um vagalhão de decibéis diretamente para dentro de uma festinha infantil na vizinhança. É bem verdade que mal se ouviam os moleques, subjugados em sua natural algazarra pelos superpoderes de um amplificador turbinado. O (des)animador comandava a tropa com punhos de aço, propagando a todo o bairro os nominhos dos insubmissos em reprimendas, enquanto premiava os obedientes com balinhas. Como golfinhos de aquário quando batem palmas na hora certa. E tome música aos berros pra que não possam escutar nem seus pequenos pensamentos. Com tanto refrigerante nas veias, as crianças ficam mesmo excitadas e executam com impressionante agilidade as estranhas coreografias ao som de “vai, lacraia”(!), sem falar nas sado-olimpíadas a que são submetidas para ganhar mais doses de pirulitos e porcarias plásticas. (Sempre penso que daqui a milhões de anos, quando algum cyber-arqueólogo desencavar nossa estranha civilização, nossa sociedade será analisada através destes indegradáveis brinquedinhos que infestam os quartos infantis de todo o mundo. Como todo achado arqueológico inexplicável é sempre classificado como “um objeto ritualístico”, que espécie de impressão havemos de causar, com nosso panteão pokemônico?) Mas voltando às criancinhas glicosadas. Ainda que involutariamente, acompanho enquanto cumprem seu deprimente roteiro e, em momento estratégico – pouco antes do fim – são levadas à overdose glicêmica com o bolo e os docinhos. Nocaute. É o ciclo de todas as drogas: prazer crescente, pico do efeito mas, se exagerar, vem o tombo. Aí é o inferno, e temos a famosa depressão-pós (com trocadilho). Quem já foi, sabe como terminam as festas infantis. As crianças ficam chatas, sentem sono, se engalfinham, um que ainda não caiu duro corre demais e se machuca, bolas estouram assustando os menorzinhos, que choram muito. Hora de acabar. Os drogadictos-mirins são carregados nos ombros por pais tolerantes. Coniventes, porque também encheram a cara de brigadeiro.
Graças a Deus já acabou a festinha, mas ainda estou meio surda. Vou lá na cozinha comer um tasco de pudim, que de amarga é que eu não morro.

Sincronicidade

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Eu acredito em Sincronicidade. É uma teoria do Jung (Carl G. Jung, psiquiatra suíço, 1875 – 1961) que sugere que todos os eventos que acontecem em um mesmo tempo estão interligados, ou seja, existe uma ordem oculta no caos que não pode ser inteiramente apreendida mas que está contida por completo em cada menor parte do todo. Como um código genético do momento, presente em cada diferente célula. Então, quem tem olhos de ver pode enxergar ou, ao menos, ter um vislumbre do todo em cada evento isolado.

A sincronicidade é, na minha opinião, o melhor fundamento para a eficácia dos oráculos: são células do organismo em que a expressão do código genético é mais acessível, porque já foi mapeada e descrita pelo projeto genoma da experiência humana – os sistemas simbólicos.

Mas na verdade me parece que a vida é o grande oráculo, a ordem dos fatos, a escrita do dia-a-dia. Os nunca-por-acasos. Os encontros, ou não. Às vezes os silêncios também podem ser muito eloqüentes.

Eu tenho essa mania de ler a vida, ver em tudo um significado. Em Psicologia isso se chama “pensamento mágico” e é um sintoma patológico presente nos obsessivos, nos paranóicos e nos esquizofrênicos. Ainda não decidi o meu diagnóstico. Enquanto isso, minha camisa-de-força virou estopa e eu ando por aí à solta, dando um sentido íntimo às nuvens do céu, às palavras entreouvidas a esmo, à soma dos números das placas e dos bilhetes, à disposição das marias-sem-vergonha no canteiro do jardim.

Com pensamento mágico, a minha vida fica mais divertida. A vida não é um jogo – um “role-playing game”? Deus não joga dados? Ah, a ciência diz que não.
Mas esse Einstein tem mais cara de maluco do que eu.

João

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Não é Augusto
Não é Ricardo
João-sem-nome
O pai, um traço

Um osso em cada tijolo
Mão-de-obra barata
Antes de tudo um forte

É pedra-pra-toda-obra
Viga-mestra, coluna
Um pilar, um poste

Mutações

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Não sei se eu sou uma crédula, porque toda vez penso “eu sinto que é ele, vamos lá!”, ou se sou uma cínica, porque toda vez eu chego lá e penso “hum…sei não…” e começa a saraivada de críticas pra no final constatar, como sempre: “é, ainda não foi dessa vez”.

Não estou falando do príncipe encantado, não hoje. Estou falando do Mestre. O gafanhoto tinha, o karatê kid também, até o Paulo Coelho arrumou um antes mesmo de ficar rico. Então eu estou sempre de olho, pra que não me ocorra, por distração, de cruzar seu caminho e não reconhecer. Claro que todo mundo tem o que me ensinar, eu já aprendi mais com minha tartaruga sobre sobrevivência às intempéries do que com todos os meus livros de psicologia. Mas eu falo de uma relação formal mestre-discípulo, uma iniciação personalizada que me fizesse ascender a um estado búdico.

Esse cara último, eu conheci (entenda-se por conhecer: saber da existência) quando tinha 15 anos, e isso faz tempo. Minha prima mais velha, ídola absoluta – vinte-e-poucos anos, linda, hippie-chic, sexy, inteligente e cantora – foi à China (!) e voltou cheia de novidades. Trouxe pra mim um caderninho vermelho de encadernação brocada que tenho até hoje e, pra minha mãe, um exemplar (traduzido para o português, evidentemente) do “I Ching – O Livro das Mutações”. Era um livro a quem se podia fazer perguntas! Eu tinha quinze anos e um milhão de perguntas por segundo. Mal deixei minha mãe chegar perto, carreguei-o para o quarto, onde o mantenho até hoje, sempre ao lado da minha cabeceira (claro que, de uns anos pra cá, tenho meu próprio exemplar e devolvi o bagaço do outro à biblioteca da família). Destrinchei seus mecanismos oraculares e passei a me divertir com as respostas bizarras e poéticas. Com o tempo, aquelas imagens passaram a fazer sentido, não muito, mas davam um sem-sentido poético às coisas bizarras que eu vivia. Tem sido assim há 20 anos; eu e o “velho” nos entendemos bem. Ele às vezes mente pra mim, e eu perdôo. Eu encho o saco dele com as mesmas perguntas, e ele responde (quase)sempre com uma paciência chinesa, até que eu entenda ou desista de perguntar.

Mas eu queria alguém de carne e osso. Podia ser uma mulher, uma velhota, uma criança, qualquer interlocutor mais…animado que um livro. Desde que fosse sábio, modesto e interessante como este surrado volume sabe ser.

E quem melhor do que o próprio autor do livro? Não do antigo oráculo do I Ching, esse já virou lenda há uns bons três mil anos. Assim como já viraram pó o Rei Wen, o Duque de Chou, Confúcio, Richard Wilhelm, Carl G. Jung e tantos outros elos que ligam minha leitura atual à China remota; são mestres-de-papel, não podem bater com um bastão na minha cabeça.

Mas a ponta de cá desta corrente, o primeiro tradutor do I Ching para o português (a partir da versão alemã, prefaciada por Jung), o – circunscritamente, mas ainda assim – famoso prof. Gustavo A. C. Pinto – que foi professor da minha tal prima naquela época, e foi inclusive seu cicerone naquela viagem à China – este está vivo, e ainda surpreendentemente jovem. E nos últimos anos, ainda por cima, sagrou-se monge budista! E veio ao Rio, após um retiro de 20 anos, para um ciclo de palestras!! Logo ali no Leblon, e a entrada era razoavelmente barata!!!

Dá ou não dá pra se empolgar? Eu fui pra lá, amarradona. Cheguei em cima da hora e consegui um improvável lugar na primeira fila. O universo conspira, eu pensei. O mal das expectativas.

Tá, o cara é legal, um coroa bonito, inclusive. Careca reluzente como a de um Buda de louça, fala mansa, um pouco demais da conta, e monocórdica (me lembrou o papa), com um estranho sotaque lusitano, visto que ele dizia ter nascido no Rio, se formado no Japão e vivido em São Paulo nos últimos anos.

Falou que nunca somos os mesmos, nada permanece.

Falou de Karma, Dharma, e do ciclo vicioso da violência:

ignorância =>desejos=>ira=>ignorância=>desejos …

Isso eu achei a melhor parte. A saída desse circuito? O desapego. Tudo muito bacana, mas tenho que confessar que eu já sabia.

Claro que nunca é demais lembrar mas, de alguma forma, eu esperava algo além. Um insight, um novo enfoque ou, no mínimo, uma pessoa mais surpreendente que me fizesse rir, ou me levasse às lágrimas. E olha que, pra rir ou chorar, eu sou facinha.

E tinha um negócio dele não querer falar “eu” pra não cair na “armadilha do ego”. Então, toda hora ele falava do “garoto que um dia atendeu pelo nome pelo qual hoje me chamam”, ou o “adolescente de quem ele se recorda e que atendia pelo nome pelo qual ele hoje atende”. Ou esse cara tem um homônimo que ele cita um bocado, ou me parece que ele falou de si basicamente o tempo todo, nas reminiscências que traziam “àquele garoto que um dia(…)”, as ruas, hoje tão diferentes – ele queria sublinhar a impermanência, eu sei, eu entendi – daquelas da “cidade que se chamava São Sebastião do Rio de Janeiro” quando “aquele garoto (…)” aqui vivia.

Sei lá, aquele preciosismo eufemístico me deu sono. Pode ser que ele seja um mestre no método “sleep-learning” de iluminação acelerada, mas fico mais com a sensação de que me enganei no caminho, que aquela pantomima toda é um (mau) disfarce pra uma pseudo-modesta egotrip. E o pior é que ele nem falou do I Ching. Parece que ele agora “mudou”; o “professor que um dia atendeu pelo seu nome” não existe mais. Pôxa.

Pelo menos meu livro permanece à cabeceira.

Volto ao prefácio do prof. Gustavo Pinto. Começa assim:

“O que hoje conhecemos com o nome de I Ching…” (Xi, há 20 anos o cara já era igualzinho!)

Deixa o prefácio pra lá e vamos às mutações propriamente ditas.

Começam assim:

“O Criativo promove sublime sucesso, favorecendo através da perseverança.

(…) O movimento do céu é poderoso.

Assim o homem superior torna-se forte e incansável.”

Não sei bem o que significa, mas gosto da simplicidade dos hexagramas, dos ideogramas intrincados que os traduzem, das palavras a que inexatamente correspondem, das imagens que evocam. Tô com meu chinês e não abro, ele é poético até quando mente.

Enquanto tiver forças, eu persevero no movimento, mesmo sem saber se o tal sucesso vem um dia, e se é de fato sublime.

Fico com meu velho livrinho, imutável entre as mutações. Melhor do que virar monja e começar a falar esquisito.

A minha dor é Doriana, a dor dela é Adorela

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(verso da música “Adorela” – DJ Dolores)

Por que as mulheres dos anúncios de margarina parecem tão mais felizes do que eu? Elas acordam sempre com sol, de bom hálito e maquiadas, nunca tiveram crise no casamento nem oscilações hormonais. Deve ser por causa do bom colesterol.
Sou chegada a um pão com manteiga, admito. Já tomei um ou outro porre mesmo sem gostar de beber e já devo ter feito coisa pior mas não vou ficar me penitenciando em público. O que eu fiz ou deixei de fazer por mim mesma, assumo e assino embaixo, sem culpa. Foram meus arroubos e também meus cuidados; minhas covardias e minha coragem.
Mas desde que tive filho, venho colecionando alguns momentos de que me arrependo, e não posso modificá-los.


Todo mundo lembra do dia em que aprendeu a andar de bicicleta, não é? Pois é, eu queria estar bem nessa fita, na memória afetiva do meu filho, num dia ensolarado na casa de seu avô em Angra dos Reis. Estava tudo conspirando para um perfeito anúncio de Becel. Mas eu me comportei como uma generala, dava 20 instruções ao mesmo tempo, bufava, virava os olhos e cheguei a ser mesmo estúpida, até cair em mim do ridículo da cena e delegar a função ao jovem caseiro, que teve muito mais psicologia – e obteve muito melhores resultados que eu, é lógico.
De nada adiantam agora meus insistentes pedidos de desculpas, os chamegos e muito menos a cansativa explicação sobre tpm. Num único intervalo comercial de seu desenho preferido, ele pode ver pelo menos cinco mães exemplares e equilibradas que alimentam seus filhos com gelatina, nescau e biscoitos e que não deixam dúvidas sobre quão má eu sou.
No entanto ele continua a repetir (contra todas as evidências) a cada vez que me abraça: “Você é a melhor mãe do mundo!”
As mulheres-margarina podem ser muito saudáveis e eu nem ousaria comparar nossos triglicerídeos, mas numa coisa eu me garanto: o melhor filho do mundo, quem tem sou eu.
* * *
Manual de obstruções

Fiquei dois dias sem internet. Tentei relevar o quanto pude, utilizando técnicas zen de esvaziamento da mente mas, afinal, vencida pela urgência das telecomunicações, resolvi enfrentar o inglório tele-atendimento da Net/ Vírtua. Depois de algumas horas de teclagens, códigos, musiquinhas e irritantes mensagens comerciais, fui afinal atendida por um ser (quase) humano:
– Em que posso estar lhe ajundando?
– Estou sem sinal desde ontem.
– Em sua área não constam problemas de sinal, estaremos agendando uma visita em 48 horas para estarmos verificando seu modem.
– Mas olha só, outro computador da minha casa, ligado a um outro modem num ponto com entrada independente, que passa inclusive por outra linha telefônica, ficou sem sinal no mesmo momento. Isso mostra que não é um problema do meu modem, pois como dois equipamentos diferentes podem ficar com defeito ao mesmo tempo?
– No computador não consta problema de sinal em sua área. Nós temos que mandar o técnico verificar o modem, é o procedimento.
– (Inspiro fundo e expiro em oito tempos)…mas isso vai levar mais dois dias e vai mobilizar um técnico à toa. Meu rapaz, deixe o manual de lado e use seu bom senso um instante.
– Minha senhora, não posso estar usando meu bom senso porque é contra os procedimentos da empresa.
– … (confesso que fiquei sem palavras.)
Vencida pela incomunicabilidade, agendei a visita. É claro que o problema se resolveu horas depois, como por milagre, nos dois computadores, antes da chegada do técnico. Como eu previa, não havia nada de errado com o modem, era problema do sinal que ultimamente, dia sim dia não, some por algumas horas sem explicação. Difícil foi enfrentar os procedimentos (des)necessários à desmarcação da visita.
Eu gostaria muito de ter acesso ao manual de regras do tele-atendimento da Net. Posso imaginar os termos:
“Cláusula primeira: é expressamente proibido usar de bom-senso no exercício da função.
Cláusula segunda: é obrigatório estar se expressando em paulistês gerúndico.
Cláusula terceira: o computador é soberano e suas informações são incontestáveis, ainda que absurdas.
Cláusula quarta (secreta): este é um experimento de laboratório para testar os limites da paciência humana. Para o bem da experiência, toda e qualquer facilitação da vida do usuário será punida com o rigor da lei.”
Vendo por esse ângulo, eu diria que eles são de uma eficiência absoluta. ISO 9005.

* * *
Eu não vim pra explicar

Minha querida amiga Lenora pediu semana passada uma pesquisa séria sobre o Amor e, embora eu muito quisessse agradá-la, não posso eslarecer ninguém acerca deste assunto. Tampouco saberia fazer pesquisa sobre tema tão controverso, sobre o qual já discorreram, com as mais bizarras conclusões, de Platão a Roberto Carlos – não saberia nem por onde começar. Uma busca de segundos no Google levou a oito milhões, oitocentos e dez mil sites sobre o assunto. Isso se eu quiser me limitar à lingua pátria; “love” levaria a nada menos que cento e dezoito milhões. (ei, reparou na estranha coincidência dos números? 8.810.000 ; 118.000.000 – estes números foram exatos na minha pesquisa, saíram assim redondos, juro! Será que é um sinal, será que algo me está para ser revelado sobre o amor?) – tá vendo, este é o tipo de pesquisa “séria” que eu faço!
É isso, do amor eu só espero o milagre, a coincidência divina, a revelação. O resto é conversa pra filósofo dormir.
Então vamos parar de conversa e sejamos práticos:
Amem (do verbo Amar, no Imperativo Categórico Universal)
Amém (Assim seja)
É a minha opinião. E nada mais posso dizer do que desconheço, não posso garantir e no entanto creio com mais fé que em Deus. Ainda que em vão, eu amo até prova em contrário.

Angu

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Eu não tenho time de futebol. Depois de adotar 4 ou 5 diferentes bandeiras em busca daquela do coração, aposentei a revirada casaca e assumi a indefinição crônica. Não sei nada sobre futebol, vou torcer pra quê? Arquivei o assunto e confesso que não me preocupo muito com esta lacuna, salvo em épocas de Copa ou outros campeonatos importantes, qundo minha ignorância fica mais flagrante e sou obrigada a estudar a máscara facial e as exclamações dos outros, como um autista que quer aprender a se comportar num mundo que não faz sentido. Mas Copas são bissextas (quando é a próxima mesmo?) e, no resto do tempo, mantenho um funcionamento público quase satisfatório, mesmo com este aleijão cultural.
Em religião é quase a mesma coisa, não tenho. Só que é mais sofrido, não consigo abandonar totalmente a questão como quem descarta um supérfluo na gôndola do supermercado. Nem Marx, nem Freud, nem outros céticos menos cotados jamais conseguiram fechar meus olhos para a estranha ordem do inexplicável, a impalpável consciência que me pensa no mundo. Se você insistir em dar um nome a isso, eu me definiria como “angunóstica”, porque eu me angustio por não saber nada sobre Deus. E também porque esta ansiedade me fez absorver indiscriminadamente, ao longo da vida, uma quantidade abusiva de informações místico-religio-esotéricas as mais díspares - um verdadeiro angu - de Saint-German a Obaluaiê, de Wicca a Sai Baba, da abdução alienígena da Virgem Maria à iminente encarnação do senhor Maytréia. Em matérias do além já conheci de tudo e um pouco mais, sem me convencer totalmente de nada. Passo mal dentro de Igreja (e não vem me exorcizar, que eu mordo!). Gosto do Tao mas ele, em sua simplicidade de sabedoria, pouco satisfaz à minha ânsia por respostas peremptórias e inequívocas: quem, como exatamente (sou curiosa por detalhes), pra quê, onde está, desde quando (digo datas, “sempre esteve” não é resposta), como chegou lá, qual seu nome e, o mais importante:

Como eu posso conseguir uma entrevista exclusiva? Um particular, como Moisés e outros profetas afirmam ter tido. Cinco minutinhos, não mais. Aí pronto; eu perguntava tudo, absorvia miraculosamente todas as respostas e, no final, pedia cinco minutos de prorrogação. Claro, porque eu tenho que ter direito a réplica, afinal estamos ou não numa…(hum, acho que esse negócio de democracia , apesar de ser o que há de melhor na terra, não deixa de ter parte com o demo. Melhor evitar gafes nesta curta entrevista)…teocracia? Então, eu poderia desfiar meu rosário de reivindicações do consumidor:
Em primeiro lugar, embora a dor leve ao crescimento, questiono a validade deste método pedagógico: está cientificamente comprovado que o reforçamento positivo produz resultados educacionais melhores e de mais longo prazo que a coerção. Ou seja: mais felicidade como prêmio, menos dor como castigo e o resultado seria uma humanidade mais ajustada, uma “família” mais feliz. Então, abaixo a palmatória!
Em segundo lugar, o tempo linear é uma coisa meio careta e muito limitada. Devíamos poder pular as partes chatas, voltar pro aconchego dos bons momentos e tirar umas feriazinhas num futuro promissor.
Terceiro, tudo muito sólido. Isso machuca. E pesado, cansa. Menos densidade, menos gravidade e tudo ficaria mais…leve. Na impossibilidade de atender a esta reivindicação, um par de asinhas quebrava o galho.
Quarto, tele-transporte já! Seria o fim dos engarrafamentos, dos ônibus, das ponte-aéreas, mas o melhor de tudo é que os bêbados poderiam voltar para casa sem causar acidentes no trajeto. Na pior das hipóteses, poderia haver um erro como naquele filme da mosca, e o cara ia se re-materializar com um gargalo no lugar do pescoço enquanto, no bar, uma garrafa long-neck com a sua cabecinha suplicaria “help me!”.
E quinto (meus cinco minutos estão quase acabando) telepatia. Falar o que a gente quer é tão difícil, entre a cabeça e a boca um mundo se perde, são tantos desvios e despenhadeiros de palavras que quando a gente vê já está lá embaixo e não tem volta, está dito, mesmo que esteja tudo errado. Esse negócio de escrever parece um pouquinho mais seguro, mais ponderado (embora não esteja livre de mal-entendidos), às vezes até é bem divertido mas sempre existem vãos que as palavras não cobrem. Além de tudo, arrumar as idéias, depois as pausas, depois as letras, uma depois da outra, dá muito trabalho. E é meio ineficaz, nunca dá pra dizer tudo o que.
Caiu a linha. Este Senhor (ou será uma Moça?) é implacável, não deu nem tempo de negociar uma vantagenzinha pessoal, uns milhões na Suíça, um alto cargo comissionado vitalício ou pelo menos um fim de semana com o Richard Gere no Tibet (porque eu sou altamente espiritualizada, lembra?). E faltou perguntar do amor verdadeiro, o único assunto que me interessava, na verdade.
Então tá, fica pra próxima – se é que tem uma próxima depois dessa.
Enquanto a Revelação não vem, a angústia permanece, a de saber que todo ser humano sofre e não saber nada pra mudar isso. Nem as quatro nobres verdades, nem os oito nobres caminhos, nem todos os 111 avatares reunidos em egrégrora, nem o sangue de Jesus, nem o Pai Nosso ou Nossa Mãe do Céu, o Nirvana, o Satori, o Ohm, o Um – não foram capazes de eliminar total e permanentemente o sofrimento de uma vida humana sequer.
Eu tenho certeza que o Dalai Lama, entre um e outro êxtase místico, e mesmo sob o inabalável sorriso, no fundo sofre. Pelo exílio, por seu povo, talvez por um amor perdido, que nessas coisas Buda nem sempre ajuda. O Papa, coitado, sofre pra burro, pressões e mazelas várias, sofre da coluna sob o peso da mitra, sofre até atentado. A Gisele Bündchen diz que tem lá suas espinhas e isso dói. Bill Gates tem cara de quem já teve dor de dente, quiçá de corno. Jesus sofreu na cruz e até reclamou “pô, pai, tá doendo de verdade!…”
Então não adianta ter sabedoria, títulos, beleza, dinheiro, nem mesmo luz. Tá aqui, tem que sofrer. Cruzes!
Não vou entender nunca, nem em sete mil vidas.
Semana que vem, começo num grupo de meditação zen-budista. Depois eu conto como foi. Vai um fubazinho aí no seu tacho?

A Reforma da Natureza

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Esse era um dos meus livros preferidos do Monteiro Lobato, porque eu me identificava totalmente com a Emília. Além da estatura diminuta e dos eventuais ataques de mau-humor, minha persona infantil compartilhava com a boneca uma certa sensação de ser a única criatura a enxergar o óbvio e uma petulante indignação com a burrice humana, suína, sabugosa, e com os “erros” da natureza. E, claro, na minha época (ou nas ilustrações, mais antigas do que eu, dos livros que foram dos meus pais) a Emília tinha os cabelos curtos e escuros – isso era importantíssimo para mim.
A vida se encarregou de punir muitas vezes minha petulância, e minha indignação, hoje em dia, anda bem retraída. Lembro, com alguma nostalgia, de bater panelas pelas “diretas jᔠnos meus remotos 15 anos mas ultimamente, mais realista, poupo a caçarola que panela tá caro pra chuchu e enchê-la é a grande questão que move o povo.
Mas a revolta íntima persiste, eu não me conformo com a realidade. Se Deus existe, acho sinceramente que lhe falta algum senso…humano. Todo dia vejo coisas que não cabem. Com pouco esforço consigo imaginar alternativas bem mais justas para as leis da Economia e mesmo da Física e, se Alguém escutasse a minha opinião… mas esse Cara é teimoso que só, se acha O tal e faz tudo do jeito Dele. Ele também deve me achar petulante e é por isso que às vezes me põe de castigo. Mas eu vou morrer pensando bem alto: DISCORDO! Quem mandou me prover de opinião?
Acho que foi isso que eu pensei, a primeira vez que me vi no espelho. Não que eu fosse horrível, acho até que eu era bonitinha, como a maioria das crianças que não são lindas nem feias. Convenhamos que já é um lucro, poderia ser bem pior, eu sei que devia agradecer e tal, porque tem gente que é deformada, horrível, tinha até aquele cara do sinal que pedia ajuda mas as pessoas tinham repulsa só de olhar. Ai, gente, eu sei. Mas, se me dão licença de falar com franqueza, eu sempre que me olhava no espelho pensava que conseguiria facilmente evocar uma figura melhor. Na televisão e nas revistas tinha exemplos aos montes.
Pra começar, poderíamos colorir mais o conjunto. Por que não os lindos olhos verdes do meu pai, ou a lourice de minha mãe? Já daria um bom realce. O resto tava mais ou menos, tudo bem, mas o que não dava pra entender era aquele cabelo desgovernadamente crespo, que crescia em todas as direções, menos para baixo.
As tentativas de minha mãe para solucionar o problema, ressalvadas suas certamente elevadíssimas intenções, resultavam em desastres sucessivos (momentos “cogumelo”, momentos “poodle” e, os mais temidos, momentos “bozo”) que costumavam terminar com uma poda radical estilo “joãozinho” que, como o próprio nome diz, me deixava um perfeito menino. O que causava constrangimentos como o de sair do banheiro do restaurante e ser interpelada pelo garçom : “o de homens é do outro lado!”. Mas o que mais deixou seqüelas emocionais foi o fato de ter sido excluída, pelos meninos da turma, da lista de meninas namoráveis. Sim porque, se a única diferença entre meninas e meninos nessa idade é o cabelo, quem namorasse comigo provavelmente seria considerado bicha. Então eu me tornei a melhor amiga dos meninos, um tipo de menino – só que meio fresquinho e ruim nos esportes – com quem eles gostavam de conversar. Desde essa época, eu tenho mania de saia, mas não adiantava muito. Podia ser a roupa da Barbie-sonho-encantado mas, com aquele penteado do Falcon, o Ken nunca ia olhar para mim.
“Cabelo cresce”, minha mãe dizia quando eu me desesperava diante da imagem tosquiada no espelho do barbeiro. Mas de que adiantava crescer se, poucos meses depois, diante da inexorável expansão da minha cabeleira, ela recorreria novamente ao cogumelo, ao poodle ou ao bozo e, finalmente, à navalha radical?
Até hoje tenho mais medo de cabeleireiro que de dentista. Uma sala de torturas medieval, tesouras ferozes e absolutamente desobedientes aos meus apelos, comandadas por homens de voz mole e suas assistentes falsamente simpáticas mas que sempre resmungavam palavrões entre dentes na hora de desembaraçar meu cabelo, lá longe da minha mãe, enquanto arrancavam vários tufos. Um lugar de onde eu sempre saía pior do que tinha entrado.
Daí que desde a adolescência, quando me foi dado escolher o que fazer com a própria juba, resolvi fugir de salões tanto quanto possível e meu cabelo enfim cresceu. Em alguns anos (muitos, porque cabelo ondulado cresce em espirais e isso demooora) eu era a irmã morena da Rapunzel. E quer saber? Ficou até bonito (eu admito que às vezes O Cara escreve certo por linhas tortas mas ainda acho que teria poupado muito sofrimento se já tivesse nascido comprido, provando à minha mãe e a mim que as molas podiam se submeter à lei da gravidade, desde que tivessem mais de meio metro de comprimento). Sabendo o valor de cada milímetro crescido, só recorria a algum cabeleireiro para tirar as pontas, e sempre repetindo a senha de proteção, como um mantra: “aparar, só aparar”. Mas às vezes sua fúria assassina era tamanha e tão sub-reptícia que, mesmo com todos os meus cuidados, quando eu via, já tinha perdido metade da trança (“estava podre!”, argumentava ele, ou “totalmente sem corte, eu só acertei”. Depois eles vendem tudo pra fazer mega-hair, que já me contaram. Eu sei que o meu cabelo, crespo e castanho, tem uma cotação baixa mas é sempre um troquinho, né?). E tome meses para o “cogumelo” crescer e virar cabelo novamente. Na média, porém, o cabelão venceu e, pra ser sincera, não me dava o menor trabalho. Era lavar e deixar secar ao natural, sem pentear pra não desmanchar os cachos. Se tudo desse errado, era só amarrar um coque e dar um nó nele mesmo, que o cordame estava sob controle. Então essa foi uma parte capilarmente encontrada e estável de minha vida, que durou até cerca de um ano atrás.
Sabe como é, separação costuma ter pelo menos dois efeitos visíveis na mulher: perda de peso (cerca de 10% do peso corporal, um espetáculo!) e corte de cabelo. Quando este último apelo começou a ficar irresistível, antes de me submeter à tortura em mãos alheias, resolvi eu mesma assumir os trabalhos. Comprei uma tesoura profissional e, seguindo minha própria tradição de “inovação acima da razão” (assim,com bastante eco), criei meu revolucionário sistema para cortar cabelos crespos: secos, com os cachinhos já formatados, para que você possa saber como vai ficar depois. Não parece óbvio?? Por que ninguém inventou isso antes? Deve ser um complô das japonesas para manter as cabeleiras selvagens purgando no inferno astral, e poderem vender alisamentos cada vez mais caros e fedorentos.
De modo que fiz, eu mesma, minha versão do “cogumelo”: aquele cabelo crespo cortado chanel, ingrato para o rosto em 100% dos casos. Mas até que o meu fungo auto-cultivado ficou mais bonitinho, com contornos mais suaves que os da infância, cortados molhados, a régua.
Só que o cogumelo, quando acorda de mau-humor, vira bozo e ninguém pode viver tranqüilo diante desta ameaça. Então, como não poderia deixar de ser, cheguei ao “joãozinho” pelas minhas próprias mãos. Mas agora com alguma arte, um “joão-anjinho”: um falso curto, cortando os caracóis um a um, um pouco irregulares, pra não ficar parecendo uma topiaria. E sem perder jamais a noção de que um cacho de alguns centímetros pode ter mais de um palmo, quando esticado, portanto são anos de esforço orgânico ali e nenhuma tesourada deve ser impensada.
Meu hair-style foi um sucesso, opinião geral de que eu remocei 10 anos (esqueci de dizer que este é o terceiro efeito visível da mulher que se separa). Pronto, agora eu estou livre do fantasma de Edward-mãos-de-tesoura. Sou dona do meu próprio cabelo.
Mas quem disse que a gente só anda pra frente?
Outro dia, minha frágil “alta-estima” foi abalada pela afirmação chauvinista de um (não muito)amigo de que a mulher sexualmente plena tem cabelo comprido, ao que outro acrescentou “comprido e liso” (sei não, mas acho que a opinião dos meninos não evoluiu muito desde a escola primária). Querendo agradar às massas, e lembrando dos muitos centímetros escondidos em meus curtos cachos, tive a idéia brilhante: aproveitar o mote do aniversário de uma amiga e fazer uma escova. Aparecer de cabelos sedosos e, se não longos, ao menos médios, linda, praticamente loira, não seria a glória? Mil mulheres numa Lady só!
Lá fui eu gastar meu rico dinheirinho num salão de tortura. Tudo estava promissor, era um salão supostamente zen, cheirando a incenso e, o mais importante, aceitavam cartão de crédito. A moça que ia me atender tinha até cabelo crespo e eu pensei (como sempre penso, em vão): “desta vez serei compreendida”. O que eu queria era muito simples: “ficar com o cabelo liso.” Ora, todo mundo sabe o que é um cabelo liso: um cabelo que cresce para baixo. Precisa explicar melhor?
Eu suspeitei quando ela começou a fazer movimentos em forma de montanha no alto da minha cabeça. Perguntei se aquele volume não ia abaixar e ela (sem ocultar a impaciência) garantiu que “depois abaixa”. E tome cabelo pra cima. Ainda me queimou o couro cabeludo várias vezes, dizendo “agüenta firme, que é pra baixar a raiz”, enquanto puxava pra cima com força. Eu, obediente, engoli o choro pensando que a Angélica, que passa por isso todo santo dia e ainda sorri, tem um caráter muito mais firme que o meu.
No final, a recompensa: o cabelo lustroso, baloiçante, liso enfim e…armado como se tivesse uma daquelas peruquinhas de cocuruto ridículas que as mulheres usavam nos anos cinqüenta. Tentei reclamar mas a Crespa Maligna (como ficará para sempre conhecida) me fulminou e disse: “Se não abaixa mais, a culpa é do seu cabelo, não posso fazer nada.”. “A culpa é do seu cabelo” bateu fundo nos meus antigos complexos e calou minhas reivindicações. Fui embora humilhada, tentando reconhecer, no vidro de cada carro no caminho, meu rosto atrás daquele liso bolo-fofo. Por sorte eu tinha meu chapéu para abaixar a gaforinha. Ao chegar em casa, depois de uma caminhada sob o sol enchapelada até a alma, a escova já estava arruinada pelo suor abafado na cabeça. Ainda tentei salvar o investimento, ao longo do dia, com faixas, grampos e toucas. Mas o penteado enroscava a olhos vistos, e de um jeito liso, como espírito em corpo que não lhe pertence.
Quase na hora de sair, joguei a toalha: molhei as madeixas, que encaracolaram, felizes, no mesmo instante. Recuperada minha identidade-rococó, molinhas ao vento, lá fui eu para a festa.
Comentário geral (inclusive dos homens bonitos e interessantes, hum…): “você está linda, seu cabelo está uma graça!” Como se vê, nem todo homem é tão primário.
E sabe do que mais? Eu adoro meus cachinhos, são a minha cara!
Chego à mesma conclusão que a Emília, no final do livro: a gente pode ter umas idéias boas de vez em quando mas, se abóbora dá no chão, é por algum motivo. A natureza sabe o que faz!

Conjugado

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Chega em casa e desliga o telefone, pra não ficar escutando ele não tocar. – Odeio barulho!
Liga a TV.
Alimenta o peixe, mas não demais. – Sabia que o peixe morre pela boca? Se deixar, come até estourar. O meu não, é claro, eu controlo. Duas tampinhas por dia, nem uma migalha a mais, não adianta fazer bico.
Toma meio litro de coca light, come uma caixa inteira de bombons. O celofane rosa ela coleciona numa gaveta. Quando casar, vai usar na decoração das mesas, como viu uma vez na revista. Fica lindo. A gaveta já tem milhares de mesas, um imenso jardim. O noivo, distraído, está uma vida atrasado e seus rosas, de tão guardados, estão começando a murchar. Mas ela vai sair? Vai se expor? Fecha a gaveta. Pra isso ela não precisa de ninguém.
A novela acaba cada dia mais cedo. O dia acaba cada dia mais tarde. O bombom acabou e ninguém agüenta tanta coca-cola.
Todo peixe morre um dia, mesmo que coma pouco. Todo mundo estoura um dia, mesmo que controle.
As baratas invadem até mesmo as casas limpas. Pelas frestas, pelo ar.
A xícara suja na pia não se lava. 3 dias. Ninguém se lava só.
Daqui, nada se leva.
É um dia depois do outro. Só.

Texto livremente inspirado no espetáculo “Conjugado” – em cartaz no Teatro Sérgio Porto (Humaitá, R/J), até 11/07. Direção de Christiane Jatahy, cenário de Marcello Lipiani, luz de Afonso Tostes, vídeo de Márcia Derraik.
Atuação solo de Malu Galli, a melhor atriz desconhecida do Brasil.
* * *

Vá ao Teatro e, se o ingresso for baratim, rolar carona e tudo, pode me chamar

A vida desta personagem não se parece muito com a minha. Eu vivo em uma casa razoavelmente grande com boa parte da família; tenho cada vez menos paciência para tv; não gosto muito de chocolate e só tomo coca heavy, mesmo assim raramente (tá bom, de vez em quando). Casei e procriei até que cedo e nunca tive um peixe.
No entanto, sou eu ali no palco. Empatia: esse condão de colocar-se no lugar do outro, sentir o que o outro sente. O mesmo sentimento que move a amizade, a solidariedade, a paz, o amor. Pois é isso que um ator provoca quando é dos bons. Toca cordas ocultas, tonalidades desconhecidas mas que estão ali, potenciais. Por isso emociona mesmo quando não há, a princípio, uma identificação. Mesmo se aquele é o outro, o diferente – porque fez as escolhas que abandonei ou de que nunca dispus – o ator te busca lá na cadeira e diz “vem comigo, vem ser eu um pouquinho”. Isso é o que há de divino no Teatro. É o que move de casa minha preguiça (o que faço sempre sob protestos de que os produtores são umas antas que ainda não descobriram que carioca gosta de jantar com calma, ver a novela enquanto se veste e sair só depois. Eu não vejo mais novela porque sinceramente. Mas sigo o biorritmo da minha cidade, detesto ter que chegar aos lugares antes das 10. Eu sei que tem gente que acorda super cedo mas para esses existe o fim-de-semana, ora. Até porque é uma minoria, carioca não acorda cedo, como provam as casas noturnas, lotadas de segunda a segunda. No dia que marcarem os espetáculos para começar às onze, vai bombar - escrevam o que eu digo. Produtores, acordem, ainda que tarde!)
Mas enfim, às vezes a gente consegue chegar a tempo e ter esta experiência que novela nenhuma consegue reproduzir.
Agora, não vá ver qualquer porcaria pra depois ficar dizendo “vá ao teatro mas não me chame”. Fico lembrando de meus grandes momentos de platéia: Fernanda “Dona Doida” Montenegro, Cacá “Meu Tio Iauaretê” Carvalho, Nanini “Irma Vap” Latorraca, Denise “Mary Stuart” Stoklos, Rubens “Artaud” Correia. Cleide Yáconis num monólogo cujo nome não lembro mas a emoção que causou ainda me arrepia. “A Tempestade”, impacto solene e feérico no jardim interno do Parque Lage, na tenra adolescência. “Alice-Jatahy-das-Maravilhas” com meu filhinho deslumbrado, itinerando pelos jardins externos do mesmo Parque, muitos anos depois. “Ópera-Broadway-do-Malandro” e a vontade de sair cantando e dançando pelo foyeur logo depois e abraçar o Mauro Mendonça e a Lucinha Lins, que ainda seguram a onda no gogó e no talento. Para citar apenas as primeiras imagens que me vieram.
Sem falar nas coisas maravilhosas que eu não vi por falta de grana ou por preguiça de sair de casa antes das 10.
Mas o que denigre o Teatro é que tem muito lixo feito em seu nome. Verdadeiros atentados estéticos, egotrips longas e vãs, constrangedores números de platéia que, se fossem comigo, eu pedia meu dinheiro de volta. Mentira, sou sobrevivente das piores experiências em nome da arte e, na saída, ainda parabenizo os amigos do elenco.
Ah, não me chame de hipócrita, eu não vou mudar o mundo sendo sincera, só vou perder o amigo.
Pior é que eu já estive no palco em alguns desses tristes momentos. Felizmente isso é passado e serviu para fortalecer meu caráter e calejar meu espírito. Sou capaz de assistir virtualmente qualquer chatice e dou apoio incondicional aos atores: aplaudo sempre.
Mas reconheço que o Teatro, quando é chato é, também, insuperável. Não é como um livro que você pode fechar sem ofender ninguém. Pega malíssimo sair no meio, o ator vai ver. E se for seu amigo e você sair à francesa antes de falar com ele, jamais será perdoado. Então é o tipo da tortura completa, sem escapatória, com fila de pêsames, digo, parabéns no final.
E, contudo, creia. Um bom momento cênico –ainda que vivido da obscuridade da platéia – compensa todos os ruins. Uma recente surpresa gratíssima foi “Ensaio Hamlet”, da Cia. dos Atores. Experimental sim, porém ótima. Narrativamente clara – lá estava Hamlet do início ao fim – ainda que ousada, coisas como Rosencrantz e Guildenstern caracterizados como Power Rangers e, acredite, era absolutamente pertinente, além de hilário de doer. Com Fernando Eiras – que eu já conhecia do cinema e da televisão e achava legalzinho mas não sabia que era excelente ator de Teatro – e um elenco todo muito bom, de atores inteligentes (isso existe!), onde aliás se destaca… Malu Galli. Brilhante como a Rainha Gertrudes e outros bichos (6 atores fazem todos os personagens!). Mas essa peça infelizmente já saiu de cartaz por aqui. Vai pra São Paulo, eu acho.
Então, se você mora no Rio, vai ver “Conjugado”, que também vai sair logo. É simples, não tem propriamente um enredo e nem uma perfeita amarração dramatúrgica. O tema da solidão não é muito original e o final fica meio solto. Mas isso quem percebeu foi o “encosto” de uma velha cri-cri que faz pronunciamentos teórico-críticos na minha orelha direita e que, por sorte, só me acometeu em momento posterior, digestivo. Lá dentro, houve Teatro e eu adorei. Apesar das quebras e do intencional distanciamento que elas produzem, eu estive ali, naquele cubo de vidro com persianas, comendo Sonho de Valsa e vendo a vida passar na TV.
Então sacode essa preguiça; vai ao Teatro! Você não vai morrer por ficar um dia sem novela. O risco é pequeno, o ingresso é popular. Se você odiar, será rápido – a peça é curtinha. Se amar, será eterno.
E você ainda vai poder dizer que viu a Malu, que também é linda mas não é a Mader, antes da fama que cedo ou tarde há de vir. Se algum dia houver justiça ou ao menos lógica no mundo do glamour – o que não tenho bem certeza mas enfim.
Talvez ela não queira o glamour, as telas, as capas de revista. Talvez queira mesmo ser uma belíssima atriz de Teatro (isso também existe!).
Então seja um privilegiado e veja o que o Brasil inteiro não viu. Uma pessoa rara, ao vivo.
Vai, desliga logo o computador e sai desse aquário. Vai ao Teatro, olhar de fora pra dentro a solidão em que cada um de nós se confinou.

A (más) cara do ídolo

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Falando em Chico Buarque, cruzei com ele semana passada na rua aqui do lado de casa, no Horto. Tive que reunir toda a experiência acumulada em uma vida de vizinhança da Rede Globo – um dia-a-dia repleto de celebridades no parque ou na padaria, caras amassadas mui diferentes das exibidas sob maquiagem, luzes e lentes da TV – pra conseguir manter a linha. Galãs ao vivo e a cores, de tão vistos, já não me causam espécie e alguns deviam mesmo evitar testemunhas quando em trajes de banho, alvas adiposidades sem photoshop levando os filhos à natação. Deviam respeitar nossa fantasia, em geral mais generosa do que a natureza. Então garanto que não me deslumbro com famosos e sei fazer aquela cara-botox, inalterada, de quem não tá nem reconhecendo.
Mas convenhamos que Chico Buarque é Chico Buarque. Mesmo à luz do dia, pequeno e magro, 60 anos, ele é de tirar o fôlego. Já o tinha visto, em três ou quatro ocasiões as mais aleatórias, e guardei sempre a mesma impressão: olhos arredios, que dão voltas rápidas e curiosas mas terminam sempre cravados no chão, como se assim pudessem não ser notados. Mas que nada, ele rutila, lá de longe eu já vi que era ele, e olha que eu nem enxergo tão bem, mas é que o cara, não tem outra palavra pra descrever, é iluminado. São os olhos modestos que o fazem brilhar tanto. Uma presença tão discreta que grita, num mundo de peitos-de-pombo.
Ao contrário dos pseudo-célebres que se têm em muito alta conta e não conseguem esconder a vaidade sob os óculos espelhados em que se exibem, Chico Buarque dispensa o Ray-ban e usa o farol baixo, a luz de neblina. Se resplandece é à revelia – seus olhos escandalosamente nus clamam por anonimato e, castos, buscam as sombras. Quando interceptados mesmo aí por nossa tara indiscreta, fogem, constrangidos. Li um dia desses – não sei se é lenda – que ele gosta de andar incógnito, sob um capacete, montado numa scooter (uma espécie de lambreta). “Nunca mais vou olhar os motoboys do mesmo jeito”, acho que foi a Cora Rónai quem disse isso. Eu também não – e pronto, cai seu disfarce de emergência, seu último refúgio.
Por misteriosa associação de idéias que talvez passe pela Gota D’água, meu pensamento foi parar no Teatro Grego. Muito antes de Eurípides, ou mesmo de Ésquilo, havia as “dionísias”, celebrações poético-orgiástico-carnavalescas em honra a Zagreu – antigo deus cretense associado à fertilidade, à transformação e à inspiração artística, depois incorporado ao Olimpo como Dioniso (ou Baco), o filho renascido de Zeus. Em momento mais apolíneo, os gregos organizaram o bacanal e inventaram a forma de espetáculo que até hoje atende pelo nome de Teatro. E já começaram com grande pompa, no auge: tinham dramaturgia da melhor qualidade, com histórias fabulosas extraídas dos mitos e uma estrutura própria, diversa da narração, que produzia efeitos catárticos num imenso público vindo de toda a Hélade. Reuniam a multidão em belíssimos templos ao ar livre, integrados aos relevos naturais e com acústica perfeita, como o de Epidauro, e utilizavam cenografia grandiosa, maquinária e efeitos especiais. Tiveram, pela primeira vez na história do ocidente, um ator: um profissional capaz de dar vida – através dos estados báquicos de êxtase e entusiasmo – a heróis, titãs ou mesmo deuses. O primeiro ator historicamente reconhecido foi Téspis de Icária (séc VI a.C.), que também escrevia e dirigia seus espetáculos, e ele já usava máscaras. Peraí, o que é que isso tem a ver com o Chico? Calma, eu já chego lá.
A máscara (que os gregos chamavam “prosópon” e os romanos, “persona”) é um artefato humano básico e está presente, desde as épocas mais remotas, em todas as culturas ocidentais, orientais e aborígenes. Sempre foi utilizada em caçadas, guerras e cultos religiosos, ou seja, quando se queria evocar espíritos, pessoas ou animais com grande eficácia. Por sua expressividade, ela se tornou o símbolo do Teatro e a melhor amiga do ator na medida em que é capaz de assumir, no seu lugar, a imagem social do personagem. Como uma interface, uma mediadora entre a pessoa do artista – que tem defeitos, vísceras e gases como todo mundo – e o arquétipo que ele encarna no palco, a dimensão transpessoal que ele atinge ao ser amplificado milhares de vezes pelas projeções individuais de toda a multidão que o assiste. A máscara é como um escudo que protege o rosto do artista da usurpação pelos deuses que, não podendo ser vistos em plena divindade, precisam se apropriar de corpos inferiores para se manifestar.
Ao fim do espetáculo, o sacerdote de Baco, em prudente atendimento a seus limites humanos, descia dos coturnos e guardava sua máscara num altar, protegida por oferendas e orações, até a próxima apresentação. Édipo podia dormir sossegado; quem ia encher a cara com o resto do elenco no Baixo-Corinto depois da estréia era o Anaxoríades da Silva, e não todos os filhos-apaixonados-pela-mãe do Peloponeso. Tudo bem que tinha suas desvantagens, o cara não saía pegando geral as Mulheres de Atenas como um ex-BBB, porque só quem era do meio conhecia o rosto de carne e osso sob a máscara heróica e ainda não tinham inventado o estilo “Caras” de ser. Mas ele podia se dedicar de corpo e alma a seu ofício de estudar a vida e as pessoas sem ter que parar a cada cinco minutos pra dar autógrafo e tirar foto com turista. O artista de hoje em dia perdeu seu escudo. Tornou-se refém de sua persona, este ser virtual à sua imagem e semelhança.
Acho que o Chico merecia ter uma cara anônima com que sair, de vez em quando, sem o peso de sua obra gravado na fronte – e sem ter que estar claustrofobicamente fechado num capacete. Quando os deuses sopraram em seus ouvidos as palavras e melodias com que ele nos encanta há tantos anos, deviam ter ocultado de nossa sanha os seus olhos, pra que ele ainda pudesse olhar ao redor sem alvoroçar o ambiente. Pra que ele pudesse observar qualquer um de nós sem que estivéssemos sempre “olhando para a câmera”, nossa naturalidade irremediavelmente perdida por sua simples presença. Foi o que pensei, ao vê-lo desde longe, na rua.
Então esse foi meu presente de aniversário para o Chico e, creia, exigiu-me um esforço sobre-humano: ao cruzar bem rente seu caminho, eis que emprestei-lhe uma máscara rápida de Zé-das-Couves e – contrariando a força magnética que atraía minha curiosidade – como que pus antolhos e cravei o foco no chão. Com a visão periférica senti uma fluorescência passar por minha orelha esquerda, vermelhíssima (não sou tão boa atriz que controle o fluxo sangüíneo), pelo breve tempo que se observa um transeunte normal. Se bem que aposto que meu andar não estava normal, apenas porque consciente de estar sendo observado pelo Chico Buarque.
Queria lhe emprestar meus olhos, castanhos e comuns, que vêem coisas simples, gente andando normal, que passa e nem me vê.
A cara do Chico é o sacrifício que ele ofereceu no altar da cultura, para ser devorada com gula consumista por nosso olho-gordo. Posso estar enganada, mas sinto que ele a carrega como um fardo, um tesouro pesado e ostensivo, que mais onera que beneficia seu guardião. É claro que ele já deve ter dado muito bom uso amoroso a seu par de esmeraldas e no vídeo ficam mesmo uma beleza, mas, na maior parte do tempo, elas chamam inconveniente atenção em contraste com os tons terracota da miséria. E tome olhares se arrastando atrás dos seus muitos quilates. Isso pesa. Sabe lá o que é não poder parar no sinal de janela aberta num fim de tarde e tirar uma meleca na obscuridade? Mijar no poste, palitar o dente, trair em público, coçar e envelhecer mal são privilégios dos inconspícuos.
Acho que o Chico deveria guardar sua cara de Apolo apartada de si, num grande teatro ao ar livre que tivesse a acústica perfeita. Onde a gente pudesse deitar oferendas, cantar seus mantras, organizar festivais em sua honra, sem invadir sua privacidade. Onde a gente pudesse por um momento, após as devidas libações, vestir em nosso rosto sua máscara entalhada pelas musas e olhar o chão, timidamente, através de seus olhos divinos. Sob as bênçãos de Dioniso, e um vinhozinho pra regar a festa. Evoé!
Enquanto isso um Chico mais mundano poderia estar por aí, levando uma vidinha besta, como a minha e a sua, em que ninguém presta muita atenção. Tirando meleca no sinal e aproveitando cada palmo da imensa liberdade de ser ninguém.
* * *
Tempo e artista
Chico Buarque/1993 - Paratodos

Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela
Modelando o artista ao seu feitio
O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso
Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz, e o tempo canta
Dança o tempo sem cessar, montando
O dorso do exausto bailarino
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito
No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito

A vida avilta a arte

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Só posso dizer uma coisa: se esta história tivesse sido escrita por mim, teria um desfecho muito diferente. Certas coisas, de tão absurdas, jamais caberiam na ficção.
A Dê deve ter sido uma das dez meninas mais bonitas do Rio de Janeiro. Mas, ainda que as outras nove estivessem a seu lado, Zib não as teria visto. Porque olhar para a Dê teve o efeito de apagar as milhões de estrelas e o céu virou um fundo escuro infinito para a passagem meteórica daqueles olhos de água-marinha na pele dourada de uma sereia. Conheceram-se na fila do Planetário e, quando ela sorriu, Zib teve certeza de que, dentre todos os corpos em órbita no tempo e no espaço, aquele rastro luminoso era o que faria sua trajetória fazer a curva sobre si mesma. Ele tinha apenas 17 anos, mas sempre teve essa determinação extraordinária e resolveu ali mesmo que aquela era a mulher com quem ele iria se casar.
A Dê ainda era muito jovem pra ter tanta certeza e a bem da verdade ela tinha um namorado então nem ao menos ficaram juntos nessa época. Mas o Zib era mesmo um sol e ela não deixou de perceber que a luz caiu quando ele viajou. Ele foi morar nos Estados Unidos mas não esqueceu a Dê, escrevia toda semana, acenava com oportunidades de estudo e trabalho para ela.
A vidinha dela continuava boa, faculdade e coisa e tal mas o que ninguém sabia ainda é que, com uma ajudinha do espírito empreendedor do Zib, a Dê tinha se tornado uma das dez meninas mais corajosas do planeta. Ele mal pôde acreditar quando ela resolveu aceitar um estágio ou coisa que o valha e se mandou pra lá, de mala e cuia. Então eles acabaram ficando juntos, claro, e foi lindo. Passaram por momentos maravilhosos e inesquecíveis e também por maus bocados e mesmo isso pôde ser gostoso e divertido todo o tempo. As luzes transbordavam de seus olhos mais que o frio, a dureza, as distâncias.
A volta ao Brasil seria uma prova e tanto. O Zib era judeu, a Dê não era. A família dele não gostou do namoro, e a família dela não gostou (com razão) de alguém se dar à desfaçatez de não gostar de sua princesa – luminosa, brilhante, bem-educada, uma jóia rara em qualquer contexto.
Casaram-se lá, romanticamente e em segredo. Fizeram juras um ao outro, um casal de amigos por testemunhas e isso valeu mais para eles do que as bênçãos de sete gerações.
Na volta enfrentaram novamente com amor e graça as dificuldades. As famílias espernearam em vão, depois cansaram. Depois aceitaram e por fim esqueceram essas pequenezas, sobretudo quando veio o bebê. Um anjo ruivo de parar o trânsito no colo da mãe mais linda com olhos de água-marinha, emoldurados pelo amor solar do pai. E depois veio outro anjo, moreno como a mãe para ressaltar olhos azuis profundos de safira. A mais iridescente representação de uma família harmoniosa, saudável, feliz.
Então Dê e Zib souberam desfrutar de sua felicidade. Viajaram muito, conheceram lugares lindos e exóticos, espalharam seus sorrisos pelos 4 cantos, por entre toda a gente que teve a sorte de se contagiar dessa alegria generosa. Dava gosto de ver. Aproveitaram seus dias pacífica e amorosamente, correram atrás de seus objetivos, amaram os filhos e eram aquele exemplo a ser pinçado em momentos de desesperança, quando a vida parece um lugar inviável. Podíamos sempre pensar: vejam a Dê e o Zib, eles são do bem e se deram bem, são felizes. E deveria ser assim para sempre, até morrerem velhinhos, de preferência dormindo um nos braços do outro, durante um cruzeiro na Nova Zelândia. Esse é, sem dúvida, o final que eu escreveria para eles.
Soube ontem por um anúncio no obituário do jornal: Zib foi assassinado há pouco menos de um mês, aos 40 anos, num cruzamento da cidade, numa tentativa de assalto ou sequestro-relâmpago. Os bandidos, covardes, não levaram nem o carro, deixaram dinheiro, chaves, tudo ali, junto com o corpo inerte, já sem o sol que o animava.
Levaram a luz dos olhos da Dê, a alegria segura de um par de anjos e um bom pedaço da minha fé na vida.
O mundo ficou mais escuro e eu não tenho uma palavra de água-marinha pra mandar para o Zib lá do outro lado, nem uma palavra de sol pra aquecer a Dê por aqui.
A vida é tão brutal que não há palavras. Quando encontrar minha amiga, vou abraçá-la em silêncio, em meio a uma constrangedora fila de pêsames. Quem foi que inventou os ritos fúnebres? Deve ter sido o mesmo espírito-de-porco que tem escrito a História. Perdoe a sinceridade, seja Deus ou quem for, mas eu não estou achando a menor graça neste enredo.

O dia dos sem-namorado

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O dia dos sem-namorado cai dos sonhos com um suspiro comprido. Sem beijo de bom dia nem nada de bom pra fazer na cama depois de acordar.
Começa com jornal e coisas importantes acontecendo no mundo, um café preto e uma esperança quase afogada no fundinho da xícara: será que é hoje? Mas isso ninguém vê, nem a lágrima escapulida que a mão rápida dispersa. A cena seguinte, exaustivamente ensaiada, já vem automática: olhar pra cima e respirar fundo, vestir o sorriso e ir à luta que com cara de palhaço é que não searruma ninguém mesmo.
O dia dos sem-namorado se demora em papéis e desktops e liga a tv na hora do almoço, pra distrair da falta de companhia. Evita as vitrines e os out-doors, repletos de corações e sorrisos felizes de quem nasceu um-para-o-outro. Passa direto pelo cinema com sua fila de pombinhos e dispensa, constrangido, a promoção bem-me-quer da operadora de celular.
O dia dos sem-namorado sai cedo e volta tarde, liga pros amigos, faz ginástica. Come fora, dá-se um livro – de pena, no fundo. É triste não ter a quem dar flores. O dia dos sem-namorado, se o quiser florido, compre as próprias; se o quer doce, encha a boca de bombons. Se romântico, abra um vinho e pegue um filminho piegas na locadora, daqueles que um namorado se recusaria a assistir. A maior vantagem de estar só é não ter que chegar a um consenso.
O dia dos sem-namorado é um dia como outro qualquer, só que mais longo. Pela simples razão de que ele deveria ser especial como, aliás, todos os dias. Pela falta que faz alguém pra surpreender minhas cores. A noite cresce e eu vou ficando esmaecida.
O dia dos sem-namorado termina como começou, num sonho – terra sem-fim da ilusão solitária, quase totalmente apartada do que sei pelo esquecimento e ainda assim tão minha.
E vai cair num suspiro comprido lá do outro lado, no próximo dia. Um dia normal, ufa, onde eu não seja um estranho ser que anda partido e sobrevive por teimosia, feito rabo de lagartixa.

A história de Cecille

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ballet.jpgQuando Isadora Duncan apareceu em Paris, Cecille tinha acabado de chegar ao topo. O ponto mais alto de sua carreira - um caminho de suor e dor que teve início quando a preparadora Ivanovna (que foi a segunda mais temível de toda a história do corpo de baile da Ópera de Paris) reparou que a filha da humilde camareira Josephine tinha os pés perfeitos. Olhou bem fundo nos olhos da criança – aquela magricela que ainda há pouco dormia enroscada nas cortinas adamascadas da coxia – e proferiu seu parecer mais como ameaça que bom augúrio:
– Deus concedeu-lhe a Graça dos pés perfeitos para o ballet. Este é um dom raro, que pode levá-la à frente deste grande palco. Mas não se iluda: talento não é tudo. Para chegar a ser uma estrela você tem que ser a melhor dentre as melhores e para tanto você deve estar disposta a sofrer todos os dias de sua vida em nome da Arte.
Aquilo pareceu à pequena uma espécie de chamamento divino, uma revelação. Ela, que até então fôra apenas um estorvo para sua mãe, percebia que tinha um dom, que havia sido ungida com uma qualidade especial. Agora ela tinha uma vocação, um talento e, finalmente, um futuro.
Tinha cinco anos nessa época. Ivanovna começou imediatamente a treiná-la com a rigidez que lhe era característica. Era estúpida e humilhava as alunas que freqüentemente choravam, protestavam e, não raro, desistiam. Mas Cecille suportava tudo com resignação. Se o sofrimento era o caminho da Arte, chegaria ao mais alto nível que seu corpo e sua alma pudessem suportar.
Em poucos anos já era uma das melhores de sua geração, segundo a própria preparadora que, a despeito de sua secura, quase gostava da filha da camareira que possuía essa determinação incomum (além dos pés perfeitos). Tinha lesões frequentes nos músculos e feridas nos pés, por excesso de treinamento, mas nunca interrompia os exercícios, sublimando as dores intensas com a perseverança – esse vício dos fortes, dos raros, os que jamais desistem de um objetivo. Deus está vendo, pensava ela, e abria, puxava, subia, saltava e girava, girava, girava.
Costumava treinar na primeira fila, porque sempre executava corretamente os exercícios, mesmo as seqüências mais longas e complexas – memorizava de primeira. Esta qualidade foi percebida e admirada por todos quantos vieram algum dia a treinar com ela. Sua concentração imperturbável, a disciplina férrea e a obsessão pelo movimento perfeito ainda potencializavam essa natural aptidão, de modo que jamais errava, mesmo nos ensaios.
Seu corpo todo desenvolveu-se em consonância com os pés. Cada uma de suas medidas proporcionava-se com as outras de modo ideal, como se projetadas por precisa engenharia divina especialmente para o ballet. Seu tronco era esguio, os seios pequenos, os braços longos e suaves, o pescoço elegante encimado pelo rosto encantador, o belo sorriso, os olhos enormes e amendoados, os lindos e compridíssimos cabelos cor de mel impecavelmente trançados e presos num grande coque na altura da nuca. Sem falar nas pernas admiravelmente torneadas, arrematadas pelos pés perfeitos.
Sua técnica era sólida, precisa, virtuosa. Sua abertura era impressionante; seus saltos, que não faziam o menor barulho no assoalho, eram apontados por Ivanovna como exemplo de leveza para todas as novatas. Seu arabesque inscrevia no ar uma curva perfeita, seus braços mantinham a angulação e o alongamento mesmo nos momentos mais difíceis. E tudo isso sem jamais perder a postura ou deixar de sorrir.
Ela tinha tudo para ser a melhor. Estava em franca ascensão nas linhas do corpo de baile e, na ocasião em que a excelente Marie-Therèse, já beirando os 30, abandonou a carreira para ter um filho, Cecille, então na exuberância de seus 18, teria assumido naturalmente seu lugar. Não fosse o azar de ter chegado naquele mesmo ano à companhia a menina-prodígio russa Olga Olenska, dois anos mais jovem e treinada sob os rigorosos métodos do Teatro Bolshoi. Ela também tinha os pés perfeitos. Corria o boato – e não sei se é verdade – que seus pais, ambos bailarinos, exercitaram suas pernas desde o berço e que seus primeiros sapatinhos foram sapatilhas de ponta, para que os ossos consolidassem na fôrma adequada.
Olga roubou para si a cena e o ambicionado posto de primeiríssima-bailarina na temporada seguinte de Giselle. Cecille dividiria com ela o papel mas faria as récitas menos importantes: o segundo dia, a matinée de domingo, as quartas e quintas-feiras. Não seria comentada pelos críticos nem vista pelas personalidades importantes, os formadores de opinião. E de fato ela dançou perfeitamente bem seu papel, recebeu os elogios habituais dos colegas mas passou despercebida para o público e a imprensa.
Paris não falava de outra coisa, todos queriam ver os saltos sensacionais de la Olenska. A própria treinedora Ivanovna, já perto de se aposentar, parecia ter perdido a fibra e rendera-se aos encantos de sua jovem conterrânea. Se não chegava a fazer elogios durante os ensaios, a observava com um ar embevecido e jamais gritava ou fazia suas ríspidas correções. Cecille ficou profundamente enciumada mas não era de se abater com as dificuldades, então meteu na cabeça que superaria Olga em todos os pontos e provaria a Ivanovna e ao mundo o valor da formação francesa e dos pés congenitamente perfeitos. Prometeu a si mesma que no ano seguinte dançaria o papel principal na récita da estréia e sua pobre mãe teria o orgulho de guardar para a posteridade um exemplar dos jornais que trariam em letras garrafais: Paris cai aos pés de Cecille Druot.
Naquele ano ela treinou mais que nunca, aumentou de 8 para 10 horas sua rotina diária de exercícios. Estendeu em alguns centímetros sua já excepcional abertura, perdeu mais 3 quilos para que seu partner a suspendesse como uma pluma no pas-de-deux. Cecille agora era mais-que-perfeita.
Olga por sua vez, como tantos prodígios meteóricos, parecia consumir-se em sua própria chama. Já durante a temporada, envolveu-se com Jean-Pierre, o jovem terceiro-violino da orquestra que desde os ensaios suspirava por ela, embora fosse casado e pai de um bebê de poucos meses. O tórrido romance, sem esperanças de consolidar-se numa tranqüila relação marital, assumiu a urgência das paixões proibidas, devorando as noites e a saúde da moça. Num dia em que ela estava particularmente abatida, teve uma queda espetacular ao aterrissar de um grand jeté, no solo do segundo ato.
– É preciso bem mais que talento para ser primeiríssima-bailarina do palco mais importante do mundo - pensou Cecille, que assistia a todas as récitas da rival. Mal conseguia disfarçar a satisfação. Sabia que era chegada sua hora.
De fato, no ano seguinte, foi sua a Grand-Premiére: O Lago dos Cisnes, interpretando a protagonista Odette/Odile - seu papel predileto, pelo desafio técnico que representava. Ela teria a oportunidade de exibir seu virtuosismo ao realizar com a habitual perfeição a dificílima seqüência de 32 fouettés que, anos antes, alçara à fama a italiana Pierina Legnani. Cecille estava no auge da forma, estava pronta para seu grandioso destino.
Rezou muito, com intenso fervor, para expressar sua gratidão, e até encomendou uma missa. Sua mãe, que não cabia em si, pagou uma novena e prendeu, no avesso do figurino, uma medalhinha do Divino Espírito Santo, para proteger a filha da inveja das outras moças.
A estréia foi impecável. Cecille esbanjou perfeição em cada fundamento: equilíbrio absoluto, sicronia precisa, extensão e leveza nos saltos, elegância no port-de-bras, maestria nos mínimos detalhes. O mais rigoroso crítico não seria capaz de apontar-lhe uma falha sequer. Sébastien, seu partner, cometeu um pequeno deslize ao fazer-lhe a base de um rond-de-jamb , motivo pelo qual ela quase tirou-lhe o couro na coxia durante o intervalo, mas ela conseguiu contornar o imprevisto com tal destreza que nem Ivanovna percebeu.
No final, os aplausos duraram 12 minutos e meio, quase um minuto a mais que os da estréia de Olenska! É a consagração, pensou a filha da camareira em sua noite de glória. Mal conseguiu dormir. No dia seguinte, esperou ansiosa pela edição vespertina dos jornais.
Chegou enfim o pacote, com as letras garrafais:
Paris cai aos pés de Isadora.

Isadora Duncan, a americana? Não pode ser…dizem que ela dança descalça, com os pés grotescamente flexionados e é incapaz de um attitude … O que ela tem afinal, que arte é essa que qualquer criança pode imitar? Em que mundo nós estamos, para onde terão ido os séculos de desenvolvimento do ballet? Para a lixeira de um modismo!… Os críticos podiam se render às inegáveis qualidades de Olga Olenska, isso era algo com que ela podia lidar até como um estímulo, mas tecer loas a uma novidadeira era revoltante e profundamente injusto.
No entanto, Paris não falava em outra coisa. A revolucionária Isadora arrebatara os corações de público e críticos. Apresentava-se em salões e outros espaços não-convencionais e sua dança livre arrancava aplausos por mais de trinta minutos.
E nem uma linha na primeira página sobre a gloriosa estréia de Cecille.
Lá dentro do jornal, espremida num canto da página que estampava fotos de Isadora, a crítica à estréia do Lago dos Cisnes.
“… a técnica irretocável de Cecille Druot, se impressiona, não emociona. Cumpre sua função com a frieza sorridente dos que acreditam que a perfeição formal possa substituir a graça espontânea de um corpo feliz. Dos que não têm a grandeza da expressão autêntica e nem a ousadia de arriscar-se ao erro em público. Uma interpretação artificial, desprovida de carisma, daquelas que a história tratará de encobrir sob o manto inexorável do esquecimento.”
Injustiça ou não, o fato é que o público, bem como a duração e a intensidade dos aplausos, foram decaindo a cada apresentação, sepultando, noite após noite, os sonhos de grandeza de Cecille. O último espetáculo da temporada ela dançou chorando, embora mantivesse, como sempre, o sorriso estampado.
Na montagem seguinte, Olenska, já curada de seu malfadado romance, recuperou seu posto de estrela da companhia, no qual permaneceu por mais 10 anos.
Cecille – para quem dançar nunca fôra um prazer e que só se importava em ser a melhor dentre as melhores – teve que se conformar com sua posição um degrau abaixo, lugar que, em si, seria uma honra para qualquer bailarina mas, para ela, era sinônimo de fracasso. Externamente mantinha a disciplina e a postura de sempre mas seu coração, já pouco caloroso, congelou por completo. Com o passar dos anos e a ascensão das novas gerações, caiu para os segundos-papéis. Quando se aposentou dos palcos, aos 33 anos, tornou-se preparadora, substituindo a gentil mme. Geneviève, sucessora de Ivanovna que, para o gosto de Cecille, era muito frouxa com as novatas, comprometendo seriamente o nível técnico do corpo de baile.
Ao assumir a nova função, Cecille resgatou os métodos da russa: sua exigência sobre-humana, sua rispidez, seu proverbial mau-humor. A preparadora Druot – como ficou para sempre conhecida – foi a única a superar a mestra no índice de rejeição dos alunos. Marcou profundamente toda uma geração que, a despeito da excelência técnica, teve os mais altos números de abandono da profissão. Quando alguém ria ou conversava durante os treinos, era implacável. Uma vez expulsou uma talentosa e falante bailarina:
– Quer brincar de fazer ballet? Pois vá dançar descalça no olho da rua!
E acabou com a carreira da moça, sem pestanejar e sem perder um minuto de sono, nem mesmo quando todo o grupo veio pedir-lhe que ponderasse melhor e reintegrasse a garota, que estava inconsolável e prometera emendar-se. Mas ela não era pessoa de voltar atrás em uma decisão.
Não casou nem teve filhos. Cuidou da mãe, que ficou cega e inválida mas viveu para enterrá-la. Morreu aos 55 anos, dormindo.
No dia seguinte foi cancelado o treino da parte da tarde na Ópera de Paris, para que os integrantes do corpo de baile pudessem comparecer ao enterro da preparadora Druot, cujos pés, no caixão, deformados pela artrite, eram uma caricatura grosseira da perfeição de outrora. Mas o rigor cadavérico não a traiu e os entregou à posteridade perfeitamente esticados numa ponta eterna. Isso pouca gente viu, porque a maior parte dos bailarinos preferiu dar destino menos funesto à rara tarde de folga.
Esta foi a história esquecida de Cecille, a bailarina perfeita, a quem Deus não concedeu a Graça dos pés felizes de Isadora.

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Dias assim

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Tem dias que eu me sinto vazia como uma bola. Aliás, vazia como um cubo, porque é um vazio com arestas. Um cubo opaco e denso obnubilando minha clareza. Um cubo pequeno onde eu não caibo, sufoco. Fico ali oprimida como assistente de mágico. Empacotada em meu vazio de chumbo que não deixa escapar um grito. Em meu cofre-forte de silêncio. Apalpando os estreitos limites da minha liberdade, as paredes grossas da minha dor.
Tem dias que eu me condeno à solitária sem direito a banho de sol. Arrasto corrente, me visto de listrado e marco os dias, semanas, com riscos de canivete na parede. Me julgo e me penitencio sem indulto.
Tem dias que a vida ganha muros altos, cores cinza. Limites, limites, limites até onde a vista alcança – e a vista alcança bem pouco. O próprio firmamento é um teto rebaixado, baixo astral, como se diz por aí.
Tem dias que são foda. Mas eu não nasci ontem, sabe? Já percebi que o encaixotamento produz uma curiosa ilusão de óptica. No espaço exíguo, eu pareço enorme, ocupo a quase totalidade do espaço, só dá eu lá dentro. E tudo que eu penso e sinto reverbera, ecoa, parece gigante. Minhas motivações, minhas vergonhas, meu sofrimento parecem ser tudo o que há – o mundo como um elevador enguiçado, espelhado por dentro, refletindo meu desespero ad infinitum. Eu no cenário por todo canto e no meio da cena, em foco. Exageros da perpectiva, puro teatro de espelhos. Tão autêntico quanto Konga, a mulher gorila.
Estou aprendendo a fechar os olhos, respirar fundo e perceber que há oxigênio bastante para mim e, se o espaço está apertado, tempos melhores virão. No dia da bonança, quando meu campo de ação se abrir, vou lembrar de dançar bastante para celebrar . Até lá vou dançando miudinho e sempre se pode cantar, mesmo no escuro. Com os pés e mãos vou deformando meu cubo, alargando para os lados, abaulando o teto como um baú. Meu baú de maravilhas boiando no mar à deriva, uma arca que resiste aos dilúvios. Onde minha alegria se preserva mesmo durante as tempestades. Um balsa que balança, vira, dá cambalhota mas não afunda.
Tem dias que eu me sinto plena como uma caixa a ser preenchida. Aliás, como uma bola, porque quando estou assim eu rolo. Deito e rolo.

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Minhas melhores fotos são dos olhos do meu filho.

Meus melhores poemas, confesso, não sou eu que faço.

Laço o que posso, o pouco que não esqueço

do sopro (ab)surdo que ouço em quanto passo.

Christiana Nóvoa

meuemail: christiana ponto novoa arroba gmail ponto com

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