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Castelos

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Sand castle.jpg Naquele verão, tinha uma menininha que gostava de fazer castelos de areia. Todo dia, quando a maré vazava, lá ia ela com seu baldinho. Passava a manhã inteira esculpindo, alisando, caprichando em cada detalhe, até achar que estava tudo perfeito. Aí ela sentava e ficava esperando a maré encher . Morria de rir ao ver as ondas destruírem, uma após outra, as formas que ela tinha criado com tanto esforço.
Um menininho, que detestava perder seus brinquedos, começou a reparar nela. Observou aquilo uma semana inteira, encafifado. Um dia ele tomou coragem e sentou ao lado da menininha. Quando uma onda derrubou a primeira torre, ele não se conteve:

– Por que você não faz seu castelo mais pra lá, longe do mar?
– Pra que? Eu gosto é de ver ele desmanchar.
– Que maluquice, não entendo. Depois de tanto trabalho, você fica sem nada.
– Engano seu! Eu tenho mais castelos do que a princesa mais rica do mundo.
– Ah é, e onde eles estão?
– Aqui na praia, ué.
– Eu não estou vendo nenhum. O único que tinha, o mar acaba de levar.
– É, olhando assim é realmente uma pena mas… sabe que eu não ligo? É só querer e pronto, eu vejo uma porção deles. Olha só, nessa areia aí tem todos os que eu já fiz até hoje. Você mesmo está sentado em cima de um dos meus preferidos. Se eu começar a pensar, lembro de cada detalhe, cada janelinha, cada ponte... Também tem muitos outros que estou planejando fazer, cada um mais lindo, precisa ver. E ainda tem mais uns que nem vai dar tempo mas que eu faria, se quisesse. Acho que se eles estivessem todos aqui, de pé, um do lado do outro, não caberiam nessa praia... e o pior é que ia faltar espaço na areia pra quem viesse brincar depois.
– Mas se você tivesse unzinho só, de verdade, seria melhor do que todos esses juntos. Você poderia entrar e morar dentro dele pro resto da vida.

A menininha pensou um pouco.

– Pode ser …mas eu gosto mesmo é de ficar aqui do lado de fora, na praia, fazendo um castelo diferente todo dia.

Uma onda mais forte chegou de surpresa e derrubou o brinquedo que o menininho tinha na mão. Ele procurou, procurou, procurou e não encontrou mais. Então ele ficou muito triste mas nem chorou, porque era um menino. Pediu à mãe pra ir embora e passou o resto do dia chateado, no seu quarto lotado de brinquedos, porque tinha perdido um carrinho novo, muito caro e importante.

A menininha fez mais 20 castelos até o fim do verão, depois foi brincar de outra coisa.

"A nau dos Loucos - um exerc?o" ou "Brainstorm"

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Há muitos anos atrás, um livreiro meio doido me deu de presente um livrinho curioso, cheio de teorias conspiratórias esotéricas, chamado “Os livros malditos”, de Jacques Bergier (ed. Hemus). Nem sei se ainda é possível encontrá-lo à venda mas o tenho aqui em mãos.
Traz várias histórias bizarras e supostamente verdadeiras sobre a destruição sistemática desde tempos imemoriais – empreendida por uns tais “homens de negro” (ui, que macaaaabroooooo) - de livros e obras reveladoras de altíssimos e profundos segredos. O incêndio da biblioteca de Alexandria nada mais teria sido que um dos ousados atos terroristas da tal “ordem negra”…
Sei não, acredito em tudo só até a página 5, mas ele cita vários casos e fundamenta, ou finge fundamentar. Tive preguiça de verificar as fontes mas pelo menos uma passagem do livro tornou-se um de meus exercícios de imaginação favoritos. Penso em escrever um conto sobre isso um dia mas sempre adio o projeto. Então, enquanto seu lobo não vem, publico aqui o trecho para que vocês também se divirtam e me dêem sugestões. Prometo dar os créditos quando escrever minha pequena-grande-obra. Aí vai:

“No momento em que escrevemos, um iate luxuoso percorre os oceanos do globo. Traz bandeira que não é de nenhum país conhecido ou desconhecido. Tem a bordo um certo número de guardas armados, pois muitas vezes tentou-se forçar o cofre-forte do capitão; esse cofre contém um livro muito perigoso cuja leitura torna louco o que lê e se chama Excalibur.”
…

Então, o que estaria escrito neste livro de TÃO perigoso?
O nome de Deus? Os resultados da loteria da Califórnia até 2020? A prova do amor de Cristo por Maria Madalena? A fórmula da pedra filosofal? Ou será apenas uma perguntinha auto-reflexiva, tipo “quem és tu”?
Penso que bem pode ser como o livro de areia de que fala Borges, que a cada vez que se abre é um livro diferente portanto nunca se volta à mesma página…. penso num livro que conte a história de quem o lê e descreva em detalhes sua morte… penso numa simples página em branco….

Diga aí: e pra você, o que pode haver num livro que leve à loucura? Que idéia faria em pedaços cada uma de suas certezas?
Hein? Pense… (imagine um pêndulo diante de seus olhos: tic-tac-tic-tac…)

Mas peraí: os tais guardas armados são analfabetos, não têm curiosidade alguma (nesse caso, aposto que não são mulheres) ou será que estão todos loucos? E o capitão, que a essa altura deve estar completamente ensandecido, será que ainda lembra o segredo do cofre?….

Hum...pense mais...eu, de minha parte, estou ficando um pouco zonza…

(momento dossiê: se eu morrer esta semana, os culpados são os Homens de Ne..

ManuscriptLeaf_thumb.jpg Coisas que não me interessam numa pessoa:

O tamanho de seu poder;
A marca de seus sapatos;
Seu nome de família;
Se anda a pé ou de "chauffeur" (grafia corrigida pela Cynthia, minha revisora poliglota de plantão);
Qual seu Big Brother favorito;
O relatório de suas ações;
Os retratos de sua vaidade.


Coisas que me interessam numa pessoa:

Seu bom humor;
A qualidade de seus afetos;
O relato dos seus sonhos;
O poder de atravessar vidraças;
O desenho de suas cicatrizes;
A memória de suas batalhas;
As imagens de sua história.

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taoist-painting.jpg De uma maneira geral, pessoas me interessam mas não todas e penso que nenhuma o tempo todo, o que é um problema. Já dizia Sartre : “O inferno são os outros.”
Brilhante mas discordo. Nem eu mesma sou tão interessante e divertida que valha a pena full-time e, dentre os chatos que me cercam, sou a mais difícil de despachar. Estou treinando técnicas avançadas de meditação pra largar de meu próprio pé e me mandar passear de vez em quando. Pra ver se me curo dessa doença de ser eu mesma.
Esse negócio de fazer listas, por exemplo, só pode ser loucura. Ou preguiça de ser extensa, ainda não decidi, mas boa coisa não é, que preguiça é pecado tão capital quanto a inveja, a avareza e outras coisas feias (ou charmosas, como a luxúria que, no imaginário coletivo, tem a cara – e principalmente o corpo - da Luma de Oliveira).
Tem outros sintomas da minha esquisitice: palavras que eu repito demais como sonho, memória, vidraça - coisas muito pouco confiáveis para alguém se apoiar. Outras que evito sistematicamente como contabilidade, dívidas, cobranças. Onde é mesmo que eu planejo investimentos, recolho dividendos, consolido lucros?

Estava precisando de um eletrochoque pra entrar nos eixos e começar a me preocupar mais seriamente com o que, afinal, parece ser a única preocupação séria: quanto é que eu levo nesse bolo? Ou então um mestre zen à moda antiga pra rachar logo meu coco com uma cajadada. Diz que o método era tiro e queda: quando o discípulo não morria, ficava calminho, um verdadeiro santo.

Sempre-viva, flor teimosa do cerrado

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sempre viva.jpg
Eu sei que estou viva quando:
me apaixono como adolescente; dou risada; sinto o vento arrepiar o rosto; sinto medo; sinto fome; canso o corpo; sinto prazer; sinto saudades; percebo que ainda posso chorar lendo um poema ou simplesmente achando uma coisa linda.
Eu morro um pouco quando:
perco a fé; perco tempo com quem não merece; perco a paciência com quem amo; perco o celular com o telefone de todos os amigos; perco um pôr-do-sol no Arpoador ou no Kilimanjaro; perco uma boa oportunidade de ficar quieta ou de agir, quando chega a hora.
Eu não morro nunca quando:
sobrevivo a tanta morte.

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Ei de herrar aimda

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monkey.03.jpg Não tenho vergonha de dizer: sou do tipo que erra um bocado, especialmente em público. Macaco é meu signo no horóscopo chinês e, de fato, micos e outros símios me são bem familiares. Aliás pareço ter, desde sempre, uma certa compulsão pelo erro ostensivo, de modo que aproveitei ao máximo cada chance que a vida me ofereceu de expor minhas imperfeições à visitação das gentes. Em criança, fui anjinho de presépio vivo, mãe da noiva em casamento caipira, oradora do dia da Independência, cisne-do-lago em balé-de-fim-de-ano … não que tivesse grandes talentos ou que apreciasse tanto assim os nem sempre efusivos aplausos familiares mas gostava da sensação de sobreviver a mim mesma. Mais tarde fui fazer canto coral, Teatro de Rua e, pior, Teatro Infantil de Shopping, onde vivi a experiência única e inenarrável de panfletar pelos corredores, em pleno verão carioca, vestida de coelho de pelúcia. Hoje em dia, disponibilizo graciosa e voluntariamente minhas asneiras a quem interessar possa, via internet. Um exemplo de dedicação à causa primata.
Mas também sou um espírito oportunista e não deixo passar as ocasiões espontâneas para testar meu fair-play. Já caí sentada com as pernas pra cima ao fim de um almoço de negócios, derrubei cerveja num professor estrangeiro seriíssimo, e olha que eu nem bebo! Meu currículo de vexames, tombos e tropeços faria corar o Inspetor Closeau. E as bobagens de amor, quantas já cometi, e tamanhas? Ah, como sou tolinha!…
Mas não é que estou aqui inteira pra contar a história? Vergonha não mata, garanto por ampla experiência própria, o rubor até irriga a pele e rejuvenesce, faz a gente se sentir criança. Com aquele risinho de traquinagem, a sem-vergonhice íntima de quem está sempre tentando alguma coisa nova. O vizinho que me perdoe e cuide de sua vidraça, porque eu tô aqui é pra brincar e bola fora faz parte.
Deixa estar que eu ainda aprendo. No dia em que eu parar de errar será realmente confortável, um alívio, e quase anseio por este momento: hora de pendurar as chuteiras… e bater as botas.

Id? nº 1 do 1 do 5

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idea lighbulb.JPG Quando eu tenho uma idéia ruim, das que me acometem aos montes, não tenho a menor dúvida de que fui eu a autora da infâmia. Já quando é uma idéia realmente boa, devo admitir, por muito que eu quisesse me arrogar valor, que não passei de um meio: a Idéia é que me teve, à revelia. Costuma vir pronta e não me larga até que a ponha no mundo, não sem algum indelével prejuízo à sua pureza original. Esses momentos de inspiração límpida são bem raros e, infelizmente, imprevisíveis. Muitas vezes os perco porque esqueço antes de registrar, ou por não saber o que fazer com a idéia ou, simplesmente, por não reconhecê-la como boa. Também já perdi muito tempo com idéias que pareciam boas mas não eram. Às vezes até eram péssimas.
Mas uma idéia realmente boa costuma ter algumas características, que já estou aprendendo a distinguir:
1. É simples, sem ser simplória;
2. É óbvia, sem ser ululante;
3. É profunda e abrangente;
4. É bela;
5. É útil;
6. Quase sempre é engraçada;
7. Também pode ser triste;
8. Não obedece regras;
9. Pode ser totalmente diversa da presente descrição;
10. Pode ser que eu desconheça totalmente o que vem a ser uma idéia realmente boa.


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Porque é que eu tenho mania de elaborar listas de 10 ítens?
Não faço a menor idéia.

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O carro, o m?, o sonho

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cheval-ferrari.jpg Tem gente que escolhe o amor como quem escolhe um carro. Avalia ano, marca e modelo, o estado da lataria, a performance e, principalmente, o valor de mercado. Não se importa de gastar uma nota preta com isso, investe em seguro total e não economiza na manutenção. Volta e meia troca de amor por um mais novo, mais bonito, mais possante ou, melhor ainda, acumula. Detesta perder o que é seu e pensa que sempre cabe mais um na garagem: ter é poder. O mundo é dos ambiciosos e o fundamental é estar bem na fita, desfilar seu sucesso, mostrar a todos que é um vencedor. Mais cedo ou mais tarde, infelizmente, nosso campeão vai cair do cavalo. Vai ficar obsoleto ou, antes disso, vai sofrer um acidente de percurso e sua sucata vai terminar no ferro-velho, como todas as outras.
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armchair.gif
Tem gente que escolhe o amor como quem escolhe um móvel. Avalia funcionalidade, durabilidade, beleza também, é claro. Mas o que importa mesmo é o conforto, aquela sensação familiar, de pertencimento. Com o tempo esse amor vai se desgastando, desbota, ganha marcas de uso, manchas, arranhões. No entanto pode se recuperar lindamente se ganhar uma demão de verniz de quando em quando, um novo estofamento, um reforcinho básico na estrutura. Agora, um móvel também pode às vezes perder sua função, mesmo após muitos anos de utilíssimos serviços. É uma pena mas acontece nas melhores famílias. Nesse caso, antes de abandoná-lo às traças, mais vale mandar para um brechó e livrar o espaço. Sempre haverá algum canto vazio no mundo onde ele caiba à perfeição e tenha melhor serventia.
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Swirling Dream.jpg Tem gente que escolhe o amor como quem escolhe um sonho. Sabe que não escolhe, que avaliações são inúteis aqui. Reluta e se angustia pelo imponderável da situação ou simplesmente entrega e se deixa levar. Aproveita o que tem de bom, sofre o que tem que sofrer, vive a estranheza e o maravilhamento. Não tenta controlar, nem adianta. Percebe a liberdade absoluta que há no meio desse caos. Aceita o fato de que não há garantia de espécie alguma. Pra não se apavorar, é sempre bom lembrar que está sonhando. E, pra não se apegar, é bom saber que um dia acaba, por muito que dure. Antes de acordar sozinho, não custa nada agradecer essa estadia, ainda que breve, num lugar onde se voa.
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Re-invent?o de Ano-Bom

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Xsantaballoon.jpgCartinha ao Papai Noel:

Querido velhinho,

Como eu tenho insistido em ser boazinha neste mundo mau o ano todo, e sobretudo porque eu continuo acreditando em seu “espírito natalino” – mesmo com essa imagem usada e abusada por marcas de refrigerante, pneus e calcinhas e reproduzida ad nauseam nas fachadas de todos os centros comerciais do mundo, de shoppings luxuosos de grandes cidades a camelódromos infectos, nos cantos mais êrmos e obscuros do planeta – penso que devo ter algum crédito como criança. Pelo menos ando merecendo, e com louvor, os títulos de ingênua de carteirinha, bobinha de plantão, palhaça honoris causa e outros apelidos carinhosos com que meu superego vem me brindando ultimamente. Nesse caso, creio que posso pedir ao senhor ao menos um presentinho. Um só, meu sonho de consumo desde a mais tenra infância, o tipo da coisa simplesinha mas que me faria feliz para todo o sempre:
O Impossível.


“Só o impossível acontece, o possível apenas se repete.”
(Chacal)

Um jingle beijo,
Christiana.

P.S. – Pendurei minha meia mais comprida na lareira, mas será que meu presente vai caber lá dentro? Se não couber, pode espalhar pelo lado de fora, pelo chão da sala, pelo mundo todo, se quiser. O mais gostoso vai ser essa parte: sair por aí afora, catando surpresas aos 4 ventos.

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Resoluções de Ano Novo para 2005:

1. Voltar a fumar
2. Engordar 3 quilos
3. Ir mais ao médico
4. Sonhar menos
5. Fazer escolhas sensatas
6. Casar novamente
7. Adequar-me à rotina
8. Adotar animais (ou cuidar dos de outrem)
9. Fazer botox, silicone e escova progressiva
10. Dizer Amém

Como nunca consegui cumprir minhas resoluções de Ano Novo, pretendo chegar a 2006 tão desobediente (e saudável, benza Deus!) como tenho sido até aqui.

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Pra você que me presenteou com sua leitura, desejo de todo o coração um milagre de Natal. E que o seu Ano Novo seja parco em resoluções e pleno de acontecimentos, os mais impossíveis!

Seu gato subiu no telhado?

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black-cat.jpg
Veja você a minha situação.
Eu sou daquelas pessoas que amam a natureza mas têm pavor de insetos estranhos. Bucólica ma non troppo, sabe como é? Pousadinha na serra é tudo, trilha na mata é 10, Floresta Amazônica é meu sonho de consumo, mas com Raid sempre à mão. Promiscuidade com a natureza tem limites.
Pois é, com animais eu também sou assim. Gosto, com algumas pequenas restrições. Acho fofos, quero que eles vivam e sejam felizes e bem tratados, mas não AMO a ponto de cuidar de um. Acho eles meio fedorentinhos, não sabem falar, e tem o cocô, né? Todo bicho faz cocô. E tem que comer na hora certa, então você tem que estar em casa naquele horário ou, pelo menos uma vez por dia, tem que parar pra pensar nisso.
Você pode argumentar: mas você tem um filho, e isso dá muuuuuito mais trabalho! Verdade, mas existem diferenças, embora não muitas. Em primeiro lugar, ele é cheirosinho, ou tão fedorento quanto qualquer um de nós. Conversa comigo, sabe beijar sem lamber (embora já esteja ensaiando umas lambidas pré-adolescentes nas amiguinhas) e aprendeu bem cedo a fazer cocô sozinho e despachar pelo cano. Por essas e outras, ganhou minha preferência e, quando eu e meu marido começamos a achar que faltava um terceiro pra complicar nossa relação, ao invés de um cão ou um amante, arrumamos um filho. Deu certo, e passamos cinco anos nos distraindo com ele e sem ter tempo de lembrar que talvez não estivéssemos mais tão felizes…
Bom, essa foi minha escolha e nunca me arrependi. Mas tenho uma fraqueza: eu AMO meus amigos. Daí que, às vezes, me deixo levar pela emoção solidária para além dos limites da razão.
Foi assim que, ao ver meu amigo amado em crise de angústia, por não ter onde deixar seu gatinho durante uma temporada de 3 meses na Europa, não resisti: “ah, meu querido, não se preocupe, eu alimento seu gatinho…”
Ei, você achou que eu ia ADOTAR o gatinho? Não, eu disse ALIMENTAR. É que esse amigo é meu vizinho, então eu me propus a ir à casa dele, uma vez por dia, alimentar o gatinho e limpar o cocô – sim, o trabalho sujo também – para que o bichano pudesse ficar em seu próprio lar. A opção em que você pensou (e talvez o meu amigo, secretamente, mas teve a delicadeza de não expressar), ou seja, eu adotar o gatinho durante esse tempo, não seria viável por no mínimo 2 razões. Primeira e mais importante: eu moro com minha mãe, ela tem PAVOR de animais e se recusa a conviver com mais um (além da tartaruga de meu filho que eu impus, garantindo que ela jamais conseguiria chegar a uma velocidade de ataque suficientemente ameaçadora). Segunda: minha casa, durante o dia, vive toda aberta, e dá fundos para a Floresta da Tijuca, portanto seria difícil evitar que o gato fugisse.
Ficamos combinados assim e o amigo partiu, muitíssimo agradecido. A minha rotina ficou pouca coisa mais pesada, apesar do amigo morar num 3º andar sem elevador – pernas, pra quê te quero?. Era todo dia escada-escada-escada, comida, agüinha, cocô, bilu-bilu gatinho, até amanhã. Tranqüilo, não?
Não, não e não. O gatinho não ficou bem. É que o amigo estava em obras. Ah, isso você ainda não sabia, mas eu já, burra. Só que não pensei que fosse dar problema. Na verdade pensei bem pouco em tudo, conforme as coisas iam acontecendo.
Desde o início, o gato parecia um pouco intoxicado, o cocô estava mole e se esparramava para fora do “pipi cat”, o que aliás tornava bem mais penoso o “trabalho sujo”, sem contar que, por conta da obra, o amigo estava sem água (!!!!!!!). Então eu passei a deixar a janela mais aberta e o cocô melhorou. Ufa, resolvido, amigo mais feliz lá do outro lado, tudo certo. Até que.
Campainha.
– Oi, eu sou a vizinha aqui do prédio. Não é você que está cuidando do gatinho?
– Sou, por quê?
– Ele caiu da janela.
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Devo dizer logo que o gato sobreviveu. A vizinha foi fofésima, já tinha levado pra sua casa o acidentado e estava aguardando a chegada de sua irmã que, por sorte suprema, era veterinária especializada em emergências felinas. Depois de examinado e medicado, o gato parecia fora de perigo mas inspirava cuidados especiais. Devia ficar em observação, teria que tirar radiografias para apurar uma suspeita de luxação na perna e tinha que tratar escoriações na boca e uma ferida no lombo.
Diante do quadro, me vi na obrigação de recolher o enfêrmo, ainda mais que minha irmã, bem mais empolgada com gatos do que eu, comprou a idéia e se propôs a ser a enfermeira-chefe.
Minha mãe, pobrezinha, foi vencida pelo trágico das circunstâncias e passou a andar pela casa acuada, temendo que saísse das sombras um gato preto para lhe atacar a jugular. E a paz doméstica foi pras cucuias.
No dia seguinte, diante de um novo surto gatofóbico de minha progenitora, resolvi dar um basta na situação e ficou afinal decidido que a namorada do amigo ia assumir o gatinho. Sim, porque o amigo tinha uma namorada desde o início. E você deve concordar que ela seria a herdeira natural, não? Mas é que ela não AMA muito gatos, então ficou aquela coisa de ver, até o último momento, se não havia uma outra solução. Talvez por isso, ela também demorou uns diazinhos pra vir buscar. E minha mãe surtando a cada vez que tinha que sair do bunker de seu quarto.
Até que a menina veio buscar o gato.
Mas aí, cadê o gato? Sumiu. Toca a procurar em todo canto e nada. Fugiu, desapareceu no mato e não voltou até agora. Os vizinhos não viram, nem sinal. Isso tem uns 10 dias.
Tive que contar pro amigo, que ficou arrasado lá do outro lado do mundo. E eu, que só queria fazer-lhe uma gentileza, agora temo que ele me odeie para sempre.

?PROIBIDO LER ESTE TEXTO

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olympia.jpg"Olympia"
Edouard Manet
1863

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Se o homem fosse obediente, estaria até hoje sentado à sombra de uma macieira, fazendo cafuné na Eva sem segundas intenções. Não tendo pecado, não teria tido filhos. Seus pimpolhos Caim e Abel, que só faziam besteira (e devem ter comido as irmãs, talvez até a mãe, do contrário a história não poderia continuar), deram seguimento à cadeia de desacertos que caracteriza a passagem da humanidade pela Terra. Ao cometer fratricídio, incesto e outras tantas atrocidades, nosso tataravô Caim teve que inventar a primeira mentira (“E eu lá sei do meu irmão? Pô, nem vi o cara hoje…”), e todo mundo sabe que exaustivo trabalho de imaginação está por trás de uma mentira. Ainda mais mentir pra Deus, o tipo do sujeito que sabe tudo … mesmo assim Caim, em sua juventude transviada, jogou o barro na parede pra ver se colava. Fazendo isso, tornou-se criativo e pode ser considerado o primeiro publicitário da história (digo: o primeiro humano porque, quando Deus disse “Não coma DESTE fruto”, é evidente que ele sabia muito bem o que estava fazendo e COM QUEM estava lidando, pois não foi ele próprio que nos dotou desta mortal curiosidade? Então o interdito poderia equivaler a colocar na tal árvore um letreiro luminoso: COMA-ME. Já esta ordem “coma-me”, assim no imperativo, poderia soar como uma imposição o que, imediatamente, geraria fastio e Adão iria lembrar que gostava mesmo de abacaxi, deixando intocado o bendito fruto por puro descaso).

Se não transgredíssemos, não incorreríamos jamais em erro. Portanto não buscaríamos soluções e não inventaríamos nada. Se fôssemos bem-mandados, aceitaríamos nossos limites e viveríamos, uma geração após a outra, felizes dentro deles. Não cometeríamos crimes, respeitaríamos regras e leis. E não estaríamos aqui, pilotando computadores e nos comunicando à velocidade da luz. Estaríamos catando piolhos de nossos filhos, muito longe deste ou de qualquer outro questionamento. Uma existência plácida, sem dúvida, mas não muito dinâmica em termos evolutivos. A transgressão é mãe da invenção.

Desde que o mundo é mundo, o proibido é mais gostoso. O beijo roubado, o segredo guardado a sete chaves, a sedução lisérgica das substâncias ilícitas, o erotismo das partes escondidas do corpo (coisa que algumas revistas masculinas parecem desconhecer. Outro dia um amigo me confessou que não agüenta mais ver mulheres em posições ginecológicas. Que esse excesso de exposição acaba com o tesão de qualquer um, não sobra nada pra imaginar. E não se pode negar que a imaginação, quase sempre, supera a realidade) Muito mais excitante que a nudez arreganhada que se oferece é aquela que mostra-esconde, a do decote, a que se adivinha sob o pano ou se espia pelo buraco da fechadura. Muito melhor que a comida que empanturra é aquela provinha roubada da iguaria que ainda não foi servida, que fica reverberando no paladar, prometendo sabores e saciedades futuras. O que não pode torna-se tabu, envolve-se em mistério e temos uma tendência inata a achar que é aí que vamos encontrar o tal prazer de que tanto precisamos, um prazer absoluto imaginário, inatingível em sua plenitude mas do qual chegamos perto em raros momentos. E, de fato, em situações-limite nosso organismo libera uma verdadeira bomba química, altíssimamente estimulante. O perigo nos faz sentir vivos, cheios de energia, capazes de coisas que, em outros momentos, nos pareceriam impossíveis.

Isso, pra mim, é uma programação genética seriamente comprometida com o princípio da transformação. O homem é um poderosíssimo agente transformador da natureza. Esse parece ser nosso papel na história evolucionária do planeta, é o que mais nos distingue enquanto espécie. Nós não somos confiáveis quanto à manutenção da ordem, sobre isso ainda temos muito o que aprender com as abelhas. A humanidade age introduzindo o caos. A partir daí, a busca de harmonia gera uma nova realidade.
O princípio da manutenção, tão característico dos insetos, é fundamental para a estrutura organizacional e para a eficiência produtiva. Se fôssemos tão trabalhadores e ordeiros como nossas amiguinhas melíferas, nosso mundo seria limpo, funcional, previsível e….bzzzzzzz
Quem quer ser uma abelha? Eu morreria de tédio. A gente é bagunceiro mas se diverte. Usa roupa colorida, faz arte, pinta, borda e sapateia. E as abelhas só dançam aquela dancinha em forma de 8 que os cientistas adoram mas, cá entre nós, sou mais o Baryshnikov. E, se elas podem voar, nós não temos asas mas também demos um jeito. Hoje em dia o homem até que voa muito bem, melhor que as galinhas, que são naturalmente aladas. Um Ícaro ou outro quebrou a cara pra nos abrir o caminho, mas é assim mesmo que temos vindo até aqui. Errando e nos virando pra consertar. Fazendo bobagem, pulando a cerca, levando tombo e levantando outra vez. Quebrando um vaso de vez em quando, estilhaçando uma vidraça, partindo um coração – o nosso, quase sempre – e depois recombinando os caquinhos num mosaico novo e surpreendente.

O problema de desafiar os limites impostos é que, quando apanhados em flagrante-delito, em geral sofremos conseqüências bem dolorosas. Como Prometeu, acorrentado e devorado permanentemente no fígado só porque ensinou aos homens o truquezinho do fogo, privilégio dos deuses, artifício através do qual nos mantinham ignorantes e tementes a Zeus. Prometeu sofreu horrores, coitado, porque era forte o suficiente pra não morrer e seu fígado se regenerava a tempo de ser devorado novamente. Eu não queria estar em sua pele, e muito menos em suas vísceras. Sentir dor é, definitivamente, o que eu mais odeio na vida, não sou titã nem nada...

Então o proibido é um jogo arriscado, que não pode ser jogado o tempo todo, não por qualquer um. Existem os mais intrépidos, de alto cacife emocional. E os apegados, que só arriscam uns poucos níqueis nas maquininhas. Cada um tem sua medida de coragem e sua zona de conforto, este é um equilíbrio pessoal e muito sutil.
Ei, cabe aqui um esclarecimento importante: Não estou fazendo apologia do crime ou da barbárie. Me parece que a compaixão e o respeito ao próximo devem ser os princípios éticos inabaláveis por trás de cada ato humano.
O que diferencia o amoral do imoral é que o primeiro busca a liberdade como um valor universal às custas da conveniência dos costumes. O segundo busca o lucro pessoal às custas da própria consciência.

Definitivamente a história da humanidade não foi escrita pelos ordeiros, não se fez nos caça-níqueis. Foi feita em apostas arrojadas, no olho-no-olho, na ousadia do blefe, no alto risco, nas transações suspeitas por debaixo das mesas. Nas viradas de mesa, nas quebras de padrões, na cara e na coragem.
Inconformados com limites, somos tão mais humanos quanto menos abelhas.
Cada vez que, temendo o colapso de nossa espécie, voltamos para a colméia pelo mesmo caminho de sempre, sem parar nem para olhar a vista, estamos fazendo nossa parte na produção do mel e prestando fiéis serviços à Rainha.
Cada vez que, distraídos por uma flor no caminho, passamos além dos limites conhecidos, estamos fatalmente quebrando um protocolo ou infringindo alguma lei e, portanto, nos arriscando a uma punição. Ao mesmo tempo, estamos contribuindo para libertar a humanidade inteira de seu medo infantil de Deus.

Ainda bem que você é desobediente e leu este texto.

Botox

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30botox1.JPG

Meus 3 leitores sabem que eu não assisto mais novela. Só que, diferentemente do Xexéo, eu não assisto mesmo.
Simplesmente não dá, gente. Eu sou formada em Teatro, levei anos aperfeiçoando a máscara facial para que fosse a mais expressiva, a mais reveladora do sentimento humano. Aí eu ligo o aparelho e começo a ver uma sucessão de caras-botox que não alteram um músculo, quer a cena seja de alegria, dor, ciúme ou violência.
Todo o elenco ostenta um semblante plácido, como que recém-saído de um SPA cinco estrelas numa estação termal na Nova Zelândia. Pra disfarçar a pouca expressividade facial, agora deram pra exibir cada vez mais os corpos, de preferência em “ensaios paparazzo” sensuais com as jovens estrelas da dramaturgia (ou as velhas, repaginadas), ou em cenas de porrada entre mulheres, onde as caras duras ficam meio disfarçadas sob o mega-hair sacudido aos puxões.
Não vou perder meu precioso tempo assistindo cenas grotescas. Prefiro cuidar da vida, fazer minhas coisas.
Ir ao dermatologista, por exemplo. Tava precisando porque, depois de velha, voltei a ter espinhas como uma adolescente. O doutor até que foi ótimo, porque curou minhas espinhas em 1 mês. Achei que ele fosse se orgulhar desse resultado, mas agora, pensando bem, suponho que ele teria preferido que eu demorasse mais tempo, mais peelings e mais cremes pra ficar boa. Mas eu sou saudavelzinha, fazer o quê?
Daí que, quando eu estava naquela posição vulnerável, deitada na cadeira igual à de dentista, sob a lente de aumento e com aquela luz horrorosa revelando todas as minhas imperfeições, refletidas no espelhão gigante em frente, o doutor mandou essa:
– A gente podia tirar essas ruguinhas aqui em volta dos olhos…
(eu não me dei por achada)
– Ah, doutor, até que, pra uma balzaquiana, eu não tenho tantas rugas assim. As pessoas acham que eu tenho quase 10 anos menos. Eu não quero parecer que tenho 13 anos! Acabei de me livrar das espinhas…
(mas o momento “segura de sua beleza” dura pouco)
– Doutor, o senhor acha mesmo que eu estou enrugada?????
– Deixa eu ver. Enruga a testa…..com força!
(obedeço pensando em Lady Macbeth em seus delírios de horror)
(ele tenta, sem sucesso, franzir a própria testa ao me dar o diagnóstico)
– Ihhhhh….
(qual auto-estima resiste a isso??)
_ Um botox aí ia bem…
(mas aí ele falou a palavra errada para a pessoa errada. Eu mesma me surpreendo às vezes com as minhas reações)
– Doutor… (empurrando a lente para o lado e levantando da cadeira) se o senhor disser mais uma vez que eu pareço velha, eu saio por aquela porta e vou procurar um médico que diga que eu sou bonita. Eu vim aqui tratar espinhas, não velhice. Não me sinto nem um pouco velha. E injeção na testa, nem de graça!
O doutor esbugalhou os olhos e foi lá pra outra salinha, onde ficou uns bons minutos digitando na minha ficha, tlec-tlec-tlec. Espero que ele tenha posto um lembrete em letras vermelhas garrafais pra nunca mais tentar me detonar pra vender tratamentos. Terminamos muito amigavelmente a consulta e só na saída eu percebi que estava chamando o sujeito pelo nome errado o tempo todo. Ele não só não reclamou como, quando me desculpei, disse que eu podia chamá-lo como quisesse, que não tinha a MENOR importância, se despediu todo fofo e sorridente e ainda me deu amostrinhas grátis de uma máscara ótima de argila. Pianinho, me amando (ou fingindo que me ama, o que, na prática, é o que interessa).
As pessoas são mesmo muito estranhas.

A todas essas, preservei minha integridade motora e continuo 100% orgânica, não-transgênica e sem aditivos químicos. Sem neuro-toxinas botulínicas, próteses plásticas, cabelo alheio e outros adendos bizarros da cosmética contemporânea.

A quem se utiliza deles, meu respeito e admiração pela coragem e pela dedicação à causa narcísica.

Às que os dispensam, unamo-nos! Eu nos acho lindas do jeitinho que nós somos e com a idade que nós temos. Ainda deve ter gente que concorda comigo.

Belben

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belbenrosto.jpgHoje é o aniversário de 47 anos do meu irmão mais velho. Mas essa noite não tem parabéns aqui em casa, porque ele morreu há 12 anos. Tanto tempo que também não tem missa, e ninguém lembra mais de dar os pêsames, o que, aliás, não faz a menor falta. Quem faz falta é ele, o meu irmão. Que morreu com a idade que eu tenho hoje, até menos, um pouco. Portanto eu envelheço aos pouquinhos ao passo que ele não, ele fica jovem pra sempre.

Mas vai desaparecendo. Das nossas vidas, das conversas. Seus amigos, ficando coroas, muitos já avós, talvez nem lembrem que hoje é seu aniversário. E olha que, em seus tempos vivos, ele era muito popular. Bonito (ele era realmente lindo, mas é que pega mal eu falar), extremamente inteligente e sobretudo a pessoa mais engraçada que já encarnou até hoje. Sério, ele era muito hilário, de passar mal. Tinha histórias incríveis, ou as tornava incríveis com seu modo especialíssimo de contar, o que torna frustrante qualquer tentativa de reproduzí-las. Formavam-se rodas à sua volta, onde quer que estivesse. Animava qualquer ambiente, o que lhe garantiu trânsito livre nas festas mais espetaculares do Rio de Janeiro, e também de Paris ou da Riviera Italiana. Melhor que ir a essas festas, só ouvir seus relatos.

Mas os mortos não são populares em nenhum lugar do mundo, simplesmente porque lembram… a morte. Ele não é mais convidado para festas, nem mesmo em espírito, e já deve ter um belo contador de piadas circulando no jet-set internacional, em seu lugar. Assim é a vida; assim é a morte.

Perdão se toco, uma vez mais, neste desagradável assunto. É que está chovendo, portanto eu não pude realizar o pequeno ritual que meu irmão me ensinou num sonho. Ele tomou uma pílula que lhe deu algum tempinho de vida e assim pôde vir numa festa aqui em casa. Eu fiquei muito feliz em vê-lo, claro, e nos abraçamos (foi tudo MUITO real), mas eu estava aflita porque sabia que aquele efeito da tal pílula era passageiro e ele iria embora novamente, então perguntei como poderíamos nos comunicar.
Ele disse que tinha 3 maneiras de falar com ele mas, sabe como são os sonhos, só deu tempo de me contar uma delas: eu poderia colocar bilhetinhos em balões de gás.

belben.jpgDesde então, nos dias de seus aniversários de nascimento ou de morte, sempre que posso eu solto 3 balões, onde amarro bilhetinhos falando de nossas saudades e contando as boas novas – como o nascimento de meu filho, que ele não chegou a conhecer mas que conhece muito bem o Tio Belben, porque eu contei pra ele desde pequenininho sobre esse tio lá do céu. E ele sempre adorou soltar os balões e ficar vendo eles sumirem lá no infinito.

Mesmo com chuva e sem balões coloridos, vou escrevendo a meu modo este bilhetinho aqui, pra que ele saiba que eu não esqueci e que, enquanto eu estiver no mundo, ele não vai desaparecer totalmente.
Quem sabe essa não é uma das duas outras maneiras que não deu tempo dele falar?
Qual será a terceira? Ai, eu sou tão curiosa, essa questão me intriga há anos… O Belben sempre foi muito sacana, deve estar rolando de rir da minha cara lá do outro lado!
Vai ver é isso, é só dar uma boa gargalhada, daquelas de lavar a alma.
Taí, bingo.

O Circo

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seurat-circus.jpg

Sempre fui louca por Circo. Fui poucas vezes, na infância. Acho que minha mãe não era muito fã do programa, ou todo mundo naquela época andava meio traumatizado por causa do incêndio do circo em Niterói, aquela tragédia que acabou por “revelar” o Profeta Gentileza (informação aleatória: muito embora reze a lenda de que ele perdeu toda a família no incêndio, tal fato não ocorreu. Ele abandonou sua própria família e uma vida confortável no interior para prestar auxílio aos familiares das vítimas, seguindo uma revelação espiritual. Sei de fonte limpa, meu amigo fez um filme sobre ele). Fato é que fui poucas vezes ao Circo na infância, não mais que 2 ou 3, portanto pude fantasiar à vontade em cima de cada imagem que consegui capturar então.

Mais do que o show espalhafatoso, que sempre achei meio cafona, ou a profusão de animais torturados, que ofendiam meu espírito ecológico (eu fui uma eco-militante mirim), me fascinavam os números de risco, em que eu percebia a iminência da morte. As facas, os números com fogo, as pirâmides humanas, o trapézio. Aquilo me provocava um verdadeiro êxtase, e um desejo irresistível de estar ali, oferecendo a minha própria morte em espetáculo. Cheguei a fazer umas aulinhas de circo na adolescência, onde experimentei, ainda que brevemente, a sensação de subir num trapézio, ou de me atirar de costas de uma plataforma de 4 metros de altura e cair num colchão, ou escalar um tecido. Mas não tive fibra para persistir diante dos apelos maternos, reforçados maldosamente por previsões astrológicas catastróficas que prometiam aleijões e seqüelas as mais terríveis. Minha faceta mais covarde aliou-se à mais preguiçosa e venceu por maioria absoluta. Abandonei os saltos mortais e resolvi investir em técnicas de "clown": acrobaciazinhas menos arriscadas, nada além de uma parada-de-mão ou uma estrela, só pra poder ver o mundo de cabeça-pra baixo e aprender a cair os mais variados tombos sem perder o rebolado. Meu palhaço, com a idade, tornou-se tímido e o Circo perdeu meu talento. Mas ainda sou dura-na-queda. Ou antes, macia (esse é o segredo!).

No entanto havia na atmosfera circense algo que me fascinava ainda mais que o picadeiro. Um breve recorte, um vislumbre roubado entre ir ao banheiro e voltar: a vida fervilhando por trás da lona, os bastidores. Os trailers, com sua vida nômade suspensa entre a irrealidade do espetáculo e a concretude das meias no varal, os cães e as crianças que circulavam por ali. Ah, que inveja eu sentia daquelas crianças, que viviam viajando e conhecendo gente diferente, aprendendo truques, uma vida de emoções sempre novas, luzes e festa. Mesmo a notória precariedade e a impressão de pobreza do “acampamento” não me incomodavam, era uma pobreza rica, colorida, feliz. Quem precisa de muito dinheiro quando vive assim em meio à arte?

circus.jpg

Minha avó materna compartilhava da minha paixão. Sempre disse que queria ter fugido com o Circo. Eu achava essa idéia incrível, altamente sugestiva, fugir com o Circo.
Então uma vez ela me contou a história de uma contra-parente sua contemporânea, a Maricotinha-dos-Apitos, que foi "roubada" pelos ciganos do Circo, ainda criança (esclarecimento: na maioria das vezes, as crianças eram, na verdade, abandonadas pelas famílias e recolhidas por ciganos. Era uma forma prática de resolver gravidezes indesejadas e outros deslizes do planejamento familiar). Anos depois ela reencontrou a família de sangue, que era abastada e lhe acenava com confortos e dignidades, mas preferiu continuar com sua gente adotiva. Ela amava sua vida de artista e não a trocaria por nada. Deixou para minha avó, como lembrança, um xale preto todo trabalhado em metal dourado, que usava em seu número de andar sobre a bola. Minha avó me deixou de herança o xale e essa alma cigana, que não está no sangue. Um gosto por trupe, caravana, música e dança. Por saia rodada e lenço. Por contar e ouvir histórias. Brincar de adivinhar a sorte.

Mas eu, como minha avó, não segui o Circo, fiquei só imaginando. Minha avó cantava e recitava poesia enquanto cozinhava, arrumava a casa. Foi assim que eu aprendi “Os Lusíadas”, “O Navio Negreiro”, “I-Juca Pirama”, sonetos de Camões… Vovó era uma diva doméstica, uma artista do cotidiano, preenchia com a vivacidade de seu espírito as tarefas mais bisonhas do dia-a-dia. Tinha o Circo em si.

Eu cuido da minha alegria para que minha avó não se perca da família, para que o espetáculo possa sempre recomeçar.
Os cães ladram, mas a caravana passa. A gente recolhe a tenda aqui, pra armar a festa ali adiante.

Eu andava meio tristinha com umas bobeiras aí, mas quer saber do que mais? Palhaço que é esperto aproveita a queda e levanta na cambalhota.
Hoje tem brincadeira? Tem, sim sinhô!

Cine-Preguiça

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Eu sofro de uma estranha síndrome, ainda não descrita pela ciência: a Síndrome da Preguiça Crônica De Ir Ao Cinema. Não, não é a Síndrome da Fadiga Crônica, aquela doença cinematográfica do Sean Connery. É preguiça mesmo. Não tenho fadiga alguma, sinto-me perfeitamente bem. Agora mesmo, poderia calçar meus tênis e dar uma volta na Lagoa. Correndo. (ah, deixa eu exagerar, vai)

Mas se você me convidar para ir ao cinema, eu vou dizer “hum…” , enquanto procuro uma boa desculpa. “Agora não dá, estou escrevendo”. Como se eu ganhasse alguma coisa pra isso. Se fosse trabalho, vá lá, mas deixar de ir ao cinema pra ficar escrevendo “di grátis”… nunca consigo convencer os amigos na primeira evasiva e sempre gasto bem mais saliva do que o previsto na negociação. “Tô dura” só é bom argumento com os pobres, os remediados pra cima se oferecem pra pagar. Oh, céus.

Então vou expor aqui todas as minhas razões, de maneira organizada e, da próxima vez que me convidarem, vou enviar este texto pela internet. Parece uma boa tática.

Em primeiro lugar, devo deixar claro que aprecio muitíssimo a sétima-arte, acho das coisas mais interessantes já inventadas pelo homem, depois da asa-delta e da literatura.
Minhas razões não são de ordem ideológica e muito menos artística, mas tão-somente operacionais. Pragmaticamente falando, uma simples relação custo-benefício.

Veja bem. Eu nasci, e tenho a sorte de viver até hoje, num dos lugares mais bonitos do mundo. Não contente em viver no Rio de Janeiro, eu ainda me dou ao luxo extremo de morar no Horto. Pra quem não conhece, o Horto é um mini-bairro espremido entre o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, A Lagoa Rodrigo de Freitas, a Floresta da Tijuca e a Rede Globo (nada é perfeito). Um pedacinho do paraíso, resquício de um tempo que não existe mais. Meia dúzia de ruas arborizadas e tranqüilas, onde sobrevivem arcaicos pregoneiros (olha a vassoura aê…), as crianças soltam pipa e as senhoras gordas põem cadeiras na calçada pra botar a fofoca em dia. Agora mesmo estou escutando o canto de pelo menos 3 tipos diferentes de passarinho, e posso ouvir mais ao longe os gritinhos dos micos. Da janela vejo os morros verdes e, de esguelha, distingo o recorte azulado do pão-de-açucar lá no fundo. Dos fundos da casa, vejo o suvaco do Cristo Redentor. A primavera explodiu a orquídea do jardim em uma nuvem de mini-flores amarelas, e as marias-sem-vergonha estão coalhadas de brotinhos mais gostosos de estourar que plástico-bolha.

Agora, você quer mesmo que eu me enfie numa salinha escura pra ver Kill Bill 2???

(pausa para um cafezinho na cafeteria do Jardim Botânico)

Você vai me perguntar: E quando o dia acaba e a noite chega, mandando pra casa os passarinhos, os micos e os pregoneiros?

Bom, aí eu já dei uma volta na Lagoa, fiz um tour pelo Jardim Botânico, estou confortavelmente instalada, descalça e pés pra cima diante do meu computador, me distraindo com meus próprios pensamentos. Você quer mesmo que eu me vista, ponha sapatos e me desloque no mínimo 2 bairros para chegar ao cinema mais próximo? Sim, porque no Horto não tem cinema (nem farmácia, nem supermercado, nem outros estabelecimentos de primeira necessidade. Pra quem precisa dessas coisas).

Cinema é alimento para o espírito, eu sei, eu sei. Mas sempre existem dietas alternativas. Não tenho paciência pra assistir vídeo nem TV, mas tem livro à beça aqui em casa. Além disso, eu sempre posso ir ali na sala bater um papinho com a minha mãe, que é a pessoa mais interessante de se conversar em todo o planeta Terra. E também tem meus irmãos que, quando não estão sendo insuportáveis, sabem ser muito divertidos. Sem falar do meu filho, que é um espetáculo ambulante. E sempre pode acontecer uma visita surpresa dos meus amigos que, modéstia à parte, são a fina-flor do interessantismo nacional (afinal, são ninguém menos que os meus amigos).

E tem esse negócio do horário, né? Ô coisa chata, ter que chegar na hora certa numa atividade de lazer. Nunca consigo e, em toda a minha escassa filmografia, via de regra faltam as cenas iniciais. Eu sempre juro que vou assistir de novo o filme pra ver o início, mas aí falta ver tanta coisa…

Eu ouvi dizer que o Chico Buarque também tem essa minha doença e que, toda vez que perguntam qual o último filme que ele viu, ele responde “Corra, Lola, corra”. Achei ele super atualizado, porque o meu último, não tenho bem certeza porque foi há muito tempo, mas acho que foi “Titanic”. Ah, teve uns infantis a que a maternidade me obrigou, de lá pra cá, mas foram poucos porque eu geralmente empurro este programa para o progenitor da criança. Tem também os filmes de amigos, em sessões nos Cine Odeon da vida, mas esses, por não terem sido vistos por mais ninguém, não servem de assunto nas rodinhas de chopp, e não livram minha cara quando os assuntos cinéfilos vêm à baila.

Acho que vou convidar o Chico Buarque para um chopp. Tenho certeza de que teríamos assunto para uma noite inteira (pra muitas, mil e uma) sem que nunca um precisasse perguntar para o outro “viu aquele filme?”.

Luis Severiano Ribeiro que me perdoe mas, na minha ordem das coisas, cinema pode não ser a maior diversão. Fazer o que se a minha vida é mais interessante que a da Uma Thurman?

* * *

Já que uma lista dos filmes-que-eu-preciso-ver-urgentemente não caberia nesse espaço, faço aqui uma lista dos filmes que eu vi e de que ainda me lembro. Se quiserem conversar comigo sobre cinema, tenham o bom-tom de se ater a estes títulos.

Hair - mais de 15 vezes.
Embalos de Sábado à noite
Fama
Grease (eu gosto de musicais, fazer o quê?)
Dersú Uzalá
Betty Blue
Meu Tio
Retratos da Vida
Cria Cuervos
A Lagoa Azul (eu era adolescente, pô!)
Pulp Fiction (eu estava grávida – péssima escolha)
O Barato de Grace (Nesse dia eu cheguei em casa e me separei. Não sei se o filme teve alguma culpa nisso, até que eu tinha dado boas gargalhadas, deve ter sido a última vez que gargalhamos juntos. Nada como uma bonança antes da tempestade)
Titanic (pode ser que o Barato de Grace tenha sido posterior, já que nessa ocasião eu ainda estava casada. De qualquer modo, a ordem dos naufrágios não altera o produto)

Qual será o próximo filme que eu não vou ver? Alguma sugestão?

Memórias

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Deve ser um trânsito astrológico (explica aí, Maria Helena, ou será que você foi mesmo abduzida?). Por uma série de coincidências concomitantes – isto deve ser uma redundância mas minha vida está assim, redundando sobre si mesma – tenho sido levada a exumar meu passado.

Não posso reduzir o fenômeno a um mero “efeito Orkut”, muito embora deva admitir que este clubismo internáutico teve lá sua parte na arqueologia dos reencontros (tendo sido esta, aliás, a maior, senão a única utilidade que encontrei na referida ferramenta que transforma pessoas em fichas e suas relações sociais em álbuns de figurinhas. Mas não sou mal-humorada, aderi à brincadeira, ainda que timidamente, e admito: só por esta função “túnel do tempo”, a xaropada toda já se justifica). No entanto a maré retrô parece ter um alcance mais amplo, e tenho encontrado amigos antigos na rua também, primeiros namoradinhos (já carecas, socorro!), gente do arco-da-velha.
E não só isso, a vida vem em ondas, como bem disse o santo Lulu. Recebi há algumas semanas, de meu ex-marido, uma grande remessa de fotos que eu tinha deixado por lá, nas quais eu mesma, felizmente, pouco apareço, já que na maioria das vezes sou a fotógrafa, mas que reavivaram fatos, pessoas e lugares que marcaram minha trajetória.
Também há pouco, minha turma de Teatro fez reencontro de 15 anos de formados (e eu faltei, na hora H me deu preguiça, pode? Chovia muito. Mas troquei zilhões de e-mails com essa tribo anárquica e dionisíaca, dos ditirambos de minha idade pré-clássica ).
Achei meu caderninho chinês brocado, que é mais velho do que eu imaginava, já que tem dedicatórias dos colegas do ginásio, portanto remonta aos meus treze anos. E ainda fiz, junto com meu irmão, um tour imaginário por nosso colégio dessa época, lembrando cada espaço, cada canto, os móveis, os personagens que povoaram nossa infância e pré-adolescência. Passamos mal de rir a cada detalhe insignificante que era desencavado. Ele também cultiva esse interesse bizarro pelo aleatório inútil, acho que essa doença é genética.

Então eu sofro dessa memória meio absurda, quase sólida, estou em pleno surto mnemônico e não sei bem pra quê isso serve, além de dar risada.

Eu lembro do primeiro número de telefone da minha casa. Da minha professora do maternal (e eu só tinha 2 anos!). Do refeitório da pré-escola, a toalha plástica xadrez, a bica para lavar as mãos, e cada um dos meus coleguinhas, que não encontro desde então. Vejo como num filme o pátio onde eu fazia bolinhos de areia segundo uma técnica bastante elaborada, o pé de carambola e o gosto ora azêdo ora doce de seus frutos, que me ensinaram a diferença entre verde e maduro.
Lembro de um pensamento que eu tive no banheiro de casa, lá pelos meus 9 anos, olhando para os azulejos que agora ainda posso ver diante dos olhos, e pensando em quantas coisas da minha vida eu já tinha esquecido. Então pensei que não queria nunca esquecer aquele pensamento, nem quando eu ficasse bem adulta – assim como eu quase sou hoje– pra não esquecer que eu tinha sido um dia aquela menina que pensou aquilo. Pra não esquecer de mim. E me surpreende que eu não tenha mesmo esquecido. E me dá uma certa dó de que eu, tão jovem, já fosse nostálgica.
Lembro perfeitamente de pessoas que nem me conhecem mais, recordo seus rostos, seus nomes, suas histórias, seus familiares. Não é nenhum esforço, eu simplesmente acesso as informações mais inusitadas, elas me vêm por todos os lados. Pra quê?

Às vezes fico parecendo maluca, descompassada, acenando na rua pra gente que não me acena de volta e ainda olha pra trás com cara de “é comigo?”. Ou então expresso todo meu entusiasmo ao reencontrar um amigo remoto de quem ainda me considero íntima e fico falando sozinha, feito boba. Cada vexame que só vendo.
Os outros ficam sempre parecendo muito mais ocupados com coisas importantes do que eu, que gasto meu tempo com pessoas e outras distrações. Mas já me habituei a passar por doida e perdi a vergonha de andar por aí cantando, inventando moda, olhando pra ontem e colhendo impressões a esmo. Se não são atividades das mais úteis e nem me rendem altos dividendos, também não parecem imorais ou violentas. Os loucos inofensivos costumam ser deixados em paz, e tenho me fiado nisso ao expor assim minha inadequação.

Sigo teimosamente minha trama, costurando o inconsútil, tentando me atar à vida que passa. Bordando em mim mesma um sentido em tanto retalho, um futuro em tanto passado. Nem sempre é possível escapar da solidão do nosso próprio caminho, nem sempre se pode comentar a paisagem, mostrar aquela página secreta do diário de bordo. São minhas relíquias, talvez não sejam importantes pra mais ninguém.
Lembranças não-compartilhadas são tão reais como sonhos. E acabam sendo, talvez, contaminadas por eles. Não dou garantia de minhas memórias, elas podem ser distorcidas, exageradas. Mas dou fé, as tenho. Enquanto tiver espaço em meu baú – e sempre há tanto vazio aí, um universo a preencher – vai entrando gente, idéia, afeto, imagem, música, história de verdade e de mentira. Vai ficando mais preciosa e colorida a minha coleção.

Ainda que seja invisível de fora e impalpável, há de ter alguma serventia tanta matéria insólita. Nem que seja pra escrever estas bobagens por aqui. Nem que seja pra embaralhar tudo e reeditar num sonho. Nem que seja pra esquecer quando eu despertar.

Fotofobia

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A fotografia tem o condão de resumir, num flash, todos os meus defeitos, e ocultar todas as minhas qualidades. Por isso é que eu raramente exponho minha imagem à lente dos paparazzi.
Você deve estar achando que eu sou uma monstra, mas na verdade eu não sou tão feia assim. Ainda não pareço muito velha, mantenho meu corpitcho em boas condições à base de caminhadas e até alguma musculação, e a cara que me coube ostentar, se não é nenhuma obra de arte, também não envergonha a família. Tudo bem que um dos meus dentes da frente cruza a perna sobre o outro, mas não parece tão grave, tem até gente (pouca) que acha charmoso. E eu dei um jeito de bagunçar o coreto um pouco mais, quebrando meu (até então) perfeito nariz, orgulho da mamãe. Ele ficou parecido com o que era antes, só ganhou um calinho ósseo onde outrora arrebitava e saiu ligeiramente do prumo, acentuando minha inata assimetria. Mas eu juro que não assusto criancinha. Andando, falando e me movimentando, tenho conseguido sobreviver no mundo das aparências. Não podendo competir por luxo, a gente ganha por originalidade.
Agora, quando minha figura é capturada por uma câmera, acontecem várias coisas estranhas, com as quais não consigo me acostumar. Em primeiro lugar, fico muda, o que, convenhamos, já tira boa parte do meu charme. Em segundo lugar, os ângulos retos da moldura ressaltam as discrepâncias e fazem meu retrato parecer um Picasso. O dente de perna cruzada sempre brilha mais que os outros, e ainda aparecem malignos pontos vermelhos no fundo de meus olhos. Isso quando eles estão abertos, porque eu sou campeã em fechar o olho na hora do xis. Se, por descuido da caminhada, eu tiver acumulado um mínimo pneu na cintura, ele estará lá, se exibindo na calibragem máxima – está cientificamente comprovado que câmeras engordam cinco quilos, no mínimo!
Enfim , fotografias são um balde de água-fria na minha auto-estima. Não gosto e pronto. Lembrem de mim pelo que sou, quem me vê ao vivo me conhece, quem não conhece terá que imaginar. Este ano, por exemplo, só tirei umas 4 ou 5 fotos, mas 3 foram vetadas pelo controle de qualidade. Em duas eu fechei os olhos. Na outra, eu tinha acabado de enfiar um sushi – dos grandes – na boca (este gentil e oportuno fotógrafo chama-se MEU PAI!). Sobrou uma, tirada por um amigo querido, em que exibo uma postura péssima e que de modo algum me agrada mas que salvei por via das dúvidas e, na falta de outra melhor, a tenho usado, a contragosto, cada vez que preciso comprovar minha existência material.
Tais são minhas agruras fotográficas. A baixa fotogenia foi uma das razões para eu desistir – para o bem de todo o público – de minha carreira de atriz. Foi também o que livrou meus amigos de assistirem vídeos do meu casamento. As poucas fotos que eu permiti foram preto-e-brancas e ficaram bonitas, parecem antigas e tudo, mas não olho nunca, me acho meio ridícula. Mesmo fotos da infância me incomodam um pouco – gosto de ver as dos outros, não as minhas. Enfim, não gosto de ficar me olhando em 2-d, congelada no passado, rígida e sem perspectiva, chapada num papel ou numa tela. Prefiro olhar pro futuro.
Estranho, né? Hoje em dia, todo mundo adora sair na foto, aparecer na televisão. Eu, não. Ao vivo não sou propriamente tímida, mas fico envergonhada com a minha imagem solta de mim por aí, nunca sei como ela vai se comportar. Sou que nem índio, índio também não gosta de fotografia, diz que aprisiona a alma.
Sou assim meio selvagem mesmo, arredia aos enquadramentos contemporâneos. Prefiro ser vista por olhos nus, porque eles são esferas e andam aos pares, portanto sabem ver minhas luzes na profundidade de suas dimensões.

Da série “novas diretrizes em tempos bicudos”:

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Pirate Face2.jpg

Sou pirata até que a maré mude.


Eu tinha pruridos de comprar cd pirata. Mas com o mau estado atual da minha conta bancária, resolvi proceder uma pequena distribuição de renda, uma reforma agrária no campo da minha própria pessoa. Ou seja: Diante da mendicância musical em que a dureza estava me confinando, resolvi aderir à pirataria sem culpa, salvando apenas aqueles artistas que sejam mais pobres do que eu ( acho que nesse grupo só ficaram o Daminhão Experiença e uns poucos malucos meus amigos, aos quais já encomendei meus originais autografados). Eu tenho certeza que não estou tirando leitinho da boca do bebê da Maria Rita, e também aposto que o Caetano Veloso não vai ter que vender a cobertura da Vieira Souto por causa disso. Ah, e o dono da EMI, tadinho? Será que vai ficar pendurado na prestação do avião?
O pirateiro meu amigo é um carinha bacana, ralador, tá se virando como pode. Faz um trabalho limpinho, som perfeito, põe capinha colorida, transporta, vende, foge do rapa e ainda consegue cobrar míseros R$ 5,00 por um produto muito similar ao original, que não sai por menos de 30. Pô, tem alguém ganhando muito nisso, e não é a cultura.
A indústria fonográfica que se coce pra praticar preços competitivos. Se o original custasse R$ 7,00, eu pagava, mesmo sendo um pouco mais caro, pelo prazer de remunerar o artista, e pelo luxo de um encarte com as letras. Quase ninguém faz xerox de livro hoje em dia, porque sai quase o mesmo preço e fica feio. Então é sinal de que as editoras correm mais atrás de seu prejuízo. Mas convenhamos que, na música, a diferença é gritante. E olha que a indústria compra matéria-prima no atacado, prensa em série e nem paga tão bem assim os músicos e técnicos. Tem pirata grande aí nessa rede, tubarão branco comendo nosso tutu.
Então agora eu sou a Robin Hood dos trópicos, uma desobediente civil na legítima defesa da musicalidade nacional: contra os preços abusivos, pirataria já!
A minha vida e a do meu pirateiro vão cada vez melhor, quem canta seus 7 mares espanta.

Sugar blues

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Estava eu em meu contemplativo sábado sem criança em casa, quando fui subitamente transportada por um vagalhão de decibéis diretamente para dentro de uma festinha infantil na vizinhança. É bem verdade que mal se ouviam os moleques, subjugados em sua natural algazarra pelos superpoderes de um amplificador turbinado. O (des)animador comandava a tropa com punhos de aço, propagando a todo o bairro os nominhos dos insubmissos em reprimendas, enquanto premiava os obedientes com balinhas. Como golfinhos de aquário quando batem palmas na hora certa. E tome música aos berros pra que não possam escutar nem seus pequenos pensamentos. Com tanto refrigerante nas veias, as crianças ficam mesmo excitadas e executam com impressionante agilidade as estranhas coreografias ao som de “vai, lacraia”(!), sem falar nas sado-olimpíadas a que são submetidas para ganhar mais doses de pirulitos e porcarias plásticas. (Sempre penso que daqui a milhões de anos, quando algum cyber-arqueólogo desencavar nossa estranha civilização, nossa sociedade será analisada através destes indegradáveis brinquedinhos que infestam os quartos infantis de todo o mundo. Como todo achado arqueológico inexplicável é sempre classificado como “um objeto ritualístico”, que espécie de impressão havemos de causar, com nosso panteão pokemônico?) Mas voltando às criancinhas glicosadas. Ainda que involutariamente, acompanho enquanto cumprem seu deprimente roteiro e, em momento estratégico – pouco antes do fim – são levadas à overdose glicêmica com o bolo e os docinhos. Nocaute. É o ciclo de todas as drogas: prazer crescente, pico do efeito mas, se exagerar, vem o tombo. Aí é o inferno, e temos a famosa depressão-pós (com trocadilho). Quem já foi, sabe como terminam as festas infantis. As crianças ficam chatas, sentem sono, se engalfinham, um que ainda não caiu duro corre demais e se machuca, bolas estouram assustando os menorzinhos, que choram muito. Hora de acabar. Os drogadictos-mirins são carregados nos ombros por pais tolerantes. Coniventes, porque também encheram a cara de brigadeiro.
Graças a Deus já acabou a festinha, mas ainda estou meio surda. Vou lá na cozinha comer um tasco de pudim, que de amarga é que eu não morro.

Sincronicidade

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Eu acredito em Sincronicidade. É uma teoria do Jung (Carl G. Jung, psiquiatra suíço, 1875 – 1961) que sugere que todos os eventos que acontecem em um mesmo tempo estão interligados, ou seja, existe uma ordem oculta no caos que não pode ser inteiramente apreendida mas que está contida por completo em cada menor parte do todo. Como um código genético do momento, presente em cada diferente célula. Então, quem tem olhos de ver pode enxergar ou, ao menos, ter um vislumbre do todo em cada evento isolado.

A sincronicidade é, na minha opinião, o melhor fundamento para a eficácia dos oráculos: são células do organismo em que a expressão do código genético é mais acessível, porque já foi mapeada e descrita pelo projeto genoma da experiência humana – os sistemas simbólicos.

Mas na verdade me parece que a vida é o grande oráculo, a ordem dos fatos, a escrita do dia-a-dia. Os nunca-por-acasos. Os encontros, ou não. Às vezes os silêncios também podem ser muito eloqüentes.

Eu tenho essa mania de ler a vida, ver em tudo um significado. Em Psicologia isso se chama “pensamento mágico” e é um sintoma patológico presente nos obsessivos, nos paranóicos e nos esquizofrênicos. Ainda não decidi o meu diagnóstico. Enquanto isso, minha camisa-de-força virou estopa e eu ando por aí à solta, dando um sentido íntimo às nuvens do céu, às palavras entreouvidas a esmo, à soma dos números das placas e dos bilhetes, à disposição das marias-sem-vergonha no canteiro do jardim.

Com pensamento mágico, a minha vida fica mais divertida. A vida não é um jogo – um “role-playing game”? Deus não joga dados? Ah, a ciência diz que não.
Mas esse Einstein tem mais cara de maluco do que eu.

Mutações

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Não sei se eu sou uma crédula, porque toda vez penso “eu sinto que é ele, vamos lá!”, ou se sou uma cínica, porque toda vez eu chego lá e penso “hum…sei não…” e começa a saraivada de críticas pra no final constatar, como sempre: “é, ainda não foi dessa vez”.

Não estou falando do príncipe encantado, não hoje. Estou falando do Mestre. O gafanhoto tinha, o karatê kid também, até o Paulo Coelho arrumou um antes mesmo de ficar rico. Então eu estou sempre de olho, pra que não me ocorra, por distração, de cruzar seu caminho e não reconhecer. Claro que todo mundo tem o que me ensinar, eu já aprendi mais com minha tartaruga sobre sobrevivência às intempéries do que com todos os meus livros de psicologia. Mas eu falo de uma relação formal mestre-discípulo, uma iniciação personalizada que me fizesse ascender a um estado búdico.

Esse cara último, eu conheci (entenda-se por conhecer: saber da existência) quando tinha 15 anos, e isso faz tempo. Minha prima mais velha, ídola absoluta – vinte-e-poucos anos, linda, hippie-chic, sexy, inteligente e cantora – foi à China (!) e voltou cheia de novidades. Trouxe pra mim um caderninho vermelho de encadernação brocada que tenho até hoje e, pra minha mãe, um exemplar (traduzido para o português, evidentemente) do “I Ching – O Livro das Mutações”. Era um livro a quem se podia fazer perguntas! Eu tinha quinze anos e um milhão de perguntas por segundo. Mal deixei minha mãe chegar perto, carreguei-o para o quarto, onde o mantenho até hoje, sempre ao lado da minha cabeceira (claro que, de uns anos pra cá, tenho meu próprio exemplar e devolvi o bagaço do outro à biblioteca da família). Destrinchei seus mecanismos oraculares e passei a me divertir com as respostas bizarras e poéticas. Com o tempo, aquelas imagens passaram a fazer sentido, não muito, mas davam um sem-sentido poético às coisas bizarras que eu vivia. Tem sido assim há 20 anos; eu e o “velho” nos entendemos bem. Ele às vezes mente pra mim, e eu perdôo. Eu encho o saco dele com as mesmas perguntas, e ele responde (quase)sempre com uma paciência chinesa, até que eu entenda ou desista de perguntar.

Mas eu queria alguém de carne e osso. Podia ser uma mulher, uma velhota, uma criança, qualquer interlocutor mais…animado que um livro. Desde que fosse sábio, modesto e interessante como este surrado volume sabe ser.

E quem melhor do que o próprio autor do livro? Não do antigo oráculo do I Ching, esse já virou lenda há uns bons três mil anos. Assim como já viraram pó o Rei Wen, o Duque de Chou, Confúcio, Richard Wilhelm, Carl G. Jung e tantos outros elos que ligam minha leitura atual à China remota; são mestres-de-papel, não podem bater com um bastão na minha cabeça.

Mas a ponta de cá desta corrente, o primeiro tradutor do I Ching para o português (a partir da versão alemã, prefaciada por Jung), o – circunscritamente, mas ainda assim – famoso prof. Gustavo A. C. Pinto – que foi professor da minha tal prima naquela época, e foi inclusive seu cicerone naquela viagem à China – este está vivo, e ainda surpreendentemente jovem. E nos últimos anos, ainda por cima, sagrou-se monge budista! E veio ao Rio, após um retiro de 20 anos, para um ciclo de palestras!! Logo ali no Leblon, e a entrada era razoavelmente barata!!!

Dá ou não dá pra se empolgar? Eu fui pra lá, amarradona. Cheguei em cima da hora e consegui um improvável lugar na primeira fila. O universo conspira, eu pensei. O mal das expectativas.

Tá, o cara é legal, um coroa bonito, inclusive. Careca reluzente como a de um Buda de louça, fala mansa, um pouco demais da conta, e monocórdica (me lembrou o papa), com um estranho sotaque lusitano, visto que ele dizia ter nascido no Rio, se formado no Japão e vivido em São Paulo nos últimos anos.

Falou que nunca somos os mesmos, nada permanece.

Falou de Karma, Dharma, e do ciclo vicioso da violência:

ignorância =>desejos=>ira=>ignorância=>desejos …

Isso eu achei a melhor parte. A saída desse circuito? O desapego. Tudo muito bacana, mas tenho que confessar que eu já sabia.

Claro que nunca é demais lembrar mas, de alguma forma, eu esperava algo além. Um insight, um novo enfoque ou, no mínimo, uma pessoa mais surpreendente que me fizesse rir, ou me levasse às lágrimas. E olha que, pra rir ou chorar, eu sou facinha.

E tinha um negócio dele não querer falar “eu” pra não cair na “armadilha do ego”. Então, toda hora ele falava do “garoto que um dia atendeu pelo nome pelo qual hoje me chamam”, ou o “adolescente de quem ele se recorda e que atendia pelo nome pelo qual ele hoje atende”. Ou esse cara tem um homônimo que ele cita um bocado, ou me parece que ele falou de si basicamente o tempo todo, nas reminiscências que traziam “àquele garoto que um dia(…)”, as ruas, hoje tão diferentes – ele queria sublinhar a impermanência, eu sei, eu entendi – daquelas da “cidade que se chamava São Sebastião do Rio de Janeiro” quando “aquele garoto (…)” aqui vivia.

Sei lá, aquele preciosismo eufemístico me deu sono. Pode ser que ele seja um mestre no método “sleep-learning” de iluminação acelerada, mas fico mais com a sensação de que me enganei no caminho, que aquela pantomima toda é um (mau) disfarce pra uma pseudo-modesta egotrip. E o pior é que ele nem falou do I Ching. Parece que ele agora “mudou”; o “professor que um dia atendeu pelo seu nome” não existe mais. Pôxa.

Pelo menos meu livro permanece à cabeceira.

Volto ao prefácio do prof. Gustavo Pinto. Começa assim:

“O que hoje conhecemos com o nome de I Ching…” (Xi, há 20 anos o cara já era igualzinho!)

Deixa o prefácio pra lá e vamos às mutações propriamente ditas.

Começam assim:

“O Criativo promove sublime sucesso, favorecendo através da perseverança.

(…) O movimento do céu é poderoso.

Assim o homem superior torna-se forte e incansável.”

Não sei bem o que significa, mas gosto da simplicidade dos hexagramas, dos ideogramas intrincados que os traduzem, das palavras a que inexatamente correspondem, das imagens que evocam. Tô com meu chinês e não abro, ele é poético até quando mente.

Enquanto tiver forças, eu persevero no movimento, mesmo sem saber se o tal sucesso vem um dia, e se é de fato sublime.

Fico com meu velho livrinho, imutável entre as mutações. Melhor do que virar monja e começar a falar esquisito.

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