Textos antigos (Christiana): March 2004 Archives

Sobre um mico e outros bichos

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Da série “cenas que gostaríamos de esquecer”:
Hoje eu paguei o maior mico da minha vida. Acabo de adquirir, no mercado de usados da internet, um laptop. Era um sonho de consumo – uma máquina de escrever portátil. Estou em plena fase “meu bebê”, achando ele lindinho, passando paninho no monitor, gravando musiquinha. A bateria dele tá meio fraca então de repente apagou. Normal, fui ligar na fonte só que – horror dos horrores – ele não ligou! Verifiquei a tomada, os plugs, abri e fechei várias vezes e nada. Liguei desesperada para o sujeito que me vendeu. Quando ele perguntou “tudo bem?” eu respondi, com a voz embargada e trêmula “Na verdade tudo mal. Ele simplesmente morreu. Já tentei de tudo e nenhum sinal de vida.” Depois que relatei as tentativas frustradas de ressuscitação, ele suspirou e fez a fatídica pergunta: “Você tentou o botão de ligar?”
* * *
Eu sobrevivi à minha ignorância informática num mundo globalizado pela única razão de que fui casada por muitos anos com um cara que entende tudo de computador – pelo menos se comparado a mim. Daí que eu me permiti cultivar um comportamento blasé com relação a assuntos tecnológicos em geral, já que podia pedir auxílio até para acertar o relógio.
Hoje em dia, separada, precisei aprender muita coisa na marra. Mas quem disse que a vida era fácil?
Eu passo vergonha e no entanto estou aqui, aprendendo a ser uma pessoa inteira e não mais a metade de uma laranja. Às vezes é difícil mas a solidão acabou se mostrando mais rica e menos assustadora do que parecia a princípio. Tenho gostado cada vez mais dela, acho até que ando exagerando. Na verdade não acho não, os outros é que acham, porque o isolamento parece um comportamento depressivo e nós vivemos numa sociedade maníaca, voltada pra fora, para o exagero: saia muito, compre muito, faça muito sexo. Isso é que é produtivo do ponto de vista econômico.
Mas a solidão pode ser muito feliz. Aliás, no que diz respeito ao auto-desenvolvimento, ela é dos estados mais férteis, só perdendo para os encontros grandes e verdadeiros – estou falando dos grandes e verdadeiros; um mau encontro perturba a solidão e não faz companhia.
É na solidão que a gente constrói nosso mundo interior e é ele que nos acompanha o tempo todo como interface (olha a metáfora computacional – vivendo e aprendendo) entre a realidade e a experiência subjetiva. Ora, se o meu mundo é rico, eu não vou querer consumir tanto, nem assistir qualquer porcaria, nem sair com qualquer um.
Pra ser bem sincera, preciso confessar uma coisa: estou apaixonada pela minha solidão, está páreo duro até pro príncipe encantado.
Não vou fazer aqui um libelo contra o relacionamento humano, muito menos contra o amor, mas olha o nível em que vivemos a maioria de nossas relações. Já experimentei o modelo do casamento por tempo suficiente para ter uma opinião segura, ao menos para a minha vida atual: a coabitação me parece uma promiscuidade desnecessária, somente justificável para fins reprodutivos. Como eu já tenho um filho maravilhoso, isto está definitivamente fora dos meus planos futuros.
Até mesmo um inocente namoro pode transformar-se num tédio se vocês se permitirem ver faustão juntos na casa da sua sogra num domingão de sol. Você vai sentir aquela angústia difusa, resultado da sensação de estar desperdiçando momentos preciosos que poderiam converter-se em um poema – ainda que sofrível – na leitura de um bom livro ou numa deliciosa, pessoal e intransferível soneca.
O casamento tende a transformar o amor numa espécie (das piores) de emprego público. Você começa empolgado, querendo mostrar que é diferente de todo mundo e não vai se corromper. Mas aí começa a ver que seu lugar é seguro e em seguida vêm os primeiros abusos. Uma falta aqui, uma displicência acolá, as pequenas mágoas e frustrações se acumulando como pilha de processos na mesa da repartição. Se deixar rolar, daqui a pouco tá largando o paletó na cadeira e dando umas voltas por aí. Claro que tem o afeto, o companheirismo e tal mas a rotina pode ser perniciosa, fatal mesmo para o amor.
Não pode querer ter estabilidade no emprego. Tem que viver a escolha do amor o tempo todo, ter a coragem de se recolher de volta a si no momento de viver as próprias dores. Compartilhar o que é bom. O que é ruim, chatinho, cri-cri, cada um vive o seu; o amor não é lixeira. Há que se preservar a beleza do encontro, manter o respeito pela própria solidão e pela do outro. Viver o amor e poder estar só, ter esse trânsito, sem apegos ou cobranças.
Este é o meu ideal romântico, no momento. Ainda não encontrei a fórmula para viver, na prática, uma relação plenamente livre e saudável mas pretendo testar algumas hipóteses experimentais que tenho em mente, assim que encontrar a cobaia ideal. Não estou aceitando ratos nem cachorros; gatos, pode ser (fotos para a redação). Outros bichos serão considerados desde que não grudem nem sejam venenosos. Dá-se preferência aos que possam voar ou, no mínimo, enxerguem longe. E que sejam limpinhos.
Estou muito exigente? Pode ser, mas não faço por menos. A todas essas vou muito bem, só como nasci.
Ainda mais agora que já sei ligar o computador sozinha.

Ainda sob o impacto do trem de Madri

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Sou das pessoas mais crédulas que eu conheço. Acredito em e.t., deus, gnomo, primata-aquático, atlântida. São coisas que, se não existem, deviam, então acredito e ponto. Só não creio na Santa Igreja Católica e, assim como Pilatos no Credo, não sei o que estou fazendo aqui – neste planeta inacreditavelmente violento. Como diria Dundas, devo ter mau carma.
Agora, custa-me crer que um ser humano possa, voluntariamente, mandar pelos ares um trem lotado de proletários e outros esforçados que cedo madrugam e se espremem entre uma e outra estação do inferno urbano para bater ponto nas fábricas, escolas, repartições; pondo a lenha viva de seus corpos na caldeira que move, dia-após-dia, esta nossa diabólica engrenagem. Pessoas reais, de carne e osso, com uma história, muitos sonhos e poucas posses, por isso sacolejavam num trem de subúrbio àquela hora da manhã, na esperança de tempos melhores, mais confortáveis e bem-dormidos. Estão carbonizadas, em pedaços ou sobraram atônitas, chorando de impotência sobre os trilhos retorcidos.
No creo en brutos, pero que los hay, los hay.
Pra mim, isso não tem nada a ver com os separatistas bascos. Al-qaeda? Que nada. Isso é coisa do capETA. Ele pode estar olhando pra você agora e pode nem ter cara de muçulmano, quem sabe até tem olhos azuis. Deve ser rico e parecer um príncipe, certamente tem um séquito a fazer-lhe a côrte porque o poder gosta do mal tanto quanto o mal gosta do poder – não por acaso costumam andar juntos. Por serem assim importantes, os príncipes das trevas sempre foram indivíduos acima de qualquer suspeita e sempre cometeram suas atrocidades em nome da Verdade, do Bem, da Liberdade e da Família (a deles, á claro).
Vá-de retro. Que Alah, Oxalá, Jeová nos protejam. Nosso amado e estropiado Jesus Cristo, mais disputado em campanhas de marketing do que Zeca Pagodinho.
Osama nas alturas? (Ele está no meio de nós)
Cruz credo.
Parem o mundo, que eu quero descer antes de chegar no fim da linha.
* * *
Só por curiosidade reproduzo aqui letra do profeta Raul Seixas. Lembrei da estrofe, fui olhar na íntegra e fiquei passada. Impressionante, inclusive o horário do trem! Especial atenção à bomba na última estrofe. São Raul também corrobora minha tese do mal com cara de bom moço.
TREM DAS SETE
R. Seixas
Copyright Warner/Chappell Music Br

Ói, ói o trem
Vem surgindo detrás das montanhas azuis
Olha o trem
Ói, ói o trem
Vem trazendo de longe as cinzas do Velho Aeon
Ói, já é vem
Fumegando, apitando e chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem
Não precisa passagem, nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando
Tá chegando na estação
É o trem das sete horas
É o último do sertão
Ói, ói o céu
Já não é o mesmo céu que você conheceu
Não é mais
Vê, ói que céu
É um céu carregado, rajado, suspenso no ar
Vê é o sinal
é o sinal das trombetas dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus
Deslizando no céu entre brumas de mil megatões
Ói, ói o mal
Vem de braços e abraços com o bem
Num romance astral
Amém..............
* * *
Nada de novo sobre a terra
Desde que o mundo é mundo
Nova farsa pra mesma história
Novas figuras no mesmo fundo
Lutando a próxima batalha
Da mesma infindável guerra
Da morte contra a memória
Do verbo contra o abismo
Da arte contra a miséria
De mim contra mim mesmo
* * *
Errata:
Não adianta rever o verso.
O universo é que está do avêsso.

A Luminosa Senda do Vazio Perfeito

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money1_sm.jpgNos tempos do Imperador Amarelo, numa aldeia às margens do Rio Lo, nasceu a pequena Ch’ien-Li, prematura e muito amarela, mesmo se comparada à sua gente e ao próprio Imperador.
Temendo pela vida de seu bebê, a boa Sun- K’an implorou ao marido que fosse consultar o santo-sábio K’en-Tsé, que vivia isolado na Montanha do Oeste e dominava o Oráculo das Mutações.
O Sr. Ch’en teve que empreender, em pleno inverno, a árdua peregrinação até a morada do eremita. Lá chegando, foi recebido sem surpresa por um ancião que sorria muito com poucos dentes e nada dizia.
Após ouvir o relato do homem, o sábio levantou-se e buscou lá dentro da cabana um grande casco de tartaruga, que lançou ao fogo. Acompanhou com estreitos olhos e grandes orelhas atentas cada menor estalo, cada rachadura que se abria, cada transformação provocada pelo calor. Assim ficou toda a noite, em desperta contemplação, até a fogueira se apagar, quando os primeiros raios púrpura já despontavam no oriente.
velho sabio.jpgK’en-Tsé então examinou a carapaça carbonizada para decifrar sua escrita.
Aos primeiros sinais, levantou a sobrancelha esquerda, deixando o Sr. Ch’en em grande agonia. Parecendo não crer no que lia, foi buscar suas varetas de caule de milefólio. Após longuíssimo ritual – suplício eterno para um pai ansioso – o sábio ergueu por fim a sobrancelha direita.
E foi assim, com todas as muitas pregas de sua venerável fisionomia puxadas para cima pela admiração, que ele vaticinou:
- Não morre tão cedo mas seu destino é muito incomum. Trará desgosto e humilhação para a família. Depois, virá um grande sábio do Leste para remediar o mal que ela há de provocar.
E mais não disse. O Sr. Ch’en ficou desolado. Desgosto e humilhação para a família? Ele não merecia isso, cumpria todos os ritos e oferecia, apesar de suas poucas posses, generosos sacrifícios aos deuses e aos antepassados. Mesmo sabendo que viria o tal sábio ao final, isso não parecia muito animador, uma vez que o estrago já estaria feito.
O pobre homem virou-se, cabisbaixo, e tomou o caminho para descer a montanha. O Mestre chamou-o ainda e entregou-lhe um pequeno disco de jade polido, vazado ao centro, preso num fio de lã vermelha. Disse que amarrasse ao pescoço da menina, para firmar seu destino.
A descida, pela aflição que o acometia, pareceu ao Sr. Ch’en ainda mais penosa que a subida. Ele estava intrigado: afinal de contas, o que é que aquela garotinha poderia fazer de tão grave?
Ah, pensou ele, corando, deve ser daquelas que têm a ...porta-de-jade...em chamas! Então era esse o significado do amuleto, uma proteção contra a luxúria. Ele tivera uma prima-bisavó assim; e as mulheres de sua família levaram 3 gerações pra se livrar da má-fama e voltar a conseguir bons casamentos. Algumas pessoas antigas ainda lembravam das histórias de K’un-Tui, a bela, a louca, a destruidora de lares, que surpreendia os homens nas plantações e os deitava ali mesmo, para que satisfizessem seus exuberantes e insaciáveis desejos. Os homens já não conseguiam mais trabalhar, à espera de suas visitas intermitentes. Houve fome e escassez naqueles anos e um alto consumo de vinho de arroz. As leis diluíram-se, os clãs foram ameaçados pelo desregramento da volúpia. Até que as senhoras perderam a linha e a tocaiaram numa noite de lua cheia. É o que dizem. Seu corpo de deusa nunca foi encontrado.
Tais eram os terrores que assombravam o Sr. Ch’en quando chegou em casa e deu com a pequena lombriga amarela, enrolada em pobres panos. Mesmo custando a crer que tão triste figura pudesse um dia vir a provocar tal celeuma, não ousou duvidar das palavras do Mestre K’en e pôs-lhe o talismã no pescoço.
Depois de relatar à esposa o que ouvira na montanha, o Sr. Ch’en retirou-se a um canto, pensativo, deixando-a a chorar copiosamente, debruçada sobre a garotinha que, em seu colo, dormia.
Pela manhã o Sr. Ch’en comunicou sua decisão:
- Não amarraremos seus pés!
Sun-K’an esboçou uma reação mas, pensando bem, assentiu. Acreditava-se que o estiramento muscular provocado pela deformação dos pés tornasse a mulher mais satisfatória do ponto de vista sexual. Pés bem pequenos e torcidos indicavam feminilidade e eram atraentes aos olhos masculinos. Não amarrar os pés de uma moça era quase uma condenação ao insucesso na corrida matrimonial mas, diante da perspectiva da desonra, esta parecia uma boa alternativa, uma indução ao recato.
Assim cresceu Ch’ien-Li, com seus enormes e estranhíssimos pés normais.
Talvez por força do amuleto, ou pela excessiva soltura dos pés, ou talvez pelas dificuldades do parto prematuro – foi o que pensou sua mãe, ao tentar encontrar uma explicação – Ch’ien-Li aderiu sem dificuldades a uma vida casta mas revelou-se um tanto incapaz. Simplesmente não aprendia as coisas como as outras crianças. Até os cinco anos foi de uma mudez constrangedora, não ensaiava nem o tatibitate.
Quando rompeu o silêncio, saiu-se logo com esta:
- Por quê o céu?
Passado o espanto, todos caíram na gargalhada. Nunca tinham ouvido nada tão estúpido e sem sentido. Esta foi apenas a primeira de longa série de tolices; ela não parou mais de fazer perguntas idiotas, uma atrás da outra. Queria saber do cego “é bonito aí dentro?” e do velho “quanto tempo falta pra você ficar novo outra vez?”. Sua mãe não sabia onde enfiar a cara.
chien-li jovem.jpgAs risadas foram dando lugar à censura, quando ela já não tinha idade de ser tão parva. Na adolescência, tornou-se retraída. Quando começou a fazer perguntas embaraçosas sobre o próprio corpo, sua mãe mandou pensar mais e falar menos. Ela procurou seguir o conselho materno mas, às vezes, deixava escapar alguma. Uma vez, durante os importantes preparativos para a festa de ano novo, ao adornar o altar dos Sábios Veneráveis, perguntou em alto e bom som:
- Por que as mulheres sábias não estão no altar?
Sua mãe apressou-se em repreendê-la pela blasfêmia, onde já se viu colocar mulheres junto aos Veneráveis? Mas o mal estava feito. À hora da festa, toda a aldeia já sabia da ignorância de Ch’ien-Li, que desconhecia as diferenças entre homem e mulher. Tal confusão revelou-se novamente em sua infeliz resposta a um improvável pedido de casamento.
Lá pelos 14 anos, contrariando as expectativas, Ch’ien-Li atraiu a atenção de um bom rapaz, que quis casar-se com ela a despeito de seus modos estranhos e seus pés compridos. Seguindo os costumes, dirigiu-se primeiro aos pais dela – que estavam a um passo de esquecer a agourenta profecia. Tendo obtido permissão, foi perguntar à jovem se aceitava desposá-lo.
Ao que ela, na falta de uma certeza, respondeu com a pergunta:
- Se você fosse eu, e um rapaz assim como você lhe pedisse em casamento, o que diria?
O rapaz não entendeu muito bem mas, na dúvida, ficou ofendido. Como é que ele, sendo homem, poderia ser cortejado por outro homem, ainda que fosse ele mesmo? Calou um silêncio magoado e foi-se embora sem oficializar o contrato. Ch’ien-Li suspirou, talvez aliviada.
E assim perdeu sua única oportunidade de viver uma vida normal.
Tendo ficado solteira e sendo, portanto, um fardo, procurava ajudar em casa e dar pouca despesa mas percebia a decepção que causava a seus pais o fato dela ser assim como era.
Um dia perguntou ao pai:
- Por que não me amarraram os pés?
O pai, que já andava exasperado e voltara a pensar no oráculo, desabafou:
jovem.gif- Para que você não arruinasse a família. Mas em vez de luxúria, acometeu-lhe a estupidez crônica, o que vai nos levar para o mesmo buraco. Não adianta lutar contra o destino!
Ch’ien-Li viu o pai chorar pela primeira vez.
Depois desse dia, não foi mais vista; simplesmente desapareceu. Sua mãe adoeceu, seu pai arrependeu-se amargamente de suas palavras mas, com o tempo, conformaram-se e a verdade é que a vida correu mais tranqüila desde então. Somente muitos anos mais tarde, já perto de morrer, Sun- K’an voltou a mencionar o nome da filha:
- Jamais poderei perdoar o que você disse a Ch’ien-Li.
O Sr. Ch’en defendeu-se como soube:
- Você é que não conseguiu fazer dela uma menina como as outras. As mulheres de sua família, aliás, sempre foram meio esquisitas, minha mãe bem que avisou.
- Olha quem fala, bisneto da tarada-do-arrozal...
- Bisneto, não; ela era prima da minha bisavó!
...e assim acabou a paz de superfície que reinara ali toda uma vida.
Mais ou menos por essa época, espalhou-se a notícia de que um grande sábio – um Venerável Mestre da Luminosa Senda do Vazio Perfeito – se aproximava da aldeia pela estrada do Leste. Sun-K’an foi com grande alegria contar a boa nova ao marido e até esqueceu que andavam de mal. O Sr. Ch’en imediatamente recordou-se das palavras do eremita e compreendeu que a ajuda prometida estava a caminho, para consertar os estragos causados por sua filha.
O ilustre peregrino afinal chegou e o Sr. e a Sra. Ch’en foram ter com ele, que já estava cercado por uma penca de aldeões. Mas o tal velho, ao que parece, era mudo ou não gostava de falar. Após escutar uma pessoa, rabiscava alguns ideogramas num papel e os entregava em silêncio. Mal se lhe via o rosto, sombreado por grande capuz de onde projetavam-se a barbicha e os bigodes em três tufos brancos, longos e bem aparados nas pontas. Sua figura pequena era quase cômica, andava descalço e em andrajos. Contudo suas enigmáticas mensagens, geralmente interrogativas, embora estranhas à primeira vista, levavam as pessoas a reflexões transformadoras.
Os dois velhos mal agüentaram esperar muitas horas por sua vez. Quase pela manhã, já exaustos, puderam enfim contar ao sábio, entre lágrimas, seu drama com a filha desaparecida. Receberam estas palavras numa folha de grosseiro papel de arroz:
- Como podem lamentar a sorte de quem vive na abundância de sua esplêndida morada?
Os velhos abraçaram-se, exultantes. Aquilo parecia querer dizer que sua filha encontrara um bom lar, um marido, uma família enfim! Teria filhos crescidos, quiçá netos, na aldeia vizinha. E pelo visto, se o velho não exagerava, era muito rica.
No dia seguinte o Sr. Ch’en quis ver o sábio novamente, para saber se interpretara corretamente suas nobres palavras, mas este havia partido antes mesmo do amanhecer. Na pressa tinha esquecido sua bagagem, uma modesta trouxa com poucos pertences. Os aldeões resolveram – após rápida e unânime votação – abrir a sacola, onde encontraram apenas uma caixinha contendo cola de arroz e longos chumaços brancos e muito bem aparados de pelo de cabra, embrulhados em papel grosseiro onde se lia, numa fileira de intrincados rabiscos:
- Qual a diferença entre um idiota e um sábio?
Foi uma criança que encontrou, no fundinho da bolsa, o amuleto de jade, amarrado no que restava de um fiapo de lã vermelha.
Ch’ien-Li não voltou a ver seus pais mas, ainda assim, eles puderam morrer felizes. Sua imagem sem rosto sob um capuz, adornada pelo disco vazado – símbolo do oco fecundo, da plenitude do vazio, da mulher, da concubina, dos loucos e dos santos – foi entronizada com grande pompa no altar dos Sábios Veneráveis. Sua família passou a gozar de excelente estima social na aldeia por muitas e muitas gerações.
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As Invenções Bárbaras

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Claro que, sendo eu uma escritora totalmente inédita, de extensa produção incubada, foi uma grande honra ser convidada pela Paula pra preencher este espaço. Uma honra e um baita problema. Mas olha, eu não vou pagar o clichê de dizer que tenho angústia da folha em branco. Não tenho esse negócio não, o problema é que eu não caibo na porra da folha!
Não é tanto que eu seja prolixa (espero que não), mas devo confessar que tenho uma mente patologicamente fértil. Preencho compulsivamente centenas de cadernos com escritos os mais variados. O que não significa nada em termos de qualidade, mas o fato é que com o passar dos anos (e eu já passei dos 30) isso se acumula e faz pressão pra sair.
Daí que, ao saber que poderia dispor deste espaço, começou a travar-se uma luta entre as diversas facções do meu ser.
Um lado Kamikaze ousou propor que eu publicasse em forma de folhetim meu novo romance, que ainda nem escrevi. A sábia Prudência fez-me arquivar esta idéia. O japonês contra-atacou com um dos 127 projetos de contos não-escritos (a latência marca boa parte da minha obra). Desta vez foi vencido pela Preguiça, guerreira poderosa! A Megalomania sugeriu que eu executasse finalmente a grandiosa tragédia-latino-musical em 5 atos sobre a ascensão e queda de Atahualpa. O Bom-senso foi capaz de dar conta dessa. Alguém ainda gritou lá do fundo se eu não podia desengavetar aquela brilhante sinopse de uma novela das 6. Ninguém respondeu. Sorte da Globo, que ainda pode fazer um ótimo negócio por módica quantia a combinar. E, como quem não quer nada, a Musa soprou em voz sussurrada que eu poderia editar minha Poesia Completa, em fascículos. Confesso que corei. Sou muito tímida pra mostrar assim minhas partes íntimas. Sorte de vocês, que podem ainda não estar preparados para minhas revoluções estéticas de gosto duvidoso.
Afinal restaram elas, minhas filhinhas desajustadas, o aspecto mais bizarro de minha pujança criativa: as invenções. Desajustadas porque me falta a linguagem adequada para expressá-las. Bem pior que meu português estropiado é minha matemática pré-primária, que vacila no 7x8 e não sabe fazer divisão por mais de um algarismo, e nem me venha com vírgulas! Muito menos sei fazer desenhos técnicos em perspectiva; Visão Espacial foi a nota mais baixa em meu teste de QI. Também não sou boa em formatar projetos e conseguir verbas para sua execução. Então, por que diabos eu fico inventando coisas que não posso produzir? Pergunte aos meus neurônios!...
E por que diabos vou expô-las aqui?
Bom, sabe aquela mãe amorosa que vê que um de seus filhos não vai além das pernas mas acha que ele tem tanto potencial, quem sabe se alguém lhe desse uma chance...? Aí, na hora de pedir um favor para o concunhado vice-presidente da estatal, pede um emprego justo pra esse filho - o que tem menos condição de ocupar bem qualquer cargo que seja - porque ela acha que os outros mais cedo ou mais tarde vão deslanchar por conta própria. Resultado: o filho competente não deslancha porque não arranja trabalho, o filho-problema dá com os burros n’água e a mãe zelosa passa o resto da vida se penitenciando.
Pois é, burrice maternal não tem cura. O fato é que eu me apiedei das minhas invenções, acho que elas poderiam trazer enormes benefícios à humanidade e, mesmo correndo o risco de vê-las usurpadas, resolvi trazer a público o prof. Pardal que vive em mim (srs. Usurpadores: aceito depósitos dos royalties na minha conta bancária mas, se não for possível, meu nome nos créditos e amostras grátis vitalícias já seriam algum alento). Outro modo de dizer é que tenho idéias pra dar e vender e, já que ninguém compra, resolvi liquidar pra livrar espaço no estoque.
Não preciso nem dizer que houve briga na fila pra ver quem ia entrar na “coluna”, mas priorizei os inventos de maior impacto sócio-cultural. E não falo de produtos Tabajara, a coisa é seriíssima e profunda, como provarei em seguida.
A primeira invenção é também a mais urgente. Tão necessária e ao mesmo tempo tão simples que causa-me assombro que ainda não a tenham inventado: trata-se de uma mãozinha para passar filtro solar nas costas. Não ria ainda; pare e pense: há quanto tempo você precisa de uma e não sabia? Como aquela, que o vovô já usava pra coçar as costas, mas dotada de uma esponjinha para espalhar o filtro nas áreas inalcançáveis. Eu estou cheia de umas pintas suspeitas nas costas pela falta de tal produto no mercado. Não adianta fazer campanha preventiva de câncer de pele se a gente não consegue passar o fotoprotetor onde mais precisa.
O amigo desenhista industrial a quem pedi ajuda para desenvolver o projeto, relutante em admitir que alguém tão desqualificado quanto eu pudesse ter uma boa idéia em sua área de atuação, desdenhou do potencial comercial do produto:
– Coisa para solitários! - riu-se ele, que é daquelas raríssimas pessoas casadas há anos com sua alma gêmea e feliz para sempre, portanto nunca lhe faltou quem passasse filtro solar em suas costas com calorosas mãos humanas.
Cometeu o erro n° 1 em processos criativos, segundo qualquer almanaque gerencial para o desenvolvimento de criatividade (tipo da obra que é um paradoxo em si mesma): descartar uma idéia por um preconceito.
Mas o descrédito do amigo não arrefeceu meu entusiasmo. Tinhosa que sou, uso a crise como dificuldade-que-leva-à-oportunidade, mais uma vez seguindo a cartilha do criativo de sucesso. Comecei a pensar nessa coisa dos solitários (mais especificamente nas solitárias e nos gays, mas em breve dedicarei algum tempo a pensar soluções para homens em apuros) e cheguei então a desenvolver as versões mais avançadas do produto: mãozinha dum lado, consolo do outro. Em variados tamanhos e formatos, tudo vibratório. Substitui noivo, namorado, amigo e amante, com vantagens. Cabe na bolsa, vai à praia na hora que você quer e não fica olhando pra bunda de ninguém. Além de tudo, é mudo, como os sábios. Sucesso na certa!
Fui pedir ajuda a uma amiga, também versada nos desenhos técnicos, e ela me brindou com essa pérola da mediocridade, tipo da ponderação que, desde que o mundo é mundo, atravanca o progresso:
– Se a idéia fosse boa, alguém já teria tido...
A todas essas, ficamos aqui, à beira do melanoma, à espera de que alguém de visão resolva encher os bolsos no próximo verão.
Segunda idéia, também de grande apelo comercial, embora exija um pouco mais de investimento. O nome é genial, e eu patentearia, se não fosse tão caro fazê-lo: Cyber-Coiffeur. Moderno, pomposo. Faria sucesso em São Paulo. O conceito é arrojado. Tecnologia de ponta, chapinhas de última geração, cauterizações a laser de esmeraldas, densitometrias capilares digitalizadas, mega-hair transgênico a partir de células-tronco. Ambiente futurista, meio Barbarella (acho que preciso rever meu conceito de futurista). Mas a grande revolução conceitual é questionar o inquestionável, mexer no imexível, portanto: no Cyber-Coiffeur não haverá sequer um exemplar de Caras! Não, ao invés disso as mulheres antenadas de hoje serão brindadas com um laptop conectado à internet, totalmente customizado para se compatibilizar com as atividades de um salão (e resistir às suas agruras). O potinho para molhar as mãos é um mouse adaptado e o teclado é impermeável para que a ocupada perua possa administrar seus fundos de ações, checar seus e-mails e, hum, dar uma passadinha no site de Caras, que ninguém é de ferro!
Antes que me acusem de elitista, devo esclarecer que meu talento não distingue classe, cor ou credo, e eu também tenho minha contribuição para o Fome Zero. Trata-se de um projeto social-ecológico, uma excelente fonte de desenvolvimento sustentável: O Projeto Jaca-já. Esse eu gostaria sinceramente que alguém desenvolvesse, uma ong ou o que seja, podem usurpar.
Consiste em aproveitar a enorme abundância de jacas da Floresta da Tijuca como fonte de alimentação e renda para comunidades carentes. Explico: a jaqueira, originária da Índia, por sua adaptação ao nosso ambiente e rápida proliferação, tornou-se uma praga nas matas do Rio de Janeiro. Andaram até fazendo matança delas recentemente. Um desperdício. Cada jaqueira dá, facilmente, até 30 jacas de uma só vez. Cada jaca pesa, no barato, 3 quilos. São quase 100 quilos de alimento em uma só árvore, uma montanha de nutrientes que poderiam estar enriquecendo a dieta de nossa população. O problema é que a maioria das pessoas tem aversão à jaca in natura, por causa do cheiro forte exalado por seu visgo. Mas a carne mesmo da jaca é tenra e cheirosa, dando ótimos doces, compotas e outros derivados (juro que é bom, eu adoro!), e seus caroços também podem ser deliciosos se cozidos (parece pinhão) ou torrados (parece castanha de caju). Acho até que o visgo deve servir para alguma coisa, uma espécie de cola, porque o troço gruda que é o cão! Então, se fosse organizada a coleta e o beneficiamento comunitários da jaca, poderíamos utilizar seus subprodutos como reforço de merenda escolar (espero que toda uma geração de escolares não me odeie por isso) e vender o excedente, com renda revertida em benefício da própria comunidade. Seria uma boa forma de controlar a praga e a fome ao mesmo tempo.
A versão nordestina do projeto, em moldes similares, atenderia pelo nome de Já-Cajú.
Enfim, está lançada a idéia, e isso é o melhor que posso fazer.
E, por fim, uma reflexão que me parece gritante, mas eu pareço ser a única pessoa no mundo a formular esta pergunta tão básica: porque fazemos carros que matam? Coloque uma lata em movimento a mais de 100 km por hora e é certo que, em algum momento, ela irá se chocar contra algum obstáculo. Porque não é uma questão de se. Todo carro vai bater algum dia, é só uma questão de quando e com que violência. Mas a colisão é certa. Mesmo que você seja cuidadoso e dirija bem, sempre haverá o momento em que a pilastra sairá andando bem no dia em que você mandou ver na caipirinha. E, por menor que seja a batida, amassa o raio da lata, descasca a pintura. Isso na melhor das hipóteses, porque todo mundo já perdeu alguém querido, ou no mínimo soube de alguma perda humana irreparável em um acidente. O número de acidentes de trânsito com mortes é brutal, mas ninguém parece chocado, enquanto a violência e as epidemias causam grande alarido, exigências de soluções.
Portanto soa meio despropositado, mas não me parece bizarrice pura questionar a premissa de que carros devam ser feitos de lata. Porque não de borracha, ou um plástico resistente porém flexível (talvez feito de visgo de jaca), capaz de absorver o impacto e voltar à forma original, preservando sua integridade e, o que é mais importante, a das pessoas em seu interior?
Bom, e já que estamos questionando premissas, vamos combinar que essa coisa de roda é um conceito meio, digamos assim, pré-histórico. Se já temos a tecnologia da propulsão a ar, poderíamos voar baixo, rente ao chão, sem atritos e sem cair em buracos. Sem falar que trocar pneu, nunca mais. Não seria uma glória? As fábricas de pneus poderiam se dedicar a fabricar as carrocerias, que poderiam ser coloridas como super-melissinhas turbinadas, e eu quero o meu modelo com pochetezinha!
Enfim. Cumprida minha obrigação para com o futuro da humanidade, deixo a vocês a responsabilidade de julgar e fazer cumprir, ou não, minhas pobres idéias.
Poderia falar também de uma tal máquina de filmar sonhos, que o Gil sugeriu numa música, eu comecei a pensar como seria e acabei escrevendo um livro inteiro sobre o assunto. Mas isso já é outra história...
É o que tenho por hoje.
Foi um prazer estar aqui com vocês.
* * *
pensata:
Sou um ser pensátil
portanto inútil.

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