Textos antigos (Christiana): June 2004 Archives

A (más) cara do ídolo

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Falando em Chico Buarque, cruzei com ele semana passada na rua aqui do lado de casa, no Horto. Tive que reunir toda a experiência acumulada em uma vida de vizinhança da Rede Globo – um dia-a-dia repleto de celebridades no parque ou na padaria, caras amassadas mui diferentes das exibidas sob maquiagem, luzes e lentes da TV – pra conseguir manter a linha. Galãs ao vivo e a cores, de tão vistos, já não me causam espécie e alguns deviam mesmo evitar testemunhas quando em trajes de banho, alvas adiposidades sem photoshop levando os filhos à natação. Deviam respeitar nossa fantasia, em geral mais generosa do que a natureza. Então garanto que não me deslumbro com famosos e sei fazer aquela cara-botox, inalterada, de quem não tá nem reconhecendo.
Mas convenhamos que Chico Buarque é Chico Buarque. Mesmo à luz do dia, pequeno e magro, 60 anos, ele é de tirar o fôlego. Já o tinha visto, em três ou quatro ocasiões as mais aleatórias, e guardei sempre a mesma impressão: olhos arredios, que dão voltas rápidas e curiosas mas terminam sempre cravados no chão, como se assim pudessem não ser notados. Mas que nada, ele rutila, lá de longe eu já vi que era ele, e olha que eu nem enxergo tão bem, mas é que o cara, não tem outra palavra pra descrever, é iluminado. São os olhos modestos que o fazem brilhar tanto. Uma presença tão discreta que grita, num mundo de peitos-de-pombo.
Ao contrário dos pseudo-célebres que se têm em muito alta conta e não conseguem esconder a vaidade sob os óculos espelhados em que se exibem, Chico Buarque dispensa o Ray-ban e usa o farol baixo, a luz de neblina. Se resplandece é à revelia – seus olhos escandalosamente nus clamam por anonimato e, castos, buscam as sombras. Quando interceptados mesmo aí por nossa tara indiscreta, fogem, constrangidos. Li um dia desses – não sei se é lenda – que ele gosta de andar incógnito, sob um capacete, montado numa scooter (uma espécie de lambreta). “Nunca mais vou olhar os motoboys do mesmo jeito”, acho que foi a Cora Rónai quem disse isso. Eu também não – e pronto, cai seu disfarce de emergência, seu último refúgio.
Por misteriosa associação de idéias que talvez passe pela Gota D’água, meu pensamento foi parar no Teatro Grego. Muito antes de Eurípides, ou mesmo de Ésquilo, havia as “dionísias”, celebrações poético-orgiástico-carnavalescas em honra a Zagreu – antigo deus cretense associado à fertilidade, à transformação e à inspiração artística, depois incorporado ao Olimpo como Dioniso (ou Baco), o filho renascido de Zeus. Em momento mais apolíneo, os gregos organizaram o bacanal e inventaram a forma de espetáculo que até hoje atende pelo nome de Teatro. E já começaram com grande pompa, no auge: tinham dramaturgia da melhor qualidade, com histórias fabulosas extraídas dos mitos e uma estrutura própria, diversa da narração, que produzia efeitos catárticos num imenso público vindo de toda a Hélade. Reuniam a multidão em belíssimos templos ao ar livre, integrados aos relevos naturais e com acústica perfeita, como o de Epidauro, e utilizavam cenografia grandiosa, maquinária e efeitos especiais. Tiveram, pela primeira vez na história do ocidente, um ator: um profissional capaz de dar vida – através dos estados báquicos de êxtase e entusiasmo – a heróis, titãs ou mesmo deuses. O primeiro ator historicamente reconhecido foi Téspis de Icária (séc VI a.C.), que também escrevia e dirigia seus espetáculos, e ele já usava máscaras. Peraí, o que é que isso tem a ver com o Chico? Calma, eu já chego lá.
A máscara (que os gregos chamavam “prosópon” e os romanos, “persona”) é um artefato humano básico e está presente, desde as épocas mais remotas, em todas as culturas ocidentais, orientais e aborígenes. Sempre foi utilizada em caçadas, guerras e cultos religiosos, ou seja, quando se queria evocar espíritos, pessoas ou animais com grande eficácia. Por sua expressividade, ela se tornou o símbolo do Teatro e a melhor amiga do ator na medida em que é capaz de assumir, no seu lugar, a imagem social do personagem. Como uma interface, uma mediadora entre a pessoa do artista – que tem defeitos, vísceras e gases como todo mundo – e o arquétipo que ele encarna no palco, a dimensão transpessoal que ele atinge ao ser amplificado milhares de vezes pelas projeções individuais de toda a multidão que o assiste. A máscara é como um escudo que protege o rosto do artista da usurpação pelos deuses que, não podendo ser vistos em plena divindade, precisam se apropriar de corpos inferiores para se manifestar.
Ao fim do espetáculo, o sacerdote de Baco, em prudente atendimento a seus limites humanos, descia dos coturnos e guardava sua máscara num altar, protegida por oferendas e orações, até a próxima apresentação. Édipo podia dormir sossegado; quem ia encher a cara com o resto do elenco no Baixo-Corinto depois da estréia era o Anaxoríades da Silva, e não todos os filhos-apaixonados-pela-mãe do Peloponeso. Tudo bem que tinha suas desvantagens, o cara não saía pegando geral as Mulheres de Atenas como um ex-BBB, porque só quem era do meio conhecia o rosto de carne e osso sob a máscara heróica e ainda não tinham inventado o estilo “Caras” de ser. Mas ele podia se dedicar de corpo e alma a seu ofício de estudar a vida e as pessoas sem ter que parar a cada cinco minutos pra dar autógrafo e tirar foto com turista. O artista de hoje em dia perdeu seu escudo. Tornou-se refém de sua persona, este ser virtual à sua imagem e semelhança.
Acho que o Chico merecia ter uma cara anônima com que sair, de vez em quando, sem o peso de sua obra gravado na fronte – e sem ter que estar claustrofobicamente fechado num capacete. Quando os deuses sopraram em seus ouvidos as palavras e melodias com que ele nos encanta há tantos anos, deviam ter ocultado de nossa sanha os seus olhos, pra que ele ainda pudesse olhar ao redor sem alvoroçar o ambiente. Pra que ele pudesse observar qualquer um de nós sem que estivéssemos sempre “olhando para a câmera”, nossa naturalidade irremediavelmente perdida por sua simples presença. Foi o que pensei, ao vê-lo desde longe, na rua.
Então esse foi meu presente de aniversário para o Chico e, creia, exigiu-me um esforço sobre-humano: ao cruzar bem rente seu caminho, eis que emprestei-lhe uma máscara rápida de Zé-das-Couves e – contrariando a força magnética que atraía minha curiosidade – como que pus antolhos e cravei o foco no chão. Com a visão periférica senti uma fluorescência passar por minha orelha esquerda, vermelhíssima (não sou tão boa atriz que controle o fluxo sangüíneo), pelo breve tempo que se observa um transeunte normal. Se bem que aposto que meu andar não estava normal, apenas porque consciente de estar sendo observado pelo Chico Buarque.
Queria lhe emprestar meus olhos, castanhos e comuns, que vêem coisas simples, gente andando normal, que passa e nem me vê.
A cara do Chico é o sacrifício que ele ofereceu no altar da cultura, para ser devorada com gula consumista por nosso olho-gordo. Posso estar enganada, mas sinto que ele a carrega como um fardo, um tesouro pesado e ostensivo, que mais onera que beneficia seu guardião. É claro que ele já deve ter dado muito bom uso amoroso a seu par de esmeraldas e no vídeo ficam mesmo uma beleza, mas, na maior parte do tempo, elas chamam inconveniente atenção em contraste com os tons terracota da miséria. E tome olhares se arrastando atrás dos seus muitos quilates. Isso pesa. Sabe lá o que é não poder parar no sinal de janela aberta num fim de tarde e tirar uma meleca na obscuridade? Mijar no poste, palitar o dente, trair em público, coçar e envelhecer mal são privilégios dos inconspícuos.
Acho que o Chico deveria guardar sua cara de Apolo apartada de si, num grande teatro ao ar livre que tivesse a acústica perfeita. Onde a gente pudesse deitar oferendas, cantar seus mantras, organizar festivais em sua honra, sem invadir sua privacidade. Onde a gente pudesse por um momento, após as devidas libações, vestir em nosso rosto sua máscara entalhada pelas musas e olhar o chão, timidamente, através de seus olhos divinos. Sob as bênçãos de Dioniso, e um vinhozinho pra regar a festa. Evoé!
Enquanto isso um Chico mais mundano poderia estar por aí, levando uma vidinha besta, como a minha e a sua, em que ninguém presta muita atenção. Tirando meleca no sinal e aproveitando cada palmo da imensa liberdade de ser ninguém.
* * *
Tempo e artista
Chico Buarque/1993 - Paratodos

Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela
Modelando o artista ao seu feitio
O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso
Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz, e o tempo canta
Dança o tempo sem cessar, montando
O dorso do exausto bailarino
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito
No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito

A vida avilta a arte

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Só posso dizer uma coisa: se esta história tivesse sido escrita por mim, teria um desfecho muito diferente. Certas coisas, de tão absurdas, jamais caberiam na ficção.
A Dê deve ter sido uma das dez meninas mais bonitas do Rio de Janeiro. Mas, ainda que as outras nove estivessem a seu lado, Zib não as teria visto. Porque olhar para a Dê teve o efeito de apagar as milhões de estrelas e o céu virou um fundo escuro infinito para a passagem meteórica daqueles olhos de água-marinha na pele dourada de uma sereia. Conheceram-se na fila do Planetário e, quando ela sorriu, Zib teve certeza de que, dentre todos os corpos em órbita no tempo e no espaço, aquele rastro luminoso era o que faria sua trajetória fazer a curva sobre si mesma. Ele tinha apenas 17 anos, mas sempre teve essa determinação extraordinária e resolveu ali mesmo que aquela era a mulher com quem ele iria se casar.
A Dê ainda era muito jovem pra ter tanta certeza e a bem da verdade ela tinha um namorado então nem ao menos ficaram juntos nessa época. Mas o Zib era mesmo um sol e ela não deixou de perceber que a luz caiu quando ele viajou. Ele foi morar nos Estados Unidos mas não esqueceu a Dê, escrevia toda semana, acenava com oportunidades de estudo e trabalho para ela.
A vidinha dela continuava boa, faculdade e coisa e tal mas o que ninguém sabia ainda é que, com uma ajudinha do espírito empreendedor do Zib, a Dê tinha se tornado uma das dez meninas mais corajosas do planeta. Ele mal pôde acreditar quando ela resolveu aceitar um estágio ou coisa que o valha e se mandou pra lá, de mala e cuia. Então eles acabaram ficando juntos, claro, e foi lindo. Passaram por momentos maravilhosos e inesquecíveis e também por maus bocados e mesmo isso pôde ser gostoso e divertido todo o tempo. As luzes transbordavam de seus olhos mais que o frio, a dureza, as distâncias.
A volta ao Brasil seria uma prova e tanto. O Zib era judeu, a Dê não era. A família dele não gostou do namoro, e a família dela não gostou (com razão) de alguém se dar à desfaçatez de não gostar de sua princesa – luminosa, brilhante, bem-educada, uma jóia rara em qualquer contexto.
Casaram-se lá, romanticamente e em segredo. Fizeram juras um ao outro, um casal de amigos por testemunhas e isso valeu mais para eles do que as bênçãos de sete gerações.
Na volta enfrentaram novamente com amor e graça as dificuldades. As famílias espernearam em vão, depois cansaram. Depois aceitaram e por fim esqueceram essas pequenezas, sobretudo quando veio o bebê. Um anjo ruivo de parar o trânsito no colo da mãe mais linda com olhos de água-marinha, emoldurados pelo amor solar do pai. E depois veio outro anjo, moreno como a mãe para ressaltar olhos azuis profundos de safira. A mais iridescente representação de uma família harmoniosa, saudável, feliz.
Então Dê e Zib souberam desfrutar de sua felicidade. Viajaram muito, conheceram lugares lindos e exóticos, espalharam seus sorrisos pelos 4 cantos, por entre toda a gente que teve a sorte de se contagiar dessa alegria generosa. Dava gosto de ver. Aproveitaram seus dias pacífica e amorosamente, correram atrás de seus objetivos, amaram os filhos e eram aquele exemplo a ser pinçado em momentos de desesperança, quando a vida parece um lugar inviável. Podíamos sempre pensar: vejam a Dê e o Zib, eles são do bem e se deram bem, são felizes. E deveria ser assim para sempre, até morrerem velhinhos, de preferência dormindo um nos braços do outro, durante um cruzeiro na Nova Zelândia. Esse é, sem dúvida, o final que eu escreveria para eles.
Soube ontem por um anúncio no obituário do jornal: Zib foi assassinado há pouco menos de um mês, aos 40 anos, num cruzamento da cidade, numa tentativa de assalto ou sequestro-relâmpago. Os bandidos, covardes, não levaram nem o carro, deixaram dinheiro, chaves, tudo ali, junto com o corpo inerte, já sem o sol que o animava.
Levaram a luz dos olhos da Dê, a alegria segura de um par de anjos e um bom pedaço da minha fé na vida.
O mundo ficou mais escuro e eu não tenho uma palavra de água-marinha pra mandar para o Zib lá do outro lado, nem uma palavra de sol pra aquecer a Dê por aqui.
A vida é tão brutal que não há palavras. Quando encontrar minha amiga, vou abraçá-la em silêncio, em meio a uma constrangedora fila de pêsames. Quem foi que inventou os ritos fúnebres? Deve ter sido o mesmo espírito-de-porco que tem escrito a História. Perdoe a sinceridade, seja Deus ou quem for, mas eu não estou achando a menor graça neste enredo.

O dia dos sem-namorado

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O dia dos sem-namorado cai dos sonhos com um suspiro comprido. Sem beijo de bom dia nem nada de bom pra fazer na cama depois de acordar.
Começa com jornal e coisas importantes acontecendo no mundo, um café preto e uma esperança quase afogada no fundinho da xícara: será que é hoje? Mas isso ninguém vê, nem a lágrima escapulida que a mão rápida dispersa. A cena seguinte, exaustivamente ensaiada, já vem automática: olhar pra cima e respirar fundo, vestir o sorriso e ir à luta que com cara de palhaço é que não searruma ninguém mesmo.
O dia dos sem-namorado se demora em papéis e desktops e liga a tv na hora do almoço, pra distrair da falta de companhia. Evita as vitrines e os out-doors, repletos de corações e sorrisos felizes de quem nasceu um-para-o-outro. Passa direto pelo cinema com sua fila de pombinhos e dispensa, constrangido, a promoção bem-me-quer da operadora de celular.
O dia dos sem-namorado sai cedo e volta tarde, liga pros amigos, faz ginástica. Come fora, dá-se um livro – de pena, no fundo. É triste não ter a quem dar flores. O dia dos sem-namorado, se o quiser florido, compre as próprias; se o quer doce, encha a boca de bombons. Se romântico, abra um vinho e pegue um filminho piegas na locadora, daqueles que um namorado se recusaria a assistir. A maior vantagem de estar só é não ter que chegar a um consenso.
O dia dos sem-namorado é um dia como outro qualquer, só que mais longo. Pela simples razão de que ele deveria ser especial como, aliás, todos os dias. Pela falta que faz alguém pra surpreender minhas cores. A noite cresce e eu vou ficando esmaecida.
O dia dos sem-namorado termina como começou, num sonho – terra sem-fim da ilusão solitária, quase totalmente apartada do que sei pelo esquecimento e ainda assim tão minha.
E vai cair num suspiro comprido lá do outro lado, no próximo dia. Um dia normal, ufa, onde eu não seja um estranho ser que anda partido e sobrevive por teimosia, feito rabo de lagartixa.

A história de Cecille

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ballet.jpgQuando Isadora Duncan apareceu em Paris, Cecille tinha acabado de chegar ao topo. O ponto mais alto de sua carreira - um caminho de suor e dor que teve início quando a preparadora Ivanovna (que foi a segunda mais temível de toda a história do corpo de baile da Ópera de Paris) reparou que a filha da humilde camareira Josephine tinha os pés perfeitos. Olhou bem fundo nos olhos da criança – aquela magricela que ainda há pouco dormia enroscada nas cortinas adamascadas da coxia – e proferiu seu parecer mais como ameaça que bom augúrio:
– Deus concedeu-lhe a Graça dos pés perfeitos para o ballet. Este é um dom raro, que pode levá-la à frente deste grande palco. Mas não se iluda: talento não é tudo. Para chegar a ser uma estrela você tem que ser a melhor dentre as melhores e para tanto você deve estar disposta a sofrer todos os dias de sua vida em nome da Arte.
Aquilo pareceu à pequena uma espécie de chamamento divino, uma revelação. Ela, que até então fôra apenas um estorvo para sua mãe, percebia que tinha um dom, que havia sido ungida com uma qualidade especial. Agora ela tinha uma vocação, um talento e, finalmente, um futuro.
Tinha cinco anos nessa época. Ivanovna começou imediatamente a treiná-la com a rigidez que lhe era característica. Era estúpida e humilhava as alunas que freqüentemente choravam, protestavam e, não raro, desistiam. Mas Cecille suportava tudo com resignação. Se o sofrimento era o caminho da Arte, chegaria ao mais alto nível que seu corpo e sua alma pudessem suportar.
Em poucos anos já era uma das melhores de sua geração, segundo a própria preparadora que, a despeito de sua secura, quase gostava da filha da camareira que possuía essa determinação incomum (além dos pés perfeitos). Tinha lesões frequentes nos músculos e feridas nos pés, por excesso de treinamento, mas nunca interrompia os exercícios, sublimando as dores intensas com a perseverança – esse vício dos fortes, dos raros, os que jamais desistem de um objetivo. Deus está vendo, pensava ela, e abria, puxava, subia, saltava e girava, girava, girava.
Costumava treinar na primeira fila, porque sempre executava corretamente os exercícios, mesmo as seqüências mais longas e complexas – memorizava de primeira. Esta qualidade foi percebida e admirada por todos quantos vieram algum dia a treinar com ela. Sua concentração imperturbável, a disciplina férrea e a obsessão pelo movimento perfeito ainda potencializavam essa natural aptidão, de modo que jamais errava, mesmo nos ensaios.
Seu corpo todo desenvolveu-se em consonância com os pés. Cada uma de suas medidas proporcionava-se com as outras de modo ideal, como se projetadas por precisa engenharia divina especialmente para o ballet. Seu tronco era esguio, os seios pequenos, os braços longos e suaves, o pescoço elegante encimado pelo rosto encantador, o belo sorriso, os olhos enormes e amendoados, os lindos e compridíssimos cabelos cor de mel impecavelmente trançados e presos num grande coque na altura da nuca. Sem falar nas pernas admiravelmente torneadas, arrematadas pelos pés perfeitos.
Sua técnica era sólida, precisa, virtuosa. Sua abertura era impressionante; seus saltos, que não faziam o menor barulho no assoalho, eram apontados por Ivanovna como exemplo de leveza para todas as novatas. Seu arabesque inscrevia no ar uma curva perfeita, seus braços mantinham a angulação e o alongamento mesmo nos momentos mais difíceis. E tudo isso sem jamais perder a postura ou deixar de sorrir.
Ela tinha tudo para ser a melhor. Estava em franca ascensão nas linhas do corpo de baile e, na ocasião em que a excelente Marie-Therèse, já beirando os 30, abandonou a carreira para ter um filho, Cecille, então na exuberância de seus 18, teria assumido naturalmente seu lugar. Não fosse o azar de ter chegado naquele mesmo ano à companhia a menina-prodígio russa Olga Olenska, dois anos mais jovem e treinada sob os rigorosos métodos do Teatro Bolshoi. Ela também tinha os pés perfeitos. Corria o boato – e não sei se é verdade – que seus pais, ambos bailarinos, exercitaram suas pernas desde o berço e que seus primeiros sapatinhos foram sapatilhas de ponta, para que os ossos consolidassem na fôrma adequada.
Olga roubou para si a cena e o ambicionado posto de primeiríssima-bailarina na temporada seguinte de Giselle. Cecille dividiria com ela o papel mas faria as récitas menos importantes: o segundo dia, a matinée de domingo, as quartas e quintas-feiras. Não seria comentada pelos críticos nem vista pelas personalidades importantes, os formadores de opinião. E de fato ela dançou perfeitamente bem seu papel, recebeu os elogios habituais dos colegas mas passou despercebida para o público e a imprensa.
Paris não falava de outra coisa, todos queriam ver os saltos sensacionais de la Olenska. A própria treinedora Ivanovna, já perto de se aposentar, parecia ter perdido a fibra e rendera-se aos encantos de sua jovem conterrânea. Se não chegava a fazer elogios durante os ensaios, a observava com um ar embevecido e jamais gritava ou fazia suas ríspidas correções. Cecille ficou profundamente enciumada mas não era de se abater com as dificuldades, então meteu na cabeça que superaria Olga em todos os pontos e provaria a Ivanovna e ao mundo o valor da formação francesa e dos pés congenitamente perfeitos. Prometeu a si mesma que no ano seguinte dançaria o papel principal na récita da estréia e sua pobre mãe teria o orgulho de guardar para a posteridade um exemplar dos jornais que trariam em letras garrafais: Paris cai aos pés de Cecille Druot.
Naquele ano ela treinou mais que nunca, aumentou de 8 para 10 horas sua rotina diária de exercícios. Estendeu em alguns centímetros sua já excepcional abertura, perdeu mais 3 quilos para que seu partner a suspendesse como uma pluma no pas-de-deux. Cecille agora era mais-que-perfeita.
Olga por sua vez, como tantos prodígios meteóricos, parecia consumir-se em sua própria chama. Já durante a temporada, envolveu-se com Jean-Pierre, o jovem terceiro-violino da orquestra que desde os ensaios suspirava por ela, embora fosse casado e pai de um bebê de poucos meses. O tórrido romance, sem esperanças de consolidar-se numa tranqüila relação marital, assumiu a urgência das paixões proibidas, devorando as noites e a saúde da moça. Num dia em que ela estava particularmente abatida, teve uma queda espetacular ao aterrissar de um grand jeté, no solo do segundo ato.
– É preciso bem mais que talento para ser primeiríssima-bailarina do palco mais importante do mundo - pensou Cecille, que assistia a todas as récitas da rival. Mal conseguia disfarçar a satisfação. Sabia que era chegada sua hora.
De fato, no ano seguinte, foi sua a Grand-Premiére: O Lago dos Cisnes, interpretando a protagonista Odette/Odile - seu papel predileto, pelo desafio técnico que representava. Ela teria a oportunidade de exibir seu virtuosismo ao realizar com a habitual perfeição a dificílima seqüência de 32 fouettés que, anos antes, alçara à fama a italiana Pierina Legnani. Cecille estava no auge da forma, estava pronta para seu grandioso destino.
Rezou muito, com intenso fervor, para expressar sua gratidão, e até encomendou uma missa. Sua mãe, que não cabia em si, pagou uma novena e prendeu, no avesso do figurino, uma medalhinha do Divino Espírito Santo, para proteger a filha da inveja das outras moças.
A estréia foi impecável. Cecille esbanjou perfeição em cada fundamento: equilíbrio absoluto, sicronia precisa, extensão e leveza nos saltos, elegância no port-de-bras, maestria nos mínimos detalhes. O mais rigoroso crítico não seria capaz de apontar-lhe uma falha sequer. Sébastien, seu partner, cometeu um pequeno deslize ao fazer-lhe a base de um rond-de-jamb , motivo pelo qual ela quase tirou-lhe o couro na coxia durante o intervalo, mas ela conseguiu contornar o imprevisto com tal destreza que nem Ivanovna percebeu.
No final, os aplausos duraram 12 minutos e meio, quase um minuto a mais que os da estréia de Olenska! É a consagração, pensou a filha da camareira em sua noite de glória. Mal conseguiu dormir. No dia seguinte, esperou ansiosa pela edição vespertina dos jornais.
Chegou enfim o pacote, com as letras garrafais:
Paris cai aos pés de Isadora.

Isadora Duncan, a americana? Não pode ser…dizem que ela dança descalça, com os pés grotescamente flexionados e é incapaz de um attitude … O que ela tem afinal, que arte é essa que qualquer criança pode imitar? Em que mundo nós estamos, para onde terão ido os séculos de desenvolvimento do ballet? Para a lixeira de um modismo!… Os críticos podiam se render às inegáveis qualidades de Olga Olenska, isso era algo com que ela podia lidar até como um estímulo, mas tecer loas a uma novidadeira era revoltante e profundamente injusto.
No entanto, Paris não falava em outra coisa. A revolucionária Isadora arrebatara os corações de público e críticos. Apresentava-se em salões e outros espaços não-convencionais e sua dança livre arrancava aplausos por mais de trinta minutos.
E nem uma linha na primeira página sobre a gloriosa estréia de Cecille.
Lá dentro do jornal, espremida num canto da página que estampava fotos de Isadora, a crítica à estréia do Lago dos Cisnes.
“… a técnica irretocável de Cecille Druot, se impressiona, não emociona. Cumpre sua função com a frieza sorridente dos que acreditam que a perfeição formal possa substituir a graça espontânea de um corpo feliz. Dos que não têm a grandeza da expressão autêntica e nem a ousadia de arriscar-se ao erro em público. Uma interpretação artificial, desprovida de carisma, daquelas que a história tratará de encobrir sob o manto inexorável do esquecimento.”
Injustiça ou não, o fato é que o público, bem como a duração e a intensidade dos aplausos, foram decaindo a cada apresentação, sepultando, noite após noite, os sonhos de grandeza de Cecille. O último espetáculo da temporada ela dançou chorando, embora mantivesse, como sempre, o sorriso estampado.
Na montagem seguinte, Olenska, já curada de seu malfadado romance, recuperou seu posto de estrela da companhia, no qual permaneceu por mais 10 anos.
Cecille – para quem dançar nunca fôra um prazer e que só se importava em ser a melhor dentre as melhores – teve que se conformar com sua posição um degrau abaixo, lugar que, em si, seria uma honra para qualquer bailarina mas, para ela, era sinônimo de fracasso. Externamente mantinha a disciplina e a postura de sempre mas seu coração, já pouco caloroso, congelou por completo. Com o passar dos anos e a ascensão das novas gerações, caiu para os segundos-papéis. Quando se aposentou dos palcos, aos 33 anos, tornou-se preparadora, substituindo a gentil mme. Geneviève, sucessora de Ivanovna que, para o gosto de Cecille, era muito frouxa com as novatas, comprometendo seriamente o nível técnico do corpo de baile.
Ao assumir a nova função, Cecille resgatou os métodos da russa: sua exigência sobre-humana, sua rispidez, seu proverbial mau-humor. A preparadora Druot – como ficou para sempre conhecida – foi a única a superar a mestra no índice de rejeição dos alunos. Marcou profundamente toda uma geração que, a despeito da excelência técnica, teve os mais altos números de abandono da profissão. Quando alguém ria ou conversava durante os treinos, era implacável. Uma vez expulsou uma talentosa e falante bailarina:
– Quer brincar de fazer ballet? Pois vá dançar descalça no olho da rua!
E acabou com a carreira da moça, sem pestanejar e sem perder um minuto de sono, nem mesmo quando todo o grupo veio pedir-lhe que ponderasse melhor e reintegrasse a garota, que estava inconsolável e prometera emendar-se. Mas ela não era pessoa de voltar atrás em uma decisão.
Não casou nem teve filhos. Cuidou da mãe, que ficou cega e inválida mas viveu para enterrá-la. Morreu aos 55 anos, dormindo.
No dia seguinte foi cancelado o treino da parte da tarde na Ópera de Paris, para que os integrantes do corpo de baile pudessem comparecer ao enterro da preparadora Druot, cujos pés, no caixão, deformados pela artrite, eram uma caricatura grosseira da perfeição de outrora. Mas o rigor cadavérico não a traiu e os entregou à posteridade perfeitamente esticados numa ponta eterna. Isso pouca gente viu, porque a maior parte dos bailarinos preferiu dar destino menos funesto à rara tarde de folga.
Esta foi a história esquecida de Cecille, a bailarina perfeita, a quem Deus não concedeu a Graça dos pés felizes de Isadora.

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