Textos antigos (Christiana): July 2004 Archives

Angu

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Eu não tenho time de futebol. Depois de adotar 4 ou 5 diferentes bandeiras em busca daquela do coração, aposentei a revirada casaca e assumi a indefinição crônica. Não sei nada sobre futebol, vou torcer pra quê? Arquivei o assunto e confesso que não me preocupo muito com esta lacuna, salvo em épocas de Copa ou outros campeonatos importantes, qundo minha ignorância fica mais flagrante e sou obrigada a estudar a máscara facial e as exclamações dos outros, como um autista que quer aprender a se comportar num mundo que não faz sentido. Mas Copas são bissextas (quando é a próxima mesmo?) e, no resto do tempo, mantenho um funcionamento público quase satisfatório, mesmo com este aleijão cultural.
Em religião é quase a mesma coisa, não tenho. Só que é mais sofrido, não consigo abandonar totalmente a questão como quem descarta um supérfluo na gôndola do supermercado. Nem Marx, nem Freud, nem outros céticos menos cotados jamais conseguiram fechar meus olhos para a estranha ordem do inexplicável, a impalpável consciência que me pensa no mundo. Se você insistir em dar um nome a isso, eu me definiria como “angunóstica”, porque eu me angustio por não saber nada sobre Deus. E também porque esta ansiedade me fez absorver indiscriminadamente, ao longo da vida, uma quantidade abusiva de informações místico-religio-esotéricas as mais díspares - um verdadeiro angu - de Saint-German a Obaluaiê, de Wicca a Sai Baba, da abdução alienígena da Virgem Maria à iminente encarnação do senhor Maytréia. Em matérias do além já conheci de tudo e um pouco mais, sem me convencer totalmente de nada. Passo mal dentro de Igreja (e não vem me exorcizar, que eu mordo!). Gosto do Tao mas ele, em sua simplicidade de sabedoria, pouco satisfaz à minha ânsia por respostas peremptórias e inequívocas: quem, como exatamente (sou curiosa por detalhes), pra quê, onde está, desde quando (digo datas, “sempre esteve” não é resposta), como chegou lá, qual seu nome e, o mais importante:

Como eu posso conseguir uma entrevista exclusiva? Um particular, como Moisés e outros profetas afirmam ter tido. Cinco minutinhos, não mais. Aí pronto; eu perguntava tudo, absorvia miraculosamente todas as respostas e, no final, pedia cinco minutos de prorrogação. Claro, porque eu tenho que ter direito a réplica, afinal estamos ou não numa…(hum, acho que esse negócio de democracia , apesar de ser o que há de melhor na terra, não deixa de ter parte com o demo. Melhor evitar gafes nesta curta entrevista)…teocracia? Então, eu poderia desfiar meu rosário de reivindicações do consumidor:
Em primeiro lugar, embora a dor leve ao crescimento, questiono a validade deste método pedagógico: está cientificamente comprovado que o reforçamento positivo produz resultados educacionais melhores e de mais longo prazo que a coerção. Ou seja: mais felicidade como prêmio, menos dor como castigo e o resultado seria uma humanidade mais ajustada, uma “família” mais feliz. Então, abaixo a palmatória!
Em segundo lugar, o tempo linear é uma coisa meio careta e muito limitada. Devíamos poder pular as partes chatas, voltar pro aconchego dos bons momentos e tirar umas feriazinhas num futuro promissor.
Terceiro, tudo muito sólido. Isso machuca. E pesado, cansa. Menos densidade, menos gravidade e tudo ficaria mais…leve. Na impossibilidade de atender a esta reivindicação, um par de asinhas quebrava o galho.
Quarto, tele-transporte já! Seria o fim dos engarrafamentos, dos ônibus, das ponte-aéreas, mas o melhor de tudo é que os bêbados poderiam voltar para casa sem causar acidentes no trajeto. Na pior das hipóteses, poderia haver um erro como naquele filme da mosca, e o cara ia se re-materializar com um gargalo no lugar do pescoço enquanto, no bar, uma garrafa long-neck com a sua cabecinha suplicaria “help me!”.
E quinto (meus cinco minutos estão quase acabando) telepatia. Falar o que a gente quer é tão difícil, entre a cabeça e a boca um mundo se perde, são tantos desvios e despenhadeiros de palavras que quando a gente vê já está lá embaixo e não tem volta, está dito, mesmo que esteja tudo errado. Esse negócio de escrever parece um pouquinho mais seguro, mais ponderado (embora não esteja livre de mal-entendidos), às vezes até é bem divertido mas sempre existem vãos que as palavras não cobrem. Além de tudo, arrumar as idéias, depois as pausas, depois as letras, uma depois da outra, dá muito trabalho. E é meio ineficaz, nunca dá pra dizer tudo o que.
Caiu a linha. Este Senhor (ou será uma Moça?) é implacável, não deu nem tempo de negociar uma vantagenzinha pessoal, uns milhões na Suíça, um alto cargo comissionado vitalício ou pelo menos um fim de semana com o Richard Gere no Tibet (porque eu sou altamente espiritualizada, lembra?). E faltou perguntar do amor verdadeiro, o único assunto que me interessava, na verdade.
Então tá, fica pra próxima – se é que tem uma próxima depois dessa.
Enquanto a Revelação não vem, a angústia permanece, a de saber que todo ser humano sofre e não saber nada pra mudar isso. Nem as quatro nobres verdades, nem os oito nobres caminhos, nem todos os 111 avatares reunidos em egrégrora, nem o sangue de Jesus, nem o Pai Nosso ou Nossa Mãe do Céu, o Nirvana, o Satori, o Ohm, o Um – não foram capazes de eliminar total e permanentemente o sofrimento de uma vida humana sequer.
Eu tenho certeza que o Dalai Lama, entre um e outro êxtase místico, e mesmo sob o inabalável sorriso, no fundo sofre. Pelo exílio, por seu povo, talvez por um amor perdido, que nessas coisas Buda nem sempre ajuda. O Papa, coitado, sofre pra burro, pressões e mazelas várias, sofre da coluna sob o peso da mitra, sofre até atentado. A Gisele Bündchen diz que tem lá suas espinhas e isso dói. Bill Gates tem cara de quem já teve dor de dente, quiçá de corno. Jesus sofreu na cruz e até reclamou “pô, pai, tá doendo de verdade!…”
Então não adianta ter sabedoria, títulos, beleza, dinheiro, nem mesmo luz. Tá aqui, tem que sofrer. Cruzes!
Não vou entender nunca, nem em sete mil vidas.
Semana que vem, começo num grupo de meditação zen-budista. Depois eu conto como foi. Vai um fubazinho aí no seu tacho?

A Reforma da Natureza

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Esse era um dos meus livros preferidos do Monteiro Lobato, porque eu me identificava totalmente com a Emília. Além da estatura diminuta e dos eventuais ataques de mau-humor, minha persona infantil compartilhava com a boneca uma certa sensação de ser a única criatura a enxergar o óbvio e uma petulante indignação com a burrice humana, suína, sabugosa, e com os “erros” da natureza. E, claro, na minha época (ou nas ilustrações, mais antigas do que eu, dos livros que foram dos meus pais) a Emília tinha os cabelos curtos e escuros – isso era importantíssimo para mim.
A vida se encarregou de punir muitas vezes minha petulância, e minha indignação, hoje em dia, anda bem retraída. Lembro, com alguma nostalgia, de bater panelas pelas “diretas jᔠnos meus remotos 15 anos mas ultimamente, mais realista, poupo a caçarola que panela tá caro pra chuchu e enchê-la é a grande questão que move o povo.
Mas a revolta íntima persiste, eu não me conformo com a realidade. Se Deus existe, acho sinceramente que lhe falta algum senso…humano. Todo dia vejo coisas que não cabem. Com pouco esforço consigo imaginar alternativas bem mais justas para as leis da Economia e mesmo da Física e, se Alguém escutasse a minha opinião… mas esse Cara é teimoso que só, se acha O tal e faz tudo do jeito Dele. Ele também deve me achar petulante e é por isso que às vezes me põe de castigo. Mas eu vou morrer pensando bem alto: DISCORDO! Quem mandou me prover de opinião?
Acho que foi isso que eu pensei, a primeira vez que me vi no espelho. Não que eu fosse horrível, acho até que eu era bonitinha, como a maioria das crianças que não são lindas nem feias. Convenhamos que já é um lucro, poderia ser bem pior, eu sei que devia agradecer e tal, porque tem gente que é deformada, horrível, tinha até aquele cara do sinal que pedia ajuda mas as pessoas tinham repulsa só de olhar. Ai, gente, eu sei. Mas, se me dão licença de falar com franqueza, eu sempre que me olhava no espelho pensava que conseguiria facilmente evocar uma figura melhor. Na televisão e nas revistas tinha exemplos aos montes.
Pra começar, poderíamos colorir mais o conjunto. Por que não os lindos olhos verdes do meu pai, ou a lourice de minha mãe? Já daria um bom realce. O resto tava mais ou menos, tudo bem, mas o que não dava pra entender era aquele cabelo desgovernadamente crespo, que crescia em todas as direções, menos para baixo.
As tentativas de minha mãe para solucionar o problema, ressalvadas suas certamente elevadíssimas intenções, resultavam em desastres sucessivos (momentos “cogumelo”, momentos “poodle” e, os mais temidos, momentos “bozo”) que costumavam terminar com uma poda radical estilo “joãozinho” que, como o próprio nome diz, me deixava um perfeito menino. O que causava constrangimentos como o de sair do banheiro do restaurante e ser interpelada pelo garçom : “o de homens é do outro lado!”. Mas o que mais deixou seqüelas emocionais foi o fato de ter sido excluída, pelos meninos da turma, da lista de meninas namoráveis. Sim porque, se a única diferença entre meninas e meninos nessa idade é o cabelo, quem namorasse comigo provavelmente seria considerado bicha. Então eu me tornei a melhor amiga dos meninos, um tipo de menino – só que meio fresquinho e ruim nos esportes – com quem eles gostavam de conversar. Desde essa época, eu tenho mania de saia, mas não adiantava muito. Podia ser a roupa da Barbie-sonho-encantado mas, com aquele penteado do Falcon, o Ken nunca ia olhar para mim.
“Cabelo cresce”, minha mãe dizia quando eu me desesperava diante da imagem tosquiada no espelho do barbeiro. Mas de que adiantava crescer se, poucos meses depois, diante da inexorável expansão da minha cabeleira, ela recorreria novamente ao cogumelo, ao poodle ou ao bozo e, finalmente, à navalha radical?
Até hoje tenho mais medo de cabeleireiro que de dentista. Uma sala de torturas medieval, tesouras ferozes e absolutamente desobedientes aos meus apelos, comandadas por homens de voz mole e suas assistentes falsamente simpáticas mas que sempre resmungavam palavrões entre dentes na hora de desembaraçar meu cabelo, lá longe da minha mãe, enquanto arrancavam vários tufos. Um lugar de onde eu sempre saía pior do que tinha entrado.
Daí que desde a adolescência, quando me foi dado escolher o que fazer com a própria juba, resolvi fugir de salões tanto quanto possível e meu cabelo enfim cresceu. Em alguns anos (muitos, porque cabelo ondulado cresce em espirais e isso demooora) eu era a irmã morena da Rapunzel. E quer saber? Ficou até bonito (eu admito que às vezes O Cara escreve certo por linhas tortas mas ainda acho que teria poupado muito sofrimento se já tivesse nascido comprido, provando à minha mãe e a mim que as molas podiam se submeter à lei da gravidade, desde que tivessem mais de meio metro de comprimento). Sabendo o valor de cada milímetro crescido, só recorria a algum cabeleireiro para tirar as pontas, e sempre repetindo a senha de proteção, como um mantra: “aparar, só aparar”. Mas às vezes sua fúria assassina era tamanha e tão sub-reptícia que, mesmo com todos os meus cuidados, quando eu via, já tinha perdido metade da trança (“estava podre!”, argumentava ele, ou “totalmente sem corte, eu só acertei”. Depois eles vendem tudo pra fazer mega-hair, que já me contaram. Eu sei que o meu cabelo, crespo e castanho, tem uma cotação baixa mas é sempre um troquinho, né?). E tome meses para o “cogumelo” crescer e virar cabelo novamente. Na média, porém, o cabelão venceu e, pra ser sincera, não me dava o menor trabalho. Era lavar e deixar secar ao natural, sem pentear pra não desmanchar os cachos. Se tudo desse errado, era só amarrar um coque e dar um nó nele mesmo, que o cordame estava sob controle. Então essa foi uma parte capilarmente encontrada e estável de minha vida, que durou até cerca de um ano atrás.
Sabe como é, separação costuma ter pelo menos dois efeitos visíveis na mulher: perda de peso (cerca de 10% do peso corporal, um espetáculo!) e corte de cabelo. Quando este último apelo começou a ficar irresistível, antes de me submeter à tortura em mãos alheias, resolvi eu mesma assumir os trabalhos. Comprei uma tesoura profissional e, seguindo minha própria tradição de “inovação acima da razão” (assim,com bastante eco), criei meu revolucionário sistema para cortar cabelos crespos: secos, com os cachinhos já formatados, para que você possa saber como vai ficar depois. Não parece óbvio?? Por que ninguém inventou isso antes? Deve ser um complô das japonesas para manter as cabeleiras selvagens purgando no inferno astral, e poderem vender alisamentos cada vez mais caros e fedorentos.
De modo que fiz, eu mesma, minha versão do “cogumelo”: aquele cabelo crespo cortado chanel, ingrato para o rosto em 100% dos casos. Mas até que o meu fungo auto-cultivado ficou mais bonitinho, com contornos mais suaves que os da infância, cortados molhados, a régua.
Só que o cogumelo, quando acorda de mau-humor, vira bozo e ninguém pode viver tranqüilo diante desta ameaça. Então, como não poderia deixar de ser, cheguei ao “joãozinho” pelas minhas próprias mãos. Mas agora com alguma arte, um “joão-anjinho”: um falso curto, cortando os caracóis um a um, um pouco irregulares, pra não ficar parecendo uma topiaria. E sem perder jamais a noção de que um cacho de alguns centímetros pode ter mais de um palmo, quando esticado, portanto são anos de esforço orgânico ali e nenhuma tesourada deve ser impensada.
Meu hair-style foi um sucesso, opinião geral de que eu remocei 10 anos (esqueci de dizer que este é o terceiro efeito visível da mulher que se separa). Pronto, agora eu estou livre do fantasma de Edward-mãos-de-tesoura. Sou dona do meu próprio cabelo.
Mas quem disse que a gente só anda pra frente?
Outro dia, minha frágil “alta-estima” foi abalada pela afirmação chauvinista de um (não muito)amigo de que a mulher sexualmente plena tem cabelo comprido, ao que outro acrescentou “comprido e liso” (sei não, mas acho que a opinião dos meninos não evoluiu muito desde a escola primária). Querendo agradar às massas, e lembrando dos muitos centímetros escondidos em meus curtos cachos, tive a idéia brilhante: aproveitar o mote do aniversário de uma amiga e fazer uma escova. Aparecer de cabelos sedosos e, se não longos, ao menos médios, linda, praticamente loira, não seria a glória? Mil mulheres numa Lady só!
Lá fui eu gastar meu rico dinheirinho num salão de tortura. Tudo estava promissor, era um salão supostamente zen, cheirando a incenso e, o mais importante, aceitavam cartão de crédito. A moça que ia me atender tinha até cabelo crespo e eu pensei (como sempre penso, em vão): “desta vez serei compreendida”. O que eu queria era muito simples: “ficar com o cabelo liso.” Ora, todo mundo sabe o que é um cabelo liso: um cabelo que cresce para baixo. Precisa explicar melhor?
Eu suspeitei quando ela começou a fazer movimentos em forma de montanha no alto da minha cabeça. Perguntei se aquele volume não ia abaixar e ela (sem ocultar a impaciência) garantiu que “depois abaixa”. E tome cabelo pra cima. Ainda me queimou o couro cabeludo várias vezes, dizendo “agüenta firme, que é pra baixar a raiz”, enquanto puxava pra cima com força. Eu, obediente, engoli o choro pensando que a Angélica, que passa por isso todo santo dia e ainda sorri, tem um caráter muito mais firme que o meu.
No final, a recompensa: o cabelo lustroso, baloiçante, liso enfim e…armado como se tivesse uma daquelas peruquinhas de cocuruto ridículas que as mulheres usavam nos anos cinqüenta. Tentei reclamar mas a Crespa Maligna (como ficará para sempre conhecida) me fulminou e disse: “Se não abaixa mais, a culpa é do seu cabelo, não posso fazer nada.”. “A culpa é do seu cabelo” bateu fundo nos meus antigos complexos e calou minhas reivindicações. Fui embora humilhada, tentando reconhecer, no vidro de cada carro no caminho, meu rosto atrás daquele liso bolo-fofo. Por sorte eu tinha meu chapéu para abaixar a gaforinha. Ao chegar em casa, depois de uma caminhada sob o sol enchapelada até a alma, a escova já estava arruinada pelo suor abafado na cabeça. Ainda tentei salvar o investimento, ao longo do dia, com faixas, grampos e toucas. Mas o penteado enroscava a olhos vistos, e de um jeito liso, como espírito em corpo que não lhe pertence.
Quase na hora de sair, joguei a toalha: molhei as madeixas, que encaracolaram, felizes, no mesmo instante. Recuperada minha identidade-rococó, molinhas ao vento, lá fui eu para a festa.
Comentário geral (inclusive dos homens bonitos e interessantes, hum…): “você está linda, seu cabelo está uma graça!” Como se vê, nem todo homem é tão primário.
E sabe do que mais? Eu adoro meus cachinhos, são a minha cara!
Chego à mesma conclusão que a Emília, no final do livro: a gente pode ter umas idéias boas de vez em quando mas, se abóbora dá no chão, é por algum motivo. A natureza sabe o que faz!

Conjugado

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Chega em casa e desliga o telefone, pra não ficar escutando ele não tocar. – Odeio barulho!
Liga a TV.
Alimenta o peixe, mas não demais. – Sabia que o peixe morre pela boca? Se deixar, come até estourar. O meu não, é claro, eu controlo. Duas tampinhas por dia, nem uma migalha a mais, não adianta fazer bico.
Toma meio litro de coca light, come uma caixa inteira de bombons. O celofane rosa ela coleciona numa gaveta. Quando casar, vai usar na decoração das mesas, como viu uma vez na revista. Fica lindo. A gaveta já tem milhares de mesas, um imenso jardim. O noivo, distraído, está uma vida atrasado e seus rosas, de tão guardados, estão começando a murchar. Mas ela vai sair? Vai se expor? Fecha a gaveta. Pra isso ela não precisa de ninguém.
A novela acaba cada dia mais cedo. O dia acaba cada dia mais tarde. O bombom acabou e ninguém agüenta tanta coca-cola.
Todo peixe morre um dia, mesmo que coma pouco. Todo mundo estoura um dia, mesmo que controle.
As baratas invadem até mesmo as casas limpas. Pelas frestas, pelo ar.
A xícara suja na pia não se lava. 3 dias. Ninguém se lava só.
Daqui, nada se leva.
É um dia depois do outro. Só.

Texto livremente inspirado no espetáculo “Conjugado” – em cartaz no Teatro Sérgio Porto (Humaitá, R/J), até 11/07. Direção de Christiane Jatahy, cenário de Marcello Lipiani, luz de Afonso Tostes, vídeo de Márcia Derraik.
Atuação solo de Malu Galli, a melhor atriz desconhecida do Brasil.
* * *

Vá ao Teatro e, se o ingresso for baratim, rolar carona e tudo, pode me chamar

A vida desta personagem não se parece muito com a minha. Eu vivo em uma casa razoavelmente grande com boa parte da família; tenho cada vez menos paciência para tv; não gosto muito de chocolate e só tomo coca heavy, mesmo assim raramente (tá bom, de vez em quando). Casei e procriei até que cedo e nunca tive um peixe.
No entanto, sou eu ali no palco. Empatia: esse condão de colocar-se no lugar do outro, sentir o que o outro sente. O mesmo sentimento que move a amizade, a solidariedade, a paz, o amor. Pois é isso que um ator provoca quando é dos bons. Toca cordas ocultas, tonalidades desconhecidas mas que estão ali, potenciais. Por isso emociona mesmo quando não há, a princípio, uma identificação. Mesmo se aquele é o outro, o diferente – porque fez as escolhas que abandonei ou de que nunca dispus – o ator te busca lá na cadeira e diz “vem comigo, vem ser eu um pouquinho”. Isso é o que há de divino no Teatro. É o que move de casa minha preguiça (o que faço sempre sob protestos de que os produtores são umas antas que ainda não descobriram que carioca gosta de jantar com calma, ver a novela enquanto se veste e sair só depois. Eu não vejo mais novela porque sinceramente. Mas sigo o biorritmo da minha cidade, detesto ter que chegar aos lugares antes das 10. Eu sei que tem gente que acorda super cedo mas para esses existe o fim-de-semana, ora. Até porque é uma minoria, carioca não acorda cedo, como provam as casas noturnas, lotadas de segunda a segunda. No dia que marcarem os espetáculos para começar às onze, vai bombar - escrevam o que eu digo. Produtores, acordem, ainda que tarde!)
Mas enfim, às vezes a gente consegue chegar a tempo e ter esta experiência que novela nenhuma consegue reproduzir.
Agora, não vá ver qualquer porcaria pra depois ficar dizendo “vá ao teatro mas não me chame”. Fico lembrando de meus grandes momentos de platéia: Fernanda “Dona Doida” Montenegro, Cacá “Meu Tio Iauaretê” Carvalho, Nanini “Irma Vap” Latorraca, Denise “Mary Stuart” Stoklos, Rubens “Artaud” Correia. Cleide Yáconis num monólogo cujo nome não lembro mas a emoção que causou ainda me arrepia. “A Tempestade”, impacto solene e feérico no jardim interno do Parque Lage, na tenra adolescência. “Alice-Jatahy-das-Maravilhas” com meu filhinho deslumbrado, itinerando pelos jardins externos do mesmo Parque, muitos anos depois. “Ópera-Broadway-do-Malandro” e a vontade de sair cantando e dançando pelo foyeur logo depois e abraçar o Mauro Mendonça e a Lucinha Lins, que ainda seguram a onda no gogó e no talento. Para citar apenas as primeiras imagens que me vieram.
Sem falar nas coisas maravilhosas que eu não vi por falta de grana ou por preguiça de sair de casa antes das 10.
Mas o que denigre o Teatro é que tem muito lixo feito em seu nome. Verdadeiros atentados estéticos, egotrips longas e vãs, constrangedores números de platéia que, se fossem comigo, eu pedia meu dinheiro de volta. Mentira, sou sobrevivente das piores experiências em nome da arte e, na saída, ainda parabenizo os amigos do elenco.
Ah, não me chame de hipócrita, eu não vou mudar o mundo sendo sincera, só vou perder o amigo.
Pior é que eu já estive no palco em alguns desses tristes momentos. Felizmente isso é passado e serviu para fortalecer meu caráter e calejar meu espírito. Sou capaz de assistir virtualmente qualquer chatice e dou apoio incondicional aos atores: aplaudo sempre.
Mas reconheço que o Teatro, quando é chato é, também, insuperável. Não é como um livro que você pode fechar sem ofender ninguém. Pega malíssimo sair no meio, o ator vai ver. E se for seu amigo e você sair à francesa antes de falar com ele, jamais será perdoado. Então é o tipo da tortura completa, sem escapatória, com fila de pêsames, digo, parabéns no final.
E, contudo, creia. Um bom momento cênico –ainda que vivido da obscuridade da platéia – compensa todos os ruins. Uma recente surpresa gratíssima foi “Ensaio Hamlet”, da Cia. dos Atores. Experimental sim, porém ótima. Narrativamente clara – lá estava Hamlet do início ao fim – ainda que ousada, coisas como Rosencrantz e Guildenstern caracterizados como Power Rangers e, acredite, era absolutamente pertinente, além de hilário de doer. Com Fernando Eiras – que eu já conhecia do cinema e da televisão e achava legalzinho mas não sabia que era excelente ator de Teatro – e um elenco todo muito bom, de atores inteligentes (isso existe!), onde aliás se destaca… Malu Galli. Brilhante como a Rainha Gertrudes e outros bichos (6 atores fazem todos os personagens!). Mas essa peça infelizmente já saiu de cartaz por aqui. Vai pra São Paulo, eu acho.
Então, se você mora no Rio, vai ver “Conjugado”, que também vai sair logo. É simples, não tem propriamente um enredo e nem uma perfeita amarração dramatúrgica. O tema da solidão não é muito original e o final fica meio solto. Mas isso quem percebeu foi o “encosto” de uma velha cri-cri que faz pronunciamentos teórico-críticos na minha orelha direita e que, por sorte, só me acometeu em momento posterior, digestivo. Lá dentro, houve Teatro e eu adorei. Apesar das quebras e do intencional distanciamento que elas produzem, eu estive ali, naquele cubo de vidro com persianas, comendo Sonho de Valsa e vendo a vida passar na TV.
Então sacode essa preguiça; vai ao Teatro! Você não vai morrer por ficar um dia sem novela. O risco é pequeno, o ingresso é popular. Se você odiar, será rápido – a peça é curtinha. Se amar, será eterno.
E você ainda vai poder dizer que viu a Malu, que também é linda mas não é a Mader, antes da fama que cedo ou tarde há de vir. Se algum dia houver justiça ou ao menos lógica no mundo do glamour – o que não tenho bem certeza mas enfim.
Talvez ela não queira o glamour, as telas, as capas de revista. Talvez queira mesmo ser uma belíssima atriz de Teatro (isso também existe!).
Então seja um privilegiado e veja o que o Brasil inteiro não viu. Uma pessoa rara, ao vivo.
Vai, desliga logo o computador e sai desse aquário. Vai ao Teatro, olhar de fora pra dentro a solidão em que cada um de nós se confinou.

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