Textos antigos (Christiana): August 2004 Archives

Mutações

| | Commentários (0)

Não sei se eu sou uma crédula, porque toda vez penso “eu sinto que é ele, vamos lá!”, ou se sou uma cínica, porque toda vez eu chego lá e penso “hum…sei não…” e começa a saraivada de críticas pra no final constatar, como sempre: “é, ainda não foi dessa vez”.

Não estou falando do príncipe encantado, não hoje. Estou falando do Mestre. O gafanhoto tinha, o karatê kid também, até o Paulo Coelho arrumou um antes mesmo de ficar rico. Então eu estou sempre de olho, pra que não me ocorra, por distração, de cruzar seu caminho e não reconhecer. Claro que todo mundo tem o que me ensinar, eu já aprendi mais com minha tartaruga sobre sobrevivência às intempéries do que com todos os meus livros de psicologia. Mas eu falo de uma relação formal mestre-discípulo, uma iniciação personalizada que me fizesse ascender a um estado búdico.

Esse cara último, eu conheci (entenda-se por conhecer: saber da existência) quando tinha 15 anos, e isso faz tempo. Minha prima mais velha, ídola absoluta – vinte-e-poucos anos, linda, hippie-chic, sexy, inteligente e cantora – foi à China (!) e voltou cheia de novidades. Trouxe pra mim um caderninho vermelho de encadernação brocada que tenho até hoje e, pra minha mãe, um exemplar (traduzido para o português, evidentemente) do “I Ching – O Livro das Mutações”. Era um livro a quem se podia fazer perguntas! Eu tinha quinze anos e um milhão de perguntas por segundo. Mal deixei minha mãe chegar perto, carreguei-o para o quarto, onde o mantenho até hoje, sempre ao lado da minha cabeceira (claro que, de uns anos pra cá, tenho meu próprio exemplar e devolvi o bagaço do outro à biblioteca da família). Destrinchei seus mecanismos oraculares e passei a me divertir com as respostas bizarras e poéticas. Com o tempo, aquelas imagens passaram a fazer sentido, não muito, mas davam um sem-sentido poético às coisas bizarras que eu vivia. Tem sido assim há 20 anos; eu e o “velho” nos entendemos bem. Ele às vezes mente pra mim, e eu perdôo. Eu encho o saco dele com as mesmas perguntas, e ele responde (quase)sempre com uma paciência chinesa, até que eu entenda ou desista de perguntar.

Mas eu queria alguém de carne e osso. Podia ser uma mulher, uma velhota, uma criança, qualquer interlocutor mais…animado que um livro. Desde que fosse sábio, modesto e interessante como este surrado volume sabe ser.

E quem melhor do que o próprio autor do livro? Não do antigo oráculo do I Ching, esse já virou lenda há uns bons três mil anos. Assim como já viraram pó o Rei Wen, o Duque de Chou, Confúcio, Richard Wilhelm, Carl G. Jung e tantos outros elos que ligam minha leitura atual à China remota; são mestres-de-papel, não podem bater com um bastão na minha cabeça.

Mas a ponta de cá desta corrente, o primeiro tradutor do I Ching para o português (a partir da versão alemã, prefaciada por Jung), o – circunscritamente, mas ainda assim – famoso prof. Gustavo A. C. Pinto – que foi professor da minha tal prima naquela época, e foi inclusive seu cicerone naquela viagem à China – este está vivo, e ainda surpreendentemente jovem. E nos últimos anos, ainda por cima, sagrou-se monge budista! E veio ao Rio, após um retiro de 20 anos, para um ciclo de palestras!! Logo ali no Leblon, e a entrada era razoavelmente barata!!!

Dá ou não dá pra se empolgar? Eu fui pra lá, amarradona. Cheguei em cima da hora e consegui um improvável lugar na primeira fila. O universo conspira, eu pensei. O mal das expectativas.

Tá, o cara é legal, um coroa bonito, inclusive. Careca reluzente como a de um Buda de louça, fala mansa, um pouco demais da conta, e monocórdica (me lembrou o papa), com um estranho sotaque lusitano, visto que ele dizia ter nascido no Rio, se formado no Japão e vivido em São Paulo nos últimos anos.

Falou que nunca somos os mesmos, nada permanece.

Falou de Karma, Dharma, e do ciclo vicioso da violência:

ignorância =>desejos=>ira=>ignorância=>desejos …

Isso eu achei a melhor parte. A saída desse circuito? O desapego. Tudo muito bacana, mas tenho que confessar que eu já sabia.

Claro que nunca é demais lembrar mas, de alguma forma, eu esperava algo além. Um insight, um novo enfoque ou, no mínimo, uma pessoa mais surpreendente que me fizesse rir, ou me levasse às lágrimas. E olha que, pra rir ou chorar, eu sou facinha.

E tinha um negócio dele não querer falar “eu” pra não cair na “armadilha do ego”. Então, toda hora ele falava do “garoto que um dia atendeu pelo nome pelo qual hoje me chamam”, ou o “adolescente de quem ele se recorda e que atendia pelo nome pelo qual ele hoje atende”. Ou esse cara tem um homônimo que ele cita um bocado, ou me parece que ele falou de si basicamente o tempo todo, nas reminiscências que traziam “àquele garoto que um dia(…)”, as ruas, hoje tão diferentes – ele queria sublinhar a impermanência, eu sei, eu entendi – daquelas da “cidade que se chamava São Sebastião do Rio de Janeiro” quando “aquele garoto (…)” aqui vivia.

Sei lá, aquele preciosismo eufemístico me deu sono. Pode ser que ele seja um mestre no método “sleep-learning” de iluminação acelerada, mas fico mais com a sensação de que me enganei no caminho, que aquela pantomima toda é um (mau) disfarce pra uma pseudo-modesta egotrip. E o pior é que ele nem falou do I Ching. Parece que ele agora “mudou”; o “professor que um dia atendeu pelo seu nome” não existe mais. Pôxa.

Pelo menos meu livro permanece à cabeceira.

Volto ao prefácio do prof. Gustavo Pinto. Começa assim:

“O que hoje conhecemos com o nome de I Ching…” (Xi, há 20 anos o cara já era igualzinho!)

Deixa o prefácio pra lá e vamos às mutações propriamente ditas.

Começam assim:

“O Criativo promove sublime sucesso, favorecendo através da perseverança.

(…) O movimento do céu é poderoso.

Assim o homem superior torna-se forte e incansável.”

Não sei bem o que significa, mas gosto da simplicidade dos hexagramas, dos ideogramas intrincados que os traduzem, das palavras a que inexatamente correspondem, das imagens que evocam. Tô com meu chinês e não abro, ele é poético até quando mente.

Enquanto tiver forças, eu persevero no movimento, mesmo sem saber se o tal sucesso vem um dia, e se é de fato sublime.

Fico com meu velho livrinho, imutável entre as mutações. Melhor do que virar monja e começar a falar esquisito.

A minha dor é Doriana, a dor dela é Adorela

| | Commentários (38)

(verso da música “Adorela” – DJ Dolores)

Por que as mulheres dos anúncios de margarina parecem tão mais felizes do que eu? Elas acordam sempre com sol, de bom hálito e maquiadas, nunca tiveram crise no casamento nem oscilações hormonais. Deve ser por causa do bom colesterol.
Sou chegada a um pão com manteiga, admito. Já tomei um ou outro porre mesmo sem gostar de beber e já devo ter feito coisa pior mas não vou ficar me penitenciando em público. O que eu fiz ou deixei de fazer por mim mesma, assumo e assino embaixo, sem culpa. Foram meus arroubos e também meus cuidados; minhas covardias e minha coragem.
Mas desde que tive filho, venho colecionando alguns momentos de que me arrependo, e não posso modificá-los.


Todo mundo lembra do dia em que aprendeu a andar de bicicleta, não é? Pois é, eu queria estar bem nessa fita, na memória afetiva do meu filho, num dia ensolarado na casa de seu avô em Angra dos Reis. Estava tudo conspirando para um perfeito anúncio de Becel. Mas eu me comportei como uma generala, dava 20 instruções ao mesmo tempo, bufava, virava os olhos e cheguei a ser mesmo estúpida, até cair em mim do ridículo da cena e delegar a função ao jovem caseiro, que teve muito mais psicologia – e obteve muito melhores resultados que eu, é lógico.
De nada adiantam agora meus insistentes pedidos de desculpas, os chamegos e muito menos a cansativa explicação sobre tpm. Num único intervalo comercial de seu desenho preferido, ele pode ver pelo menos cinco mães exemplares e equilibradas que alimentam seus filhos com gelatina, nescau e biscoitos e que não deixam dúvidas sobre quão má eu sou.
No entanto ele continua a repetir (contra todas as evidências) a cada vez que me abraça: “Você é a melhor mãe do mundo!”
As mulheres-margarina podem ser muito saudáveis e eu nem ousaria comparar nossos triglicerídeos, mas numa coisa eu me garanto: o melhor filho do mundo, quem tem sou eu.
* * *
Manual de obstruções

Fiquei dois dias sem internet. Tentei relevar o quanto pude, utilizando técnicas zen de esvaziamento da mente mas, afinal, vencida pela urgência das telecomunicações, resolvi enfrentar o inglório tele-atendimento da Net/ Vírtua. Depois de algumas horas de teclagens, códigos, musiquinhas e irritantes mensagens comerciais, fui afinal atendida por um ser (quase) humano:
– Em que posso estar lhe ajundando?
– Estou sem sinal desde ontem.
– Em sua área não constam problemas de sinal, estaremos agendando uma visita em 48 horas para estarmos verificando seu modem.
– Mas olha só, outro computador da minha casa, ligado a um outro modem num ponto com entrada independente, que passa inclusive por outra linha telefônica, ficou sem sinal no mesmo momento. Isso mostra que não é um problema do meu modem, pois como dois equipamentos diferentes podem ficar com defeito ao mesmo tempo?
– No computador não consta problema de sinal em sua área. Nós temos que mandar o técnico verificar o modem, é o procedimento.
– (Inspiro fundo e expiro em oito tempos)…mas isso vai levar mais dois dias e vai mobilizar um técnico à toa. Meu rapaz, deixe o manual de lado e use seu bom senso um instante.
– Minha senhora, não posso estar usando meu bom senso porque é contra os procedimentos da empresa.
– … (confesso que fiquei sem palavras.)
Vencida pela incomunicabilidade, agendei a visita. É claro que o problema se resolveu horas depois, como por milagre, nos dois computadores, antes da chegada do técnico. Como eu previa, não havia nada de errado com o modem, era problema do sinal que ultimamente, dia sim dia não, some por algumas horas sem explicação. Difícil foi enfrentar os procedimentos (des)necessários à desmarcação da visita.
Eu gostaria muito de ter acesso ao manual de regras do tele-atendimento da Net. Posso imaginar os termos:
“Cláusula primeira: é expressamente proibido usar de bom-senso no exercício da função.
Cláusula segunda: é obrigatório estar se expressando em paulistês gerúndico.
Cláusula terceira: o computador é soberano e suas informações são incontestáveis, ainda que absurdas.
Cláusula quarta (secreta): este é um experimento de laboratório para testar os limites da paciência humana. Para o bem da experiência, toda e qualquer facilitação da vida do usuário será punida com o rigor da lei.”
Vendo por esse ângulo, eu diria que eles são de uma eficiência absoluta. ISO 9005.

* * *
Eu não vim pra explicar

Minha querida amiga Lenora pediu semana passada uma pesquisa séria sobre o Amor e, embora eu muito quisessse agradá-la, não posso eslarecer ninguém acerca deste assunto. Tampouco saberia fazer pesquisa sobre tema tão controverso, sobre o qual já discorreram, com as mais bizarras conclusões, de Platão a Roberto Carlos – não saberia nem por onde começar. Uma busca de segundos no Google levou a oito milhões, oitocentos e dez mil sites sobre o assunto. Isso se eu quiser me limitar à lingua pátria; “love” levaria a nada menos que cento e dezoito milhões. (ei, reparou na estranha coincidência dos números? 8.810.000 ; 118.000.000 – estes números foram exatos na minha pesquisa, saíram assim redondos, juro! Será que é um sinal, será que algo me está para ser revelado sobre o amor?) – tá vendo, este é o tipo de pesquisa “séria” que eu faço!
É isso, do amor eu só espero o milagre, a coincidência divina, a revelação. O resto é conversa pra filósofo dormir.
Então vamos parar de conversa e sejamos práticos:
Amem (do verbo Amar, no Imperativo Categórico Universal)
Amém (Assim seja)
É a minha opinião. E nada mais posso dizer do que desconheço, não posso garantir e no entanto creio com mais fé que em Deus. Ainda que em vão, eu amo até prova em contrário.

Powered by Movable Type 4.1

Sobre este arquivo

Esta página é um arquivo de posts na Textos antigos (Christiana) categoria August 2004.

Textos antigos (Christiana): July 2004 é o arquivo anterior.

Textos antigos (Christiana): September 2004 é o próximo arquivo.

Encontre conteúdo recente na página incial or look in the archives to find all content.