Não sei se eu sou uma crédula, porque toda vez penso eu sinto que é ele, vamos lá!, ou se sou uma cínica, porque toda vez eu chego lá e penso hum sei não e começa a saraivada de críticas pra no final constatar, como sempre: é, ainda não foi dessa vez.
Não estou falando do príncipe encantado, não hoje. Estou falando do Mestre. O gafanhoto tinha, o karatê kid também, até o Paulo Coelho arrumou um antes mesmo de ficar rico. Então eu estou sempre de olho, pra que não me ocorra, por distração, de cruzar seu caminho e não reconhecer. Claro que todo mundo tem o que me ensinar, eu já aprendi mais com minha tartaruga sobre sobrevivência às intempéries do que com todos os meus livros de psicologia. Mas eu falo de uma relação formal mestre-discípulo, uma iniciação personalizada que me fizesse ascender a um estado búdico.
Esse cara último, eu conheci (entenda-se por conhecer: saber da existência) quando tinha 15 anos, e isso faz tempo. Minha prima mais velha, ídola absoluta vinte-e-poucos anos, linda, hippie-chic, sexy, inteligente e cantora foi à China (!) e voltou cheia de novidades. Trouxe pra mim um caderninho vermelho de encadernação brocada que tenho até hoje e, pra minha mãe, um exemplar (traduzido para o português, evidentemente) do I Ching O Livro das Mutações. Era um livro a quem se podia fazer perguntas! Eu tinha quinze anos e um milhão de perguntas por segundo. Mal deixei minha mãe chegar perto, carreguei-o para o quarto, onde o mantenho até hoje, sempre ao lado da minha cabeceira (claro que, de uns anos pra cá, tenho meu próprio exemplar e devolvi o bagaço do outro à biblioteca da família). Destrinchei seus mecanismos oraculares e passei a me divertir com as respostas bizarras e poéticas. Com o tempo, aquelas imagens passaram a fazer sentido, não muito, mas davam um sem-sentido poético às coisas bizarras que eu vivia. Tem sido assim há 20 anos; eu e o velho nos entendemos bem. Ele às vezes mente pra mim, e eu perdôo. Eu encho o saco dele com as mesmas perguntas, e ele responde (quase)sempre com uma paciência chinesa, até que eu entenda ou desista de perguntar.
Mas eu queria alguém de carne e osso. Podia ser uma mulher, uma velhota, uma criança, qualquer interlocutor mais animado que um livro. Desde que fosse sábio, modesto e interessante como este surrado volume sabe ser.
E quem melhor do que o próprio autor do livro? Não do antigo oráculo do I Ching, esse já virou lenda há uns bons três mil anos. Assim como já viraram pó o Rei Wen, o Duque de Chou, Confúcio, Richard Wilhelm, Carl G. Jung e tantos outros elos que ligam minha leitura atual à China remota; são mestres-de-papel, não podem bater com um bastão na minha cabeça.
Mas a ponta de cá desta corrente, o primeiro tradutor do I Ching para o português (a partir da versão alemã, prefaciada por Jung), o circunscritamente, mas ainda assim famoso prof. Gustavo A. C. Pinto que foi professor da minha tal prima naquela época, e foi inclusive seu cicerone naquela viagem à China este está vivo, e ainda surpreendentemente jovem. E nos últimos anos, ainda por cima, sagrou-se monge budista! E veio ao Rio, após um retiro de 20 anos, para um ciclo de palestras!! Logo ali no Leblon, e a entrada era razoavelmente barata!!!
Dá ou não dá pra se empolgar? Eu fui pra lá, amarradona. Cheguei em cima da hora e consegui um improvável lugar na primeira fila. O universo conspira, eu pensei. O mal das expectativas.
Tá, o cara é legal, um coroa bonito, inclusive. Careca reluzente como a de um Buda de louça, fala mansa, um pouco demais da conta, e monocórdica (me lembrou o papa), com um estranho sotaque lusitano, visto que ele dizia ter nascido no Rio, se formado no Japão e vivido em São Paulo nos últimos anos.
Falou que nunca somos os mesmos, nada permanece.
Falou de Karma, Dharma, e do ciclo vicioso da violência:
ignorância =>desejos=>ira=>ignorância=>desejos
Isso eu achei a melhor parte. A saída desse circuito? O desapego. Tudo muito bacana, mas tenho que confessar que eu já sabia.
Claro que nunca é demais lembrar mas, de alguma forma, eu esperava algo além. Um insight, um novo enfoque ou, no mínimo, uma pessoa mais surpreendente que me fizesse rir, ou me levasse às lágrimas. E olha que, pra rir ou chorar, eu sou facinha.
E tinha um negócio dele não querer falar eu pra não cair na armadilha do ego. Então, toda hora ele falava do garoto que um dia atendeu pelo nome pelo qual hoje me chamam, ou o adolescente de quem ele se recorda e que atendia pelo nome pelo qual ele hoje atende. Ou esse cara tem um homônimo que ele cita um bocado, ou me parece que ele falou de si basicamente o tempo todo, nas reminiscências que traziam àquele garoto que um dia( ), as ruas, hoje tão diferentes ele queria sublinhar a impermanência, eu sei, eu entendi daquelas da cidade que se chamava São Sebastião do Rio de Janeiro quando aquele garoto ( ) aqui vivia.
Sei lá, aquele preciosismo eufemístico me deu sono. Pode ser que ele seja um mestre no método sleep-learning de iluminação acelerada, mas fico mais com a sensação de que me enganei no caminho, que aquela pantomima toda é um (mau) disfarce pra uma pseudo-modesta egotrip. E o pior é que ele nem falou do I Ching. Parece que ele agora mudou; o professor que um dia atendeu pelo seu nome não existe mais. Pôxa.
Pelo menos meu livro permanece à cabeceira.
Volto ao prefácio do prof. Gustavo Pinto. Começa assim:
O que hoje conhecemos com o nome de I Ching (Xi, há 20 anos o cara já era igualzinho!)
Deixa o prefácio pra lá e vamos às mutações propriamente ditas.
Começam assim:
O Criativo promove sublime sucesso, favorecendo através da perseverança.
( ) O movimento do céu é poderoso.
Assim o homem superior torna-se forte e incansável.
Não sei bem o que significa, mas gosto da simplicidade dos hexagramas, dos ideogramas intrincados que os traduzem, das palavras a que inexatamente correspondem, das imagens que evocam. Tô com meu chinês e não abro, ele é poético até quando mente.
Enquanto tiver forças, eu persevero no movimento, mesmo sem saber se o tal sucesso vem um dia, e se é de fato sublime.
Fico com meu velho livrinho, imutável entre as mutações. Melhor do que virar monja e começar a falar esquisito.
