Textos antigos (Christiana): September 2004 Archives

Fotofobia

| | Commentários (26)

femme picasso.jpg

A fotografia tem o condão de resumir, num flash, todos os meus defeitos, e ocultar todas as minhas qualidades. Por isso é que eu raramente exponho minha imagem à lente dos paparazzi.
Você deve estar achando que eu sou uma monstra, mas na verdade eu não sou tão feia assim. Ainda não pareço muito velha, mantenho meu corpitcho em boas condições à base de caminhadas e até alguma musculação, e a cara que me coube ostentar, se não é nenhuma obra de arte, também não envergonha a família. Tudo bem que um dos meus dentes da frente cruza a perna sobre o outro, mas não parece tão grave, tem até gente (pouca) que acha charmoso. E eu dei um jeito de bagunçar o coreto um pouco mais, quebrando meu (até então) perfeito nariz, orgulho da mamãe. Ele ficou parecido com o que era antes, só ganhou um calinho ósseo onde outrora arrebitava e saiu ligeiramente do prumo, acentuando minha inata assimetria. Mas eu juro que não assusto criancinha. Andando, falando e me movimentando, tenho conseguido sobreviver no mundo das aparências. Não podendo competir por luxo, a gente ganha por originalidade.
Agora, quando minha figura é capturada por uma câmera, acontecem várias coisas estranhas, com as quais não consigo me acostumar. Em primeiro lugar, fico muda, o que, convenhamos, já tira boa parte do meu charme. Em segundo lugar, os ângulos retos da moldura ressaltam as discrepâncias e fazem meu retrato parecer um Picasso. O dente de perna cruzada sempre brilha mais que os outros, e ainda aparecem malignos pontos vermelhos no fundo de meus olhos. Isso quando eles estão abertos, porque eu sou campeã em fechar o olho na hora do xis. Se, por descuido da caminhada, eu tiver acumulado um mínimo pneu na cintura, ele estará lá, se exibindo na calibragem máxima – está cientificamente comprovado que câmeras engordam cinco quilos, no mínimo!
Enfim , fotografias são um balde de água-fria na minha auto-estima. Não gosto e pronto. Lembrem de mim pelo que sou, quem me vê ao vivo me conhece, quem não conhece terá que imaginar. Este ano, por exemplo, só tirei umas 4 ou 5 fotos, mas 3 foram vetadas pelo controle de qualidade. Em duas eu fechei os olhos. Na outra, eu tinha acabado de enfiar um sushi – dos grandes – na boca (este gentil e oportuno fotógrafo chama-se MEU PAI!). Sobrou uma, tirada por um amigo querido, em que exibo uma postura péssima e que de modo algum me agrada mas que salvei por via das dúvidas e, na falta de outra melhor, a tenho usado, a contragosto, cada vez que preciso comprovar minha existência material.
Tais são minhas agruras fotográficas. A baixa fotogenia foi uma das razões para eu desistir – para o bem de todo o público – de minha carreira de atriz. Foi também o que livrou meus amigos de assistirem vídeos do meu casamento. As poucas fotos que eu permiti foram preto-e-brancas e ficaram bonitas, parecem antigas e tudo, mas não olho nunca, me acho meio ridícula. Mesmo fotos da infância me incomodam um pouco – gosto de ver as dos outros, não as minhas. Enfim, não gosto de ficar me olhando em 2-d, congelada no passado, rígida e sem perspectiva, chapada num papel ou numa tela. Prefiro olhar pro futuro.
Estranho, né? Hoje em dia, todo mundo adora sair na foto, aparecer na televisão. Eu, não. Ao vivo não sou propriamente tímida, mas fico envergonhada com a minha imagem solta de mim por aí, nunca sei como ela vai se comportar. Sou que nem índio, índio também não gosta de fotografia, diz que aprisiona a alma.
Sou assim meio selvagem mesmo, arredia aos enquadramentos contemporâneos. Prefiro ser vista por olhos nus, porque eles são esferas e andam aos pares, portanto sabem ver minhas luzes na profundidade de suas dimensões.

Da série “novas diretrizes em tempos bicudos”:

| | Commentários (0)

Pirate Face2.jpg

Sou pirata até que a maré mude.


Eu tinha pruridos de comprar cd pirata. Mas com o mau estado atual da minha conta bancária, resolvi proceder uma pequena distribuição de renda, uma reforma agrária no campo da minha própria pessoa. Ou seja: Diante da mendicância musical em que a dureza estava me confinando, resolvi aderir à pirataria sem culpa, salvando apenas aqueles artistas que sejam mais pobres do que eu ( acho que nesse grupo só ficaram o Daminhão Experiença e uns poucos malucos meus amigos, aos quais já encomendei meus originais autografados). Eu tenho certeza que não estou tirando leitinho da boca do bebê da Maria Rita, e também aposto que o Caetano Veloso não vai ter que vender a cobertura da Vieira Souto por causa disso. Ah, e o dono da EMI, tadinho? Será que vai ficar pendurado na prestação do avião?
O pirateiro meu amigo é um carinha bacana, ralador, tá se virando como pode. Faz um trabalho limpinho, som perfeito, põe capinha colorida, transporta, vende, foge do rapa e ainda consegue cobrar míseros R$ 5,00 por um produto muito similar ao original, que não sai por menos de 30. Pô, tem alguém ganhando muito nisso, e não é a cultura.
A indústria fonográfica que se coce pra praticar preços competitivos. Se o original custasse R$ 7,00, eu pagava, mesmo sendo um pouco mais caro, pelo prazer de remunerar o artista, e pelo luxo de um encarte com as letras. Quase ninguém faz xerox de livro hoje em dia, porque sai quase o mesmo preço e fica feio. Então é sinal de que as editoras correm mais atrás de seu prejuízo. Mas convenhamos que, na música, a diferença é gritante. E olha que a indústria compra matéria-prima no atacado, prensa em série e nem paga tão bem assim os músicos e técnicos. Tem pirata grande aí nessa rede, tubarão branco comendo nosso tutu.
Então agora eu sou a Robin Hood dos trópicos, uma desobediente civil na legítima defesa da musicalidade nacional: contra os preços abusivos, pirataria já!
A minha vida e a do meu pirateiro vão cada vez melhor, quem canta seus 7 mares espanta.

Sugar blues

| | Commentários (0)

chorando.jpg

Estava eu em meu contemplativo sábado sem criança em casa, quando fui subitamente transportada por um vagalhão de decibéis diretamente para dentro de uma festinha infantil na vizinhança. É bem verdade que mal se ouviam os moleques, subjugados em sua natural algazarra pelos superpoderes de um amplificador turbinado. O (des)animador comandava a tropa com punhos de aço, propagando a todo o bairro os nominhos dos insubmissos em reprimendas, enquanto premiava os obedientes com balinhas. Como golfinhos de aquário quando batem palmas na hora certa. E tome música aos berros pra que não possam escutar nem seus pequenos pensamentos. Com tanto refrigerante nas veias, as crianças ficam mesmo excitadas e executam com impressionante agilidade as estranhas coreografias ao som de “vai, lacraia”(!), sem falar nas sado-olimpíadas a que são submetidas para ganhar mais doses de pirulitos e porcarias plásticas. (Sempre penso que daqui a milhões de anos, quando algum cyber-arqueólogo desencavar nossa estranha civilização, nossa sociedade será analisada através destes indegradáveis brinquedinhos que infestam os quartos infantis de todo o mundo. Como todo achado arqueológico inexplicável é sempre classificado como “um objeto ritualístico”, que espécie de impressão havemos de causar, com nosso panteão pokemônico?) Mas voltando às criancinhas glicosadas. Ainda que involutariamente, acompanho enquanto cumprem seu deprimente roteiro e, em momento estratégico – pouco antes do fim – são levadas à overdose glicêmica com o bolo e os docinhos. Nocaute. É o ciclo de todas as drogas: prazer crescente, pico do efeito mas, se exagerar, vem o tombo. Aí é o inferno, e temos a famosa depressão-pós (com trocadilho). Quem já foi, sabe como terminam as festas infantis. As crianças ficam chatas, sentem sono, se engalfinham, um que ainda não caiu duro corre demais e se machuca, bolas estouram assustando os menorzinhos, que choram muito. Hora de acabar. Os drogadictos-mirins são carregados nos ombros por pais tolerantes. Coniventes, porque também encheram a cara de brigadeiro.
Graças a Deus já acabou a festinha, mas ainda estou meio surda. Vou lá na cozinha comer um tasco de pudim, que de amarga é que eu não morro.

Sincronicidade

| | Commentários (0)

Eu acredito em Sincronicidade. É uma teoria do Jung (Carl G. Jung, psiquiatra suíço, 1875 – 1961) que sugere que todos os eventos que acontecem em um mesmo tempo estão interligados, ou seja, existe uma ordem oculta no caos que não pode ser inteiramente apreendida mas que está contida por completo em cada menor parte do todo. Como um código genético do momento, presente em cada diferente célula. Então, quem tem olhos de ver pode enxergar ou, ao menos, ter um vislumbre do todo em cada evento isolado.

A sincronicidade é, na minha opinião, o melhor fundamento para a eficácia dos oráculos: são células do organismo em que a expressão do código genético é mais acessível, porque já foi mapeada e descrita pelo projeto genoma da experiência humana – os sistemas simbólicos.

Mas na verdade me parece que a vida é o grande oráculo, a ordem dos fatos, a escrita do dia-a-dia. Os nunca-por-acasos. Os encontros, ou não. Às vezes os silêncios também podem ser muito eloqüentes.

Eu tenho essa mania de ler a vida, ver em tudo um significado. Em Psicologia isso se chama “pensamento mágico” e é um sintoma patológico presente nos obsessivos, nos paranóicos e nos esquizofrênicos. Ainda não decidi o meu diagnóstico. Enquanto isso, minha camisa-de-força virou estopa e eu ando por aí à solta, dando um sentido íntimo às nuvens do céu, às palavras entreouvidas a esmo, à soma dos números das placas e dos bilhetes, à disposição das marias-sem-vergonha no canteiro do jardim.

Com pensamento mágico, a minha vida fica mais divertida. A vida não é um jogo – um “role-playing game”? Deus não joga dados? Ah, a ciência diz que não.
Mas esse Einstein tem mais cara de maluco do que eu.

Powered by Movable Type 4.1

Sobre este arquivo

Esta página é um arquivo de posts na Textos antigos (Christiana) categoria September 2004.

Textos antigos (Christiana): August 2004 é o arquivo anterior.

Textos antigos (Christiana): October 2004 é o próximo arquivo.

Encontre conteúdo recente na página incial or look in the archives to find all content.