Hoje é o aniversário de 47 anos do meu irmão mais velho. Mas essa noite não tem parabéns aqui em casa, porque ele morreu há 12 anos. Tanto tempo que também não tem missa, e ninguém lembra mais de dar os pêsames, o que, aliás, não faz a menor falta. Quem faz falta é ele, o meu irmão. Que morreu com a idade que eu tenho hoje, até menos, um pouco. Portanto eu envelheço aos pouquinhos ao passo que ele não, ele fica jovem pra sempre.
Mas vai desaparecendo. Das nossas vidas, das conversas. Seus amigos, ficando coroas, muitos já avós, talvez nem lembrem que hoje é seu aniversário. E olha que, em seus tempos vivos, ele era muito popular. Bonito (ele era realmente lindo, mas é que pega mal eu falar), extremamente inteligente e sobretudo a pessoa mais engraçada que já encarnou até hoje. Sério, ele era muito hilário, de passar mal. Tinha histórias incríveis, ou as tornava incríveis com seu modo especialíssimo de contar, o que torna frustrante qualquer tentativa de reproduzí-las. Formavam-se rodas à sua volta, onde quer que estivesse. Animava qualquer ambiente, o que lhe garantiu trânsito livre nas festas mais espetaculares do Rio de Janeiro, e também de Paris ou da Riviera Italiana. Melhor que ir a essas festas, só ouvir seus relatos.
Mas os mortos não são populares em nenhum lugar do mundo, simplesmente porque lembram a morte. Ele não é mais convidado para festas, nem mesmo em espírito, e já deve ter um belo contador de piadas circulando no jet-set internacional, em seu lugar. Assim é a vida; assim é a morte.
Perdão se toco, uma vez mais, neste desagradável assunto. É que está chovendo, portanto eu não pude realizar o pequeno ritual que meu irmão me ensinou num sonho. Ele tomou uma pílula que lhe deu algum tempinho de vida e assim pôde vir numa festa aqui em casa. Eu fiquei muito feliz em vê-lo, claro, e nos abraçamos (foi tudo MUITO real), mas eu estava aflita porque sabia que aquele efeito da tal pílula era passageiro e ele iria embora novamente, então perguntei como poderíamos nos comunicar.
Ele disse que tinha 3 maneiras de falar com ele mas, sabe como são os sonhos, só deu tempo de me contar uma delas: eu poderia colocar bilhetinhos em balões de gás.
Desde então, nos dias de seus aniversários de nascimento ou de morte, sempre que posso eu solto 3 balões, onde amarro bilhetinhos falando de nossas saudades e contando as boas novas como o nascimento de meu filho, que ele não chegou a conhecer mas que conhece muito bem o Tio Belben, porque eu contei pra ele desde pequenininho sobre esse tio lá do céu. E ele sempre adorou soltar os balões e ficar vendo eles sumirem lá no infinito.
Mesmo com chuva e sem balões coloridos, vou escrevendo a meu modo este bilhetinho aqui, pra que ele saiba que eu não esqueci e que, enquanto eu estiver no mundo, ele não vai desaparecer totalmente.
Quem sabe essa não é uma das duas outras maneiras que não deu tempo dele falar?
Qual será a terceira? Ai, eu sou tão curiosa, essa questão me intriga há anos
O Belben sempre foi muito sacana, deve estar rolando de rir da minha cara lá do outro lado!
Vai ver é isso, é só dar uma boa gargalhada, daquelas de lavar a alma.
Taí, bingo.




