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A Teoria da Sistemática do Acaso

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Há alguns anos, levada por circunstâncias meramente fortuitas e nada intencionais, passei um período na Floresta Amazônica com um pajé de uma tribo extinta e fiz com ele o que chamaríamos aqui na cidade de uma "iniciação xamânica". Lá, eles não dão este ridículo nome pomposo. Quem sabe alguma coisa ensina o que sabe, apenas porque o conhecimento deve ser preservado e transmitido para as novas gerações. Isto é feito com simplicidade. Bebíamos ayahuasca - um chá sagrado para os índios, que altera os estados normais de consciência - e acabei escrevendo um livro sobre as transformações que sofremos quando modificamos a percepção habitual que temos do mundo. Ser é possuir um ângulo peculiar de ver.

Na semana passada, recebi um e-mail da Austrália, de alguém que tinha acabado de ler o meu livro, queria discutir algumas passagens e me mandava um link de matéria que relacionava o uso da ayahuasca com a cura do câncer. Eu não conhecia esta propriedade do chá indígena.

Um livro - como um filho - exibe a autoria, ainda que tente escondê-la. Todo o livro tem a cara do autor, assim como estamos estampados nos filhos, nem poderia ser diferente. Algumas pessoas nos chegam ou se afastam de nós através dos livros que escrevemos, como através dos filhos que temos. E são curiosos os amigos e as questões que filhos e livros que criamos podem nos trazer.

O câncer ainda é uma doença misteriosa. Não é hereditária, não é contagiosa, não sabemos como evitá-la nem de que maneira ela pode nos atingir. Conhecemos doentes que morreram e outros que estão aí muito bem, vivinhos da silva. Mas um diagnóstico de câncer transforma uma vida - ou acaba com ela ou obriga a mudanças radicais.

Tempos atrás, o marido de uma conhecida caiu morto quando dava a sua corrida matinal na praia de Copacabana. Enfarte fulminante. Como morreu na rua, teve que ser autopsiado no IML. Lá, descobriram que tinha câncer e estava cheio de metástases. Na verdade, era uma metástase ambulante. Mas, como nunca soube o que tinha, levava vida normal, trabalhava, corria todos os dias e era chegado a futebol e chope com os amigos no fim-de-semana. Acabou morrendo de enfarte. A não-consciência da doença ou a suposta consciência da saúde teriam alguma coisa a ver com isso?

Não sei.

Acredito que somos o que achamos que somos e, se mudarmos o que achamos que somos, nos mudaremos. É uma possibilidade. Mas também é possível que sejamos seres inapelavelmente predestinados e sem nenhum arbítrio sobre o destino.

Fiquei pensando no e-mail do novo amigo australiano. A ayahuasca é uma bebida sagrada para os povos da floresta. Por lá, dizem que sua tradição remonta aos incas. Nunca investiguei esta crença nem me interesso por sua origem, me interesso - e muito - por estados alterados de consciência, daí meu interesse por religiões. Tive uma experiência pessoal com este chá, dito alucinógeno. Bebi ayahuasca pelo espaço de uma lua com um velho índio e minha vida mudou porque passei a ter uma percepção diferente de mim e do mundo. É o que eu acho.

Mas... pode ser que eu tenha mudado porque o chá - que se acredita introduzir novos estados de consciência - na verdade cura o câncer. E, se eu fui curada de um câncer que nunca soube que tinha, seria razoável que a minha vida mudasse para melhor e este papo de que consciência alterada altera a vida seja mesmo (e só) um papo Nova Era. A consciência não tem poder nenhum e todo o poder está com o câncer.

Há anos desenvolvo uma teoria, entre muitas, para explicar a vida, que cada vez mais me foge às explicações: a teoria da sistemática do acaso. De acordo com esta teoria, o mais improvável é o que sempre acontece. O lógico, o razoável, o desfecho que não pode ser atribuído a uma enorme coincidência é ficção: faz parte da boa literatura.
A vida, mesma, é literatura de péssima qualidade, recheada de acasos cavilosos. O que acontece na vida desmoralizaria qualquer autor.


Mas... o e-mail do amigo australiano me fez duvidar da teoria da sistemática do acaso. Talvez tudo seja lógico, sim; racional; mensurável em laboratório. A transformação que a ayahuasca nos traz é a cura do câncer: que interferia nas nossas atitudes - já que tudo é físico -, ainda que não soubéssemos que estávamos seriamente doentes.

Estou fazendo força para achar também milagroso. Está difícil. Mas o que não admito é abrir mão do milagre cotidiano. Devo elaborar uma nova teoria, pelos próximos dias.

O vício é uma droga

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Se o Marcelo Anthony (é assim que se escreve, como Garotinho?) quer fumar maconha, isto é problema dele. Se fuma maconha aditivada, toma Magnésia Bisurada ou Atalaia Jurubeba, vai à missa aos domingos ou à casa da Mãe Joana - eu não tenho nada com isso. Com aquela calva incipiente, posso apostar que ele é maior de idade. Logo, a vida dele é assunto dele; não meu.
Mas, se o Dudu do Vidigal invadir a Rocinha e mocinho e bandido trocarem tiros no meio de gente que não escolheu participar deste filme, aí, já é um problema meu e da população do Rio de Janeiro.
Na verdade, não sei qual é o interesse das autoridades em ampliar o leque de proibições para em seguida negociar as exceções. Ou melhor, sei. E todos sabemos.
Um dos contundentes argumentos "atuais" contra a legalização das drogas é que os traficantes desempregados - até conseguirem outra atividade tão lucrativa - desceriam o morro e não haveria polícia para dar conta de tanto assalto.
Não creio que o desemprego dos "marginais da droga" preocupe tanto às autoridades. Parece que os que estão no "centro da droga" inspiram mais delicadeza do que a periferia.
Se a droga movimenta um dinheiro fabuloso no mundo inteiro, podemos admitir que parte significativa da população mundial se droga e não apenas o Marcelo Anthony - que deu mole e dançou; o Prof. Fernando Henrique Cardoso - que apenas experimentou; e o presidente Clinton - que provou mas não tragou.
Talvez outros atores, professores, presidentes; espectadores, alunos e eleitores consumam drogas ilegais. Se alguém quer comprar, alguém vai dar um jeito de vender; se alguém vende, algum incauto vai comprar. Não tem jeito. O único jeito é liberar e transformar este problema coletivo num problema individual. Quem sabe, começando por permitir a plantação doméstica da maconha (sugestão aos legisladores)?
Droga é uma droga? Claro que é. Mas ninguém conhece ao certo os mecanismos da drogadição. Nem os meandros da autodestruição. Difícil, falar de drogas e drogados.
Conheço um cocainômano radical que está um farrapo, apesar de ser jovem. Também conheci um alcoólatra de verdade. Este, morreu de beber; foi expulso da Aeronáutica quando ainda era tenente; infernizou a vida da família e com quarenta e poucos anos parecia um velho esclerosado, não conseguia dar dois passos.
Conheço também porristas notórios, que ficam uns chatos na segunda dose, dão trabalho aos amigos que os levam para casa, envergonham os filhos e vomitam em público. Disgusting. Mas, vão levando.
O resto dos consumidores de álcool - e o resto é muita gente, conto nos dedos os abstêmios convictos que conheço - acaba "administrando sua relação" com a bebida. E, apesar de um aumento preocupante do consumo entre os jovens, ninguém pensa hoje numa "lei seca", que jogue na marginalidade um país inteiro. Elevando à categoria de pecado social o chopinho de fim-de-semana, o champagne dos brindes e o vinho da missa.
No entanto, o álcool é droga pesada.
Leis existem, em princípio, para defender a integridade e os direitos do cidadão. Mas, se formos pensar em proibir tudo que possa causar vício, sofrimento ou morte, pouco restaria de permitido.
Conheci três suicidas, todas mulheres, que se mataram por amor. Deveriam proibir o amor às mulheres? Conheço obesos infartados que comem chocolate contrabandeado mesmo dentro do hospital. Deveriam fechar a Nestlé? Conheço zumbis irrecuperáveis que passam suas vidas diante da televisão. Deveriam cassar a concessão da Globo? Alguém conhece alguém que não se destrua em alguma medida?
Cocaína, maconha e ecstasy - as principais drogas comercializadas pelos traficantes - alteram, sim, o estado normal de consciência. Se esta alteração levar o usuário a matar e família e ir ao cinema, puna-se o crime cometido e não o uso da droga que o provocou.
O crime é um problema social. O uso da droga, um problema individual.
Moro no Rio e vivo hoje numa cidade absurdamente perigosa. Se uma bala perdida me acertar, será uma injustiça porque não tenho arma. Escolhi viver na legalidade e não me envolver nem com polícia nem com bandido. Não quero atuar neste filme, os roteiros que me atraíram foram outros.
Não fumo maconha, não cheiro pó e não tomo ecstasy. Das drogas permitidas, sou franciscana com álcool e televisão, uso muito pouco e não gosto de açúcar. Lexotan, tomei uma vez na vida e dormi 48 horas. Achei bom mas não dá para viciar - é um nojo ficar dois dias sem tomar banho.
Porém...
Consumo enlouquecidamente um determinado produto cancerígeno da Souza Cruz. E, se um dia o considerarem ilegal, eu, certamente, vou marcar encontro na esquina com o traficante ou mesmo subir o morro atrás dele, apesar de ser cidadã respeitável. Usá-lo é um direito meu e ninguém me convence do contrário.
Sendo assim, qual é a sutil diferença entre mim e o Marcelo Anthony?

Jogo de Damas

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Inventamos desculpas rápidas que nos absolvem quando erramos na profissão, no casamento, no voto, e não encontramos perdão para os desacertos com os filhos. É que criá-los leva muito tempo. E não os criamos com o que fazemos - nossos gestos ensaiados para representar uma boa mãe (ou um bom pai) se perdem no longo cotidiano. Marcamos os filhos apenas com o que somos. O que é lamentável, já que podemos pensar em substituir atitudes erradas por outras, mais eficientes, mas continuamos a ser quem somos; para o bem ou mal dos nossos filhos.
Na semana passada, uma das minhas filhas - a do meio - escreveu neste sítio sobre a sua mãe. Passei a semana remoendo os laços tão estranhos que nos ligam às nossas crias.
Pensei em escrever uma Carta à Filha, não kafkiana, em resposta à coluna do Dia das Mães. Mas preferi transcrever o capítulo de um livro.
Anos atrás, escrevi um livro com uma filha, essa, a do meio.
Sinopse: "separadas por alguns meses, porque a mãe dava um curso em outra cidade, mãe e filha adolescente trocam e-mails enquanto jogam, por correspondência, uma partida de xadrez".
Cada uma de nós escrevia um capítulo (uma carta), dava um lance da partida, e a outra deveria responder, compondo o livro.
Aqueles meses foram um pega pra capar, era ficção e não era, botamos nossa história em dia.
Como só a Christiana tinha Internet - sou relutante às modernidades - nossos textos eram levados de uma casa à outra pela faxineira comum, ou seja, mensageiro, a mais antiga modalidade da comunicação. Anterior ao correio. Estávamos, mesmo, mexendo em coisas muito velhas.
Em resposta à coluna da Christiana, um pedaço do Jogo de Damas. Que ela conhece bem porque o escrevemos juntas. Revide de mãe, é claro. E pedido de desculpas, pois sou apenas quem sou.
"... No Jardim de Infância você era a "repetidora", o que causou alguns problemas. Uma vez a psicóloga mandou me chamar, a escola estava preocupada com a nossa estrutura familiar.
Nessa época você não dormia sem que alguém contasse uma historinha e seu pai não tinha memória para lembrar nem imaginação para inventar, me ligava aflito, quando você passava o fim-de-semana com ele, perguntando o que é que tinha acontecido mesmo com a madrasta e as irmãs da Cinderela, e você de olho aceso na cama, esperando pelo final.
Depois de esgotar João e Maria, Chapeuzinho Vermelho e o Gato de Botas, seu pai passou a desfiar histórias bíblicas (era mais fácil para ele mas você só tinha 4 anos!). Um dia tropeçou numa ponta solta de carpete, quase se esborrachou no chão, você caiu na gargalhada e a instrutiva história daquela noite foi a das filhas de Noé, que "mesmo vendo o pai nu e bêbado não riram dele, como os outros filhos, e ainda lhe deram uma manta para se cobrir".
Não deu outra. No dia seguinte, na "rodinha das novidades", você contou para a professora que nunca ria do seu pai quando ele chegava em casa nu e bêbado.
A psicóloga queria que você fizesse terapia para filhos de alcoólatras. Por mais que eu afirmasse que seu pai era abstêmio, não acreditaram. Eu dava detalhes: quando saíamos ele pedia milk-shake, eu é que pedia chope, e os garçons sempre colocavam o leite na minha frente e o álcool na frente dele. Podia ter muitos defeitos, até tinha, mas não esse - só bebia leite, o que para mim era um defeito, como continuar casada com alguém que come feijoada com milk-shake?
Aos 6 anos você era "líder", gostava de espinafre e esmurrava os garotos da turma.
Aos 9 era "Maria-vai-com-as-outras" e telefonava mil vezes para Silvana, Fabiana e Luciana para saber com que roupa iam para o colégio, qual a cor do elástico do cabelo, se devia usar brinco ou não, tudo tinha que ser igual, os cadernos, a agenda, o tênis, a calcinha. Eu não acertava nunca e você chorava a cada presente que eu lhe dava, "não posso usar, ninguém tem uma mochila igual a essa".
Aos 10 era "protetora de animais", usava a camiseta da associação e trazia para casa gatos e cachorros abandonados, hamsters e tartarugas maltratados no play-ground, fora filhotes de aranha e "abelhinhas perdidas da colméia". A casa fedia, por mais que eu mandasse a Nilza passar desinfetante de eucalipto no chão todos os dias.
Aos 11 você salvava os mendigos da porta do colégio e limpava a geladeira. Junto com a carne assada, o arroz e o feijão, ia o meu frango do regime e o iogurte dietético. Da casa do seu pai levava meias, cuecas, suéteres e, uma vez, duas gravatas italianas. Neste dia ele ligou muito bravo, nem te chamei, e, se pudesse, se divorciava de mim pela segunda vez.
Foi uma longa noite de debates, quando você quis trazer o mendigo que cheirava éter para morar conosco: "tão bem-educado, mãe, tem até o segundo grau, ficou assim depois que a mulher morreu". Eu votava contra, você a favor; e o nosso democrático plebiscito sempre terminava empatado. Até que eu tive que instaurar a ditadura.
Quando fez 13 anos você entrou para uma academia de ginástica, queria malhar para ser surfista. Aos 13 anos e 2 meses abandonou a academia, deu as malhas para a filha do porteiro e foi fazer meditação zen. Aos 14 começou a fazer teatro, aos 15 continuou... o teatro está durando.
Não pára não ... continua sendo Desdêmona, Miranda, Julieta... eu reclamo porque sou sua mãe e mãe sempre reclama, bolas, mas eu gosto. Gosto dessa bagunça em casa, do entra e sai, das minhas roupas divididas com o elenco e do meu batom que acaba numa tarde. Vou continuar reclamando e aplaudindo, sentada na primeira fila e dizendo para quem está do lado: - Está vendo aquela bonitinha, com laço verde nas tranças, vestida de Julieta? É a minha filha.
Gosto do seu jeito e do seu grupo, dos que fazem manifesto, teatro, às vezes são reprovados, tomam porres, enfrentam os padres. Podem não ser os filhos mais fáceis mas são os que fazem mal principalmente a si mesmos e não aos outros.
Vocês, como o resto do mundo, tentam equilibrar todos os dias o que têm para dar e o que esperam receber. Alguns, a maioria, correm atrás do que é bom para si, ainda que seja péssimo para os outros: são os competitivos, os que arrasam o adversário, os que se dão bem a qualquer preço. Estes talvez causem menos inquietação aos próprios pais - são os vencedores.
Seu grupo não se preocupa em se dar bem mas se ocupa em dar alguma coisa de bom, não lucra nada com isso mas tem um enorme prazer em fazer as suas peças, compor as suas músicas, escrever sua poesia - são os indispensáveis.
Tento botar seu pé no chão, às vezes tenho medo que você saia voando, caia lá de cima e se esborrache. Mas detestaria ter uma filha que vivesse só na terra, atolada no bom-senso.
Não fique triste, o sonho não acabou, é só o ano que está acabando. E no ano que vem você encontra amigos novos, a gente sempre atrai o semelhante. E vão invadir a casa de novo, e depenar o meu armário,
eu vou reclamar e vai ser de mentirinha, e você vai crescer parecida com a filha que eu sempre quis ter.
Hoje de manhã, enquanto guardava roupas e jogava papéis fora, pensei no que iria pedir quando o avião levantasse vôo, porque procuro sempre um lugar mais alto para rezar, no final do ano, nem que seja subindo numa cadeira, já que tenho a certeza de que Deus nos vê e nos ouve mas não habita entre nós, nesse mundinho podre, paira lá por cima. Como nem tenho uma religião mas me entendo com Ele e procuro seguir Seus mandamentos, queria aproveitar as alturas e fazer alguns pedidos, como todo filho faz.
Batalhar, sofrer, chorar, ter medos grandes, pequenas alegrias e nunca possuir a certeza de como será o dia de amanhã, é parte da realidade de quem está vivo, já me acostumei e nem peço para nós destino diferente - tenho pedido luz para te criar direito. Mas pensava num pedido único, definitivo, que resumisse o que realmente é importante, valesse para os próximos anos, até o fim da minha vida, e garantisse a minha felicidade.
Não consegui pensar nada de novo, só me ocorreu a reza de sempre, filha, o que peço a Deus todas as noites, desde o dia em que você nasceu: Ele pode me tirar tudo, eu vou esbravejar mas agüento, só não me leve você. E que a gente siga... com carinho, com raiva, com crises, com acertos e arrependimentos... MAS JUNTAS! Porque eu gostaria de ficar perto de você numa vida nova e em todas as outras vidas, se fosse possível.
Acho que amor é isso.
Mãe"

Estuprada por um Orangotango

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Além de verbete de enciclopédia, IAL é homem voltado para as coisas do espírito e observa filosoficamente o mundo enquanto acende o seu cachimbo Dunhill, operação demoradíssima e sempre executada com longos fósforos, jamais com isqueiros.
Amante da literatura, divide as épocas pelos gênios que engendraram; nunca menciona o século XIV, diz: na época de Bocaccio. O XIII é de Dante. O século XX pertence a Borges. E preocupa-se bastante com os caminhos literários que estão ameaçando o século XXI, estes tempos de Eros e Tânatos, como designa o presente, já que ainda não leu e talvez não leia nunca - o que lamenta bastante - o escritor que nomeará o século. Mas procura adivinhar para onde irão as letras quando já não estiver mais aqui. Falava-me sobre este rumo incerto, enquanto escolhia a entrada.
IAL é naturalmente refinado e pede um sauternes com pâté du Périgord. Não me reprova quando digo que vou continuar no uísque mas atentamente pergunta se eu gostaria, então, de alguns amendoins. Divagávamos sobre Eros já que a presença de Tânatos é uma obviedade, não gera boa discussão, e com este senhor deve-se sempre discutir porque é polemista nato e dá o melhor de si quando discorda. Afirmei que fazia fé no "eros" da literatura contemporânea.
Olhou-me desgostoso e, já que é adepto dos prazeres da carne, sugeriu um Steak Tartare acentuando o "e" final. Um Tartar poderia vir à moda inglesa - desprovido de determinada especiaria que mencionou mas me escapou - , o que comprometeria a receita clássica. Delicadamente quis saber o que li de erótico, publicado nos últimos quatro anos.
- Nada, na verdade. Mas procure na Internet que deve ter gente boa escrevendo sobre este tema grato.
- É o que tenho feito.
E fez a felicidade do somellier quando se decidiu por um Hermitage La Chapelle 1997. Que dividi prazerosamente com ele, já que só me recuso aos adocicados.
- Peço licença para mencionar apenas alguns títulos de contos eróticos da safra atual, já que o texto não permite que se avance mais do que três linhas e é deplorável indução à castidade.
Dos quinze ou vinte que desfiou, poucos podem ser reproduzidos. Não por moralismo mas por elementar bom-gosto, já que palavras voam e escritos ficam. Algo como:
" Swing em família"
"Minha filha também quis"
"Eu e meu pastor no escurinho do canil"
"A família buscapau"
"O que mamãe me deu de aniversário"
"A mangueira que apagou o fogo da minha filhinha"
- O que está acontecendo? - ele indagava. - Falta-nos imaginação?
- Temos a quota de sempre, eu acho.
- A geração do meu pai ficava doida com o strip-tease da Rita Hayworth; e Gilda só tirava as luvas. A minha ia ver Les Amants, do Malle, e tinha fantasias para um mês.
- As mulheres não podem tirar todos os véus; sábias são as orientais e não as mocinhas das capas de revista. Primeiro, tiraram quase tudo. Depois, tudo mesmo. Depois ainda, com gestos forçados que imaginavam sensuais, expuseram as partes mais recônditas. Não sobrou nada. Mas a imaginação precisa de alimento. E de proibições. Ninguém sonha com o permitido.
- Aí, só restou o tabu.
- É. Incesto. Zoofilia. E o que mais inventarem.
- E pensar que a visão de um tornozelo já provocou ereções.
- Pois é. O que é barato não provoca o desejo. Vai beber o que, depois do café?
- Pensava num armagnac. Topas?
Um sábio, meu amigo Senhor IAL.

Ossos do Ofício

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Coube-me a Sexta-Feira da Paixão.
Então, vamos falar um pouco sobre a paixão de Cristo, já que o tema está atualíssimo, ocupando mentes lúcidas e ferindo corações sensíveis, por conta do filme do Mel Gibson. No ano que vem não provocará tanta emoção, como não provocou no ano passado. Precisamos que o cinema ou a TV nos lembrem do que deve nos compungir.
A paixão - ou pathos, ou sofrimento - é um vínculo que se estabelece entre aquele que sofre e aquele que o vê sofrer, ou toma conhecimento do seu sofrer. Para alguns, o sofrimento gera antipatia. Para outros, simpatia; nos identificamos com ele. Nunca sabemos como o pathos atuará. O certo é que não lhe somos imunes.
As teologias estão repletas de sofrimento. Deuses e profetas são sofredores porque é preciso estabelecer um vínculo com a humanidade e o que temos em comum não é, por suposto, a felicidade, e sim o sofrimento. Santos e mártires tiveram biografias sofridas e cumpriram via dolorosa: raramente a vida alegre dá direito à santidade. Quando o destino não providenciava a dor, a auto-flagelação, o deserto, o jejum ou o cilício davam um jeito de garantir o reino dos céus e a veneração dos homens.
Limitar a jornada cristã ao padecimento físico é banalizar o Cristo no homem Jesus. Fazer um filme sobre Cristo com ênfase na tortura a que foi submetido - e as conseqüentes questões idiotas: quem foram os culpados? - é retirar o pathos da sua trajetória simbólica. Cristo não foi Cristo por ter sido o campeão do sofrimento. Em qualquer época ou latitude homens e mulheres condenados à tortura sofreram mais do que Ele. O que quer que lhe pudessem fazer terminaria ao pôr-do-sol porque ao pôr-do-sol começaria o Shabat - sua sessão de tortura durou algumas horas.
Todos nós - que vivemos em países onde a tortura foi institucionalizada - sabemos que na vida real não foi bem assim. A tortura durava semanas ou meses. Metódica. Científica. Aplicada com cuidado para que o torturado não morresse. Às vezes, se descuidavam e morria mesmo; mas não era essa a intenção, era mantê-lo vivo para que tudo continuasse no dia seguinte.
Torturadores, ao contrário do que mostra o filminho do Mel Gibson, são brutos mas não são burros. Não bateriam tanto num condenado porque seria humanamente impossível subir o Calvário com o lenho ao ombro e não pensariam, certamente, em carregá-lo num andor. Só o Filho do Deus poderia caminhar depois daquela pancadaria, não o Filho do Homem encarnado que Jesus afirmava ser. E, convenhamos, que só a possibilidade do corpo de Cristo ter os mesmos limites que o nosso estabelece o pathos com a Paixão. Se sentisse diferente, não nos identificaríamos.
Mas, neste ano da graça de 2004, estamos todos ligados ao que aconteceu na Galiléia há quase 2000 anos. A Paixão voltou a despertar paixões porque Hollywood a ressuscitou. E desta vez diferente dos filmes anteriores, em que a história bíblica era recontada como o que sempre foi e por isso nunca fez tanto sucesso: uma história sagrada, desvinculada do real, porque o território do profano é um e do sagrado é outro. Humanizaram Cristo, reduziram-no a pó - "quia pulvis es, ad pulverem reverteris", fórmula adequada ao humano, não ao divino -; e Vieira já advertia que "não se medem pela mesma medida os decaídos e os alevantados". É lamentável erro de raciocínio.
Assim, Gibson continua valendo pelo que sempre teve: um excepcional par de olhos azuis. Teve um belo orçamento também, para filmar o Evangelho à sua moda. Dinheiro consegue comprar bela fotografia, cenários, figurinos e um som impactante - tudo que seduz nossos sentidos e provoca emoção. Além de um sangue bastante convincente para expulsar da sala os estômagos mais sensíveis.
Se os olhos azuis, depois da Galiléia, se voltassem para o Cone Sul em busca da tortura cinematográfica e filmassem uma sexta-feira nos porões do Dops há uns trinta anos, com seios arrancados à alicate, tubos de PVC, ratos, baratas, carnes expostas e um som de arrepiar, talvez tivéssemos uma santa brasileira. Talvez as pessoas também saíssem enojadas do cinema e se discutisse a sério o sofrimento humano; não o divino, que não temos a menor noção do que seja.
A Paixão de Gibson é um grande espetáculo, como foi, na sua época, Guerra nas Estrelas, mas o avanço da tecnologia o tornará esquecível em poucos anos. A história é ótima, pena que não seja dele. Como pertence um pouco a cada um de nós, temos o direito e até o dever de malhar o seu roteiro.
Não estamos mais em tempos de Inquisição e podemos ser cristãos, como Gibson, embora desvinculados da instituição que tutela o Cristo. Como podemos ser brasileiros e discordar dos nossos tutores - a época do Brasil, ame-o ou deixe-o já passou -, podemos ser cristãos e discordar de Roma. Parece que Roma aprovou Hollywood.
Mas a visão de Gibson - diferente dos antigos filmes que seguiam singelamente os passos do Evangelho -, humanizou o Deus e não divinizou o Homem. Prestou um desserviço aos Dois. O realismo não consegue chegar ao místico, como o misticismo não dá conta do real. Devemos ser materialistas ao abordar a matéria e místicos quando tratarmos do sagrado.
Como dizia o próprio personagem principal: Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Limite

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Tive um tio postiço que quando jovem fazia halterofilismo e chegava a levantar 99,400kg.
- 99 e 400 você levantava fácil?
- Fácil não era. Suava. Mas mantive a minha marca por muito tempo.
- E por que não chegava a 100? Ou ao menos a 99 e meio?
- Porque era o meu limite.
Ninguém gosta de limites. O limite é a fronteira, o confim, o ponto. É o que nos reduz, nos restringe. E nos estreita, impiedosamente.
Como todo mundo tem direito a meia dúzia de esquisitices, eu tenho as minhas 4 ou 5. Uma delas é jogar xadrez com o computador. Meu programa atende pelo pitoresco nome de "Genius" e todos os dias eu me sento à frente do gênio e começamos a batalhar. Assim como o tio halterofilista, também treino há muitos anos. Temos níveis para atuar que são chamados de "easy levels" e de easy não têm nada: levei um tempão para vencê-lo no nível 1 (ele é seriíssimo e não se distrai nunca).
Mas hoje, modéstia à parte, nos níveis 1, 2 e 3 ganho dele falando ao telefone ou passando esmalte nas unhas. Do 3 ao 9 tenho que pensar - cada vez mais demoradamente - mas há meses que ele não leva uma. O diabo é o nível 10.
Não gostamos de pensar em limites porque o grande limite é a morte. É no momento da morte que passamos de uma virtualidade para uma realidade, até a hora de morrer somos uma perpétua possibilidade. Através da série de escolhas e recusas da vida cotidiana modificamos a cada dia o que somos e o que somos hoje não é o que seremos amanhã, portanto não é o nosso ser real. Perseguimos a realização do ser enquanto temos vida mas só a alcançamos quando a morte vem colocar um termo à nossa busca.
Chegamos ao mundo plenos de infinitas possibilidades: Napoleão dizia que todo soldado trazia um bastão de marechal "dans sa giberne". Parece que o imperador, entre outros predicados, era bem-humorado. Mas a época e as circunstâncias criaram milhões de soldados e só um Napoleão. A História reduz estas capacidades infinitas e pouquíssimas vêm a se efetivar. O que faria com Napoleão, Buda, César ou Maomé se tivessem nascido 50 anos antes ou depois?
Aquele que é verdadeiramente o nosso ser não é o que somos atualmente mas o que desejamos ser; só desejamos ser o que potencialmente somos. Na verdade, estamos sempre adiante de nós. E ainda não houve uma sociedade sobre a terra que permitisse ao homem cumprir sua potencialidade virtual.
Mas, enquanto não nos colocam o grande limite, vamos tentando. E alguns têm a consciência de que seu ser verdadeiro não está no presente - talvez esteja no futuro. Desconhecemos quem somos até que a morte venha colocar o ponto final nas nossas possibilidades e nos revele a nós mesmos.
Para que tivéssemos alguma realidade hoje, seria preciso que a vida fosse estática e nós imóveis; sempre parecidos com o que fomos. Isto é o contrário da vida, que é movimento, marcha, transformação, ou melhor, transmutação contínua. Mesmo para aqueles que se acreditam personagens de valor. Pretender se perpetuar como são, porque estão bem onde estão, subestimando a influência de eventos exteriores, da evolução ou da revolução - que é a evolução apressada - revela insuficiência de julgamento. É certo que tudo mudará.
Assim, ainda tenho alguma esperança não só de que as relações sociais se modifiquem, como de que ultrapassarei o nível 10. Como meu ser verdadeiro está no futuro, quem sabe um dia ainda não jogarei xadrez com o Deep Blue? Ou o Kasparov, que é quase a mesma coisa?

Coluna Coletiva

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Achei que a última coluna do nosso Chefe merecia um repeteco e me dispus a escrever um pouco mais sobre pittboys e pittgirls. Mas leiam esta matéria que saiu há dias na AOL.
Assim, sugiro que a coluna de hoje seja aberta e coletiva, escrita nos comentários não só por mim mas por todos nós. Não é preguiça não, gente. É que - algumas coisas - preciso de ajuda para conseguir entender.
As loucas baladas dos paulistinhas endinheirados
Ecstasy, cocaína, maconha, champanhe, sexo grupal e muita arrogância. A reportagem da AOL acompanhou uma balada da Geração $, formada por filhos da alta sociedade paulistana.
Por Rodrigo Brancatelli
A estudante Nicole, de 21 anos, estará daqui a algumas horas desmaiada no quarto 231 do Hospital Alvorada, na zona sul de São Paulo, com a sua calça Gucci suja de vômito e com um cateter na veia por meio do qual ela receberá altas quantidades de glicose para rebater o efeito do excesso de álcool. Nicole mal irá se lembrar de, no espaço de horas, ter fumado dois cigarros de maconha, tomado um ecstasy na forma de coração e outro na forma das orelhas do Mickey Mouse, bebido uma garrafa inteira de champanhe Möet et Chandon e ter feito sexo com dois garotos que nunca viu na vida.
"Comigo tem que ser assim mesmo. Tudo aos extremos", diz a garota, filha de um conhecido empresário do ramo têxtil. "Gosto de dar para um monte de caras, de misturar Prozac com champanhe, de cheirar cocaína até meu nariz sangrar. E não me importo com a sua opinião moralista típica da classe média. Tenho dinheiro suficiente para não me preocupar com você ou com mais ninguém. A minha felicidade está na minha conta bancária", diz ela ao repórter enquanto se prepara para a balada.
Nicole faz parte de uma geração escancaradamente frívola e preconceituosa, formada por filhos de gente muito rica. É a "Geração $", como eles gostam de se definir. Têm a vida inteira pela frente e nenhuma preocupação com assuntos que assombram outras pessoas, como falta de dinheiro ou necessidade de escolha de uma profissão para ganhar a vida. O que mais querem é curtir a juventude com o que acham que têm direito, incluindo drogas, sexo e uma boa dose de sentimento superioridade. Não há limites para eles. Escravos da estética, preocupam-se apenas com a próxima balada ou com a próxima compra. E a decisão mais importante que precisam tomar é qual dos cartões de crédito usar na hora de pagar a conta.
"Eu sou o tipo de pessoa que os pobres e a classe média odeiam porque posso torrar R$ 5 mil em um vestido para usar apenas uma vez e depois encostá-lo no armário", diz Nicole ao repórter. "Não consigo ficar assistindo tevê em casa ou trabalhando em algum escritório estúpido na frente de um computador. Estou acima disso tudo. O dinheiro dos meus pais me possibilita curtir a vida sem preocupações e sem falsos moralismos".
Enquanto fala da vida, Nicole manda o motorista do seu Mercedes preto se apressar. O relógio Armani no pulso, avaliado em R$ 2 mil, avisa que já passa das 23h e todos seus amigos devem estar esperando furiosos na frente da Disco - conhecida como a balada mais cara e restrita de São Paulo, no bairro de Vila Olímpia, zona Sul da cidade. É sábado à noite, e a noite de São Paulo nem imagina o que Nicole e seus endinheirados colegas vão aprontar.
"Demorei porque a besta da empregada esqueceu de passar a minha calça Gucci", brinca a garota com os amigos ao descer do carro. "Definitivamente não dá para confiar em pessoas de cabelo pixaim." Fernanda, filha de um banqueiro que mora no Rio de Janeiro e que mantém casa em São Paulo para temporadas, ri escandalosamente da observação da amiga Nicole. Além de compartilhar da visão do mundo, as duas são fisicamente parecidas. Morenas, baixinhas e superproduzidas. "Empregada é uma droga mesmo", diz a carioca de 20 anos, vestindo um modelito exclusivo assinado pelo estilista Alexandre Herchcovitch. "Todas são ignorantes. É por isso que elas têm de ganhar salário mínimo. É o valor da suas mediocridades."
Fernanda está acompanhada de mais três meninas que aparentam ter a mesma idade e dois garotos já mais velhos, de mais ou menos 25 anos. Todos têm pais ilustres - duas são filhas de empresários bem sucedidos, a outra é herdeira de um fazendeiro do interior paulista, o garoto loiro é filho de político. Apenas um deles é uma incógnita. Seu nome é Carlos, e sua origem nunca foi colocada em discussão pelos colegas. "Um dia apareceu do nada em uma balada, dirigindo um Porshe Boxter e com muitos ecstasys no bolso. Não precisou explicar de onde vem para ser incluído na turma" explica Nicole.
A fila na frente da Disco quase dobra o quarteirão, mas uma nota R$ 50 na mão do segurança é o suficiente para que Nicole e seus amigos a furem. A entrada custa R$ 70 para homens e R$ 35 para mulheres, mas eles desembolsam mais R$ 100 cada um para ter direito a entrar no camarote. "Somos VIP's, merecemos tratamento diferenciado", diz Fernanda, enquanto abre uma garrafa de champanhe Möet et Chandon - a primeira de sete que serão consumidas na noitada, ao custo de R$ 120 cada.
No camarote, fica mais fácil para Carlos disfarçar uma carreira de cocaína que prepara em cima de uma mesinha de madeira. Os amigos brincam que ele tem o nariz nervoso, não consegue ficar um dia sequer longe do pó. Fernanda percebe o gesto e corre para filar um pouco da droga enquanto Nicole, do outro lado do camarote, amassa a roupa cuidadosamente escolhida com um rapaz mais velho que acabara de encontrar. Dias depois, procurada pela reportagem da AOL, a direção da Disco diria que os clientes pegos com drogas ilíticas no interior da casa são colocados para fora.
Depois de duas horas e R$ 890 gastos em bebidas, o grupo decide deixar a balada e procurar algum outro lugar para terminar a noite. Ou melhor, para começá-la de fato. "Vamos para a minha casa, hoje não tem ninguém lá", sugere Fernanda. "Podemos comprar umas bebidas, ligar para uns amigos e fazer a festa lá mesmo. Com quantas pessoas será que eu vou transar hoje?"
A idéia de Fernanda até que foi comportada para os seus padrões. Da última vez que convidou os amigos para ir até a sua casa no Jardim Lusitânia - uma mansão na zona Sul de São Paulo com três salas, sete quartos e duas cozinhas -, ela pagou três prostitutas e dois garotos de programa para animar a reunião. De outra vez, fez uma vaquinha e comprou 100 gramas de cocaína. Tudo foi consumido na mesma noite. Os amigos da garota contam que ela, numa das baladas que deu, fez sexo com três amigos de infância na piscina, ao mesmo tempo, enquanto os vizinhos viam e ouviam tudo.
São quase três horas da madrugada e as Pajeros, Mercedes e BMW's começam a se enfileirar na porta do número 482. Todos da turma são muito parecidos - os garotos vestem camisa de algum estilista famoso e caro, Herchcovitch, Sommer ou Haten, e calça jeans igualmente exclusiva, mas que pareça estar bem suja. Já as meninas só usam preto e não desgrudam de suas bolsas Louis Vuitton abarrotadas de ecstasys, maconha e, eventualmente, camisinhas.
A festinha particular começa a esquentar com uísque 12 anos misturado com energéticos. Fumaça de charuto e música eletrônica tomam conta do ambiente. Para deixar as meninas mais "soltinhas", os garotos preparam um drink especial com vodca, suco em pó light e comprimidos de ecstasy picados em pedacinhos microscópicos. Quando elas se derem conta, já estarão dançando coladinhas sem as blusas e dando beijos calientes umas nas outras para delírio dos caras.
Para a maioria delas, não faz a menor diferença saber se tomaram drogas misturadas à bebida porque a intenção é ficar doidas mesmo. "Essas garotas aí estão loucas para dar", aponta Thomás, herdeiro de um médico famoso e amigo de longa data de Fernanda. "A única coisa que elas têm para fazer na vida é gastar o dinheiro da família. As mais novas, aliás, são as mais danadas. Eu, por exemplo, transei com muita menininha filha de 'sei-lá-quem' dentro do meu Civic ou em banheiros de baladas. Já 'tracei' muitas Lolitas Pilles por aí".
Thomás se refere à escritora francesa de 19 anos, que chocou o mundo ao descrever tudo o que se passa no mundinho milionário de Paris no seu livro de estréia, Hell. A tradução em português chegou às livrarias do Brasil no final de 2003 e vem ocupando lugar de destaque nas prateleiras das livrarias. Nascida em berço de ouro e patricinha assumida, Lolita Pille passou boa parte de sua vida torrando o dinheiro dos pais nas lojas mais caras da capital francesa, desrespeitando regras de trânsito, enchendo a cara em hotéis de luxo e dançando até de manhã nas boates da moda.
Quando se cansou da farra, a garota escreveu 224 páginas denunciando a sua geração da forma mais crua possível. A galera endinheirada de Paris não perdoou. Lolita Pille passou a ser barrada nas baladas VIP's. "A 200 km/h pelas ruas de Paris, onde não é bom caminhar quando estamos no volante, misturamos álcool com cocaína e cocaína com ecstasy", escreve. "Eu sou um produto da Think Pink Generation. Minha crença: seja bela e consuma. Sou a musa do deus 'Aparência', sobre o altar do qual eu queimo alegremente todo mês o equivalente ao seu salário".
Os relatos de Lolita poderiam muito bem ter sido escritos pela paulistana Nicole, pela amiga Fernanda, ou por qualquer uma das meninas que dançam e se beijam sem blusa na sala de estar da casa do bairro paulista de Jardim Lusitânia. "Entrei numa boate aos 14 anos e nunca mais sai", confessa a escritora francesa em Hell, numa de suas muitas tiradas infanto-niilistas. "De qualquer maneira, o que fazemos é vergonhoso. (...) E daí? É você quem paga a conta? Enfim, por hora está bom para mim. Minha única preocupação é o vestido que vou usar hoje..."
O uso de drogas na mansão de Fernanda é tão disseminado que até cinzas de cigarro chegam a ser confundidas com cocaína - e cheiradas sem que ninguém note a diferença. Num canto da sala, três caras fumam maconha e dividem uma pedra de ice (droga sintética, derivada da anfetamina, que parece um cubo de gelo) sem se importar com a presença de um estranho, o repórter da AOL. Noutro, duas adolescentes que não aparentam ter mais de 15 anos cheiram um vidro inteiro de B-25, ou cloreto de metileno, mais conhecido como cola de acrílico. E isso sem falar nas cápsulas de efedrina, de efeito estimulante, oferecidas como se fossem balas de goma.
Nicole, então, já usou e abusou de tudo nesta festa. E mesmo assim ela ainda quer mais. Em uma só tacada, engole dois comprimidos de ecstasy que estavam jogados em cima da bancada da cozinha - um rosa na forma de coração e outro azul na forma das orelhas do personagem Mickey Mouse. "Tô bem, tô bem, ainda tô sóbria", balbucia, pouco antes de tropeçar em uma cadeira e cair estatelada no chão.
Dois caras levantam Nicole e carregam o seu corpo praticamente inanimado para um dos quartos da casa. É o quarto dos pais de Fernanda que a essa altura está chorando copiosamente no banheiro, em uma crise nervosa causada pela cocaína. Nicole acorda e puxa os dois garotos desconhecidos para a cama, tira as calças e começa a fazer sexo sem se preocupar com os olhares curiosos dos que estão olhando pela porta aberta. O show não dura muito tempo - minutos depois, Nicole levanta correndo e tenta chegar até o banheiro. Em vão. Ela acaba vomitando em cima de um dos garotos, no piso de mármore. Vomita tanto que sai até bile.
"Sério que eu fiz tudo isso mesmo?", perguntaria Nicole mais tarde, enquanto deixava o quarto 231 do Hospital Alvorada. O braço direito até doía de tanta glicose que foi injetada na sua veia. Com olheiras enormes, sua amiga Fernanda só tinha forças para responder afirmativamente com a cabeça. "Que saco! Eu sempre apago nos melhores momentos. Mas tudo bem, semana que vem tem mais. Fê, você tem certeza que não foi um plantonistazinho de merda que me atendeu? Porque esses residentes não sabem de nada, ganham uma merreca... Não posso ser atendida por um imbecil qualquer."

Sedna

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Descobriram um novo planeta nos últimos dias e o sistema solar não termina mais em Plutão - estende-se até Sedna.
Preciso saber mais sobre Sedna porque a simbologia de cada novo planeta descoberto "descreve" o que está germinando no momento da descoberta. O que sei até agora é que Sedna é uma deusa dos innuits, um povo esquimó. Foi dada em casamento a uma ave gigante e levada em seu bico para um penhasco. Tentando fugir do monstro caiu ao mar e poderia ter sido salva pelo pai que vinha visitá-la. Mas, com medo da ave predadora, seu pai lhe batia com os remos nas mãos quando tentava subir na canoa. Com as mãos esfaceladas, Sedna morre afogada e passa a proteger as focas e as baleias. É uma deusa que tem raiva dos homens, principalmente do pai.
A mitologia sempre utilizou os "sete astros sagrados" para descrever funções humanas. O céu visível terminava com Saturno, os planetas além da sua órbita foram descobertos com telescópios e, durante milênios, Saturno simbolizou o limite, o fechamento do sistema. A vida simbólica terminava em limitação.
Urano foi descoberto no século XVIII, em 1781.
O Séc. XVIII foi chamado O Século das Luzes e os "iluministas", como Voltaire, Rousseau, Montesquieu, definindo com novos conceitos os homens e as leis, foram os "anunciadores" de Urano e os precursores ideológicos da Revolução Francesa de 1789, reunidos numa obra comum, a Enciclopédia. Filósofos, escritores, médicos, engenheiros, colaboraram nesta obra gigantesca que reuniu o pensamento do século. Orquestrados por Diderot, os enciclopedistas professavam diversas opiniões políticas mas eram contra os privilégios de casta, o regime absolutista e defendiam o Terceiro Estado, a representação popular. Todos se uniam contra a Escolástica e o domínio da Igreja sobre o espírito humano. Criticaram todas as instituições e tradições do seu tempo, foram perseguidos como inimigos do regime e da Igreja, muitos foram presos e tiveram suas obras queimadas mas construíram uma obra que influiu poderosamente sobre a Revolução de 89 e erigiram o "reinado da razão" em todas as áreas do conhecimento. A publicação da Enciclopédia antecedeu, de alguns meses, a descoberta de Urano e presidiu a Revolução Francesa e a Revolução Americana, a Declaração dos Diretos do Homem e o ideário de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Trouxe uma nova concepção para o indivíduo: o fim da ascensão estabelecida por direito divino. Foram guilhotinadas as cabeças coroadas e a burguesia assumiu o seu papel de classe dominante. Independente das suas origens, o indivíduo uraniano surgido no séc. XVIII podia aspirar ao poder - antes reservado à nobreza - desde que amealhasse capital.
Urano é o Céu sem forma, a fertilidade ilimitada, o caos criador. Depois de castrado mitologicamente por seu filho Saturno, "reaparece" nos céus em pleno séc. XVIII, quando o poder estruturado saturninamente ao longo de milênios culminava no absolutismo. Com Urano, surge um novo estágio simbólico "no mundo de cima" para interpretar o "mundo de baixo" e retorna o impulso prometeico de distribuir aos homens o que era privilégio divino: o poder passa dos reis para as assembléias, dos nobres para os "sans-culottes", da metrópole para as colônias.
Este é mais um mistério fascinante - como o céu desenha com antecedência o que depois vai se manifestar na terra.
O que chegou, com Urano, foi um novo conceito para o indivíduo: uma nova definição para a humanidade de cada um de nós e para as leis que regulam as relações entre os homens. "Todos os homens nascem livres e são iguais perante a lei" é tão óbvio hoje para nós. Mas, para que esta Declaração de Direitos fosse imposta e assimilada, muito sangue foi derramado.
O céu se manifesta através da palavra e da veiculação de idéias. Os dois maiores líderes da Revolução francesa, Robespierre e Danton, morreram impedidos de falar. Uma rouquidão silenciou a voz de Danton na Assembléia e dias depois ele foi guilhotinado. Nas vésperas de ir para a guilhotina, Robespierre levou um tiro no maxilar e não falou mais. A veiculação de idéias, a abolição da censura e o falar livremente são requisitos indispensáveis à cidadania desde a descoberta de Urano e Urano é o primeiro símbolo a dar significado explícito ao coletivo.
Descoberto em 1846, Netuno, o deus dos mares, governa tudo que se afasta do real, do material: o irracional, os sonhos, as drogas, a imaginação, o escapismo, a anestesia, a dissolução no todo.
O conceito netuniano de "todo" vai se modificar a partir do século XIX e passar a descrever também as "massas".
No ano da descoberta de Netuno, aparece na Europa a obra do filósofo e economista Pierre Proudhon - O Sistema das Contradições Econômicas (itálico, por favor) ou A Filosofia da Miséria(it), onde são preconizados o aperfeiçoamento e a reforma do capitalismo emergente para pôr fim à miséria por via pacífica e assegurar a prosperidade de todos sem luta de classes ou revolução social. No ano seguinte, Karl Marx publica A Miséria da Filosofia e sustenta que a verdadeira causa da miséria das massas é a opressão do trabalho pelo capital; mas que, no seio da sociedade capitalista, cresce e se organiza uma classe nova, o proletariado, que sepultará o capitalismo e construirá uma nova sociedade. A condição para a emancipação da classe trabalhadora - dizia ele - é a abolição de toda e qualquer classe: numa ordem social em que não haja mais classes nem antagonismos de classes, as "evoluções sociais" deixarão de ser "revoluções".
Às vésperas da Revolução de 1848, Marx e Engels publicam o Manifesto do Partido Comunista e seu programa implica na abolição da propriedade privada dos meios de produção e na instauração da propriedade coletiva, o que tornaria possível o "livre desenvolvimento do indivíduo e o florescimento das ciências e da cultura". O apelo que encerra o Manifesto, "Proletários de todos os países, uní-vos", traduz o caráter internacional do movimento. O internacionalismo proletário, divulgado por toda a segunda metade do século XIX, prega a solidariedade internacional dos trabalhadores do mundo todo - por oposição ao nacionalismo burguês - na luta pela paz e pela democracia.
Bem, a União Soviética já se dissolveu e não vou fazer aqui uma discussão capitalismo versus socialismo, só quero lembrar o momento histórico em que Netuno foi descoberto.
No séc. XIX começamos a ver a organização de algo novo - as "massas". Elias Canetti, no seu livro Massa e Poder, diz que a massa tem regras diferentes das regras dos indivíduos que a compõem. É uma entidade própria e não a soma dos seus componentes. O advento de Netuno introduz as grandes massas e regras que ainda nos surpreendem.
A organização comunitária, surgida com a Comuna de Paris, contemporânea da descoberta de Netuno, revive a comuna primitiva que existiu entre todos os povos, na sua fase arcaica de organização social. Na comuna primitiva, os instrumentos, a terra, a habitação, eram propriedade comum da coletividade, da horda ou do clã. A produção era comum, o produto da produção era dividido em comum e não havia classes nem Estado. Com o desenvolvimento das forças produtivas surge, na sociedade primitiva, a primeira grande divisão social do trabalho e a propriedade privada engendrada por ela. Com a separação das profissões e a propriedade privada, a comuna primitiva é destruída e desaparece definitivamente, dando lugar à sociedade de classes, à escravidão e ao feudalismo.
Milhares de anos depois, balizado pelo aparecimento de Netuno no céu, reaparece o conceito de organização comunitária e propriedade comunal: todos os países socialistas reviveram esta forma de organização social enterrada há milênios. O indivíduo não conta, conta o conjunto dos indivíduos, o coletivo: este é o grande processo netuniano que todos vivemos.
Desde que deflagrado, como o processo uraniano, passamos a incorporá-lo e a vivê-lo em vários níveis; não há uma só forma de manifestação netuniana, há várias: dos grandes movimentos político-revolucionários (em que as massas tomam o poder e se tenta a abolição das classes) até à psicanálise (em que se tenta o acesso ao inconsciente, um todo indiferenciado que convive com as pontas de iceberg conscientes que manifestamos), às drogas (que rompem as barreiras organizadas do eu individual), aos grandes movimentos de massa (enchendo shows e estádios para se divertir, dançar, orar, ou se juntando para saquear e agredir). Netuno simboliza tudo isso.
Vivemos um século e meio de poder das massas como nunca houve igual na história da humanidade: a comunicação de massa; os ídolos da massa; a cultura da massa. A massa cria e derruba com a maior facilidade. É a globalização.
Quando Plutão é descoberto, temos o terceiro filho de Cronos aparecendo para reclamar seu reino: os deuses dos céus, dos mares e dos infernos deveriam reinar sobre a Terra, assim foi feita a partilha do mundo entre os filhos de Cronos.
Nesta partilha coube a Plutão o reino infernal - o Hades. O deus do Hades era tão temido que não pronunciavam o seu nome, chamavam-no de Hades (que era o seu reino) ou então por alguma alcunha: Plutão era um pseudônimo cerimonioso para aplacar este deus indesejado - quer dizer o Rico (desta raiz vem a palavra plutocracia e suas correlatas: dominação dos que têm dinheiro).
Plutão foi descoberto em 1930. E, assim como não podemos dissociar Urano das revoluções burguesas do século XVIII e Netuno das organizações socialistas do século XIX, também não podemos deixar de associar Plutão ao surgimento do nazismo. Logo depois do incêndio do Reichstag e sua conseqüente prisão, Hitler assume o poder em 1933 e, desde então, não é mais através de uma "guerra" que as transformações se processam. É através da descida aos infernos.
A partir da descoberta de Plutão, não temos mais a morte como contraponto necessário ao processo de transmutação que é o viver. Temos a fissão do átomo. O átomo - o não divisível - se rompe e a energia liberada é maior do que qualquer outra sonhada até aquele momento. Plutão tinha, realmente, saído dos infernos e passeava pela terra: a destruição ganhava um novo símbolo e surgia o que já foi chamado de "banalização do mal". Depois de Dezembro de 1942, com a fissão do átomo, a vida passou a necessitar urgentemente de uma outra definição.
Em 1945, para acabar com o nazismo e com a mortandade de seis anos de guerra, para se opor à destruição, os Estados Unidos lançam a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki. O mito de Plutão se cumpria e o deus dos infernos fundava o seu reino na terra.
E agora, no século XXI, descobrem Sedna. Não é uma deusa do panteão grego e talvez seu nome seja mudado para manter a tradição. Mero palpite. Mas a estranha coincidência que preside os planetas - que significam peregrinos -, os deuses que lhes atribuem e acontecimentos históricos que materializam o significado simbólico destes deuses, talvez permaneça.
Sedna parece ser uma deusa zangada com o poder do masculino. As deusas femininas podem ficar quietas por muitos e muitos séculos, a energia feminina é preguiçosa. Mas quando começam a matar seus filhos elas acordam e a "ira lunar" é maior do que qualquer outra (vide Medéia): elas se destroem e destroem tudo que têm para se vingar. O símbolo do Islã é a lua crescente.
Mas pode ser também que a vingança de Sedna seja apenas contra o pai. Não passa despercebido o número de jovens que estão assassinando os pais, rompendo o tabu do quarto mandamento.
Pode não ser nada tão grave, pode ser apenas o feminino reivindicando o poder e Sedna condenando as mulheres - já que protege as baleias - a regimes de fome até o século XXII. Faltam-me dados para raciocinar.
Aceito subsídios e sugestões.

Maleus Maleficarum

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Ontem fui a um sarau literário em que só havia escritores - não vi leitores - e a inteligência estava no ar, como Chanel número 5 em festa de grã-fino. Cada escritor era uma ilha, cercado de escritores por todos os lados.
Como sabem, escritores são seres inteligentíssimos dotados de faces expressivas, já que todos vivem torturados pelo grave problema de como expressar seu mundo interior. Neles, nenhum gesto é gratuito, como nenhum adjetivo o é. Seus sorrisos refletem tolerância filosófica ou desdém e menoscabo, suas palavras significam no que dizem como no que calam. Sóbrios no trajar, raramente se exibem - qual bigode gentil, retorcem seu talento.
Mas não quero cá fazer uma coluna social porque um escritor só concorda em tomar conhecimento de fofocas quando quem as relata é Proust. Fui contratada para linhas mais modestas e o preâmbulo é apenas uma desculpa porque as escrevo com sono, quando hoje já é amanhã.
A dona deste sítio me recomendou que falasse de Tarô, já que vamos estudá-lo juntas a partir da semana que vem e eu sou a cronista esotérica, o Chefe responde pelo esporte, Dr. P fica com as amenidades, as duas novas colegas ainda estão definindo seu perfil e se não houver ordem na botica a editora fica doida.
O problema é que o Tarô é uma iniciação gnóstica, a gnose andou muito mal falada na última semana, conhecido filósofo desceu-lhe o malho - literalmente, o maleus maleficarum - e eu deveria começar por uma introdução à gnose, à alquimia, à cabala, mas bocejos repetidos me impedem e não consigo pensar de boca aberta, me imponho certa compostura quando penso.
Vou lembrar apenas que o Tarô é uma caminhada simbólica e estudá-lo é estudar os passos de qualquer caminho. Não precisamos aproximá-lo somente das jornadas solenes, como a vida, podemos aplicá-lo a projetos mais simples, como iniciar um romance ou um regime. O que quer que se faça, começa com o primeiro passo, o primeiro passo é o Arcano 1 e arcano quer dizer mistério. Mao (o Tsé Tung) já lembrava que uma caminhada de mil passos começa com o primeiro e ele era um especialista em grandes marchas. Este primeiro mistério é conhecido como O Mago - aquele que caminha.
O Mago começa sua caminhada com o pé esquerdo, se começasse com o direito seria um falso iniciado. A direita corresponde à razão e ao pragmatismo, a esquerda é a paixão. Vida é paixão e somente a paixão provoca a ação. Assim, tudo que começarmos - racionalmente - com o pé direito, está fadado ao fracasso.
A devoção, o sacrifício, como também o crime, são paixões. Sem paixão o mundo pára e o sentido original da palavra paixão não é exatamente arrebatamento amoroso - é sofrimento. E aqui temos o fundamento do primeiro arcano: não há movimento sem um sofrimento que o preceda, a felicidade é paralisante. Qualquer processo se completa em 22 passos, cada um deles um mistério, decifrá-los é uma iniciação gnóstica.
Embora esta reles introdução não esclareça quase nada, prometo ser mais didática nas próximas semanas e meus passos iniciáticos tomam agora o caminho do leito. O contato direto com a inteligência cansa muito.

Gosto de ir, não de chegar

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Na verdade, não gosto de viajar. Me cansa. Prefiro dormir na minha cama, sonhando que estou no Taj Mahal, a encarar o desconforto das camas indianas e, depois de muito chão, chegar aos jardins do Taj Mahal, tirar umas fotos e mandar para os amigos, com aquela seta indicando um ponto vago, sabem como é? "Eu estive AQUI. Indescritível".
Prefiro sensações que possa descrever - até para mim mesma - e assim me convencer de que, realmente, me diverti. Não tenho alma de turista, aliás, não tenho nem máquina fotográfica e nunca me inscrevi num programa de milhagem. Já vi do mundo o que queria ver e gosto de férias no Rio, com dias vagabundos, acordando tarde, praia ao pôr-do-sol, cinema, restaurante, papo e amigos. São as férias ideais.
Mas passei um mês no Amazonas porque tenho saudade se fico muito tempo longe da floresta. É talvez o único lugar em que viveria, se tivesse que viver fora do Rio. Embora seja uma ficção para muitos brasileiros, posso garantir que a Amazônia existe mesmo e é mais do que enredo da Beija-Flor: é tucunaré com pimenta mucuri, que queima o lábio e arde a alma; incenso de kanau-aru, que fecha o corpo para sempre; teia de aranha-tecelã, que faz sonhar; um certo lago perdido e estranhas experiências. Que começam já no avião, quando os ventos mudam de direção, faz-se o vácuo e tudo que é leve corre o risco de se desmanchar no ar. Os passageiros ficam assustados.
Não tenho medo de avião, gosto muito de voar. O problema é que aviões me levam para longe do Rio e o ideal seria pegar um avião, me empapuçar com todas as comidas de bordo e, horas depois, voltar para dormir em casa.
Andei de avião pela primeira vez já aos 18 anos, que na minha época ninguém ia para Disney no Jardim de Infância - eu ia para a casa da avó, no interior, o que era muito bom, e ia de trem, o que era melhor ainda. Adoro trem e, como vocês podem ver, até gosto de viajar, só não gosto de chegar.
Meu primeiro vôo foi para a Bahia. Na época eu era da UNE - aquela antiga União Nacional dos Estudantes, já ouviram falar? - e a UNE organizou um congresso internacional na Bahia. As delegações estrangeiras iam chegando e, depois de dois ou três dias de turismo no Rio, nós as despachávamos para Salvador. Como estudantes sempre foram muito organizados, às vésperas do congresso descobrimos que não havia mais passagens para o "pessoal da casa". Quem quisesse ir, teria que ir por conta própria. Eu não tinha conta própria - e, se tivesse, não teria fundos - mas tinha uma tese para apresentar no congresso e não podia ficar fora desta festa que, afinal, ajudei a organizar. Foi quando alguém me disse que a Varig podia ceder algumas passagens de cortesia.
- E quem manda na Varig?
- Rubem Berta.
Assim, lá fui eu para o prédio da Varig, creio que no centro, na Rua México, com a petulância dos 18 anos, procurar o presidente da empresa.
Não lembro de deixar identidade na portaria nem de me pespegarem crachás pela roupa, os tempos eram outros. Havia uma sala de espera e uma secretária, já entrada em anos, que me perguntou o nome e o assunto da entrevista.
- Diga ao Dr. Berta que Maria Helena Nóvoa quer falar sobre assunto pessoal e de seu interesse.
Li algumas revistas e fui levada à presença do poderoso chefão, sentado atrás de uma escrivaninha.
- E aí, Dona Maria Helena, qual é o importante assunto do meu interesse sobre o qual vamos conversar?
- Bem, eu disse que Maria Helena etc., queria falar sobre assunto do seu interesse. Seu, dela. Logo, meu. Na verdade, o interesse é meu.
- Ahn - ele meio que riu. - E do que se trata?
Expliquei a minha triste situação de desvalida "sem passagem", a perda para a cultura nacional se eu não apresentasse a minha tese e respirei fundo:
- Quero uma passagem para a Bahia. Ida e volta.
- Muito bem. - Escreveu qualquer coisa num papel. - Mas me diga uma coisa, Dona Maria Helena (e me chamou de Dona o tempo todo, apesar de ter idade para ser meu pai; talvez meu avô), esse congresso aí da UNE... é tudo comunista, não é não?
- Tudo.
- E por que a senhora vem pedir passagens para um burguês capitalista como eu e não para um mecenas comunista?
- Não existe, Dr. Berta. Todo comunista é duro.
- É verdade - concordou.
Não me disse que sim nem que não mas pediu informações sobre a minha tese e deu alguns palpites.
- Quando gostaria de ir?
- O mais rápido possível. As comissões vão se reunir amanhã.
- Minha secretária vai lhe dar uma resposta ainda hoje - e deixou o suspense no ar.
Logo depois que cheguei em casa, ligaram para avisar que as passagens estavam à minha disposição no aeroporto e no dia seguinte eu embarcava, me sentindo "apenas o máximo" porque não haviam ainda inventado a "rainha da cocada preta", o que descreveria melhor minha euforia baiana.
Não tive medo nem fiquei tensa, quando o avião decolou. Senti, desde aquele primeiro dia, que voar é das melhores sensações que existem. Não tirava o olho da janela e fumava um Minister atrás do outro, que naqueles bons tempos todos os prazeres eram permitidos a bordo.
Foi quando uma das aeromoças veio confirmar quem eu era:
- Maria Helena?
- Sou eu.
E, logo depois, começaram a servir o almoço numas bandejas todas bonitinhas, não era a esculhambação que é hoje. Serviram o avião inteiro e eu não fui servida. Aí a ficha caiu: minha passagem era cortesia, o que me tornava diferente dos pagantes. O lugar a bordo fora cortesmente cedido mas era a seco. Não haveria almoço para os "bicões".
Virei de costas para a festa de Babette e achatei o nariz no vidro da janela. Não estava dando a mínima. Conseguira o que queria e aquele almoço devia estar uma droga, mesmo. Mas estava com a sensação de que o avião inteiro me olhava, não tinha coragem de virar a cabeça e lágrimas inconvenientes começaram a pingar do canto dos olhos. Aos 18 anos, a gente chora de vergonha; acreditem.
- Maria Helena, por favor.
Foi com dificuldade que tirei o olho da janela. Uma aeromoça trazia um bandejão de prata. Uma outra colocava à minha frente um tripé com enorme balde de gelo e aquele também foi o primeiro dia em que tomei champagne. Francês, é claro. Na bandeja, entrada e prato principal do que seria o "menu" da primeira classe de vôos internacionais, já havia visto em filme: linho bordado e cristais, um cheiro delicioso e agora, realmente, todo mundo lá atrás olhava para mim. Uma inacreditável jarrinha de prata, uma rosa solitária e um envelope debaixo da flor. O cartão foi guardado alguns anos e não sei em que mudança se perdeu: "Se o seu lado vencer, poupe o meu pescoço. Bom congresso. Rubem Berta".
Nunca mais cruzei com este senhor, nas andanças da vida. Não agradeci mas também não esqueci.
E talvez por isso, adore comida de avião. Como e repito aqueles grelhados secos com arroz à grega, que detesto; não precisam me dizer que o vinho é de última, o refrigerante é aguado e a manteiga é margarina. Eu sei. Mas, lá em cima, eu gosto. Nunca ouviram falar que alguns lugares, coisas ou pessoas nos transformam?
Porque passei o mês de Fevereiro ao lado da floresta e passeei muitas horas de avião, porque tive por lá gula de gorda, o que é raro acontecer no nível do mar, porque alguns sonhos voltaram a ser recorrentes e quem sabe um dia eu os decifro, as férias foram ótimas: apesar de não terem sido exatamente férias e ter trabalhado quase sempre 14 horas por dia.
- O que é de gosto, regala a vida - minha mãe sempre dizia, para justificar esquisitices.
E meu pai, invariavelmente, completava:
- Ou, cada louco com sua mania.

Uma Transa Amazônica

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A classe média brasileira conhece a Europa, a América, às vezes alguma coisa do Oriente, mas não lembra de incluir a floresta amazônica nos seus roteiros turísticos. No entanto, é lá que estão guardados os últimos segredos. Lá, ainda podemos encontrar o mundo como o mundo era na época da Criação.
Os cenários mudam rapidamente, vistos da janela de um avião: grandes cidades são ultrapassadas em minutos. Mas, ao sobrevoar a floresta, os minutos viram muito tempo e o tapete verde não acaba - continua infinito.
Quando fui pela primeira vez, olhava da janela aquela verdura sem fim e lembrei da história - que li não sei onde - de um árabe das tribos do deserto que numa viagem encontra uma cachoeira, pára e não consegue prosseguir: primeiro fica mudo, depois senta numa pedra e só abre a boca para dar graças a Alá. Ao fim de algumas horas, e já cansados de emoção tão duradoura, seus companheiros perguntam quanto tempo pretende permanecer ali:
- Até Deus cansar.
Eu também não acreditava em tanto verde. Algumas palavras se tornam insuficientes na floresta, passam a descrever menos do que sempre descreveram e o verde é a primeira delas. Lá, o verde comporta tantas nuances quanto a neve dos esquimós - existem centenas de verdes.
Outro conceito que muda bastante, para quem sempre morou em cidades grandes, é o de solidão.
Aqui no Rio, ia a Búzios quando Búzios era "agreste", subia um morrinho, descia um morrinho, e caía na Ferradurinha às 5 da manhã para ver o nascer do sol. Era uma aventura e me sentia Robinson Crusoe na ilha deserta, com o marzão à minha frente. Esquecida de que a poucas centenas de metros, atrás do morrinho, existiam turistas menos madrugadores que em breve invadiriam a minha praia. A solidão no Sudeste não passa de uma centena de metros.
Lá, não. Se alguém pegar uma canoa e descer qualquer rio, em pouco tempo estará sozinho mesmo. Absolutamente só. E a sensação que a solidão absoluta provoca não é euforia aventuresca. É perplexidade.
Na região amazônica, além de termos a maior floresta do mundo, temos a maior massa de água doce do planeta e o maior rio do mundo. É engraçada, a reverência que fazemos ao que é "maior": fica patente a nossa mediocridade e dobramos os joelhos diante do maior templo, da maior orquestra ou da maior floresta. Sozinhos, no meio do verde e das águas, creio que todos se ajoelham para contemplar.
As Águas são o elemento primordial, anteriores à própria Luz. O Gênese afirma que "No princípio, a Terra estava informe e vazia e o Espírito de Deus pairava sobre as águas". No princípio, antes mesmo que Deus começasse a Sua criação, as águas já estavam presentes.
O elemento Água simboliza a emoção e emoção não é bem o sentimento piegas que o Roberto Carlos canta - emoção é o ato de mover.
As nossas emoções originam e movem todas as nossas funções. A avaliação intelectual que fazemos da realidade - que nos parece tão isenta e fruto de penosa e honesta meditação -, na verdade é mera adesão emocional a um ponto de vista.
Primeiro, experimentamos um sentimento, somos assaltados por ele e isto não tem nada de racional. Depois, e só depois, construímos um arcabouço intelectual que o justifique. Criamos nosso mundo racional apenas para fundamentar nosso mundo emocional.
E só conseguimos modificar um conceito arraigado se antes modificarmos a emoção que o arquitetou. Por isso - que pena! - nem livros nem mestres constroem o que pensamos: só nos dão melhores argumentos para continuar a pensar assim. Mas um amor pode nos modificar. Ou um mergulho em águas profundas.
Tirando as minhas férias, estou partindo para a Amazônia, aonde vou sempre que posso. O maior rio e a maior floresta do mundo costumam restaurar minhas finanças e isso é bom. Mas também transformam as minhas emoções, o que é melhor ainda.
Se é verdade que o pensamento está estreitamente vinculado ao ser - penso, logo existo; se não pensasse ficaria em dúvida -, provavelmente nos damos uma nova forma quando damos forma nova aos pensamentos.
Nunca sei ao certo do jeito que vou voltar da floresta mas acabo voltando, embora até o último minuto pense em ficar. E, como volto diferente do que fui, tenho depois um trabalho dos infernos para arranjar novas e consistentes teorias que justifiquem os macaquinhos no sótão que sempre trago de lá. Culpa das Águas.
Boas férias para todos e até Março!
Posted by Paula at 11:23 AM | Comments (3)

A mão autônoma

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Costumo vagabundear pelos canais da Net e acabo parando no Discovery Health. Não lembro de ter aprendido nada que possa contribuir para a minha longevidade saudável mas descubro algumas doenças incríveis. Foi no Discovery que fiquei sabendo do Síndrome da Mão Autônoma.
É isso: uma das mãos se rebela e passa a agir independentemente da vontade do seu dono. Ele - o dono - apaga a luz quando sai do banheiro e a mão autônoma acende. Ele se cobre na hora de dormir e a mão autônoma o descobre. Ele pega uma maçã e, assim que abre a boca, a mão autônoma a atira pela janela. A outra mão - a tutelada - costuma bater na mão autônoma, instigada pelo dono.
Me convenci de que o melhor regime para o corpo é a monarquia absolutista. Uma autoridade suprema deve comandar e todo o resto viver em vassalagem, sem direito a assembléias, constituições e demais invenções burguesas que só geram bagunça: tem que ser decreto-lei e vocês também concordariam se tivessem visto A Mão Autônoma. A liberdade enlouquece o sistema.
Se o seu corpo funciona direitinho, se você pega um cigarro com a mão direita e a esquerda - fraternalmente - já vai tratando de acender o isqueiro, se a mão direita pega a faca e a esquerda espeta o bife, se a esquerda coça o nariz e a direita continua no volante, você está de parabéns e pode dizer com orgulho que vive numa perfeita monarquia. Ou numa ditadura, como preferir - você instaurou a ordem e não será vítima da mão autônoma.
Estou desconfiada de que ando dando liberdades demais, lá em casa, e já tem alguém pensando em direitos humanos, quem sabe em revolução:
Passei o feriado carioca de São Sebastião no Copa D'Or.
Copacabana é um bairro que tem mania de dourado. Era o bairro da moda nos Anos Dourados. O restaurante do Copacabana Palace, o hotel mais conhecido da cidade, é o Bife de Ouro e seu salão de festas o Golden Room. E agora, mais caro do que o Copacabana Palace - lugar no qual jamais me passaria pela cabeça comemorar o piedoso feriado -, temos o Copa D'Or, onde acabei dando com os costados, premida apenas pelo amor materno.
Explico: todo mundo sabe que é naqueles dias - entre o fim do seguro e o telefonema do corretor, lembrando que ele expirou - que o nosso carro bate ou é roubado. Seguradoras só são empresas lucrativas porque os sinistros, metodicamente, acontecem neste pequeno intervalo, quando estamos descobertos.
Pois é. Foi o que aconteceu, num pequeno e dolorido incidente, que gerou uma pequena cirurgia, com pequeno período de internação, nada grave, tudo pequeno. Mas o seguro estava vencido e a conta - oh, Midas, que não és minha entidade protetora e não transformas em ouro aquilo em que toco -, a conta daria para bancar orgias que nunca fiz no Copacabana Palace, aquelas da Ava Gardner, com direito a jogar cadeiras pela janela. Era uma fatura indecorosa, faria corar um monge de pedra. Mas não são nada monásticos os donos do Copa D'Or, este hospital que pensa que é um hotel 5 estrelas.
E foi lá, na Tesouraria, na hora da saída, que se manifestaram sintomas assustadores.
Entreguei o cheque à elegante tesoureira, que parecia fugida de uma página de Caras, ela observou que eu havia subtraído muitos reais da conta e pediu-me que fizesse outro.
Desculpei-me, envergonhada, e preenchi mais um cheque, agora com o total correto, tive o cuidado de verificar duas vezes. Ela então me pede uma identidade e, já impaciente, torna a devolvê-lo - "as assinaturas não conferem" -, assinei com nome que não uso mais há quase dez anos e não é, evidentemente, o que consta da carteira. Percebi ali o ardil da minha mão autônoma, numa evidente manobra não só para embananar a compensação bancária mas também para imputar-me prática de falsidade ideológica ou qualquer delito grave. É uma meliante, esta mão revoltada com o sistema.
O terceiro cheque foi feito com o vagar de prova do Mobral. A manequim/tesoureira ditou-me tudo, inclusive meu nome, e eu e ela verificávamos cada campo preenchido, antes de passar adiante.
- Agora, tudo certinho - sorríamos uma para a outra.
Estendi-lhe, desprendidamente, aquele cheque pesado como barra de ouro e na mesma hora a minha mão o puxou de volta, num movimento insano e sem comando - juro que meu cérebro não deu esta ordem - deixando perplexa a manequim, que não sabia o que fazer com a metade rasgada que ficou em seu poder.
Aí, já com vontade de chorar por me descobrir portadora de doença grave, talvez incurável, fiz como o sintomático do Discovery - dei uns bons tabefes na mão autônoma e fui para um canto escondido preencher, pela primeira vez na vida, o quarto cheque para pagar uma só conta.
Já havia suspeitado da sua existência (a dela) ao reler textos recentes e constatar palavras intrometidas ou sem sentido, grafadas errado, nas quais nunca pensei mas "alguém" escreveu por mim - ela é não só desonesta como meio ignorantona. Eu mesma, sempre escrevo qüinqüênio com dois tremas; exceção com cedilha; sou cidadã exemplar, fanática pagadora de todas as contas e jamais assino cheques com outro nome.
No documentário do Discovery a mão terrorista quebrava tudo, maltratava seu dono, atacava pessoas, podemos até pensar em reação preventiva americana mas, evidentemente, era um perigo público aquela esquerda.
A minha não - é dissimulada, age nas sombras, numa conhecida tática de guerrilha ideológica, com a clara estratégia de revelar minha ignorância e malícia e me desmoralizar diante dos outros e de mim mesma, coisas da direita.
O feriado passado no Copa D'Or, com água gelada mas sem cafezinho, horas e horas sentada numa cadeira, serviu afinal para alguma coisa: desnudou o inimigo. Assim, estou precisando voltar à linha dura lá em casa, reafirmar os poderes absolutos e baixar um ou outro ato institucional para que nem pensem em botar as manguinhas de fora. Mando eu e estamos conversados.
Enquanto isso, as besteiras que aparecerem por aqui vocês já sabem quem foi.

A frivolidade como estilo de época

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Alguns livros e filmes mudam a nossa vida. São queridos como pessoas queridas e, como elas, inesquecíveis. Nos últimos tempos, só tenho lido e visto o que está fadado ao esquecimento. Dramas e tramas vazios de filmes, novelas e livros - a exibição da futilidade que norteia a vida e as escolhas - tornam-nos tão esquecíveis como alguns falsos encontros: passamos algumas horas agradáveis mas não somos transformados nem marcados para sempre, foi apenas uma experiência interessante. Talvez não haja nada pior do que ser uma experiência interessante para alguém, quer se trate de um livro, um filme ou uma pessoa.
Há três filmes na praça que devem ser vistos: o díptico "A Decadência do Império Americano" e "As Invasões Bárbaras"; e "Adeus, Lênin".
São bastante engraçados, embora não provoquem gargalhadas. Platéia e personagens se divertem com um humor para "iniciados" e os dois primeiros mostram o mundo acadêmico canadense - que parece ser igual a qualquer outro ambiente universitário do Ocidente. Pode ser que na China ou na Arábia Saudita seja diferente, não sei.
Os três filmes lembram A Vida é Bela, do Begnini, de alguns anos atrás, em que um pai transforma um campo de concentração num parque de diversões para que o filho pequeno não perceba que a vida quase sempre é feia. Só que, em 2004, são os filhos que fazem isso para os pais.
Nos filmes canadenses, os personagens são professores universitários em dois momentos - no final da década de 70 e vinte anos depois. Os mesmos atores, vinte anos mais velhos, dão credibilidade à trama. O que vai eclodir no segundo filme, já é antecipado no primeiro: todo mundo é inteligente, com boas referências culturais, porém as vidas pessoais são lamentáveis. Há dificuldade em lidar com o real e todos constroem um mundo de mentiras agradáveis para os parceiros amorosos e a família. Mas o fazem com muita graça, muito humor, e os filmes são recheados de "boutades" interessantes. Apenas interessantes. E eles seriam a elite intelectual do império americano em seu declínio. Seriam os "homens de conhecimento".

O conhecimento que não gera sabedoria, gera um mal maior - talvez - do que a ignorância. Produz a "vanidade", ou a vaidade: o atributo do que é vão. Do que é oco. Do que não tem densidade. O conhecimento ou constrói o sábio ou se esgota em exibições tolas e vaidosas de si mesmo.
Não é raro perceber, em intelectuais, a vaidade do que seu cérebro pode engendrar, sem se darem conta de que estão cultuando cada vez mais o vácuo em vez de cultuar o cosmo. Sacrificam para o nada - já que no nosso mundo o ofício do intelectual é sempre um "sacro ofício" - e se orgulham e se comprazem dos seus espirituosos ditos frívolos. Reduzem o real a um jogo de palavras, pretensamente inteligente, quando, quase sempre, o encontro com o real é mudo. Ao menos, lacônico. O real é a etapa final da Criação, em que deuses e homens têm papéis iguais.
Transitamos, cada vez mais, num universo vazio, recheado de imagens e palavras. Temos uma abundância jamais sonhada de possibilidades de habitar o vazio, quando a luta do homem, desde seus primórdios, foi organizar o caos e jamais mergulhar nele.
Num dos filmes, um filho - por amor ou caridade - compra meia dúzia de significados para o pai, antes que ele morra. Constrói ou aluga um cosmo, um universo organizado, para que ele não termine no nada. Em outro, um filho cria um ambiente também teatral para a mãe doente para que ela não encare a derrocada do seu mundo. Mais ou menos o que o italiano trêfego fez para o filho, num campo nazista - a generosa pantomima que encobre a realidade, o refúgio num mundo de mentira para camuflar a dificuldade do mundo de verdade onde a morte encerra o espetáculo. A vida só se mantém eternamente bela para quem tem 7 anos de idade.
A capacidade de suportar a dor parece que diminui, de geração a geração. Hoje, batalhões de médicos e terapeutas se revezam para nos fazer acreditar que é possível suprimir a dor de viver, como se alma fosse dente e pudesse ser anestesiada quando nos é arrancada. E quem viveu sem ter a alma esfacelada? Poucos nos dão a mão (e o sentido de "terapeuta" é apenas acompanhante) e nos acompanham na viagem pelo real. E real não é o apenas material; mas aquilo que comporta uma verdade. Então, real não é só o corpo físico. O amor é real. A fraternidade. A dignidade. Quem quer que os tenha conhecido pode atestar a sua realidade. Chegam a ter peso. E doem.
Nos filmes, o amor filial cria mentiras para os pais, na esperança, talvez, de merecer as mentiras dos seus filhos na hora de morrer e acreditar que sua vida valeu a pena. Na ilusão de vê-la mais bonita em retrospectiva, como um filme que pode ser editado. Vaidade das vaidades.
O oposto da realidade, da densidade, é a vacuidade - a vaidade.
Qualquer aposta - ou projeto, como se diz hoje - no vazio faz sucesso e encontra adeptos. Algum deus perverso, ou anti-deus, deve estar a rir bastante: o mundo se move na indústria laboriosa de organizar o inexistente. Multidões passam suas vidas trabalhando para construir a própria vaidade ou a alheia. Estamos em plena era da frivolidade, da leveza, e o que é denso saiu de moda. O que é pena, porque afinal só lembramos daquilo e daqueles que pesaram o suficiente para nos marcar.
Talvez só nos demos conta da pouca densidade do que fizemos na hora de morrer. E aí, um filho piedoso armará um circo para que nem na hora da morte a consciência possa chegar perto. Para que não haja a dor do confronto com a verdade nem nos momento finais.
E talvez uma cadeia infinita de vaidosos e filhos piedosos esteja se desenvolvendo debaixo dos nossos narizes: três filmes, ao mesmo tempo, dão o que pensar. Talvez sejamos em algum momento, elos desta cadeia. Mas, vaidosos - vocês sabem - têm nariz empinado. E não conseguem ver o que acontece debaixo mesmo do que lhes está na cara.

Saturno e o xis das questões

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A crônica é um texto datado, cronológico, sujeito ao tempo e ao seu deus. Mil assuntos pululando dentro da cabeça mas não dá para esquecer que é a primeira crônica do ano e Cronus - o velho deus do tempo - pede passagem. O tempo envelhece tudo que um dia ousou ser novo e torna crônicos o desejável e o indesejável. O primeiro mês do ano é presidido por Saturno ou Cronus.
O calendário oficial para o nosso planeta é o calendário Gregoriano, que conta o tempo em "anos do Senhor" a partir do nascimento de Cristo. Este calendário foi uma reforma do calendário Juliano - feita por Júlio César - que por sua vez reformou o calendário romano de Numa Pompílio, elaborado por volta de 700 A. C.
César oficializou um calendário já bem próximo da verdade astronômica do ano solar com 365 dias e 6 horas. Acrescentou-lhe dois meses que não existiam, Janeiro e Fevereiro, decretou que o ano começaria em primeiro de Janeiro e não mais em 23 de Março, no equinócio da Primavera, e, aproveitando a reforma e com vaidade leonina, mudou o nome do quinto mês do calendário antigo para Julho, homenageando a si próprio, que nascera naquele período. Anos mais tarde, Augusto faria o mesmo com o mês de Agosto. Algumas coisas são crônicas.
Dado a César o que é de César, também foi dado a Cronus o que lhe era de direito - abrir o ano.
Cronus/Saturno foi assimilado em Roma ao deus Jano - patrono de Janeiro -, o deus das portas e das passagens, o temível "guardião do umbral".
Thomas Bulfinch, que escreveu sobre as divindades do Olimpo, comenta que elas já não pertencem mais à Teologia mas à literatura e ao bom gosto. E, às vezes, ao território das curiosas coincidências. Jano (de janua, porta) em português seria Jânio e creio que não aconselharia este nome a ninguém já que é o "deus do olhar divergente", o que pode ser até simbólico mas pouco estético. É também o deus dos dois rostos - um olha para o passado, o outro para o futuro - e a primeira moeda cunhada em Roma trazia a sua efígie. Jano era adorado e temido.
Nas passagens do ano, somos todos tentados à retrospectiva e à perspectiva. Olhamos para trás, na tentativa de entender o que passou, e para a frente, na veleidade de adivinhar o que virá. O deus tutelar de todos os começos continua vivo dentro de nós.
Não sou muito otimista quanto ao que fizemos no passado. O crescimento da população e o aumento vertiginoso da miséria; a falta de água, já estrategicamente disputada pelas potências; o desemprego mundial; o lixo radioativo que se acumula e ninguém sabe o que fazer com ele; o aumento da temperatura média e suas já previsíveis conseqüências não me deixam muito tranqüila quando olho para a frente. Mas, democraticamente, entendo que a verdade deve estar mais próxima do olhar coletivo do que da perspectiva individual e tenho procurado nos jornais e na Internet o que mais preocupa os cidadãos nesta passagem de ano. Surpreendem-me, os cidadãos.
O fichamento e as digitais dos americanos que nos visitam, ocupam o centro das inquietações nacionais. Todos se pronunciam, apaixonadamente, e a grave questão é discutida até em editoriais.
O segundo lugar, aqui no Rio de Janeiro, tida como a cidade mais politizada do país, é ocupado por notícia local - comentando-a, cartas chegam em avalanche às redações. Nosso equilibrado prefeito decidiu acabar de vez com o costume incivilizado de urinar nas ruas e declarou a "guerra ao xixi". Alavancando a campanha, a frase: "Não foi essa a educação que sua mãe deu para você". Contra ou a favor, mobilizou a cidade inteira. De uns dias para cá, só conseguimos pensar em xixi.
E assim passamos a primeira semana do ano, período dedicado a Cronus, por tradição milenar. Em que seria, talvez, desejável que definíssemos o que corre o risco de se tornar crônico - dentro e fora de nós - e o que ainda tem saúde e flexibilidade suficientes para se modificar.
Como não é impossível chegar a um consenso sobre o melhor detergente para remover cheiro de xixi e graxa dos dedos, creio que nossos problemas têm solução e dá para augurar um felicíssimo 2004 para todos nós!

Jingle Bells

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Pois é, é Natal mais uma vez - surpreendentemente - embora caia sempre - monotonamente - no mês de Dezembro. O ano voou? Voou. Ficamos todos um ano mais velhos e não sei como isso acontece com tanta rapidez, minha mãe levou muito mais tempo para chegar à minha idade e, ainda ontem, eu tinha a idade dos filhos. Uma teoria, não matemática, afirma que o tempo está acelerando e acredito piamente nela.
Mas não quero falar do Tempo - fica para a próxima coluna - quero falar de presentes porque, afinal, Papai Noel existe.
Normalmente, dou livros de presente. Já me disseram que é o presente mais fácil de escolher e todo mundo sabe que detesto bater perna em shoppings. Não é verdade. Até demoro bastante na escolha, sento no chão, espalho pilhas ao meu redor e leio muitas páginas dos livros que vou comprar. É que consigo decidir, com boa margem de acerto, se o livro é a cara do presenteado.
Já repararam nas vendedoras de shoppings? Você escolhe uma blusa, ela simula um orgasmo e diz, arfando: "- É a sua cara!" - Quando compro qualquer presente, elas costumam garantir, com ar bíblico: "- Ah! Com certeza é a cara dele!" - Ou dela. Nunca fico tão certa. Na verdade, não sei, "com certeza", se calcinhas, cuecas, meias ou gravatas têm a cara das pessoas que amo. Também acho muito esquisito presentear com calcinhas, cuecas, meias, gravatas, carros ou hidroaviões. São bens personalíssimos, cada um deve escolher o seu, e não passam de mão em mão. Já o livro, não. Meus amigos conseguem ter cara de livro. Ou os livros conseguem ter a cara dos amigos. E ainda são emprestados, roubados, doados, usados por várias pessoas. Minha alma socialista gosta disso, sem dúvida.
E, como tenho prazer em dá-los, também me encanta recebê-los. Ganhei, ontem, um livro do meu amigo Domício Proença, professor de Literatura e Língua Portuguesa - dei risadas e divido com vocês. Se fossem calcinhas, estariam na gaveta e seriam propriedade privada.
Domício começa lembrando que "ortoepia" - orthos, correto + épos, significa linguagem ou estilo corretos. Por oposição à "cacoepia", em que ao citado épos se junta kakós (mau, imperfeito). "Cacoepia" é a linguagem ruim, que deve ser evitada. Em matéria de linguagem, sempre prefira o "orto" ao "caco" e isto não é uma piadinha interna, está lá, no Domício.
Devemos anunciar que vamos ao "aeroporto" (e não areoporto) e, dependendo das condições "meteorológicas" (e não metereológicas), viajaremos a Goiás. Devemos também esclarecer que só levaremos "bugigangas" e nunca bugingangas. Podemos, durante a viagem, citar um "aforismo" e falar em "cataclismo" mas jamais usá-los com "a" final.
E precisamos sempre ter cuidado com o cacófato, olha ele aí de novo. Dizer que "nunca ganhamos sequer um agradecimento", já retira o mérito da nossa boa ação.
Se gostar de frutos do mar, peça "caranguejos" sem "i" ao feirante.
E, embora se possa "depredar" (que significa destruir) com uma pedrada, devemos manter o erre no local correto. É esquisito mas é assim.
Ainda que prelados sejam pessoas dignas, nunca saúde um dignatário (horror!) e sim um "dignitário" da Igreja. Se quiser dilapidar seu patrimônio, pode fazê-lo mas, de preferência, com "i". Só na novela das 8 as pessoas delapidam o que têm.
Ao "exprobrar" o comportamento de alguém, tome coragem e exprobre pra valer - cheio de erres. E - gente! - o inimigo é "figadal", mesmo. Vem de fígado, órgão que processa a bílis, e não de fidalgo, como um amigo meu pensava: - Apraz-me ter inimigos nobres.
Como é Natal, podemos e devemos dar "mortadela" aos "mendigos", mas sem nariz entupido e nazalizações equivocadas. Ninguém merece ser mendingo.
E, por fim, não reinvindique nada junto a Papai Noel, ele fará ouvidos de mercador. "Rei vindicatione" (reclamação de coisa) é a origem de toda "reivindicação" correta.
Também é importante conhecermos, com clareza, o significado das palavras.
Canalha vem do italiano "canaglia", em cuja formação é fácil descobrir o substantivo "cane". Se não quiser ofender o melhor amigo do homem, use abjeto, cafajeste, escroto, ignóbil, ordinário, etc., etc. E poupe o seu cão de uma aproximação semântica com o canalha.
Comemorar não é comer junto, sinto muito. Logo, bebemorar é uma idiotice. "Memorar" é lembrar e comemorar é "lembrar junto". Só podemos comemorar com quem divide um passado conosco.
O "extático" se encontra em estado de êxtase. O "estático" fica paradão. Na hora da cantada, um "x" pode fazer toda a diferença.
Fezes? Só no plural. Na sua origem latina, "faeces" significava lama, lodo, elementos impuros. Os romanos chamavam os dias de céu limpo de "dias sem fezes". Daí para a metaforização, o passo foi curto. "Esgotar um cálice até as fezes" era sorver seu conteúdo até as últimas gotas ou os últimos resíduos. Não recomendo. Nem na prática nem na metáfora. E dizer que alguém é "enfezado" é afirmar que sofre de prisão de ventre. O que gera mau humor.
Para finalizar - como curiosidade - testículo é o diminutivo de "teste", testemunha. Logo, testículos são pequenas testemunhas. Pode haver algo mais lírico e, ao mesmo tempo, constrangedor?
Bem, este livro foi um dos meus presentes de Natal. Por isso, gosto de dar e receber livros - sempre se pode dividir com alguém. Se quiserem dar um útil e divertido presente, o título é: "Por dentro das palavras da nossa língua portuguesa". Autor, Domício Proença. Editora, Record. E aqui termina o meu momento Neide Aparecida.
Como não o comprei, não sei o preço. Mas, pelo tamanho, não deve passar de 25 reais. Meu amigo ganhará uns 2,50 por exemplar vendido, um maço de cigarros. Como não fuma - depois desta descarada propaganda e com os 5 leitores que arranjei para ele com esta crônica -, poderá ver Invasões Bárbaras. Se fosse editado pela Candide, teria 20% sobre o preço de capa e já dava para o chope depois do cinema. Escritores do Brasil, uni-vos em torno da Candide!
E dêem livros de presente! É uma atitude socialista. Ou aquariana. Ou uma ação entre amigos. Vocês escolhem.
Apesar do Natal estar chegando a cada ano mais depressa - e esta paranóica assiduidade tirar muito do seu encanto -, feliz Natal para todos vocês!

Um novo mito em Rotemburgo

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Por vício e ofício, leio jornais procurando os mitos embutidos nas matérias. Como nada é novo mesmo, sob o Sol, o que quer que aconteça já aconteceu. Identificar os símbolos e mitos nos eventos relatados nos dá a possibilidade de prever o final de quase qualquer drama.
As personagens mitológicas representam funções psíquicas, as relações que engendram entre si compõem uma dramaturgia da vida interior e o que acontece no interno e no inferno das pessoas me interessa muito mais do que o relato objetivo dos seus atos.
Na semana passada, li e não consegui esquecer esta matéria:
"Armin Meiwes, 41, colocou anúncio em websites procurando "jovens sarados entre 18 e 30 anos para abate".
Ele encontrou Bernd-Jurgen Brandes, 43, que aceitou se tornar sua vítima. Brandes viajou até a casa de Meiwes em Rotemburgo. Concordou em ser castrado, teve seu membro flambado e os dois o comeram juntos no jantar. Meiwes registrou o banquete em vídeo.
Depois do jantar, Brandes permitiu que Meiwes o assassinasse. Foi esquartejado e suas partes guardadas no freezer. Durante os meses do inverno, Meiwes comeu cerca de metade do corpo.
Foi quando Meiwes colocou um segundo anúncio e começou a entrevistar novos candidatos. A maioria respondeu ao anúncio acreditando se tratar de uma fantasia sexual mas alguns perceberam que se tratava de uma proposta séria de canibalismo e foram à polícia.
Meiwes alega, em sua defesa, que tudo foi feito com o consentimento da vítima. E tem algumas queixas, Brandes mentiu para ele: disse que tinha 38 anos quando, na verdade, tinha 43."
O desejo de comer carne humana me levou, de saída, a pensar em comunhão. O devoramento do corpo é sempre uma "incorporação" (claro!) de poderes e atributos e algumas culturas praticaram a antropofagia de maneira ritualística: jamais comiam o inimigo covarde, o que se come passa a fazer parte de nós.
Osíris, deus egípcio identificado com o Sol, simboliza a atividade vital: a morte e a ressurreição. Esquartejado por seu irmão Set - seu lado escuro, a sombra do Sol - é ressuscitado por Ísis e representa a vitória eterna da vida sobre a morte, à qual toda a vida é destinada.
Na comunhão, nos é oferecido o "corpo de Cristo" e "hóstia" era o nome dado à vítima imolada aos deuses como oferenda. Era o corpo do sacrifício. No cristianismo, este mistério está representado na Eucaristia e mistério significa "trabalho sagrado".
Deve dar um trabalhão reduzir um corpo humano a bifes. Guardá-los no freezer também me pareceu muito prático e pouco ritualístico.
O pênis é a potência geradora e, sob esta forma, é venerado em diversas religiões. O poder fálico fundamenta, até na Cabala, tudo que está vivo e a nona Séfira - Yesod, não por acaso a geração e o fundamento - sustenta a Árvore da Vida.
Urano, deus do Céu na teogonia grega, deitava-se sobre Gaia, a Terra, e gerava filhos sem parar. Gerava monstros, titãs, hecatônquiros, e depois os achava feios demais e os atirava ao Tártaro. Símbolo da fertilidade criadora indiscriminada, foi castrado por seu filho, Saturno. Da espuma ensangüentada do membro uraniano caído no mar, nasceu Afrodite - deusa da ordem e da forma harmoniosa. Deusa cultuada pelos artistas, que conhecem a necessidade da forma limitando a fertilidade infinita da inspiração: formar é dar limites.
A castração é ato simbólico, indispensável à realização da obra artística - o trabalho humano dando forma à inspiração divina.
Pensei primeiro em Meiwes como um artista. Mas, que diabo, os dois malucos flambaram o poder fálico - nem sei se com conhaque - e isso eu nunca vi em parte alguma!
Ler o jornal é fazer uma viagem por símbolos e mitos. Elas - as personagens das tragédias do dia-a-dia - e nós - que nos consideramos tão mais sãos e menos trágicos - na verdade somos a matéria de que os mitos são feitos.
Mitos são eternos e se repetem e se desdobram na história da humanidade, em atos de santidade e sanidade e em atos de crueldade, inexplicáveis mas miticamente inteligíveis.
As histórias míticas não me surpreendem. As não-míticas não me interessam. Mas alguém pode me explicar, por favor, o que está acontecendo de novo em Rotemburgo?
Apesar da intimidade com mitos e símbolos, não estou conseguindo estabelecer conexões que se sustentem e, para ser honesta, não estou entendendo mais nada.

O Primeiro a gente não esquece

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Esta coluna foi escrita no dia 21 de Novembro. Como todas as anteriores, foi escrita de madrugada, em cima da hora, em cima da perna, etc. E, também como todas as outras, foi mandada por e-mail para a minha editora, conhecida nestas plagas por Sinhá.
Sinhá não a publicou no dia 21. Estranhei mas não comentei nada - cronista é cronista, editor é editor. Na semana seguinte não mandei coluna nova, havia uma em estoque, nada me foi pedido e nada foi publicado. Pensei cá com meus botões: fui demitida.
Como já tinha me habituado ao mundo blogueiro, pensei também em pedir emprego em outros blogues, quem sabe o Polzonoff, mas dificilmente iria achar outro sítio tão democrático; e havia os colegas de redação, o Chefe, Dr. P., Bia; e os amigos que comentam; e era bom dar uma passada diária em Epinion para estar com eles; e, afinal, sempre entreguei o meu trabalho em dia, concordo em que às vezes as crônicas eram bem ruinzinhas mas sou cronista amadora e com o tempo podia melhorar, quem sabe, e já estava chorando lágrimas sentidas em cima dos meus botões.
Hoje, Sinhá me ligou, combinamos um cineminha, vamos ver os bárbaros amanhã, e, en passant, perguntou:
- Vai mandar a coluna?
- Já mandei, há quinze dias.
- Não recebi nada, pensei que você tivesse tirado férias.
- Pensei que tivesse sido despedida.
- Oh!
- Oh!
Eu e Sinhá temos em comum a famosa Lua em Câncer, que considera de mau-gosto cobrar o que quer que seja de alguém ou discutir assuntos desagradáveis. Quem possui esta britânica Lua, pode chegar ao divórcio sem nunca discutir a relação. Perde-se a parceria mas jamais a elegância.
Assim, queremos comunicar - principalmente aos nossos botões - que estávamos dando um tempo mas resolvemos tentar de novo e seguimos juntas até que a AOL nos separe.

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O Primeiro a gente não esquece
A turma da casa lançou seus livros na semana passada, numa festa cheia de inovações. A mais importante: aboliu os famigerados autógrafos.
Pessoalmente, lamentei. Como filha de livreiro, conheço o valor de uma primeira edição autografada. Compra-se um livro hoje e podemos legar um apartamento para netos ou bisnetos, nunca se sabe.
Mas, para os autores, foi sábia decisão.
Meu primeiro autógrafo foi para um jornalista, Pedro Gomes. Editorialista d'O Globo, texto erudito e primoroso, éramos conhecidos recentes, de encontros em casa de amigo comum. Sua formação literária era a dos velhos tempos - brasileira, francesa e portuguesa - e era anglófobo assumido: detestava tudo que viesse escrito na língua dos bárbaros. Dava como exemplo irrefutável o belo som de lua, luna, lune dos latinos, que engendrou tanta poesia. E o mugido saxão - moooon... Pedro não sabia nada de inglês por aversão convicta.
Quase obrigado por amigos, matriculou-se num curso só para ter noções gerais, poder ler um texto simples e perder a cisma.
- É língua fácil, de aprendizado rápido, qualquer um fala. Verbos sem desinências pessoais, construção sintética, o texto fica conciso como você gosta.
Dias depois, Pedro chega à redação, triunfante:
- Sabem como é anteontem, na língua dos bárbaros? "The day before yesterday"!
Largou the book on the table e voltou para Victor Hugo. Gostava da objetividade contundente dos grandes escritores e implicou com o título do meu livro.
- O título já faz parte da obra e adianta o que vamos ler: Memórias do Cárcere, O Crime do Padre Amaro, O Corcunda de Notre-Dame. O que é o raio de um teorema do espelho?
- Vai sair em 15 dias, Pedro. Leia que você descobre.
Ele resmungava e resolveu levar à minha casa Rachel Jardim, sua amiga, que havia escrito O Inventário das Cinzas. Pela péssima qualidade do título, achou que teríamos afinidades.
A reuniãozinha foi agradável, dávamos boas risadas, Pedro tinha histórias engraçadíssimas de políticos e famosos das últimas décadas e contava seus casos com propriedade e elegância, apesar de não conseguir distinguir os cinzeiros dos potinhos de castanha-de-caju; não inventariava as cinzas. Quando se levantou para ir ao bar renovar a dose de uísque - era grande bebedor de uísque - foi precavidamente avisado de que entre as duas salas havia um pequeno degrau.
- Estou vendo - afirmou seguro; e cruzou o traiçoeiro Rubicão.
Estabacou-se na volta, desabando em corpo e copo. Descobri, naquela noite, que minhas afinidades eram com ele e ficamos amigos - Pedro era um atolado nato.
Uma noite, em frente à casa do Otto Lara - que morava aqui no bairro e hoje tem até estátua na pracinha - perceberam possíveis assaltantes, no que estavam a sair do carro. Otto correu, entrou e bateu a porta. Pedro saíra pelo lado errado, como todo distraído, e ficou do lado de fora. Começou a esmurrar a porta:
- Abre, Otto!
Otto, que já tinha virado peça de Nelson Rodrigues - Bonitinha mas Ordinária ou Otto Lara Rezende -, de quem Nelson dizia que, como mineiro, só era solidário no câncer, certamente tinha lá suas solidariedades mas não em assaltos. Pedro pedia para que abrisse a porta e Otto, lá de dentro, só dizia:
- Pedro, estou contigo e não abro!
Nelson também afirmava que o Otto tinha uma loja de frases - modelos adequados a todas as ocasiões - e foi ao som de uma boa frase que Pedro foi depenado na porta da casa do Otto. Continuaram amigos.
No dia da minha primeira noite de autógrafos, no que chego ao hotel onde se realizava o evento, encontro o Pedro. Eu, anfitriã, uma hora adiantada por gentileza. Pedro, destrambelhado, porque confundiu o horário e já com o livro debaixo do braço. Ficamos conversando.
Ele ria do aparato-para-bem-impessionar: roupa nova, cabelo e maquilagem profissionais, caneta preciosa presenteada por íntimos orgulhosos - daquele dia em diante eu seria mulher pública, que dá autógrafos.
Levei quatro ou cinco frases - adrede preparadas - inteligentes, concisas, humoradas, que sofrendo pequenas variações serviriam para as centenas, quiçá milhares, de dedicatórias que faria naquela noite. Uns e outros foram chegando e abri o livro do Pedro para começar a função. Branco total. Por mais que as convocasse, nenhuma das frases se apresentava à mente e olha que estavam bem decoradas.
- Pedro, esqueci.
- O quê?
- As dedicatórias improvisadas.
- Ué, inventa.
- Não consigo. Estou burra.
Atrás dele, começou a se formar uma pequena fila.
- Escreve qualquer coisa, agradece, sei lá. Ainda sabe assinar seu nome?
Não dava mais para adiar, nosso papo demorado já estava inconveniente.
- Vou escrever qualquer coisa. É o primeiro autógrafo que eu dou na vida, sabia?
Quando devolvi o livro, ele coçou a cabeça e comentou:
- Com este título e a besteira que você escreveu, acho que não vou passar da primeira página.
Nunca soube se Pedro leu ou não o Teorema do Espelho, ele fez questão de manter o suspense, e durante a noite inteira o que saiu foi mais ou menos no mesmo lamentável nível. Mas me dei conta, naquelas horas de horror, de que - com o título e a dedicatória - compomos a primeira página do nosso livro. Talvez a mais importante, porque conquista ou afasta o leitor para sempre. A primeira página não está lá dentro, no nosso cuidado texto, como gostamos de imaginar: é mesmo a folha-de-rosto, com título e autógrafo.
Durante algum tempo, Pedro Gomes me gozou:
- Um título hermético, que induz à reflexão. E embaixo, com letra trêmula: "Pedro, que bom que você veio!". Qualquer coisa nunca é mesmo coisa que preste.
E finalizava com uma nova teoria, entre goles de uísque:
- Todo escritor deve começar sua obra pelo segundo livro.
Lampert e Polzonoff - jovens sábios - vocês não sabem do que se livraram.

E La Nave Va

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O navio britânico Aurora saiu de Southampton, em 20 de Outubro, para um cruzeiro pelas Ilhas Gregas. Seus 1.800 passageiros pagaram entre US$ 1.500 e US$ 9.000 pelo simpático programa.
Uma virose do aparelho digestivo, altamente contagiosa, afetou mais de 500 passageiros, parte da tripulação, e as autoridades de Atenas, Dubrovnik e Veneza negaram autorização para o desembarque dos intoxicados.
O vírus não é grave mas causa vômitos e diarréia - quando uns se recuperam, outros caem contaminados. Sem porto que a receba, a nave segue de volta para casa.
Todos os navios de turismo se parecem e todos os cruzeiros são o mesmo cruzeiro. Seja nas Ilha Gregas ou descendo o Nilo, dentro de um navio você está em Miami.
Há uma conspiração internacional para tornar todas as viagens iguais, com o mesmo gosto, a mesma música, o mesmo cheiro.
Profissionais do entretenimento estão sempre tentando inserir alguém em gincanas, ginásticas, danças, sorteios, corridas de saco e vamos-ver-quem-consegue-botar-o-rabo-no-burro. Todo cruzeiro é deprimente.
Antes do ansiado fim, rola um baile à fantasia. Se você não quer se vestir de Minnie e prefere olhar o mar, perguntam se está deprimida e é proibida a depressão a bordo. O buffet é um quadro naïf, não há penumbra nem meios-tons, a moldura das travessas não combina com o que está dentro e é tudo agressivamente colorido: cascatas de camarão, peixes inteiros, perus laqueados invariavelmente enfeitados com cereja e muita maionese - dá nojo ao final de dois dias -, deve ter sido a maionese, a vilã sempre é a maionese, e qualquer programa de classe-média acaba na Disney com muita maionese.
Mas as águas pertencem a Netuno - principalmente as do Egeu - e Netuno talvez tenha horror a Mickey e Minnie.
Na partição dos três mundos, couberam a Júpiter o Céu e a Terra, a Plutão os Infernos e a Netuno as Águas.
O reino da águas é o abismo misterioso de onde a matéria emerge e a letra Mem é a raiz cabalística de Mãe e de Mar - as Águas são berço e túmulo e suas leis são diferentes das leis da terra, do céu e do inferno.
Qualquer barco é território de ficção porque o que bóia nas águas não pertence mais ao mundo ordenado e lógico da realidade - Netuno é o deus das profundezas onde tudo é ambíguo, onde as formas se dissolvem, as cores se fundem, onde a loucura é possível e a loucura interessa muito mais ao artista do que a lucidez previsível. As histórias loucas nos remetem ao mundo de Netuno.
O Holandês Voador era um navio condenado a vagar por toda a eternidade com uma tripulação fantasma - foi lenda, antes de ser ópera de Wagner.
Ulisses demorou dez anos na viagem de volta à Ítaca, seus caminhos deixaram de ser os duros e coerentes campos de Tróia e se confundiram numa jornada fantástica de sereias, monstros, feiticeiras que transformavam homens em porcos e legiões de afogados.
O Pequod navegou 40 anos conduzido pela obsessão de Ahab a perseguir pelos mares Moby Dick, a baleia branca que levara sua perna, e só sobrou Ismael para contar.
Tudo que é misterioso e perigoso é banido para o reino de Netuno - o mar é o grande esgoto onde são despejados os indesejáveis. Na Idade Média, navios desciam os rios recolhendo os loucos e os pestilentos de cada aldeia e cidade para morrer no mar. O mar é o inconsciente e joga-se no mar os dejetos rejeitados pelo Céu e pela Terra.
A filha do meio - a escritora da família - tem um conto fantástico sobre episódio real: "No momento em que escrevemos, um iate luxuoso percorre os oceanos do globo. Traz bandeira que não é de país conhecido ou desconhecido. Tem a bordo um certo número de guardas armados pois muitas vezes tentaram arrombar o cofre-forte do capitão. Esse cofre-forte contém um livro perigoso cuja leitura torna louco quem o lê e se chama Excalibur". Em "Livros Malditos", Jacques Bergier fala de Ron Hubbard, criador da Dianética e da Cientologia, que inspirou este conto.
Hubbard tinha lembranças de uma grande "civilização galáctica" da qual dizia que somos uma colônia perdida. Reuniu estas lembranças num livro que chamou de Excalibur e o deu a ler a alguns voluntários. Todos ficaram loucos e a informação que se tem é de que continuam internados. Charles Manson - assassino de Sharon Tate - um cientólogo declarado, continua preso. Hubbard, desde então, navega com seu livro maldito e não se sabe se já morreu. Até livros podem ser netunianos.
Não adianta querer transportar Miami para o reino de Netuno porque em pouco tempo o sonho americano será helenizado: o que bóia sobre as águas corre o risco de sair do real e virar tragédia grega.
Não há "happy end" no território deste deus, há terror e compaixão para provocar a catarse e catarse quer dizer purificação, purgação. Netuno é o deus das vísceras, o que vira as entranhas pelo avesso.
E que, às vezes, até arrisca um ou outro gesto de humor. Como naquela manhã surreal e inesquecível - em que o Solana Star desovou no mar latas de maconha do tamanho de latas de Neston, para se livrar do flagrante, e o louco deus as fez boiar e depositou na areia para o Carnaval da moçada, onde milhares de jovens as recolheram diante de impotentes e estarrecidos policiais. Fellini não faria melhor.
Ou a intoxicação-geral do navio inglês, num tragicômico processo catártico - ou purgativo -, condenado a vagar sem porto que o abrigue, transformando a erudita viagem pela civilização minóica num literal cruzeiro de merda.

Crônica de uma morte anunciada

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Um amigo está no corredor da morte, esperando a vez.
Mas não está conformado, não. Interpõe todos os recursos cabíveis para adiar a execução. É jovem, ainda não tem 40 anos, filhos pequenos, mulher dedicada, esses detalhes que engendram a pergunta de revolta: - Por quê eu?
Tudo começou no ano passado, com um stress.
O stress é um curioso estratagema do organismo para lidar com uma situação-limite. É um sofisticado mecanismo de sobrevivência. Imaginem o homem primitivo diante de um urso ou um leão. Assim que o perigo é localizado, o sábio corpo começa a fabricar uma química de emergência, preparando-se para lutar ou fugir. Em segundos, o nosso primitivo tem hormônios despejados em abundância para correr do leão, subir em árvores, não sentir sono, fome ou cansaço e seus sentidos ficam muito mais alertas do que em estado normal. Isto é o stress - a resposta criativa do corpo à situação de exceção.
Mas vamos imaginar que o homem continue a correr do leão por 2, 3, 4 dias. Seu corpo passa a fabricar anestesia. Sem sentir o alerta da dor, o homem pode dar a arrancada final ou sofrer menos, se o leão o alcançar. Novamente, a sabedoria do corpo trabalhando a seu favor.
Meu amigo não correu de um leão, correu atrás de uma cenoura. Mas correu muito. Quando esta situação que deveria ser de emergência se torna crônica, o sábio químico que habita em nós começa a produzir substâncias para se matar. A longo prazo, aquilo que pode nos salvar nos mata. A batalha está perdida mesmo e ele não deve sofrer nas garras do leão. O homem cai morto.
Meu amigo também despencou do alto do seu stress. Era forte, saudável e não sentia nada - claro, estava anestesiado. Não caiu morto, foi socorrido a tempo e levado para um CTI de onde saiu com os olhos esbugalhados: - Por quê eu?
Temos conversado bastante, ultimamente. Os amigos o evitam - ninguém gosta de interlocuções com a morte - ou fazem visitas rápidas, salpicadas de frases hipócritas: - Cara, você vai sair dessa! - Não vai, ele está no corredor.
No corredor, aliás, estamos todos, a diferença é que ele sabe que está lá e nós fingimos que não sabemos.
Eu e o meu amigo falamos sobre morte. Quando lhe perguntei se tinha medo de morrer, ele me agradeceu. E começou a tentar entender seu medo. Conseguiu separar a pena de morrer, a preocupação com a família e o medo propriamente dito. O medo da morte não é o sentimento principal - ele tem mais medo de como vai morrer.
Andou tendo sonhos recorrentes com armaduras e escafandros e teme ficar preso dentro do corpo. Sente-se, hoje, um provável prisioneiro despojado de direitos básicos.
Pensou em deixar um documento para a mulher reiterando, enquanto está perfeitamente lúcido - e está -, que não permite que "façam todo o possível". Esta possibilidade o apavora.
Gostaria de morrer em casa - "como um patriarca bíblico" - cercado pelos filhos, com algum ritual religioso e podendo dizer as últimas palavras, aquelas que justificam uma vida e, quem sabe, fossem mais importantes para ele do que para quem as ouvisse. Gostaria de uma morte decente, só isso, mas desconfia de que morrerá entubado e mudo, no meio de estranhos. Sem uma reza ou alguém que ame segurando a sua mão. E, pior, talvez condenado a ser um morto-vivo por algum tempo.
Sabe também que ninguém terá poder sobre ele - desde que entrar num hospital ficará à mercê da instituição - e ninguém dará mesmo o piedoso chá-da-meia-noite. Ele tem senso de humor.
- Tenho mais direitos sobre meus bens do que sobre a minha vida - lamenta. - Ela não me pertence e não posso dispôr de mim mesmo como entender.
É uma verdade perversa. Se a morte vier não para matar mas para, primeiro, encarcerar - e ela às vezes age assim - paralisando o corpo e deixando a consciência viva e presa dentro dele, ele precisaria de um amigo.
- Não me olhe com esse olho - eu digo. - É crime!
Ele desmonta o olhar pidão e damos boas risadas.
Mas, que droga, ele é meu amigo. Como está no corredor, pensa muito sobre isso e entende que a morte rápida e indolor é direito de todo condenado.
Eu penso como ele mas não posso fazer nada e amanhã os filhos e amigos não poderão fazer nada por mim, afinal, estamos todos no corredor e todos carregamos uma bomba-relógio-sem-ponteiros, não sabemos quando, só sabemos que detonará, embora as pessoas costumem usar o condicional quando falam da explosão: - "Se um dia explodir..." - explodirá, estejam certos.
O destino do meu amigo é um destino banal, banalíssimo. Está sendo obrigado a olhar para ela, a "indesejada das gentes", o único enigma que é certo desvendarmos enquanto vivos.
O que está suportando também não é especialmente cruel, quase todos os viventes passaram ou passarão pela experiência. Cruel, talvez, é o que fazem com ele as eficientes equipes de branco, as equipes togadas e tantas outras equipes, meu Deus, que supõem possuir sabedoria maior do que a do seu corpo ou seu desejo.
São alguns artigos num código - votados displicentemente, sem nenhuma reflexão sobre a fraternidade - que transformam o amigo em homicida.
Quem quer que já tenha sacrificado um animal, sabe como são as últimas horas. É uma injeção e fica-se junto. Há um tempo para as lágrimas da despedida e a lembrança dos dias da chegada. Há um tempo para o agradecimento mútuo, o colo e o afago.
Cruel é não podermos fazer pelo amigo o que fazemos, amorosamente, por um cachorro.

Apis Regina

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Os problemas sempre começam com o meu tédio. Não é um tédio existencial, longe disso, a existência não me angustia, nem a minha nem a alheia, não acordo perguntando para o espelho por que existe o ser e não o nada e não sofro de náusea. É mais o cansaço da reprise, a eterna sensação de dejá vu - consigo tê-la vendo filmes e peças que nunca vi e nos papos sociais com a maioria das pessoas, prefiro um bom livro a quase todos os convites. Agendo meus dias, principalmente os dias livres, com um critério quase automático: - tá bom, garantem que vai ser divertidíssimo, mas o que pode acontecer de surpreendente? - Quase sempre a resposta é: nada. E, quase sempre, dou um jeito de pular fora.
Com as pessoas amoráveis, não - qualquer restaurante é bom, qualquer caminhada na praia é um programa, não fazer nada juntos também é ótimo -, não reivindico surpresas destas pessoas, até prefiro que continuem como sempre foram.
A opção preferencial pelo imprevisto torna qualquer locomoção um arrependimento e poucas tentativas fora de casa conseguiram me encantar e vencer o meu tédio.
Beber ayahuasca na selva de Tupinambarana, procurar uma frase escondida há 400 anos nas muralhas de Ávila, esperar um dia inteiro em Congonhas do Campo para ver Zé Arigó enfiar uma faca no olho de alguém, passar meses vasculhando de cabo a rabo uma rua imunda da Lapa, atrás de um número inexistente que apareceu num sonho, e descobrir o prédio num alfarrábio da Biblioteca Nacional, foram experiências inesquecíveis. Mas quase todas as outras foram esquecíveis e execráveis.
Então, não é de admirar que não vá a médicos. Estão sempre no mesmo endereço, com a mesma salinha de espera, a mesma música, as mesmas revistas e a mesma enfermeira com sua lixa de unhas. Também porque médicos são detetives natos que nunca acreditam no seu depoimento honesto:
- Não sinto nada.
- Nunca se sabe, vamos investigar.
- Mas eu sei quando sinto ou não sinto.
- Melhor checar.
Como sou otimista e acredito que quem procura, acha, prefiro não freqüentá-los. Mas, há um ano e pouco, fui a um e ouvi estranho diagnóstico:
- LER. Dá em quem escreve (encantado com a própria piadinha). Digita só com estes dois dedos?
- Só.
- É como joelho de jogador de futebol, não tem jeito, usa demais, estraga mais cedo que o resto.
- E o que se pode fazer?
- Pendurar as chuteiras (outra gracinha). Dói?
- Não.
- Mas vai doer, a degeneração é rápida. Precisa de calor, fisioterapia com forno.
Saí do consultório do abutre temendo que os dedos já não segurassem mais as folhas de exames que não fiz e o endereço do fisioterapeuta a que não fui: seriam 3 vezes por semana e o meu tédio não consegue imaginar o mesmo programa - 3 vezes por semana - por mais de uma semana.
Foi quando uma amiga fez uma matéria para O Globo sobre um apicultor que curava tudo ou quase tudo com picadas de abelhas. Quis detalhes e ela é pródiga em detalhes. Ao final, eu já estava convencidíssima: - Será que cura Lesão de Esforço Repetitivo?
- Já curou esclerose múltipla, artrite e AVC. LER é brincadeira.
Qualquer trabalho que mexa com o simbólico ganha meu crédito de saída e a abelha é dos símbolos mais impressionantes. Em hebraico, abelha é Débora e a raiz Dbr se refere ao verbo, à palavra. Abelhas teriam pousado sobre os lábios de Platão, recém-nascido, e lhe conferiram eloqüência e inteligência. Para os egípcios seriam as lágrimas de Rá, o deus-Sol, derramadas sobre a terra. Em Elêusis, as sacerdotisas eram chamadas de abelhas, na Idade Média simbolizavam o Espírito Santo. Napoleão inverteu a flor-de-lis dos Bourbon e fez da abelha o seu emblema, ela também é poder.
A terapia se completa com o uso de pólen e geléia-real. A geléia real é o que torna a Apis Regina diferente da Apis Mellifica. A rainha é uma abelha igual às outras mas que só se alimenta de geléia real, por isso vive 40 vezes mais do que as operárias - que se alimentam de mel - e desenvolve fertilidade assustadora, daí ser a mãe da colméia inteira.
E assim na semana passada, sem nenhum tédio, lá fui eu ao encontro do apiterapeuta que não tem salinha de espera, esperamos num jardim com água e cafezinho, fuma-se à vontade e os outros abelhados garantiram que com 7 ou 8 sessões eu estaria definitivamente boa.
Estendi as mãos, um pouco tensa, ele pegou com uma pinça a abelha numa caixa de vidro, deu uma apertadinha na cintura dela e ela picou. Doeu pra burro. Queimou. Olha o calor que o fisioterapeuta queria, quando pensava em colocar meus dedos no forno. Um dedo, outro. Como estávamos os dois com a mão na massa, ele não parou. Cinco em cada mão. Dez ao todo.
- Melhor não digitar, hoje nem amanhã.
Nem podia, naquela noite as mãos dobraram de tamanho e quem digita com luvas de box? Deu febre e tremedeira. Liguei para uma amiga médica, nada simbólica, e me preparei para o sermão:
- Espasmo de glote, tonteira, vista turva?
- Não.
- Perdeu os movimentos finos?
- Os grossos também.
- Se notar dificuldade para engolir, chama uma ambulância. Anafilaxia mata.
- Não seja dramática.
- Toma um anti-histamínico.
- Já estou.
- Toma juízo, também.
E desligou na minha cara.
Bem... passei o fim-de-semana observando, orgulhosa, a reação napoleônica do meu corpo frente ao veneno invasor. Fiquei uns cinco dias sem escrever nada, o que não me fez falta, o tempo sobrou. Li dois livros que havia comprado e um romance emprestado do Furio Monicelli.
Mas continuo uma férrea defensora de terapias simbólicas - tudo é imprevisível e nada é tedioso. Junto com geléia real, pólen e própolis, não serei mais uma operária, serei uma Regina.
Se também não responder aos comentários à esta coluna, compreendam e não se ofendam, consigo lê-los porque os olhos estão preservados, o apiterapeuta não tem planos para eles: é que quinta-feira é dia de abelhas e lá estarei, novamente, contra todos os conselhos. Elêusis, Espírito Santo, Platão, o Verbo, não dá pra resistir.
E, como vocês sabem, pico vicia.

Obesidade Mórbida

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A obesidade aumentou, nas últimas décadas, e nos países mais ricos já é caso de saúde pública. O pior é que o obeso, apesar de comer muito, é mal alimentado. Atribui-se este problema à fast-food.
As redes de fast-food obedecem a alguns princípios: pequena variedade, paladar padronizado e facilmente reconhecível, programação visual para cada produto.
Em qualquer lugar se come o mesmo Big Mac e as pessoas os comem todos os dias. Monótono, não? Mas a monotonia contribui para a rapidez - engole-se mais rápido o que já se conhece e não oferece surpresas. Quem não gosta de um Big Mac?
A diferença entre a fast-food e a comida elaborada é que esta é uma aventura, tanto para quem a faz como para quem a come. Todo bom cozinheiro sabe que não se repete a mesma receita, há um fazer pessoal de cada vez e experimentação constante: gastronomia é arte. E, porque é arte, não existe gastronomia em rede.
Depois da Segunda Guerra, criaram-se as primeiras escolas de jornalismo no mundo, que passaram a atrair pessoas que gostavam de escrever. Nestas escolas eram ensinadas técnicas de redação para jornal. Tal qual nas redes de fast-food, há um paladar médio que deve ser atendido, pouca escolha e um molho previsível.
Os editores recomendavam um livro a cada adjetivo censurado - "o que o senhor acha da vedete assassinada, coloque no seu livro, seu Ananias" - e Graciliano Ramos, quando era revisor do Correio da Manhã, depois de passar o lápis vermelho num texto, escreveu na margem para o repórter iniciante: - Outrossim é a puta que pariu.
O texto jornalístico passou a ser seco, curto, substantivo. Qualquer palavra que não fosse de uso corrente ou qualquer estilo que pudesse identificar o autor eram podados em nome da objetividade e da redação uniformizada. Definiram-se dois textos distintos, o jornalístico e o literário.
Mas nem sempre foi assim. Dostoievski, Victor Hugo e Machado de Assis escreveram romances em folhetins diários ou semanais - acompanhados por milhares de leitores - e só depois os editaram como livros. Parece que era possível à massa consumir a boa letra.
Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão mandaram cartas anônimas durante meses ao Diário de Notícias de Lisboa dando conta de crimes misteriosos ocorridos na Estrada de Sintra. Escreviam alternadamente e cada um deles procurava deixar o parceiro encalacrado para continuar a trama. Quando ao final os dois escritores se revelaram como os autores das cartas, O Mistério da Estrada de Sintra já tinha o sucesso editorial garantido.
A preocupação, para com tudo que é dirigido às massas, é facilitar para aumentar o consumo. Mesmo os textos assinados dos jornais guardam um tom sempre leve, temas atuais e digeríveis, vocabulário pobre para ser entendido. Mas nem sempre o entendimento conduz à compreensão porque sabemos que são coisas diferentes.
A literatura do pós-guerra veio a tornar-se uma literatura jornalística e a beleza do texto deu lugar à clareza e à concisão. O texto elegante - assim como a mulher - passou a ser o texto magro, enxuto, sem qualquer adiposidade.
No livro, o autor falava e cabia ao leitor o esforço de entende-lo.
Na literatura atual, o autor fala "para" o leitor: o trabalho para ser entendido passa a ser dele. Ele fala então para um leitor que não existe, é uma média, uma ficção estatística. Mas este leitor inexistente passa a ser co-autor porque impede a liberdade de dizer em nome do direito de entender. Ele não cresce com o autor que lê, o autor é que fica do seu tamanho. Não pode dar muito certo, olhem as novelas.
E agora, chegamos à Grande Rede e à curiosa escritura on-line que todos praticamos. Em que não se fala mais como nos jornais ou na literatura dos últimos 50 anos: fala-se "com" o leitor.
A literatura da Rede é onomatopéica, sim. Cheia de putz, humpf, irgh, e todo texto é um monólogo coloquial. A onomatopéia é um recurso usado para a comunicação com crianças pequenas. O estilo que se está a criar na Rede é o discurso dirigido a alguém sempre infantil. Repetem-se palavras exaustivamente (vamos, vamos tomar banho!), criam-se possíveis objeções do leitor para reforçar o que se quer dizer e se pontua a hora do riso, rsssss, ou da gargalhada, kkkkkkk. Como nas comédias tolas para TV em que - para a platéia rir - o filme ri.
Já imaginaram Cervantes indicando o momento em que devemos rir de Sancho?
O autor sempre riu sozinho. Alguns leitores o acompanhavam, outros não. Também chorava só. Agora - snifff - compartilhamos todas as suas emoções. É curioso? É. É empobrecedor? Também.
Aonde vai dar? Ninguém sabe. Nunca se sabe, no início. O fenômeno do texto jornalístico invadiu e ocupou a literatura, ela não foi mais a mesma e nunca mais ousou pronunciar "outrossim" e "alcatifas". Pode ser que o estilo da Rede determine a literatura do século XXI. Será uma pena.
São poucos milhares de palavras, as que temos à disposição para descrever o que toda literatura tenta capturar - o homem e seus mundos. Temos menos palavras, em qualquer língua, do que livros editados anualmente. É pouco material, para a ambição de um escritor. Seria insano reduzi-lo ainda mais e descartar a busca do ingrediente raro e do tempero criativo.
Lê-se pouco, na Rede? Não. Lê-se mal.
Consumimos em grande quantidade e estamos todos obesos. Mas matamos nossa fome com 2 hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num pão com gergelim.

Todo mundo usa

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O GNT Fashion mostrava umas sandálias havaianas de Chanel e elas custavam mil não lembro que moeda, dólares, euros ou foram convertidos em reais, não importa. Custavam mil-qualquer-coisa. Aquelas, todas de borracha, brancas ou coloridinhas, que as tiras não soltam, não têm cheiro, etc.
Como o Havaí é aqui, havaianas são brasileiras, é claro, e são um modelo acabado e imexível de conforto e bom gosto. Agora, com a griffe Chanel, talvez sejam em breve conhecidas como as "francesas" e o mundo estará autorizado a admitir o que elas sempre foram: belas.
A nossa estética é uma imposição das griffes e ninguém sabe mais o que é bonito ou feio. Os estilos de época sempre foram identificáveis na arquitetura, na literatura, na indumentária e o estilo é a evocação da História - evoluções ou revoluções revolucionavam ou faziam evoluir a gastronomia, o vestuário, a moradia -, enfim, o homem cria de acordo com os meios que o momento histórico coloca à sua disposição. E a criação humana, ainda que não intencionalmente, tende para a beleza. Ou tendia, antes das griffes.
As havaianas são belas porque mantiveram a simplicidade da sandália original: uma sola e algumas correias, nada mais. O mínimo. Desde que o homem deixou de usar peles amarradas aos pés, a sandália apareceu como o calçado de quase todas as civilizações - protegia o pé e o deixava nu. Funcionalidade e liberdade.
As sandálias gregas são belas - e as havaianas são sandálias gregas - como o peplo é belo: um pedaço de pano que se enrola no corpo e o protege; mas debaixo daqueles panos há um corpo livre que se revela. Sua beleza está no panejamento e no corpo que o porta.
Todos os Caravaggios, Rembrandts e Velásquez foram atraídos pelo panejamento e assim vestiram seu Deus, suas musas e seus santos - panos soltos, cores, luz, sombra e corpos insinuados: a beleza do vestuário não precisa de mais nada. Não sei quem foi o asno que inventou o espartilho e a anágua.
A partir da Idade Média, por decência, os pés foram cobertos e o sapato substituiu a sandália. Começava o terror.
Os gregos foram mestres na suntuosidade do simples e a beleza é simples, o excesso é sempre mau gosto. O Partenon é belo porque não tem um detalhe que se sobreponha ao todo, Fídias capturou a forma perfeita.
A forma é Afrodite e ela não se revela a qualquer um, exige sacrifícios para ser contemplada. Contemplar um deus é "penetrar com ele no seu templo": no território sagrado não se entra sozinho, só acompanhado, e quem não contempla o deus não fará nada que mereça ser contemplado pelos homens. Fazer arte era dar-se em holocausto à Afrodite, consumar o sacro ofício e trazer a beleza do Olimpo para a Terra. As havaianas são a Bic dos calçados - atingiram a perfeição olímpica.
Sou do tempo em que as canetas esferográficas tinham cargas substituíveis, sujavam as mãos e as mochilas e vazavam uma tinta que não saía das roupas nem com água sanitária. Por conta disso, ainda se davam canetas-tinteiro aos filhos e ganhei a minha Parker 51 quando aprendi a ler. Um saco.
A caneta virava objeto pessoal, a pena ia gastando do jeito de quem a usava e a escrita era dura por muito tempo. Depois amaciava. Mas se alguém pegasse a sua caneta e escrevesse com ela, ela voltava a arranhar o papel. E tinha a escravidão do tinteiro.
Aí vieram as Bic sem recarga, blindadas, limpinhas. Usou, gastou, dispensou. Baratas. Tão práticas quanto fraldas descartáveis. Ficamos felizes para sempre? Não. Exumamos a caneta-tinteiro.
Por quê? Nunca entendi. Aí entra a griffe - elas são griffadas.
Uma vez, um cidadão íntimo assinou uma lista de adesões ou coisa assim num clube de grã-finos. Gesto automático, enfiou a caneta no bolso do paletó. De madrugada, o telefone toca: o aflito proprietário da Montblanc queria saber se "por acaso" não tinha sido levada "por engano". Bolso conferido, tinha sim. De manhã bem cedo, veio buscar. Aquela porcaria não era mais uma caneta, era uma jóia com um tanto de ouro, platina, uma tampa especial, ele explicou se desculpando, e mais a griffe, havia um bom dinheiro embutido no raio da caneta. E afinal, uma caneta é apenas uma caneta, uma caneta, uma caneta... Ou não?
Perguntei: - Por que não usa Bic? - Ele disse: - Oh!
Cervantes escrevia com pena de ganso. De vários gansos, suponho, e não de um canard especial. O dono da Montblanc não escrevia, apenas assinava cheques.
E os relógios?
Relógios sempre foram peças caras e de esmerada ourivesaria. Eram engrenagens milimetricamente torneadas, de material nobre, ouro quase sempre, para aprisionar a passagem do tempo numa caixinha, a ampulheta perfeita que prescindia do escravo para cuidar dela. Os relógios passavam de avô a neto.
Mas hoje, depois da milagrosa bateria, qualquer relógio de camelô nos dá uma precisão que o Big Ben nunca sonhou atingir. O homem se considerou livre para não pensar mais em relógios? Não. Eles continuam a ser, como na origem, sinais visíveis da diferença entre os homens: o relógio não deve ter somente precisão, seu requisito essencial - deve ter griffe. E griffe não é nem beleza, é assinatura.
Depois do endeusamento da griffe, o que custa caro é a inutilidade agregada ao objeto, não a funcionalidade. Em quase todos os produtos de vestuário e acessórios, já se conseguiu a perfeição barata - assim, ela passou a desqualificar aqueles que os usam.
Bics, relógios de camelô e havaianas são produtos perfeitos, sem possibilidade de aperfeiçoamento a curto prazo. Um amigo inteligente e sagaz até me fez notar, um dia, que Bics são sextavadas para não rolar na mesa. Eu nem tinha percebido. E as "tinteiro" são cilíndricas, caem no chão, sacrificam a coluna, mancham o tapete. O homem deveria se orgulhar de cada Bic que portasse. Mas não, qualquer um trocaria sua Bic pela Montblanc do alheio. Tendemos, coletivamente, para a cegueira e a loucura. É a ditadura das griffes.
Lembro de quando elas, sorrateiramente, começaram a sair da banda avessa e se popularizaram na direita. Resisti o quanto pude, me recusava a usar roupas com a etiqueta aparente, outdoor vivo das marcas ditadoras. Vivi e vivo "modas" inacreditáveis: das ombreiras de jogador de baseball aos bicos finos dos sapatos atuais que conseguem torturar dez dedos ao mesmo tempo. Gosto de peplos e pés descalços. Por prazer e por estética.
Fico ainda espantada como a moda ditada para cada estação é consumida indiscriminadamente por quem a merece e por quem deveria enxotá-la. Percebo, assustada, uma cultura de griffes fazendo nas sombras a ditadura do bom (mau)-gosto. Uma uniformização, que se renova a cada estação. As mesmas camisetas, a mesma filosofia estampada no peito ou nas costas como brazão de classe (quase sempre em inglês e mau inglês). Anual. Sazonal. Alguém notou que a camiseta branca, lisa, é bela?
O que a classe média mais ou menos abastada usa hoje, as empregadas domésticas usarão amanhã. Mas todos serão igualmente contaminados e ninguém usará peplo, camiseta branca ou havaianas, quando quiser se mostrar "bem-vestido". Que pena.
Um amigo lembrava que assistimos à uma revolução cultural. Como nem Mao sonhou nem conseguiu. A uniformização da estética, da filosofia, da palavra-de-ordem, do humor em dísticos estampados no peito.
Podófila convicta (pó, não pê), dedicando-me diariamente a pensar na liberdade dos pés como direito inalienável, quero declarar de público meu amor às havaianas antes que as Chanel dominem o mercado. E elas passem a custar mil-alguma-coisa.

Para não dizerem que não falei de flores

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Queria falar de flores, esta semana. Porque, entre outras razões, é Primavera. Mas em pouco tempo estaria descrevendo as flores da memória - goivos e junquilhos dos romances que li e nunca tive o prazer de ver de perto - enquanto as marias-sem-vergonha do mundo real invadem meu jardim, autorizadas pelo equinócio. Não fica bem, sem-vergonhice num jardim, mas flores me cansam, exigem atenção constante, o tempo que lhes damos nunca é suficiente, assim, resolvi voltar às raízes esquizotéricas e falar de Tarô. Dá menos trabalho, está na ponta da língua:
"O voi che avete gl'intelletti sani,
Mirate la dottrina che s'asconde
Sotto il velame delli versi strani!"
(Vocês que têm a mente sadia,
Vejam a doutrina que se oculta
Sob o véu de estranhos versos!)
Desculpe a tradução, Dante.
René Guénon - filósofo e hermetista - diz que para Dante todas as escrituras, e não somente as sagradas, podem e devem explicar-se segundo quatro sentidos. E que estas significações diversas não podem opor-se ou destruir-se mutuamente, devem complementar-se como elementos de uma síntese única.
O Tarô é uma escritura sagrada - traduzida em imagens - e há um sentido em que pode ser comentado para profanos: seu sentido lógico, facilmente apreensível, e obviamente relacionado ao elemento Terra. Os outros três sentidos, são desvendados em iniciações.
Vamos contar a história do Tarô:
"Era uma vez, há muito tempo, quando os livros eram pouco difundidos, alguns espíritos voltados para o conhecimento oculto que procuravam um recurso para transmitir seus ensinamentos, que os dogmatismos estabelecidos, tanto civis como religiosos, não poderiam admitir. Pensaram no simbolismo da imagem e da escultura.
A imagem ensina de maneira clara através dos tempos. Ela se impõe à lembrança mais facilmente do que a palavra e não corre o risco de ser deformada pela tradição oral, é um símbolo cheio de vantagens.
Pensaram também, para se preservarem da fúria de todas as inquisições, em apresentar estes símbolos como um jogo. Assim, sem chamar a atenção de censores vigilantes, o Tarô permitiu a transmissão, de geração em geração, da ciência dos destinos do homem.
É quase impossível penetrar o sentido da Criação se não se tem o sentido do simbólico. O Tarô é um conjunto de 22 arcanos (mistérios) maiores aos quais se juntaram 56 arcanos menores. Estes, constituem um jogo do qual se podem tirar ilações válidas para os números, as formas, as cores, mas permanecem um jogo.
Os arcanos maiores são puro simbolismo e o iniciado os utiliza para estudo e meditação, jamais para jogar.
O número 22 corresponde às letras hebraicas e nos orienta para uma origem judia e cabalística do Tarô. Os judeus, assim como os romanos, não utilizavam números e sim letras com valor numérico. Cada palavra ou frase possuía sua gematria: um número analogicamente correspondente ao seu significado.
Mas o Tarô, com seus ensinamentos pela imagem, afasta-se do pensamento abstrato das culturas semitas e é certo que seus idealizadores foram não só cabalistas como hermetistas e alquimistas. É no final do século XIV, na França, que os arcanos maiores são reproduzidos para diversão do rei Charles VI. A reprodução supõe uma pré-existência.
A França é o país de Descartes e cada francês, convencido de levar consigo o espírito cartesiano, costuma exigir da razão - da razão pura, da razão luminosa - que dissipe as trevas da superstição e todos os fantasmas da imaginação. A razão cartesiana é o triunfo da lógica, ou melhor, da metodologia: de um encadeamento rigoroso de deduções cujo ponto de partida é a constatação de um fato tomado do mundo bem real do tangível e do sensível. A razão cartesiana não se alimenta de sonhos e desconfia dos contadores de histórias.
No entanto, o Tarô, que foi espalhado para o mundo a partir da França, encerra o seu simbolismo de uma caminhada iniciática com a carta do Louco - o arcano sem número, para o qual não há explicação nem analogia.
Costuma-se começar a estudar o Tarô pela disposição em roda (chamada Rota). Quando as 22 cartas são arrumadas numa roda, o Louco se coloca entre o arcano 1 e o 21. Ou é o fim ou o que está antes do começo, o que, afinal, vem a dar no mesmo - ele traz em si o mistério do Zero.
Do 1 ao 21, podemos entender de maneira clara o simbolismo da trajetória do homem. Quando chegamos ao Louco, que liga o ponto de partida ao ponto de chegada, encontramos a noite. Saímos de uma noite para entrar em uma noite. Nossa mente só consegue retirar seu alimento do mundo sensível e está limitada pelas leis físicas que o regulam. Por isso, o racional não consegue explicar nem a nossa chegada nem a nossa partida - aquele instante, ainda não aprisionado pelo mundo físico, que significa tanto a causa como a conseqüência.
Uma peça-bufa, a vida, cuja última cena - ou a primeira - nos é escamoteada. O Louco é um impasse que arremata o estudo e só começa a ser decifrado no segundo nível, este já vedado aos profanos.
O segundo nível não é mais racional - também não é irracional, poderíamos chamá-lo de supra-racional - está situado além do físico, no metafísico, e aí Descartes não se daria melhor do que os outros. A nossa razão é treinada durante todo o primeiro estágio, sem dúvida, mas deverá ser abandonada no limiar do segundo. A partir do segundo nível, talvez se comece a penetrar no território da poesia - os "estranhos versos" de que falava Dante. Só a mente sã pode entende-los: ou a que nunca adoeceu, impregnada de si mesma, ou aquela que conseguiu curar-se.
O ensinamento das ciências mundanas é o mesmo, para todos. O homem se beneficia dos resultados da ciência mas não participa da sua busca: sua evidência é exterior a si mesmo. A progressão iniciática, ao contrário, é interior ao homem. A evidência das coisas de ordem espiritual - de ordem iniciática - não se impõe a ninguém de maneira inexorável, como a constatação de um fato sensível: ninguém pode avançar por nós. O iniciador pode nos mostrar o caminho, apenas. Caminhar é conosco. Aí, as leis caem por terra.
Toda elevação espiritual libera o homem das crenças a que foi um dia submetido. Toda liberdade provoca perseguições das Igrejas estabelecidas e dos Césares reinantes. Qualquer um que abandone a massa amorfa é inimigo e o caminho iniciático é sempre solitário.
Quando se fala de iniciação não se está falando de religião. Quem quer que tenha percorrido as 21 possibilidades simbólicas da existência e tenha chegado ao nada, ao muro, ao Louco, este é um iniciado, ainda que não saiba. Deverá refazer o caminho mais e mais vezes, voltar ao início e percorrer o percorrido - são 4 estágios de compreensão, pelo menos. E nenhum deles nega os anteriores, apenas os unifica.
Não haverá nada de apoteótico no final, talvez. Cada vez que avançamos um passo, o muro recua um passo. E, em qualquer dos estágios, nossa caminhada nos levará ao Louco. No início, um louco é apenas um louco. No final, não sabemos o que será. Porque a roda do Tarô é infinita e sua história não termina num final."

Foi o que me ocorreu falar sobre a Primavera. Uma estação, como todas, previsível. Que aparece no tempo certo e afeta plantas e animais, determinando um comportamento sazonal e imutável.
E sobre o homem, este Hamlet intrigante: " - Quem são estas estranhas criaturas, que não parecem habitar este planeta e nele estão?" - Este ser que se dá o privilégio de ser único e terminar sua evolução na loucura.
(Para quem se interessar pelo tema, sugiro "Le Tarot Initiatique", de Edmond Delcamp)

Generosidade

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Todo jovem rebelde vira careta. O tempo tem o poder de massacrar a rebeldia e encaixa-la, às vezes encaixota-la. Não temo os jovens rebeldes.
Nestes muitos anos de vida, vi de tudo. Acompanhei o nascimento e o ocaso de várias tribos: os points, as roupas, os cabelos, as gírias, as atitudes. Vi também como tudo ia passando e o tempo ia trazendo o extremo para a média. Quem tinha simpatia pelo Diabo, ao final de alguns anos, acabava por simpatizar com Luciana Gimenez. O jovem, ou morre de loucura quando jovem ou - a partir dos trinta e alguma coisa - começa a encaretar.
Mas uma qualidade é desenvolvida na juventude ou não é desenvolvida nunca - a generosidade.
A generosidade é uma nobreza difusa, que bloqueia o egoísmo. O generoso é menos individualista e mais fraterno. O jovem investe contra a família e a ordem instituída porque acredita ingenuamente em um mundo ideal, que não é o real, e sabemos que os idealistas são indispensáveis. Depois, submerge na necessidade, abre mão da liberdade e pronto - encaretou, se encaixou, virou adulto. Mas o melhor de nós ficou lá atrás, quando ainda achávamos que podíamos reinventar o mundo com a nossa generosidade inconseqüente.
Me entendo melhor com jovens do que com aqueles que já desacreditaram e convivo com eles por ofício e prazer. Procuro compreender como pensam e sentem porque eles serão os caretas de amanhã e o mundo sempre pertenceu aos caretas. E agora, que sou colunista regular num site de jovens com leitores predominantemente jovens, saio por aí procurando outros sítios para saber mais sobre os moços de outras plagas, já que a juventude carioca não me dá uma visão geral da mocidade brasileira. Ou talvez dê, não sei.
Encontrei este post há dias nas minhas navegadas e vou citá-lo inteiro porque acho desonesto pinçar frases soltas de um texto. Leiam, que vale a pena. Foi escrito por um jovem, parece que agraciado por excelente situação financeira, com discurso coerente e vírgulas bem colocadas:
" ´O ABC é palco da luta operária que deu origem ao PT. Os metalúrgicos de ontem são os desempregados e sem-teto de hoje. Nossa luta é para, a longo prazo, promover uma transição para o socialismo.'
A declaração acima é de uma tal Camila Alves. A retirante em questão se diz uma das "coordenadoras" da ocupação pelos "sem-teto" do terreno da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, SP. Sim, você leu corretamente - socialismo. O pior é que pessoas assim não estão sozinhas, neste lixo de país - 90% ou mais do Brasil está mental e intelectualmente incapacitado para viver no mundo real. Melhor estariam em sanatórios, com babadores a tiracolo. A queda do muro de Berlim, a falência da URSS, a miséria em que vivem Cuba e Coréia do Norte, nada disso parece importar pra essa gente, que ainda sonha em implantar no Brasil o regime mais vil e criminoso da história da humanidade. Idolatram criminosos; fazem com que adolescentes imberbes e ingênuos, com testosterona no lugar de neurônios, usem camisetas de bandoleiros como Che Guevara e promovam passeatas em nome de terroristas como Mandela e Arafat. Conseguiram eleger um torneiro mecânico iletrado para presidente da maior nação da América Latina, conseguindo relegá-la a um papel ainda mais periférico no cenário mundial do que antes.
Às vezes tenho delírios de grandeza, e imagino-me um imperador, rei ou ditador - e aí, coitada dessa moça. A punição mais branda que eu infligiria nela envolveria suas partes pudendas, um tubo de PVC e camundongos famintos."
Omito o nome do moço porque o moço importa pouco e a mim não importa nada, não o conheço. Imagino que um jovem gostaria de enfrentar um inimigo de frente - matar ou morrer em combate - afinal, os heróis sempre morreram moços e com a espada na mão: quem morre velho é o sábio. Mas este moço, não. Quando ele tem delírios de grandeza, pensa em perversidades. Tenho medo de imperadores, reis e ditadores mas nunca tive medo de jovens, nem quando era um deles. Deveria passar a ter?
Desde as sociedades primitivas até os nossos tempos, o herói é cultuado e pranteado. E herói é o oposto de covarde. Um herói não pisa em quem está caído, não atira em quem já foi rendido nem bate em alguém que tenha as mãos amarradas, qualquer criança sabe disso. Um herói pode matar, sim - e quase todos os nossos heróis foram matadores -, mas não tortura.
A minha geração foi o alvo preferido da tortura na década de 70. Éramos os jovens de então, tive alguns amigos torturados e não sou uma exceção: quem quer que freqüentasse uma faculdade naquela época conheceria torturados e torturadores - estes, costumavam sentar-se na última fileira das salas de aula. Nunca percebi nos torturados qualquer revolta contra a morte ou os que mataram - meteram-se numa guerra e a morte fazia parte do jogo, era um pesadelo que fugia ao controle. O que os destruiu foi a tortura.
- Dez minutos - contava-me um amigo. - Depois de dez minutos, você fala o que sabe. O que não sabe, inventa.
Em dez minutos, um homem virava um cão, lambia o chão e pedia por favor. Depois, até o soltavam. E ele passava muitos anos tentando ser homem, novamente. Muitos não conseguiram.
Também conheci velhos estrangeiros que lutaram na Segunda Guerra e na Guerra Civil Espanhola, pessoas que correram o risco de morrer e que mataram. Não se pensa muito quando se mata um inimigo, os mortos assombram depois. Mas havia a preocupação com a morte rápida - todos eles relatavam -, com o tiro de misericórdia. E, sempre que podiam, com algum rito de sepultamento. Os sete palmos de terra fazem parte dos nossos mitos e numa guerra todos são personagens míticos e trágicos - são Aquiles e Heitor, vencedor e perdedor, e são também Antígona, correndo riscos para dar sepultura a um irmão.
Pode haver em quem mata, respeito pela vida. E pode-se matar alguém mesmo sendo generoso, os tempos às vezes são cruéis. O que não pode haver é a lógica de um Maluf - estupra mas não mata. Quando a lógica incide, absoluta, sobre a vida e sobre a morte, vira cinismo. Porque vida e morte não são lógicas, não: o generoso mata mas não estupra.
O generoso mata limpo e espera morrer limpo. A lógica malufiana não vale para ele e matar 20 milhões pode não ser melhor do que matar 40. Depende. Como não é melhor morrer aos 80 do que aos 20. Tudo depende do valor que se concede à vida, do por quê se mata e se morre. O intolerável não é a morte - morrer todos nós vamos -, é o aviltamento do homem.
Pode-se morrer para defender a pátria, uma ponte, um princípio ou até mesmo uma frase:
- No pasarán! - E não passaram.
A isto se chama dignidade. Pode-se morrer de doença, velhice ou até - quem sabe - de dignidade.
Num mundo de jovens talvez se morresse e se matasse mais. Mas talvez houvesse mais generosidade, esta qualidade utópica que os anos e os lanhos vão empobrecendo.
Tenho pena de um jovem que na juventude não seja capaz de matar e de morrer por nada, está jogando fora um tempo que não volta. E que pense em tubos de PVC e camundongos famintos, quando localiza um inimigo. Não temo os jovens nem suas loucuras, gosto deles. Mas deste jovem eu tenho muito medo - ele ainda está vivo e habita entre nós.

Godono

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Em 1964, alguns anos antes de conhecer John Lennon, Yoko Ono chocou o Japão ao fazer sua performance 'Cut Piece', em que entrava em cena vestindo uma bata branca e distribuía tesouras ao público. Este, por sua vez, era convidado a recortar pedaços da roupa de Yoko e assim, lentamente, ela ficava nua. Quase 40 anos depois, a viúva de John Lennon, agora com 70 anos de idade, anunciou que voltará a fazer sua 'Cut Piece', no próximo dia 15, em Paris, como uma tentativa de promover a paz mundial!
Yoko, a paz mundial agradece.
Quando Aristófanes escreveu Lisístrata, no século V a.C., a Guerra do Peloponeso já se arrastava há vinte anos e a cidade era habitada basicamente por velhos, crianças e viúvas. É neste cenário que Aristófanes apresenta sua peça, sobre as mulheres de Atenas, e dirige à platéia uma engraçada e utópica proposta de paz:
Assuntos da vida pública cabem por natureza aos homens mas eles só estão fazendo besteira e as mulheres resolvem descruzar os braços e tomar uma atitude: - Basta de guerra - decidem, reunidas numa clandestina assembléia pan-helênica, convocada por Lisístrata. E como elas forçarão os homens gregos a celebrar a paz imediata? Simples - cruzando as pernas. Lisístrata faz as mulheres jurarem que não farão mais sexo enquanto a paz não sair. Parece que os homens entenderam e, afirma Aristófanes, por isso a guerra acabou. Protesto bom é o que provoca mudanças.
Mas... e a nudez da Yoko, heim?
O século que passou - o nosso - foi o século do protesto, protestou-se contra tudo. Quando Gandhi fazia uma greve de fome o Império Britânico tremia: adepto da não-violência, Gandhi chamava a si o sofrimento do seu povo e se martirizou até que a independência da Índia fosse conquistada mas proibia aos hindus qualquer ato agressivo contra o inglês colonizador. Greve de sexo e de fome são protestos claros, que até uma criança pode entender. Já a nudez da Yoko, não sei não.
Mas não foi ela que descobriu que tirar a roupa era protesto. Na verdade, tirar a roupa como contestação começou há mil anos atrás, com Lady Godiva. Godiva era uma lady muito boa, casada com um lord muito mau, e vivia em Coventry, feudo do lord que tinha a mania de aumentar impostos. Um dia, Godiva parou de comer chocolates e pediu ao lord para baixar os impostos, coitado do povo. O lord disse que isso só aconteceria no dia em que ela cavalgasse nua pela cidade, maneira britânica de dizer never, my dear. Naquela noite Godiva saiu a cavalo, coberta apenas com seus cabelos, e passou à História como a primeira feminista a dar um uso político ao corpo. Lisístrata não conta porque negociou o sexo e isso não é politicamente correto. Mas Yoko é corretíssima.
Afrontar os poderes estabelecidos com a pureza do corpo nu não é exibicionismo, gente, é política pura. Não admira, pois, que haja pessoas tirando a roupa pelas mais diversificadas causas, seja contra a guerra do Iraque ou os direitos dos animais. Famosos ou anônimos engajados despiram-se, nas últimas décadas, em vários lugares do mundo, utilizando sempre a mesmas palavras de ordem: algo como - "Preferimos viver nus a usar peles". - Às vezes, um ou outro esquecia os motivos pelos quais ficava pelado mas não importa: "Legalizem o corpo humano" já era uma bandeira.
Tivemos nossas Godivas. Aqui, Gal cantou: "Brasil, mostra a tua cara!", abriu a blusa verde-amarela, mostrou os peitos e nós entendemos tudo. Não lembro se era contra a corrupção ou a favor da cirurgia plástica como direito universal e inalienável das mulheres carentes mas foi um belo protesto.
O último a ganhar manchetes foi um strip-tease literário. Uma mulher não se conteve na posse de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras e, no meio da festa, sem cerimônia, tirou o vestido em que havia escritos poemas de Mário Quintana. Parece que, por respeito à Casa de Machado, manteve os sapatos.
Não, Yoko não é pioneira e não podemos imputar-lhe a responsabilidade pelos corpos protestantes que assolam o planeta. É que a Yoko, bem, não é uma questão moral, gente.
É que John era libriano e os manuais afirmam que librianos têm uma estética mais desenvolvida do que o resto da humanidade. Sabemos que a paz mundial está ameaçada mas, John - se lá no assento etéreo onde subiste, memória desta vida se consente - aparece pra ela, John:
- Nudez não, Yoko, por favor, nudez não! Greve de fome!!

Nefertiti

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Ela viveu há 3.500 anos e ainda hoje é um mito.
Nefertiti, uma das mais poderosas rainhas do Egito, é tema de um documentário que o Discovery Channel exibe no próximo domingo, às 21h. O programa, com 2 horas de duração, mostra o trabalho realizado pela equipe da cientista Joann Fletcher, da Universidade de York, na Grã-Bretanha, que utilizou técnicas de Raio-X digital para reconstituir a face da múmia que a cientista acredita ser da mulher do faraó Akhnaton. Pelas fotos divulgadas, podemos ver que Nefertiti é a cara da Naomi Campbell.
Só tivemos três grandes religiões monoteístas, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo - todas as outras foram politeístas. Mas há 3.500 anos, bem antes portanto do Cristianismo e do Islamismo, o faraó Amenófis IV promoveu no Egito uma reforma religiosa, baniu os outros deuses, instituiu o culto ao Deus único - Aton, o Sol -, mudou seu nome para Akhnaton e se designou Filho do Sol. Algo que só teria um paralelo, mil e tantos anos depois, quando Jesus se revelou como a manifestação do Filho Único do Deus Único.
Quando falamos de Akhnaton não estamos falando de um simples faraó mas sim de Deus encarnado. E Nefertiti foi sua mulher.
Vou ver o documentário, sem dúvida, como também não perco um filme sobre Cristo, mesmo sabendo que o mocinho morre no final. Mas nunca me conformei com as faces de Cristo. De todos que vi, e vi quase todos, o que mais gosto é a Última Tentação de Cristo, um filme de Scorsese baseado num livro de Nikos Kazantzakis. Kazantzakis é um autor grego e seus livros às vezes viram filme, todos nós vimos Zorba. Sua visão de Cristo não é religiosa, é mitológica, e o filme mostra como a biografia pessoal se torna desimportante diante do surgimento do mito - na visão grega do Herói o que conta não é o que foi vivido mas o que foi simbolizado.
O filme é de uma beleza rara, a trilha é de Peter Gabriel, mas, definitivamente, Cristo não tem a cara de Willem Dafoe, nem de nenhum dos outros Cristos do cinema ou do teatro. O humano jamais poderá representar o simbólico.
Quando a cientista da Universidade de York deu um rosto a Nefertiti, datou Nefertiti. Daqui a cinqüenta ou sessenta anos, Naomi Campbell será tão antiga quanto a boquinha de coração de Marlene Dietrich e vamos ter dificuldade em acreditar na sua beleza, como temos dificuldade hoje em acreditar que o charme de Lola-Lola pode arruinar a vida do professor Unratt. Continuamos a chamar Von Sternberger de talentoso mas assistimos a Anjo Azul "de fora": o que é expresso formalmente impede o "mergulho" que só a imaginação permite.
Por isso, qualquer forma de arte visual perde para a Literatura e ainda vou escrever uma crônica sobre os livros inesquecíveis que viraram filmes esquecíveis - a exceção que me ocorre é O Nome da Rosa, tenho um fraco por Jean-Jacques Annaud, mas também pode ser porque tanto o livro como o filme são recentes e, com o passar dos anos, a cara de Sean Connery também transforme William de Baskerville num monge datado, de boquinha de coração.
Algumas culturas proíbem, sabiamente, a representação do humano ou do divino - entendem que a arte plástica deve ser paisagística e ornamental. Os homens, teimosamente, insistem em patentear sua visão dos deuses e dos mitos. Aí, deuses e heróis passam a ter o tamanho dos homens.
Há muitos anos atrás, estava pela primeira vez na Galleria dell'Accademia, em Florença, diante do Davi. Davi não tem as dimensões normais de Moisés ou da Pietà - é um impressionante gigante de mármore, nu, com a funda nos ombros, solitário no centro de um salão iluminado por clarabóias. Estávamos todos num silêncio reverencial, uma pequena multidão caminhando lentamente em volta dele, apreciando de todos os ângulos, e não sei o que as pessoas pensavam. Eu devia estar pensando nos Salmos, em Betsabah, na luta com Golias, nada de original, quando alguém do meu lado, conhecido por sua ironia venenosa, observa:
- Michelangelo cometeu um engano, Davi não está circuncidado. - Eu não tinha reparado, sou distraída, mas era verdade, e Davi foi rei de Israel, tinha que ser circuncidado!
Burburinho, desordem, vozes confusas, todo mundo se aglomerando na frente da estátua e - horror! - se atrevendo a criticar Michelangelo, que a esculpiu num bloco único e, depois de pronta, levou vários meses apenas polindo para que o mármore virasse carne. Foi quando uma mulherzinha, feia por sinal, deu seu veredicto sobre o homem em que o mito, repentinamente, se tornara:
- E olha só: Davi não era lá essas coisas, não!
No minuto seguinte, estávamos todos fora da Accademia. Lá dentro, na sua solidão de 500 anos, uma obra perfeita que - por humanizar o divino - passou a comportar falhas e faltas.
Nefertiti, volte a ser apenas múmia!

Mea Culpa

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Um diretor de teatro me dizia que sabia quando sua peça era uma droga: nem os amigos iam ao camarim. Nelson Rodrigues também filosofava, diante de uma defunta impopular: "nem um goivinho ornava a cova dela". O "nem" faz a diferença.
Quem escreve qualquer coisa, nestes sítios do Senhor, abre os "comentários" - como camarins - esperando tapinhas nas costas que justifiquem a hora, às vezes de 70 ou mais minutos, em que espreme os neurônios à cata de algum assunto que possa interessar aos internautas. Seres especiais, talvez como astronautas ou argonautas, sabemos que o que os move é a viagem, não o deter-se, mas ainda assim almejamos escalas em nossa crônica que, por definição, é gênero literário menor, abordando assuntos do cotidiano ou biografia escandalosa de determinada pessoa. Quando honestamente relatamos o nosso cotidiano e nem um tapinha, nem um goivinho, só onomatopéias - clap, clap - ou um registro seco - "passei por aqui" -, percebemos que não agradamos e nada mais resta a fazer, a não ser o mea culpa. Portanto...
MINHAS CULPAS (negligências, imperícias ou imprudências confessadas, antes que apareçam nas futuras crônicas e gerem rejeição):
- Sou piegas, choro nos momentos mais inconvenientes. Como terapeuta, isto é pecado imperdoável. Conta a mulher de um psicanalista famoso que o filho não pode chorar e o cachorro não pode latir quando o telefone toca porque o cliente não deve saber que seu terapeuta tem criança ou cachorro. Muito menos, lágrimas. Meus pacientes conhecem minha família, os cachorros que tive e o que não tenho, acabei criando uma terapia que me exime da neutralidade, Dr. Freud que me perdoe, mas tive que inventar outras regras porque, pelas dele, não poderia funcionar. A lágrima cai, o rímel borra, saio catando lenços de papel, assoamos juntos os narizes e ainda vou escrever um ensaio sobre o poder curador de narizes assoados em uníssono. O problema mesmo é o rímel.
- Não vivo sem rímel, brinco ou batom: pari três filhos de rímel, brinco e batom, esta dependência é antiga, sou rímeladiccta, e minhas filhas, que são jovens elegantes, já me explicaram várias vezes que ninguém usa brinco de jogging mas eu uso brinco de pijama. Em compensação não uso sapatos.
- Explico, é que dos dez dedos do pé já quebrei oito várias vezes, isso vem de pequena, minha mãe sempre dizia: não olhe para ontem, olhe para baixo. Como olho para trás, ou para frente, ou para cima, e nunca olho para os pés, vivo caindo, dando topadas, os dedos se quebram, nem vou mais a médico, imobilizo em casa com gaze gessada que uso para fazer máscaras, meus filhos também se queixam que provoco acidentes, caio e eles acabam tropeçando em mim, embora os três sejam seres normais, que usam sapatos, nunca quebraram os dedos dos pés e minhas meninas nem gostem de brincos. Mas dos dedões para cima nunca quebrei nada e não sou um perigo público, dirijo direito, entro em vaga de primeira e nunca bati, por isso é que dirigir me relaxa, não tenho que olhar para as rodas.
- Perco sapatos, claro, são garrotes vis e torturam devagar. Quase sempre debaixo de mesas de restaurante. Depois da conta paga, começo a me espichar na cadeira e explorar com os pés o território em volta - às vezes acho, às vezes não, sapatos têm movimentos autônomos, não me perguntem como mas é um fato - quando não tenho intimidade para me agachar, saio descalça. Para evitar micos públicos, só uso vestidos longos.
- Não tenho estilo. O que, a esta altura da vida, é grave deficiência, mulher deve ter estilo. Não sou casual (queijual) nem soignée (soanhê). Acho mesmo que sou esculhambada. Ultimamente andei relendo Sartre e estou em fase Juliette Greco, Café de Flore, Deux Magots, sabem como é? e só me visto de preto. Quando releio os gregos, uso túnicas. Nunca li Scott Fitzgerald até o fim, nem o Great Gatsby, soube do fim no cinema, porque jamais usaria roupa de melindrosa nem boquinha-coração, acho um horror. Estudo a Revolução Chinesa e visto ternos de brim. Leio sobre a Guerra Civil Espanhola e por algum tempo sou uma Pasionaria de xale. Os filhos relatam vergonhas irremovíveis na porta do colégio por conta dos figurinos maternos, acho um saco comprar roupa, prefiro enrolar uma colcha na cintura, e a verdade é que sou um desastre em eventos sociais: confundo Piaget com Audemars Piguet e nunca captei a diferença entre um Rolex e um Cartier. Tudo isso, descalça e fumando sem parar. Glória Khalil não me aprova.
- Não sinto cheiros. Vivi muitos anos com uma pessoa que tinha faro de perdigueiro:
- Cortou o cabelo?
- Só um pouco, dá pra notar?
- É que a casa está com cheiro de cabelo cortado.....
Vou morrer sem saber o que é cheiro de cabelo cortado ou de água fervendo. Sinto alguns cheiros normais, bosta de vaca, arroz refogando, mas jamais vou poder afirmar que alguém está usando Dior ou Armani e metáforas olfativas me confundem - uma vez um candidato a escritor disse com voz dramática que eu era uma mulher agreste com cheiro de terra molhada; como suávamos há duas horas debaixo do sol da Ferradurinha, não cheguei a entender se era crítica ou elogio mas ele também não chegou a escritor.
- Tenho péssimo ouvido, quero dizer, ouço bem mas não ouço direito, o que significa ser uma desafinada crônica. Entrei para o coral do colégio aos 11 anos, coral importante, que na parada de 7 de Setembro cantava no palanque do presidente, evento tão concorrido quanto desfile de escola de samba. No primeiro dia a maestrina me apontou com a batuta:
- Você aí, a baixinha da segunda fila, fora!
Saí chorando (sou piegas) e nunca na vida consegui cantar o Uirapuru, também nunca fui a uma parada de 7 de Setembro, embora minha música preferida, até hoje, seja o Hino Nacional.
Como sou desafinada - e isto em mim provoca imensa dor - fui estudar declamação e falo cheia de ésses e érres. Um dia até me convidaram para ser locutora, a voz tornou-se grave e pausada, o que não compensou o trauma do Uirapuru, meu sonho impossível é ser a Kiri Te Kanawa, não costumo confessar porque é impossível mesmo: os íntimos afirmam que, cantado por mim, Summertime lembra Atirei o Pau no Gato.
- Sou estróina. Estróina atípica porque detesto comprar roupas, bolsas, jóias e estes produtos que entulham os shoppings, gasto descomedidamente em outras plagas. Durante anos fui ameaçada de interdição, hoje estou bem melhor, mas o maior defeito para mim é a avareza: não consigo conviver com quem tem jacaré no bolso e ainda vou dissecar aqui o tipo avarento.
- Não entendo programação visual. Entendo letreiros, o que está escrito em bom português. Um amigo já me tirou de dentro do banheiro masculino de um restaurante japonês: vi um quimono e entrei, deveria ter entrado na porta da sombrinha. - É quimono de judoca, não reparou? - Não reparei e não me entra na cabeça por que espalham pelo mundo estes signos, que uma mente normal não decifra, e não escrevem simplesmente "homens" ou "mulheres". Mas, como também sou masoquista, trabalho com signos.
- Não me entendo com máquinas. Não sei programar o vídeo nem gravar recados na secretária, a última máquina que consegui entender foi o liquidificador. Tenho certo medo de computadores, que só uso para escrever e a quem absolutamente não exploro, mas desconfio de computadores sempre que lembro da vozinha melíflua do Hal 9000: "Good morning, Dave". A voz do meu também não soa sincera e quando estou sozinha em casa, prefiro pegar um bom livro e bater uma vitamina de mamão.
Bem, esta chorumela toda é para vocês relevarem quando os textos aparecerem piegas, prolixos, claudicantes, não tem jeito, o que a gente escreve acaba tendo a nossa cara e eu sou mesmo chorona e atolada. Disfarço mas não consigo disfarçar o tempo todo. Prometo tentar o figurino álgido e elegante, nas próximas semanas. Clean. Pós-alguma coisa. Estiloso.
É que o melhor lugar do teatro é coxia ou camarim - e eu me amarro mesmo num tapinha ou num goivinho.

Sempre aos domingos

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Por Maria Helena Nóvoa (mariahelena@epinion.com.br)
Não há noite mais chata do que a noite de domingo.
Conheci um maluco que gostava: dizia que na segunda-feira o mundo voltava a ter ordem e a possibilidade da ordem no dia seguinte já lhe tornava a noite de domingo prazerosa. Como todos nós, o doido vivia muito mais no amanhã do que no momento presente. Domingo ainda é dia de caos mas a sombra ordenada da segunda-feira paira sobre ele, contaminando as últimas horas de liberdade e chatificando-as de maneira irreversível - o Fantástico só se mantém há tantos anos porque vai ao ar nas noites de domingo.
Então, aos domingos, até os filhos chegam cedo, passamos a tranca nas portas, acertamos o despertador, fazemos um lanchinho chumbrega - sábado é que é dia de altas comilanças - e nada mais pode acontecer além de bocejos.
O barulho da moto acelerada ao máximo foi ouvido pela rua inteira, a rua é pequena, a freada, a derrapada, sons confusos de metais lógicos funcionando a toda, sons absurdos de metais se torcendo de maneira ilógica, depois o silêncio. O silêncio é que dá medo. O que quer que tenha acontecido, acabou, ninguém mais se move e o silêncio é total, não há gritos. Não conheço ninguém que corra no silêncio, no silêncio nos movemos devagar e foi devagar que todos chegamos às janelas: a dois metros da porta da minha garagem, o corpo do garoto, a moto espatifada no poste logo abaixo.
O primeiro momento do inusitado é histérico: para quem é mãe qualquer jovem tem um pouco do seu filho, é esquisito mas é verdade, sempre torço para o acidentado ser mais velho mas não era e o primeiro momento é o choro, meu deus, é um garoto, a perna fica bamba, dá vontade de tampar os olhos e deitar, dá vontade de tampar os ouvidos também porque daqui a pouco o garoto pode começar a gritar muito. O segundo momento é prático, temos obrigação de fazer alguma coisa e aí começam os automatismos, na prática somos todos automáticos, o garoto não se mexia e podia estar morrendo, precisava de orações, todas as religiões têm ritos fúnebres, precisava de alguém que lhe desse a mão e falasse com ele, mas somos todos robôs da catástrofe e todos pensamos ao mesmo tempo: qual o telefone dos bombeiros?
Os bombeiros são o nosso lado prático, são aqueles que sabem o que fazer quando não sabemos: chamar os bombeiros significa vou fazer só o que sei, o que está impresso no meu sistema robotizado. Ligar para os bombeiros era fazer o que todos já estavam fazendo. Lembrei do Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, foi o que lembrei, alguém está morrendo e pode sussurrar um último pedido, é importante um ouvido colado à boca de quem morre, mas sou automática, como todo mundo, meu primeiro grito foi meu deus, qual o telefone dos bombeiros? Pedindo socorro ficaria desobrigada da mão fria do garoto, da gravidade suprema de qualquer palavra percebida, de receber na cara o grito que não vinha. Melhor chamar os bombeiros e me aproximar depois, assim ganho tempo, à espera do milagre.
É claro que todos sabemos para onde ligar em caso de emergência, polícia, bombeiros, Miguel Couto, hospital referência para quem mora na Zona Sul do Rio. É claro que, no sufoco, não lembramos de qualquer dos números. Aí começaram os gritos, na minha casa, em todas as casas, o catálogo, onde está o catálogo?
Catálogos, hoje, são muitos e, porque são muitos, deixaram de ser "o" catálogo, são páginas amarelas, lista de assinantes, lista de endereços, onde estão os catálogos. Onde estão os catálogos? Não sei mais onde estão os raios dos catálogos da minha casa, os telefones importantes estão no computador, os vizinhos chegam, vêm em silêncio, quase todos com telefones, estavam vendo o Fantástico mas foram convidados para o show da vida ao vivo, a cores também, o garoto sangra pelo ouvido e não se mexe, ninguém lembra o número dos bombeiros? Ninguém lembra. Acho que um dia eu soube de cor, tenho quase certeza, naquele dia em que descobri um enxame de africanas no forro da casa, falei várias vezes com os bombeiros, não consultava o catálogo a cada vez que ligava, quem sabe, peloamordedeus o número dos bombeiros? Bateu um branco no mundo.
Lembrei do 102, telefonista de auxílio, 10 segundos e o número dos bombeiros, e se o garoto morresse sozinho, em frente à minha casa, sem mãe e sem mão para segurar?
Primeiro as coisas primeiras, primeiro os bombeiros, depois desço e rezo a oração das mães perto do garoto, seguro a sua mão e faço uma barganha com Deus, sabe, todos aqueles pedidos idiotas dos últimos tempos? Tudo que não vale nada? Troco tudo pelo garoto, afinal, só o que importa é a vida, o resto a gente dá um jeito, o Fantástico termina assim, todos os vizinhos discam seus telefones e agora tenho certeza de que eu sou um robô.
- Telemar, Marina, boa noite.
- Marina, é uma emergência. Telefone dos Bombeiros da Gávea.
Silêncio... a Marina não informa, digita.
- Marina, bombeiros! Pode ser a Central, Marina...
Mas a Marina não está mais na linha.
- Após ouvir a solicitação desejada, tecle 4 para novas ligações.
- Marina, fala comigo, tem um garoto morrendo aqui na porta.
- Telemar 31 agradece a sua ligação. 31, o DDD deste Brasil.
- MARINA, PORRA!
- O telefone solicitado é:
- Zero
- Oito
- Zero
- Zero
Marina é de última geração, é a máquina criada pela máquina, Marina é de última, não tem útero, tem nariz entupido e voz de telefonista, vai morrer sem filhos e está me dando um 0800, quem consegue gravar um 0800 numa hora dessas?
- 193 - alguém da casa diz.
- 193, faz sentido. 0800 qualquer coisa é que não faz.
Desliga-se a Marina - Marina, eu quero que você morra - disca-se 193, enquanto isso se desce dois lances de escadas porque o garoto está na rua, estirado e não se mexe, o capacete está caído ao lado da moto esbagaçada, o braço do garoto passa por cima da cabeça e está torcido numa posição inacreditável, o capacete devia estar no braço, uma, duas, três chamadas:
- Corpo de Bombeiros.
Estes são humanos e não robôs. Não pediram telefone para confirmar, não imaginaram um trote. Só repetiram a rua e o número. OK? OK.
Estamos todos na rua, em pé ou ajoelhados ao lado do garoto. Ele permanece na posição em que caiu e o sangue do ouvido começa a empoçar.
Alguém, também craque em reações automáticas, já preveniu - Ninguém toca! -, não tocamos nele. Olhamos de longe, rezamos de longe. Eu penso na mãe, minhas filhas se comovem quando chega a namorada, ele havia deixado a namorada há alguns minutos, é a namorada que mora na rua e a namorada chega chorando.
- Avisaram à mãe? - pergunto à namorada.
A mãe tocaria nele, mãe tem autoridade para quebrar as regras, abraçaria e pegaria na mão dele, moleque tão pequeno, não devia ter 18 anos, uma moto tão grande, uma acelerada sem tamanho, nossos carros são carroças, o presidente disse, vai ver que nossas motos também são, mas filhos só deviam andar a pé ou de carroça, filhos são frágeis, saem pelo mundo com uma armadura de pele, mas o barulho quando a pele rompe...o barulho... o barulho vai custar a sair da memória.
Eles vieram sem burocracia. Vieram de luvas e sirene e o garoto foi levado, sem mãe e sem se mexer, deixando aquele sangue gosmento na calçada. E cada um de nós, com telefone na mão, voltou para sua noite de domingo.
Em que nada acontece. Em que só o Pedro Bial e a Glória Maria riem, com seus risos de muitos dentes, enquanto a musiquinha do Fantástico irrita.
É fantástico o show da vida.

Vida, vida, se eu me chamasse Margarida seria uma rima...

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Parece que a vida anda em baixa, de novo, no meio de escritores jovens. Um saco, a vida.

Embora qualquer criança saiba o que é, não temos boas definições de vida, talvez por ser tão óbvia - é difícil definir o óbvio.
Cristo dizia que a trazia consigo, junto com o Caminho e a Verdade. Buda agourava que só conseguimos nos livrar dela depois de rompida a famosa Roda de renascimentos e mortes. Darwin arriscava que era mutação. Um cara a quem admiro pelas boas definições disse que é "a modalidade de existência dos corpos albuminóides". Não pensem que a pérola é de algum estudante de Biologia, é de Engels, no Anti-Dühring, filosofia marxista sobre o mundo orgânico. Vai ver que tentava evitar confusões com "dom divino", essas coisas, sempre tento aliviar pro lado de Engels mas a definição é lamentável.
Para Bandeira, por dedução, era a "desejada das gentes"; o que não espanta porque Bandeira era tuberculoso e já nasceu de óculos.
Embora não definida, a vida é - indubitavelmente - protegida no Estado moderno, a começar pelas Constituições. Supõe-se que a aludida seja a humana, mas também são protegidas a vida das baleias, do mico-leão e do pau-brasil. Fora o voto dos escritores jovens, a vida é eleita por unanimidade.
Não foi sempre assim. Esta proteção, que nos parece tão natural, é relativamente recente na História, outros bens foram tutelados antes da vida. A alma. A propriedade, sempre. O próprio corpo sem vida foi protegido antes de que se pensasse em apoiar o direito à vida. Quem não viu representada a tragédia da filha do herói, que desafiou o poder para dar sepultura ao irmão?
Mas, hoje, a vida é mais do que um direito: é um dever. O que talvez seja um perigo. Quando transformamos o relativo em absoluto, eliminamos as oposições externas e as contradições internas começam a ser geradas. A desvalorização da vida é uma reação à obrigatoriedade da vida.
A filosofia existencial do ser e do nada foi formulada e ficcionalizada na Europa antes da guerra: - Terça-feira. Nada. Existi. - Silenciou nos anos 40 porque os jovens filósofos deviam estar sofrendo de medo, indignação, revolta, tudo menos tédio e nojo, e muito ocupados em salvar a própria pele. A possibilidade da morte dá significado à vida.
Voltou nos fifties, na América, quando James Dean fazia "pegas" de blusão de couro, topete e costeleta, junto com outros outsiders, arriscando a vida por nada; era o retorno do nada. Rebel without a cause foi toda uma geração - e a causa que faltava não era só um princípio inaugural mas uma ideologia. As décadas se sucederam e, neste meio-tempo, os hippies cantaram make love, not war: rolava a guerra do Vietnam, Eros e Tânatos voltavam a atuar juntos, amor e guerra se opunham, a velha dialética era restabelecida e parece que foram tempos felizes. Ou, ao menos, coerentes: queimavam as convocações de alistamento, deixavam o cabelo crescer e a luz do sol entrar, os tempos eram de Aquarius e ninguém queria morrer antes de ver a new age chegar. A paz garantiu o surgimento dos punks e a popularização da droga pesada, o mundo começou a ficar escuro. O Universo conspirou, veio a Aids. No final dos 80, Cazuza gemia: Ideologia, eu quero uma pra viver.
O cotidiano é alienante. Viver para trabalhar e consumir, trabalhar e consumir para viver, viver para trabalhar e consumir, foi o círculo absurdo criado pela sociedade do Ocidente e os jovens exumaram o falecido tédio e seus corolários: o mais grave deles, a desvalorização da vida. Com certa razão, nenhuma griffe compensa a "pena de viver" - é preciso mais, muito mais.
É claro que estamos falando do jovem ocidental, de classe média e com algum acesso à cultura. Talvez no Oriente Médio seja diferente. Lá, hoje, eles têm causas que valem uma vida. E porque ela é ameaçada todos os dias e porque eles a sacrificam por uma causa, talvez acreditem que a vida é mesmo o bem supremo. Será enquanto não for.
Portanto, jovens entediados do decadente mundo ocidental, providenciai urgentemente uma ideologia - pela qual matareis e morrereis - para não morrer de vida. Só está pronto para viver quem está pronto para morrer e vida pode ser, mesmo, doença mortal.

A consistente teoria dos assaltos

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Como carioca, sou vítima freqüente de assaltos. Como fumante, mais ainda. Mulher parada em sinal, com vidros abertos, pensando na morte da bezerra, é assalto certo. E me parece que semáforos são convites para meditação profunda - não sou só eu que entro em alfa - porque, nestes longos anos de assaltada, nunca qualquer motorista das cercanias percebeu o que se passava. Ficamos todos meditabundos diante da luz vermelha.
Mas tenho cá a minha teoria a respeito de assaltos. Para que o ato se consuma, um requisito é indispensável: o assaltante tem que comunicar de maneira eficaz que é assaltante e a vítima tem que entender com rapidez que está sendo assaltada. Se este roteiro inicial comportar uma falha, os neurônios de ambos deverão se reorganizar para acionar o plano B e, neste meio-tempo, o sinal abre. Embananar a comunicação é o primeiro procedimento aconselhado aos seguidores da minha teoria.
Já me livrei de alguns assaltos perguntando várias vezes em inglês o que é que o meliante queria e o tom de interrogação é fundamental para que ele perceba boa-vontade em fazer contato. Enquanto sua mente se desvia para temas paralelos - Hei, não fala minha língua, não? - ou então - Tem dólar? - passa-se um tempo precioso. No que ouvir a buzinada do carro de trás, você está salvo. O sinal abriu.
Durante as eleições, no horário da propaganda gratuita, de vez em quando aparecia uma mocinha que ficava num canto da tela traduzindo o que os candidatos diziam em linguagem de surdos. Eu gostava da mocinha, aprendi alguns gestos, e experimentei uma vez. Não aconselho. O grandão ficou penalizado, disse foi mal, minha irmã também é surda, mas a probabilidade de um parente surdo é pequena e o espaço exíguo entre a porta e o volante impede um gestual convincente, prefira o inglês. Ou o esloveno. Espanhol, nunca. Ele vai entender e aí não tem jeito: vocês estarão se comunicando.
Uma amiga também bastante assaltada tem pânico radical. Se um homem com cara de mau bate no seu vidro, ela nem pergunta se quer esmola ou informação, vai logo entregando a bolsa com carteira, documentos, celular e chave de casa - diz que fica nervosa e não consegue negociar com bandido. Acho muito feio negociar com polícia, com bandido não, mas ela tem certa razão porque é loura de olhos azuis. De acordo com a consistente teoria, no imaginário popular mulheres louras são mais abastadas do que morenas, as gordas mais do que as magras, um dia explico melhor, não dá para ensinar tudo num dia só.
Se qualquer ato ou objeto podem ser cognoscíveis, desde que examinados numa sucessão de raciocínios corretos, há que pensar sobre ladrões para se obter algum conhecimento sobre eles. E aí reside a dificuldade em divulgar a minha teoria: as pessoas têm pavor de ladrões, não querem nem ouvir falar. Me interrompem, com a maior desfaçatez, e preferem se proteger com vidros escuros, fitinhas do Senhor do Bonfim ou o pentagrama de Baphomet, dependendo do credo.
Tive medo de escuro, como toda criança, principalmente quando minha mãe fechava a porta do quarto. E era nos dias de quarto fechado que ouvia passos no corredor. Começava a suar, cobria a cabeça, e invariavelmente rezava: - Tomara que seja ladrão. - Ainda hoje, se tiver que escolher o que encontrar à meia-noite numa estrada deserta, prefiro alguém deste mundo. O que não quer dizer que chame o ladrão, como o Chico: é mais ou menos como cobra, não gosto mas mantenho a calma e consigo pensar em soluções, medo irracional só de cachorro e de fantasma.
O preceito número 1 é evitar a comunicação lógica de qualquer maneira: pela lógica, assaltante manda e assaltado obedece.
Mas, às vezes, isso não é possível. Quando você está com o jornal dobrado no banco do carona e o som ligado, não dá para fingir que é surdo ou não fala português. Nunca subestime o assaltante, parta para o preceito número 2: Comunique-se emocionalmente.
Veja bem, a comunicação só pode se estabelecer em três níveis: ou é física, ou emocional ou intelectual. Nem pense em comunicação física com ladrão, você vai se dar mal ou acabar desmoralizado. Uma vez corri atrás de um, estava com muita raiva, mas ladrão não usa salto alto, dispara na sua frente, você vai desistir e voltar mancando para o carro que terá ficado aberto no meio da rua, de bandeja para outros ladrões. E, se conseguir pegá-lo, também não vai saber direito o que fazer com ele. Melhor se concentrar na comunicação emocional:
Coloque uma cara neutra, não tem sentido ficar rindo para o ladrão, e faça perguntas. É uma peça que não dura mais do que um minuto mas às vezes um minuto é muito tempo. Um bom começo é perguntar por que ele está assaltando logo você, a questão do arbítrio ou do acaso provoca reflexão em qualquer pessoa. Se a escolha foi aleatória, ofereça o que tiver à mão, cigarros, balas, lenços de papel e convença-o a assaltar o carro de trás. Garanto que dá certo.
Se foi proposital - se da longa fila de carros parados ele escolheu exatamente o seu - mostre a ele que foi a mão de Deus. Tire da carteira o jogo da Sena e deixe claro que a sua metade do prêmio deverá ser doada a um orfanato. Todo ladrão é um jogador e ele também aceitará a nota de 5 que você guarda desde o Plano Real porque uma cigana garantiu que ali estavam os números da fortuna. Não esqueça de reiterar que metade do prêmio lhe pertence e o compromisso com as criancinhas órfãs. Enquanto isso, o sinal fica verde.
Como a boa filosofia considera que teoria e prática guardam vínculo indissolúvel, venho ao longo de anos e de assaltos elaborando a consistente teoria da qual vos dou apenas conhecimento superficial. O assalto de hoje acrescentou dados novos, reflexos do tempo em que vivemos:
(Cena única, em frente ao clube Piraquê, na agulha que conduz ao Jardim Botânico)
- Passa a bolsa ou vai levar muita porrada! (Cabeça toda enfiada na janela do carro)
- Calma, meu filho. Vem cá, por quê que você está me assaltando? (Ameaçou com porrada, não está armado. Se eu subisse o vidro podia guilhotinar, de baixo para cima. Esse cara fede)
- Tô precisando de muito dinheiro.
- Tá doente?
- Não. É minha mulher.
- O quê que ela tem? É grave?
- Tá tuberculosa.
- É verdade, isso? (Putz! Acabei de comprar o antibiótico da minha gripe de Hong Kong. Mais de 50 reais. Coitado do cara.)
- Verdade.
- Olha, vou te dar tudo que eu tenho. (Vou mesmo) É que ninguém anda mais com dinheiro por causa dos assaltos, você sabe. Tenho 30 reais.
- Não tá escondendo nada?
- Tô não. Só saio com dinheiro do estacionamento. Hoje peguei mais 20 pra comprar um pacote de cigarros. Você fuma?
- Eu não.
- E sua mulher?
- Já parou.
- É. Tuberculose é uma droga. Você tá desempregado? Posso ver se te arranjo um emprego. (Ganhando tempo mas quem sabe? Coitado do cara.)
- Não quero ser gari, não.
- Melhor ser gari do que assaltar, cara. Você ainda acaba preso e vai ser pior.
- Vem cá. A madame não me arranjava nada no Judiciário, não?
(Pano rapidíssimo porque o sinal abriu)
PS - O referido É verdade e dou fé. Aconteceu hoje.
PS para Dr. P. - Como Marte era o mais burro dos olímpicos, quando ele ataca tudo é possível, febre, assalto, topadas, menos a possibilidade de dizer algo inteligente. Explica de novo o texto improvisado. E por que não acontece comigo?

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Minhas melhores fotos são dos olhos do meu filho.

Meus melhores poemas, confesso, não sou eu que faço.

Laço o que posso, o pouco que não esqueço

do sopro (ab)surdo que ouço em quanto passo.

Christiana Nóvoa

meuemail: christiana ponto novoa arroba gmail ponto com

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